O Arco Perdido
15 MARINA - Mentiras que fazem bem
Notas iniciais
Eu sei que ele está mentindo. Mas aquela mentira... Ela me fez perceber o quão chorona estou sendo esses últimos dias.
Eu prometi para Lady Artemis que aguentaria tudo de cabeça erguida... E aqui estou eu. Chorando por causa da minha mãe.
— Desculpe — sussurro.
Will afaga meu cabelo delicadamente.
— Você não precisa se desculpar, shhh.
— Will. Eu só choro ultimamente. Não sei como você me aguenta. — murmuro.
Ele tira as mãos do meu cabelo e me pega pelos ombros, dobrando um pouco os joelhos para olhar nos meus olhos.
— Mari. Eu ouvi a profecia, não sou idiota. Artemis mandou você fingir que vai dar tudo certo? Pra ela é simples dizer isso. Pra ela e pra todos os outros deuses. — posso ouvir um trovão — Mas, para nós a vida é sim valiosa... Apesar de você gostar de fingir que não.
— Will, não é só porque a profecia disse que eu ia perder mais sangue que qualquer um pode suportar... Que...— arquejo — Eu não vou necessariamente morrer... Eu posso virar caçadora. — eu praticamente cuspo as últimas palavras.
Isso parece deixá-lo enjoado.
— Não.
— Mas...
— Você vai sobreviver. Nem que eu precise morrer por você.
— Will...
— Você ouviu, Marina? Eu disse que você VAI sobreviver. Vou aprimorar meus poderes de cura... Eu vou dar um jeito.
Um minúsculo sorriso escapa nos meus lábios.
Ele se prepara para me beijar quando Travis (aquele idiota) pigarreia.
— O que foi, Travis?! — pergunto.
— Sem pegação. Pelo menos, foi o que a carta de Harmony disse.
— Carta?— pergunta Will, curioso.
— Ah, eu peguei na sua mala.— responde Travis, com descaso. — Kath pediu para eu procurar o celular dela.
— Mas a mala da Kath é aquela — diz Will, apontando para uma mala roxa — E a minha é marrom.
Travis está se divertindo à custa da ingenuidade dele.
É óbvio que meu irmão estava procurando dinheiro. Nós rimos em uníssono. Tinha esquecido o quão divertido Travis é.
Pulo no sofá ao lado de Travis e pego a carta de sua mão.
O papel cheira a protetor solar.
— “Will, sei que você não vai abrir a mochila até que sua camiseta rasgue (acho que no terceiro dia, vai precisar da reserva) ou sentir falta de casa. Acho que se Travis não encontrou essa carta antes de você e a Mari não está lendo ela em voz alta nesse exato segundo, você só a lerá depois. E aposto que vai querer saber como estão às coisas por aqui... Bem, desde que você saiu nada mudou. Taylor vai finalmente admitir que realmente gosta do James, acho... Eles são fofos juntos, não acha? Eu acho. Aposto que se é a Mari que está lendo, ela está balançando a cabeça levemente. Ela gosta do James. E a Tay? QUEM NÃO GOSTA DA TAY?! O Sr. D vai acertar o nome da Sam segunda... Assustador. Connor vai ficar com a Katie na quadra de vôlei. O chalé onze vai jogá-los no lago. Falando em onze, Will... Sim, vou repetir isso.”— paro. Recuso-me a ler a próxima frase.
Will puxa a carta de minha mão:
— “A desgraça de vocês virá por causa disso. Ela vai morrer graças ao que você tem aí dentro. Will, você sabe que eu estou certa. Sei sobre seus sonhos, li no seu caderno (sua letra é horrível, aliás.)... Asas que te levam diretamente para uma bola de fogo? Cartas que ao entrar em contato com o sol explodem? Pelo amor de Zeus, Will! Prometam-me que vão esperar até o fim da missão... É só isso que eu estou pedindo, não parece tão difícil, eh?”— ele está vermelho.
— Que sonhos são esses? — pergunto meio incomodada.
Ele não responde.
— Você juraria isso? Se fosse, você sabe, te salvar?
— Até o fim da missão?
— Até o fim da missão.
Balanço a cabeça levemente. Estou mentindo.
Ele repete meus movimentos, seu olhar prende o meu. Que belo par de mentirosos somos!
...
Kath chega dez minutos depois, para se deparar com um Travis boquiaberto.
Ela está mesmo linda. Azul combina com os olhos dela e minha mãe sabe disso.
O vestido de alcinha realça os ombros ossudos e bronzeados, o salto alto a deixa (além de mais alta) mais confiante. Os brincos de lacinho e as pulseiras fazem os olhos dela brilharem.
— Mari, sua mãe pediu para você ir se trocar. — ela diz, meio aérea.
— Urk. — resmungo.
Solto a mão de Will, ele estava a segurando por debaixo da enorme almofada cinza do sofá.
Levanto-me e sigo direto para meu quarto. Ele é grande, com um daqueles tapetes peruanos e paredes metade cereja metade creme, a cabeceira da minha cama tem o formato de asas, pôsteres de filmes e bandas antigas estão colados na parede, minha cama é enorme, com muitas almofadas, travesseiros e mantas, e a porta que dá para o closet foi retirada de uma cabine telefônica inglesa.
Eu o amo.
Entro no closet e tenho vontade de vomitar novamente. Todas as roupas ali foram escolhidas pela minha mãe ou por algum personal stylist qualquer. Isso me irrita. Ele é de deixar filhas de Afrodite com inveja. E isso me irrita em dobro.
Puxo o primeiro vestido que vejo: branco com florzinhas cor-de-rosa.
Serve. Alcanço algumas pulseiras de couro e uma bota de camurça clara.
Penteio o cabelo com os dedos e me olho no espelho. Sou pequena demais, magra demais, com olhos grandes demais. Chego a ser desproporcional.
Suspiro, meio chateada com o que percebi olhando para o espelho.
Estou pensando exatamente nisso, quando ouço Kath gritar.
...
Vou até a sala e me deparo com um monstro enorme, um tipo que eu nunca vi antes, com muito pelo e muita baba. Pelo prateado, orelhas de urso, dentes pontudos, patas de coelho e rabo de burro.
Ele rosna e isso é decididamente a coisa mais nojenta com a qual já lutei. E olhe que fiquei na fronteira mágica do Acampamento durante a guerra contra Cronos. Aquelas dacaenaes não são literalmente nada esquisitas comparadas a esse aqui.
Procuro Tolmirós em minha bota. Oh, Hermes! Eu deixei jogada em algum lugar do closet.
Pego o vaso de flores da sala e jogo nos olhos do monstro, mamãe nem reclama, fazia um bom tempo desde que não via monstros, mas ela ainda sabia como lidar com eles.
Travis e Kath agem pelo flanco esquerdo. Will tenta, desajeitadamente, cuidar da dianteira sozinho, usando apenas uma espada. Ele não é tão habilidoso com esse tipo de arma quanto com arcos e lanças.
Chego ao lado dele e pulo em cima do monstro. Talvez essa seja minha tática de sempre, mas monstros não trocam informações uns para os outros.
Will joga sua espada para mim, eu a pego e enfio na cabeça do monstro, ele nem pisca.
Continuo dando punhaladas no monstro.
Will arqueja e puxa minha mão subitamente, a espada escapa de meus dedos.
Ele me leva para o corredor e sussurra:
— Temos que jurar de verdade.
— O que?
— Você sabe o que. Artemis enviou esse cara.
— Como você sabe?
— Além dele ser uma mistura esquisita, típica a deusa da caça, e ser prateado; ele tem uma marca de Artemis como a sua, na pata esquerda.
Espio a pata dele. É verdade.
— E como vamos jurar?
— Juramento de sangue, os ventos e o Rio Estige.— diz ele, mordendo a ponta dos dedos.
— Use isto. — entrego-lhe um caco de vidro que veio parar aqui quando joguei o vaso no monstro. Pego um pra mim também.
Furo meus dedos rapidamente.
Juntamos as mãos.
— Eu juro, em nome do rio Estige, que me comprometerei apenas com a missão e nada além, até que ela termine. Juro pelos ventos do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste. Juro pelo meu sangue. Juro por meu pai. — ele diz.
— Eu juro, em nome do rio Estige, que meu único envolvimento será com meus deveres, minha missão e a vida de meus companheiros, até que a missão termine. Juro pelos ventos do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste. Juro pelo meu sangue. Juro por meu pai e por Ártemis. — digo.
Sinto uma lufada em meu rosto. Foi feito, agora eu e Will somos melhores amigos de novo, nada mais que isso.
Travis enfia sua espada no monstro e ele se desfaz em fumaça prateada.
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