O Aroma do Gelo : Entre Contratos e Cicatrizes

1 ​Capítulo 1: O Labirinto de Vidro e Gelo



​O prédio da D’Strass Cosmetics erguia-se sobre Manhattan como um monumento à arrogância e à perfeição. Claire Mackenzie apertou a alça de sua bolsa de couro sintético, sentindo o suor frio humedecer as palmas das mãos. Ela havia revisado suas perguntas trinta vezes, mas nada parecia suficiente para enfrentar o homem que a mídia apelidara de "O Executor de Veludo".

​— Ele vai te receber agora, senhorita Mackenzie. — A secretária, uma mulher cuja expressão era tão impecável quanto sua maquiagem, apontou para as portas duplas de carvalho escuro. — Trinta minutos. Nem um segundo a mais.

​Claire assentiu, engoliu em seco e entrou.

​O escritório era vasto, com janelas que iam do chão ao teto, revelando o horizonte cinzento de Nova York. Mas o que roubou o fôlego de Claire foi o homem sentado atrás da mesa de ébano. Ethan D’Strass era mais imponente do que em qualquer fotografia. O terno preto, feito sob medida, abraçava seus ombros largos de forma autoritária. O cabelo escuro estava perfeitamente alinhado, e os olhos... eram tão frios quanto o gelo ártico.

​Ele nem sequer levantou a cabeça dos papéis que assinava.

​— Sente-se, senhorita... — Ele fez uma pausa deliberada, a voz era um barítono profundo que pareceu vibrar no peito de Claire. — Mackenzie. Espero que seja breve. Meu tempo custa mais do que o seu curso inteiro de jornalismo.

​Claire sentou-se na ponta da cadeira, sentindo-se pequena, mas não se deixou intimidar. Ela era delicada, mas não era fraca.

​— Boa tarde, Sr. D’Strass. Prometo que minhas perguntas valerão o seu investimento. — Ela forçou um sorriso suave, o tipo de sorriso que costumava desarmar as pessoas.

​Finalmente, Ethan levantou o olhar. Ele parou.

​Por um momento, o cinismo em seu rosto vacilou. Ele esperava uma jornalista agressiva, faminta por um escândalo. Em vez disso, encontrou uma jovem ruiva com olhos que brilhavam com uma honestidade irritante e uma pele que parecia não conhecer a malícia do mundo. Ela exalava algo que ele não sentia há anos: suavidade.

​Ele encostou-se na cadeira, unindo as pontas dos dedos e observando-a como um predador observa uma presa curiosa.

​— Cosméticos são sobre vender ilusões, senhorita Mackenzie. — Ele disse, ignorando a primeira pergunta dela sobre o mercado financeiro. — Nós vendemos a esperança de que qualquer mulher pode ser extraordinária. Mas você... — Ele inclinou o corpo para a frente, diminuindo a distância entre eles. — Você não parece precisar das minhas ilusões.

​Claire sentiu o rosto esquentar. O olhar dele não era de admiração; era uma análise fria, calculista.

​— Eu acredito na beleza que vem de dentro, Sr. D’Strass. — Ela respondeu, a voz doce, mas firme. — Talvez seja por isso que sua empresa seja tão bem-sucedida. O senhor é um mestre em esconder o que está por baixo.

​Um sorriso lento e perigoso surgiu nos lábios de Ethan. Pela primeira vez em meses, ele não estava entediado. Ele não viu apenas uma estudante ali. Ele viu o contraste perfeito para a sua escuridão. Viu alguém que ficaria deslumbrante em seda pura, pendurada em seu braço em jantares onde ele precisava de um rosto que inspirasse confiança, enquanto ele fechava negócios impiedosos.

​Ela era inocente demais para aquele mundo. E, por isso mesmo, seria a diversão perfeita.

​— Você é muito corajosa para alguém tão... delicada. — Ethan fechou a pasta sobre a mesa, o som ecoando como um veredito. — Esqueça a entrevista por um momento, Claire. Tenho uma proposta para você. Algo que pagaria suas contas e suas dívidas estudantis em uma semana.

​Claire sentiu um calafrio na espinha. O tom de voz dele mudara. Não era mais o CEO falando com uma jornalista. Era um homem propondo um pecado.

​— Que tipo de proposta? — Ela sussurrou.

​Ethan levantou-se, contornando a mesa com passos lentos. Ele parou a poucos centímetros dela, o perfume amadeirado e caro invadindo os sentidos de Claire.

​— Preciso de uma acompanhante para alguns eventos. Alguém que saiba sorrir dessa forma suave enquanto eu destruo meus adversários. — Ele tocou levemente em uma mecha do cabelo ruivo dela, a ponta dos dedos fria contra a pele quente de Claire. — O que me diz? Você está disposta a entrar no meu mundo, ou vai fugir enquanto ainda tem essa luz nos olhos?

​Claire olhou naqueles olhos de gelo e, pela primeira vez, perguntou-se se aquela entrevista não tinha sido o maior erro de sua vida.