O Anjo

4 IV - À Espera


Quantas facas tem o teu não? Como uma puta de uma desesperada aqui continuo, à espera de que venhas, à espera de que digas “amo-te”, à espera de que digas ”amo-te e sempre te amei e vou amar-te para sempre”. Mas a única coisa que é para sempre é o que acaba. Acabou-se e é para sempre. Para sempre sem o sabor do teu beijo outra vez, para sempre sem o “estou-me a vir” do teu toque outra vez. O que nunca acaba é amar-te assim. Quantos homens serão necessários para me esquecer do teu abraço? Sou uma mulher desejável. Sei que sim. Sei que os homens passam e olham, e eu passo e eles olham, e que nunca o meu corpo restará só, sem a presença de corpos para conhecer. Mas nenhum corpo cancela o teu, nenhum cheiro me impede da memória do teu, braços nenhuns me apertam com a forma do teu abraço. O que mais me custa é saber que exististe. E que depois de te querer assim o que me resta é ser querida. Resta-me encontrar o que mais me ama depois de ter perdido quem amo.

Não foram precisas palavras vãs. Tu sabias o que um sorriso era capaz de dizer, e respondias de igual forma ao silêncio de dois corpos febris e irrequietos. O tempo escassava entre nós, sabíamos que assim seria e assim deixámos ser. Já não era um amor de longas horas, de dias sobre o azul do céu de primavera. Era um amor de tempos a tempos, que amava todos os dias. Um amor de beijos saudosos, de braços abertos na hora da despedida. Um amor de sorrisos largos, de passeios longos na hora do reencontro. E não podiamos dizer que amávamos menos. Não podíamos dizer que eramos menos amantes assim. Éramos só mais longínquos, mas não mais distantes. Porque eu sabia, eu sabia quando acordava com as mãos sobre o teu peito, que nenhum amor é menos amor por ser tardio. Por não vir a toda a hora. Amor só consegue ser mais amor. Só consegue ser mais amor por vir na hora certa.

Sinto como se já te tivesse escrito mil textos, mais de uma centena de cartas, incontáveis sms, mas nenhuma como esta. Voltemos atrás no tempo, quando eu estava cega de amor por ti e completamente fora de mim, apaixonada por todas as tuas imperfeições, todas as idiotices que fazias e dizias. Ainda estou apaixonada mas sempre soube que amava-te muito mais do que poderia suportar. Lembro-me perfeitamente de acordar com as tuas mensagens de bom dia dizendo como eu era importante para ti, sendo tu a primeira pessoa com quem falava de manhã e a última antes de adormecer. Recordo-me de me abraçares apertadamente e suspirares ao encontro do meu ombro. Relembro constantemente tudo o que disseste, o bom, o mau e as mágoas. Adorei cada momento intensamente, as memórias eternas são a única coisa que me mantém inteira por agora... mas não sei por quanto mais tempo.

Parece-me que se passou uma vida desde que estivemos juntos, e não consigo imaginar a minha vida sem ti, mas recentemente, distanciamo-nos imenso um do outro. Não sendo porque o tempo escasseia, nem por estares demasiado ocupado para mim, deve ser por estarmos fora de uma linha de alcance tangível. Sinto que já não te reconheco ou a mim própria. Estamos tão diferentes e apesar do sentimento permanecer, sei que sempre foi mais intenso da minha parte.

Saber que deixaste de tentar consome-me lentamente, que julgas que eu espere eternamente por ti enquanto tu continuas a fazer-me isto, tira-me o fôlego... Pedes-me desculpa e dizes esqueceres-te de falar comigo por vezes. Eu nem sei por onde começar a explicar-te o que essas palavras fazem ao meu pobre coração que mal consegue funcionar devido ao excesso de amor por ti nele contido. Costumavas ser a razão por que eu adorava acordar, agora custa-me sair da cama, costumávamos falar cada segundo de cada dia, agora considero-me sortuda se receber notícias tuas a cada duas semanas. Não sei de onde surgiu este vazio no meu peito, apenas sei que está a desgastar-me e tu continuas demasiado perdido no teu mundinho a ponto de seres incapaz de me ajudares a sair deste poço sem fundo.

O que realmente perfura o meu coração sem dó nem piedade é ter consciência que não estás disposto a lutar a mesma batalha por mim, especialmente quando prometeste que o ias fazer e acabaste por não fazer rigorosamente nada. Desilusões, sempre cresceram coladas a mim e parece-me que irão envelhecer comigo. Dia após dia eu encho-me de esperança e digo a mim própria que um dia não me sentirei mais desiludida em relação a ti, que tudo será compensado, mas esse dia parece nunca mais chegar. Estou a convencer-me lentamente que nunca chegará.

Não te vejo nem passei tempo contigo desde o dia que passámos horas a discutir, gritando, chorando, abraçando-nos e beijando-nos porque sempre foste demasiado cego para ver o quanto me havias afastado de ti. Posso dizer que há um mês que acordo em lágrimas, e que volto a adormecer nas mesmas gotas que me embalam porque doi demasiado saber quão insignificante tornei-me aos teus olhos. Gostava que me tivesses dito que já não sentias nada por mim, que encontraste alguém, ou simplesmente que nós tinhamos deixado de ser uma equação possível. Ter-me-ias dito qualquer coisa, menos que era tudo fruto da minha imaginação.

Não sou nem estou feliz sem ti, tenho sérias dúvidas que tu estejas mas nunca o admitirás... por isso peço-te- deixa-me partir, de uma vez por todas.

Sinto-me como se estivesse a nadar á demasiado tempo, a minha pele está ressequida e é assim dolorida que me encontro.. exausta ao ponto de não poder ajudar-me a mim própria, tudo o que consigo fazer é observar-me dissolver na água até cessar de existir tal como aconteceu perante os teus olhos. Não sou capaz de continuar esta luta sozinha,há três anos que tento encontrar um rumo estável para a minha vida, há três anos que digo a mim mesma para manter-me calada e aceitar que seguiste em frente, que mudaste mas não consigo.. Não consigo mais, está literalmente a matar-me, não consigo dormir, comer, concentrar-me, mal consigo sorrir... A pessoa em que me tornei por tua causa, não se parece nada comigo.

Vamos terminar por aqui. Vamos fingir que não nos amamos, que não sentiremos a falta um do outro, que estaremos melhor assim — incontactáveis. E talvez, apenas talvez, consigas encontrar alguém que possa ser digno de ter a tua constante atenção, alguém por quem serias capaz de fazer qualquer coisa para estar junto... E eu ficaria absolutamente feliz por ti.

Volto sempre e irremediavelmente a sentir esta necessidade intrasponível de resguardar-me no meu casulo e gritar ao meu coração que não vou precisar de ti numa outra noite como esta. Juro a mim mesma, sussurrando as palavras uma e outra vez, que não voltarei a ser menina frágil e carente a ponto de sentir este amor que me faz precisar de ti desta forma desesperada e permitir que as lágrimas se apoderem de um peito cansado. Prometo ainda, que a saudade não voltará a ser minha amiga de ocasião e fazer-me implorar pela tua presença quando tudo o que o coração recorda são os teus olhos brilhantes perdidos nos meus, o teu odor inconfundível miscigenado com o meu numa dança de sensações, o teu abraço que não quer largar-me e os teus suspiros (ou seriam os meus?) a afagar a maldita saudade que insiste em rodopiar nos nossos ventres. E só poderia mesmo ser amor, só o teu toque na minha alma faz-me estremecer e perceber que se doí e destroi tudo desta maneira desolada, apenas para numa estranha forma de catarse ser a dor mais doce a magoar-me as veias, a adoçar-me os sentires, a suplicar por mais um beijo teu, é decerto esse penoso sentir. Se não sentisse este amor a queimar-me a pele, se não permitisse que a tua ausência personificasse trezentas e poucas formas de loucura, não serias decerto saudade e muito menos a dor que amo ser.

Não deverias ter saído da minha vida. Estávamos destinados a nos reencontrar novamente. Eu seria mais velha e mais confiante. Eu iria dizer-te o quanto me havias magoado e o quanto eu te tinha amado quando era mais nova. Deveríamos estar a beber café e a rir de coisas sem sentido e eu dir-te-ia como tinhas sido um ponto fundamental na viragem da minha história. Eu queria que tu visses em mim tudo o que eu via em ti e ficares impressionado com a pessoa que eu havia me tornado. Estávamos destinados a fazer amor novamente, como sempre tínhamos feito. Beijarmo-nos em ruas sem sáida e rirmos das tuas piadas sem sentido e eu deveria nessa altura, dizer-te que ainda eras o mesmo idiota. Estava agendado que eu iria sentir novamente o sabor agridoce dos teus lábios e, de seguida, iria descansar a minha cabeça no teu peito enquanto repousávamos sobre as estrelas, percorrendo as minhas mãos sobre o teu tronco semi-nu. Estava escrito nas folhas perdidas do destino que continuariamos a trocar mensagens de texto através das longas horas da madrugada, pedindo um ao outro que viesse afagar um pouco as saudades. Deveria ter-te dito que lamentava imenso por ter-te magoado naquele dia e por ter sido tão fria pela segunda vez e explicar-te que quando me pediste para ser tua, tudo o que quis responder foi sim, mas tive imenso medo, medo de quanto eu me importava contigo e sobretudo, medo de sentir-me novamente e mais uma vez, vulnerável. E era suposto tu compreenderes e sorrires como só tu sabes fazer.

Já não sei sorrir, tu levaste essa capacidade minha quando saíste da minha vida. E agora, todas as minhas suposições e significados estão guardados dentro do meu peito, sufocando-me lenta e vagarosamente, atrofiando-me o coração danificado. Não deverias ter saído da minha vida.

Nunca o esqueci. Atrevo-me a dizer que sinto saudades dele? Sim. Sinto a sua falta. Ainda o vejo a tentilhar os meus sonhos, suspirando palavras que não são audíveis. Na sua maior parte, são pesadelos, mas pesadelos tingidos de amor. O coração humano é algo tão estranho. Ainda não consigo entender como ele conseguiu abandonar-me tão facilmente, sem qualquer tipo de despedida, sem olhar para trás uma única vez. A dor assemelha-se a um machado que desfaz o meu coração em pedacinhos misturados.