O Arco Perdido
16 Kathleen - Take me Home
Notas iniciais
Não entre em pânico, não entre em pânico, não entre em pânico, não entr...
–TRAVIS!- corro até o idiota, filho de Hermes, que estava meio ajoelhado no chão, com uma espada na mão. Tá. Certo. Os filhos de Hermes são os melhores esgrimistas do acampamento, mas isso não é razão suficiente para pessoas sãs darem uma espada a Travis. Especialmente, a Travis. E não importa se a situação era de extremo risco, eu poderia ter dado um jeito no monstro...não poderia?
A verdade é que desde que minha vida dera uma virada total, tudo havia mudado e eu havia ficado meio molengas. No Acampamento Júpiter, era matar ou morrer. Você nunca pensava no amanhã, mas sim em sobreviver até o final do hoje. Eu era a melhor esgrimista, perdendo apenas para Jason. Lupa gostava de mim, e olhe que a velha loba rabugenta é quase impossível de agradar. Eram boas com arcos, espadas, lanças... Qualquer coisa, eu me virava com qualquer coisa. Melhor nadadora. Melhor escaladora. Tinha um posto alto, graças a meu pai, Netuno. Mas quando alguém brincara de apague-a-memória-dela-e-jogue-a-no-acampamento-do-inimigo as coisas iam de mal a pior. Meu pai não é mais Netuno, é Poseidon; não estou mais em meu lar, estou no território inimigo; tirando a deusa Ártemis, ninguém mais sabe disso... ou assim eu espero. Não quero que Travis saiba disso. Nem Mari. Ou Will. Não quero que eles saibam que sou romana.
–Travis – digo, meio suavemente, lhe afagando a mão que estava cortada e vertia sangue – Não se pode deixar você brincar com facas.
Ele sorriu.
–Tem razão. Talvez eu devesse ter deixado essa parte com você.
–Com toda a certeza.- concordo, me levantando e trazendo ele junto. – Mari? – chamo. A garota aparece com a cara mais abatida que já foi vista na face da terra, como se não dormisse semanas em uma cama decente.
–Sim? – retruca ela.
–Bandagens – peço. Ela apenas indica a cozinha.
Sigo marchando com Travis até lá. A mãe de Mari está agarrada ao balcão de mármore com força demasiada. Eu até ia poder tirar um sarro disso mais tarde... Bem, bem mais tarde. Quando pergunto sobre bandagens e ela as pega pra mim, percebo que as mãos dela estão arranhadas. Não que eu simpatize com a mãe de Mari – a própria Mari está brava comigo – mas senti pena dela. Assim que terminei os curativos, preparei um para as mãos dela e cuidei delicadamente. Ela pareceu surpresa.
–Obrigada – disse, meio sem-graça, quando acabei.
–Disponha – falo, também um pouco desconfortável.
–Peço desculpas pela sala – diz Travis.
–Nós todos pedimos – disse Will, entrando com Mari ruminando atrás dele. Oh-oh. Más vibrações.
–Travis – chamo remoendo meu lábio inferior – que tal irmos tentar arrumar a sala? Antes que...
–Eu arrumo – disse a mãe de Mari, com uma voz vazia e monótona – vocês tem que conversar. Fiquem a vontade.
Meus olhos quase saltam das órbitas; depois vão a Travis, Will, Mari e a Travis, novamente.
Encosto-me na pia, sem saber o que fazer. Will cuida das mãos de Mari, depois de suas próprias. Quando ele lança um olhar a Travis e vê que suas mãos estão com bandagens limpas, ele me lança um olhar desconfiado.
–Sou boa com curativos – digo, dando de ombros. Ele ergue uma sobrancelha e não diz nada.
Ah, céus. Parece que alguém morreu. Silêncio, silêncio... Minha mão deslizou, encontrando a de Travis; ele a agarrou forte e não soltou. Deuses, era o que eu queria. Que ele a agarrasse e não soltasse nunca mais.
–O que era? – pergunto, quase morrendo de ansiedade. Maldito TDA. – O mostro?
–Não sabemos – diz Will, apenas. OH, tratamento de silêncio, então?
Meus vestido estava rasgado; se eu tivesse sorte poderia vestir meus jeans velho, minha regata e os coturnos e...DINGGGGG, DOOOOOOOOONG!!
Os olhos de Mari pareceram virar pedra. A voz da mãe de Mari, ressoou, alta e irritante, indo até a porta. Espere aí... aonde está o mordomo?
Eu e Travis trocamos olhares.
Diga você, diz os olhos dele.
Diga você, retruco.
Você.
Você.
Você.
Eu belisco ele, e ele resmunga algo como garotas sempre estragam tudo, ou algo do tipo. Ele limpa a garganta e pergunta a Mari, aonde o mordomo dela foi parar. O rosto dela era selvagem, os olhos pareciam ter virado pedra, a expressão feroz. Pela primeira vez, a baixinha me deu medo. Mas então Mari nota que há coerência no que Travis perguntou e olha ao redor. Seus olhos encontram os de Will e, pela primeira vez, ela não parece terrivelmente apaixonada por ele.
–O monstro era o mordomo... Ou o mordomo era o monstro... Ah, bem, vocês entenderam – digo.
–Certo. – diz Will – Kath está certa. Mari?
–Deve ser isso. – ela concorda secamente. — Ele era mesmo um saco.
Ouço vozes e sei que a coisa só vai ficar pior. E que temos que sair dali rápido. Logo depois de recebermos as coordenadas, vamos cair fora. Que a mãe de Mari valesse a pena, penso, mal-humorada, porque se estivermos perdendo esse maldito tempo por nada...
– Temos que ir – fala Travis – o mais rápido possível... Ártemis não vai esperar pra sempre.
–Droga –reclama Mari – não estou nem aí para Ártemis! Droga, droga, droga... Ela não está nem aí para nós. Ela só quer a droga do arco dela pra matar uma droga de monstro. MERDA, vocês não entendem? Ártemis não liga para nós. Liga para nossa missão.
Eu ergo os olhos. Droga. Hora de assumir.
–Travis – digo — cancele o jantar com a mãe de Mari. Will tente acalmá-la... eu vou me trocar. Junte nossas coisas. Mari ? – chamo; ela ergue olhos cansados estressados.
–Sim? – responde, irritada.
–Fale com seu pai. – peço – precisamos dessas coordenadas. E reze aos deuses pra que não precisemos passar por mar. – ela assente, bufando.
A chuva começou a desabar lá fora; eu ouvia os rugidos dos trovões e os clarões dos relâmpagos. Cada um me fazia encolher os ombros enquanto arrancava o vestido fru-fru e calçava os coturnos. Mari perdeu a cabeça de vez; Os garotos não sabem como lidar com isso; só sobrou a mim. E eu estava assumindo a missão de agora em diante. Trancei os meus cabelos e peguei o mini-tridente. Examinei-o, girando-o nos dedos. Suspirando o coloquei no alto da trança, como um grampo para cabelo. Quando olhei a garota no espelho, não a reconheci. Desviei o olhar da estranha e saí; jeans velho, coturnos e regata roxa. É essa Kath que vai comandar a porcaria da missão.
Hermes e Mari estão sentados de frente um pro outro, na sala, ela não presta atenção nele. Travis está segurando duas malas, com os olhos desfocados. Os cabelos encaracolados cheios de poeira de monstro.
Eu assobio e ele me olha, assente uma vez e eu retribuo. Hermes está tão concentrado na filha quanto possível, Mari parece desconfortável, mas prossegue. Quando terminam de falar, Hermes se levanta e cochicha algo no ouvido de Mari, ela avermelha e assente, desviando o olhar. Depois vai até a mãe de Mari e a guia para fora da sala.
–O que ele disse? – pergunto.
–Que... – ela engole em seco – que vai fazer com que minha mãe nos dê as coordenadas.
Will aparece com a mala dele e a de Mari.
Em menos de vinte minutos estaremos fora daqui.
Quando Hermes volta traz um papel amarelado nas mãos e entrega a Mari; ele diz algo que não posso escutar. Depois se vira pro outro filho ,Travis, e diz:
–Cuide da sua irmã – pede ele, sério. – Por favor. Ela sabe o que fazer, mas... Bem, você a conhece. E, bem... – o deus está sem palavras. Deve ser difícil admitir que não poder fazer nada apesar de ser um deus.
Travis assente, os olhos tristes.
Os olhos de Hermes pousam em mim.
–Garota – fala ele – filha de Poseidon. Você é única. – eu fico meio sem graça – cuide deles – pede Hermes, falando dos filhos – sei que pode fazer isso por mim – eu concordo com a cabeça uma única vez. – Apesar de ser uma tarefa difícil... Conheço bem meus filhos. – E, Will, Harmony pode não ter entendido o verdadeiro sentido de seus sonhos, garoto.
Ele engole em seco.
– Senhor?
– Isso mesmo que você ouviu. Seus sonhos não são o que parecem.
Ele vai até a mãe da Mari e lhe dá um beijo de leve na bochecha.
— Eu te amo, Rosie — ele diz, baixinho.
Ele saiu pela varanda, voando em direção ao Olimpo.
...
A mãe dela insiste que fiquemos para jantar.
— Está chovendo muito— ela diz, repousando a mão no ombro de Will.— Logo, logo a chuva passa.
A mãe dela mudou da água para o vinho depois de conversar com Hermes...
Eu até estou começando a gostar dela.
Ela pega o telefone e pergunta, meio desconfotável:
— Pizza?
Travis e Mari já estão gritando que sim, quando os interrompo:
— O que você preferir, Sra De Luca.
— Você é um amor, Kath, mas tente deixar a falsidade para Ártemis. — ela diz. — Vou pedir pizza.
Eu estava começando a gostar dela.
Mari se aproxima de mim, ainda vacilante.
— Meu pai me falou sobre a carta, Kath. — ela diz, com um sorriso torto.
— A-ahn. — gaguejo.
— Você não estava achando que iria cuidar de tudo sozinha, certo? — ela comenta. — Vamos para o meu quarto.
Ela me leva até o quarto dela. Ele é uma bagunça de cores, pôsters e bugigangas. É a cara dela. Em uma das cômodas repousa uma enorme coleção de canecas. Um tiranossauro rex de borracha está no criado mudo bem ao lado do abajur em forma de caduceu.
Na cama, um enorme urso de pelúcia felpudo e macio.
— Will me deu quando nos conhecemos. Eu tava na enfermaria com uma perna quebrada, tipo anormalmente quebrada, e ele apareceu com o urso. Travis e o Connor tinham pegado na loja de presentes. Mas foi legal da parte dele. Ele virou meu melhor amigo desde então. — ela suspira.
— Mari, o que aconteceu quando vocês foram para o corredor? Você voltou apagada.
— Prometo que vou voltar ao normal. Se você me der a carta.
Tiro a carta do bolso e ela a puxa de minha mão.
Ela abre e começa a lê-la.
— Hmmm, certo. — ela murmura — Credo, isso é um “a”?! Okay... Ah!
Ela sacode o envelope e um pingente em forma de tubo de ensaio, cheio de um pó brilhante cai de lá.
— Interessante. E bonito. — ela constata, enfiando-o no colar de couro do acampamento. — Muito obrigada, Kath!
E se levanta, indo em direção a sala de estar.
Ela puxa a camiseta de Will, mas ele a ignora.
— Will! — ela exclama.
— O que foi, Mari? — ele pergunta, sério.
— Eu preciso falar com você... A sós.
— Não... Não podemos. — ele responde convicto.
— Na verdade... Podemos. — ela retruca.
Estou confusa. A menos de duas horas, ele daria tudo para fica sozinho com ela.
Travis me pega pela cintura e cochicha:
— O que vocês duas fizeram? Ela voltou... Realizada.
— Eu... Eu não sei exatamente.
Ele apoia o queixo em minha cabeça.
— Você parece nervosa — ele pontua.
— Não estou.
Ele beija meu cabelo e já estou despejando todas as minhas inseguranças em cima dele.
...
Eu sempre achei que lar fosse um lugar. Poseidon me ensinou que ar é onde seu coração está.
Mas, acho, que lar é uma pessoa. Ou, melhor, um grupo delas.
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