O Aroma do Gelo : Entre Contratos e Cicatrizes

2 ​Capítulo 2: O Preço da Inocência


O capítulo anterior terminou com uma tensão elétrica no ar. Aqui está o Capítulo 2, onde Claire enfrenta o dilema moral e o primeiro embate real entre seus mundos opostos.

​Capítulo 2: O Preço da Inocência

​O toque dos dedos de Ethan no cabelo de Claire parecia queimar. Ela recuou um passo, o coração martelando contra as costelas como um pássaro engaiolado. A proposta dele flutuava entre os dois, pesada e ultrajante.

​— O senhor está me pedindo para ser uma... acompanhante? — A palavra saiu amarga, quebrando a suavidade habitual de sua voz.

​Ethan soltou um riso curto, sem humor, e voltou para trás de sua mesa, recuperando a postura de controle absoluto.

​— Não seja dramática, Claire. Não estou pedindo nada que fira sua moralidade, se é isso que a preocupa. Preciso de uma imagem. Você tem o que falta às mulheres que circulam no meu meio: autenticidade. — Ele a analisou de cima a baixo, como se estivesse precificando uma obra de arte. — Você seria paga para estar ao meu lado, vestir as roupas que eu escolher e sorrir quando eu ordenar. Nada mais.

​— Eu sou uma jornalista, Sr. D’Strass. Não um acessório de moda. — Claire sentiu as lágrimas de indignação pinçarem seus olhos, mas ela as engoliu. — Minha integridade não está à venda.

​— Todo mundo tem um preço, Mackenzie. — Ethan pegou uma caneta de ouro e rabiscou um valor em um bloco de notas, virando-o para ela. — Esse seria o seu adiantamento. Apenas por aceitar jantar comigo amanhã à noite.

​Claire olhou para o papel. O número tinha zeros demais. Era o suficiente para pagar três meses do tratamento médico de sua tia e quitar metade de sua dívida na faculdade. O ar pareceu faltar em seus pulmões. Ethan, percebendo o choque dela, sorriu com uma frieza vitoriosa.

​— Pense nisso como uma pesquisa de campo. Você quer escrever sobre o mundo dos negócios? Não há lugar melhor para observar do que ao meu lado.

​— O senhor é um homem frio — ela sussurrou, chocada com a facilidade com que ele manipulava as pessoas.

​— Eu sou um homem prático. O amor, a ética... são luxos que eu não me permito. — Ele consultou o relógio de pulso. — Seus trinta minutos acabaram. Minha secretária tem o contrato de confidencialidade. Se decidir que sua "integridade" vale menos que a sobrevivência da sua família, me ligue até as oito da manhã.

​Claire saiu da sala quase tropeçando nos próprios pés. O corredor de vidro da empresa parecia agora uma galeria de espelhos distorcidos.

​O Peso da Realidade

​Horas depois, no pequeno apartamento que dividia com a tia doente no Brooklyn, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico do inalador. Claire observava a tia dormir, o rosto pálido e cansado. Na mesa da cozinha, o bloco de notas com o valor escrito por Ethan parecia brilhar sob a luz fraca da luminária.

​Ela era delicada, sim. Amava os finais felizes dos livros e acreditava na bondade humana. Mas a vida real estava batendo à porta com contas vencidas e promessas vazias.

​“É apenas um jantar, Claire”, ela pensou, apertando as mãos frias. “Apenas um papel que você vai interpretar.”

​Mas, no fundo, ela lembrava do olhar de Ethan. Havia algo nele que a atraía e a assustava na mesma medida. Ele a via como uma diversão, um brinquedo novo para distrair seu tédio de bilionário.

​O Veredito

​Às 07:55 da manhã seguinte, o telefone de Ethan D’Strass vibrou sobre a mesa de cabeceira de sua cobertura luxuosa. Ele atendeu sem olhar o visor, já sabendo quem seria.

​— Sim? — a voz dele saiu rouca pelo sono, mas carregada de expectativa.

​Houve um silêncio do outro lado da linha, seguido por uma respiração trêmula.

​— Eu aceito, Sr. D’Strass. Mas com uma condição.

​Ethan abriu os olhos, um brilho de diversão surgindo em seu rosto.

​— Inocente e já tentando ditar regras? Adorável. Diga, o que você quer?

​— Eu quero a entrevista exclusiva. A verdadeira história por trás do homem de gelo. Se eu vou ser sua acompanhante, você terá que ser meu objeto de estudo.

​Ethan riu, um som sombrio que enviou arrepios pelo corpo de Claire do outro lado da linha.

​— Negócio fechado, pequena jornalista. Esteja pronta às oito. Um motorista irá buscar você. E Claire... — ele fez uma pausa, o tom de voz tornando-se perigosamente baixo. — Tente não se apaixonar pelo personagem. Eu detestaria ter que partir seu coração tão cedo.

​Claire desligou o telefone, o coração disparado. Ela acabara de fazer um pacto com o diabo, e a dúvida martelava em sua mente: Será que ela conseguiria amolecer aquele coração de gelo, ou seria ela quem terminaria em pedaços?