O Anjo

5 V - Assassino


Enterraste-me nesta cidade escura e sombria por entre palavras repletas de veneno que eu jurei nunca mais voltar a escutar. Prometi a todas as almas que por mim passavam que não voltaria a sucumbir a esta necessidade de te ter, de ser completamente tua mesmo sem seres um por cento sequer meu. Janelas fechadas, ruas desertas, rostos vazios, e o meu coração de ti cheio. Preenchido por raiva, suor, mágoa, palavras acutilantes que ocuparam grande parte do espaço. Estás nesse lado enquanto eu permaneço neste. Seguro nas minhas mãos os teus vocábulos que ferem como punhais e que me rasgam o ser. Fingiria se dissesse que não te amo como desde o primeiro dia, mas serei forte, mais do que alguma vez tu conseguiste ser. Não voltarei a permitir que a saudade arranhe as arestas de mim nem que implore por um vislumbre das tuas feições. Esses olhos azuis não serão arma capaz de fazer -me ceder a uma tentação que nos devasta de cada vez que nos consume e que nos exausta a capacidade de discernir o que somos. Longe um do outro, as palavras não serão instrumentos mortais de uma sede de vingança, nem eu sentirei lágrimas fluirem através de mim com tanta frequência. O medo acumula-se em mim, é certo, mas não posso continuar a usufruir de um amor que não é meu, nem usar o teu toque para acalmar os meus receios. Tenho que permitir-me libertar desses pensamentos e deixar que este amor adquira outra forma, outra cor, outra simbologia... qualquer conteúdo possível menos tu.

A morte é tudo menos serena... Descrevo com estas parcas palavras, não a separação real de corpo e alma, mas a dor associada á rejeição, a angústia que resta dentro de ti após sofreres uma perda irreparável. Quando o espírito que é alvo de toda a tua afeição, objecto do teu desejo e amor inquestionável, pede-te encarecidamente que sejam novamente estranhos, que voltem a ser apenas pedaços de desconhecido que jamais se cruzaram. Pede-te, sem imaginar o tamanho da agonia que atravessa o teu coração, que esqueças todas as vezes que os vossos olhares se encontraram e esses mesmos momentos em que o silêncio falou mais alto. Tens então, contra a tua vontade, que ensinar o teu íntimo a olvidar todos os momentos em que a felicidade percorreu o teu corpo, o teu coração bateu mais forte e as palavras dele permaneceram no contínuo do tempo. Não é uma tarefa fácil, nem tenho a certeza se será exequível, mas sem dó nem piedade, negaste o meu amor por ti, rasgaste as minhas declarações e correste noutra direcção. A morte, a morte espiritual é, sem dúvida, muito mais cruel que outra qualquer, e o sangue que pingou dos meus olhos naquelas lágrimas derramadas por ti e para ti, o coração que definhou perante a tua frieza, o corpo que relembrou e recusou vezes sem fim o teu toque, os lábios que se recriminaram por quererem os teus; são provas incontornáveis do teu crime. A serenidade não mora aqui e creio, quase juro, que jamais voltará a habitar o meu ser.

Tu deverias ter dito não quando te seduziu sem modéstia alguma e nunca nos teríamos perdido nesta equação. Mas tu não disseste e fraquejaste. Nem sequer referiste que eu habitava a tua mente há algum tempo. No fundo de cada pensamento teu. Deixaste que ela piscasse os olhos, tocasse no teu braço, te provocasse até que não conseguisses resistir por mais um segundo que fosse. Acima de tudo, traiste-me sem dó nem piedade. Tudo o que sempre quis foi saber "porquê?" O que possuía ela que eu não te poderia ter oferecido? Porque permitiste que te invadisse as memórias e encontrasse caminho até ao teu coração? Por que cedeste ao seu joguinho maníaco e doentio? Deverias ter dito não. Deverias tê-la empurrado para fora da tua vida. Ter-lhe dito para se afastar, deixar-te, esquecer-te. Alguma coisa! Em vez de tudo isto, tu aceitaste-a. Entregaste-lhe cada centímetro teu. Satisfizeste-lhe cada desejo. Assim que ela se sentiu completa e realizada, era já demasiado tarde. Tu traiste-me. Tu mentiste-me. Tu esqueceste completamente que eu sequer existia como parte da tua vida.

Valeu a pena? Valeu a a pena chegarmos a este ponto? Valeu a pena perderes-me? Perderes tudo o que um dia disseste por meio de abraços, beijos desmedidos e palavras soltas ser tudo o que precisavas? Sinto-me completamente traída, principalmente tendo conhecimento que ela abandonou-te, proferindo que encontrarias quem te desse mais valor. Tu já tinhas quem te dava valor mais do que ninguém e escolheste seguir o caminho dela... Eu fui verdadeiramente traída. Mais que uma traição física, traíste um coração que sempre te amou e confiou em ti. Nunca esperei tal coisa de ti. Especialmente, vindo de ti. Eras, certamente, a última pessoa que eu esperava que me magoasse assim tanto a ponto de me deixar em ferida aberta o coração uma vida inteira. Magoaste tanto, mas tanto, que eu nem queria sair da minha cama. Apenas queria deixar-me ficar o dia deitada a sofrer pelo abandono a que fui sujeita. Mas eu sabia que não podia continuar assim. Tinha que erguer-me. Vestir-me. Limpar a cara de tantas lágrimas. Fingir um sorriso. Aguentar até o dia chegar a um fim. Sem ti... Mas acredito que não poderias ter feito de outra maneira. Certamente fizeste mais do que o suficiente. Apenas nunca compreendi e acho que por muitas explicações que eu oiça da tua parte, nunca vou perceber os teus motivos. Nunca te vou perceber. Sei, somente, que ainda me magoa profundamente ouvir o nome dela pronunciado pelos teus lábios e as histórias que juntos viveram enquanto eu fui forçada a seguir em frente. Tu deverias ter gritado não.

Passamos tantas horas sentados no meu colchão. Tu com a cabeça no meu colo, a minha mão no teu cabelo brilhante, e dois cigarros ou um partilhado, enquanto falávamos das coisas mais banais do mundo. Enquanto eu te dava beijos na testa. Eram normalmente três da manhã no nosso ritual. Ficavas muitas vezes a dormir lá em casa e o que me apetece agora é relembrar isso, na tentativa de acordar amanhã e ter conseguido esquecer o que me fizeste, mas não esqueço.
Como as nossas banalidades, rituais e habituais discussões, eu esperava dizer-te para esqueceres e de ti esperava um abraço e um beijo na cara com um "odeio-te", mas isso não aconteceu. Olhei para ti e não te reconheci. Nem mesmo eu me reconheci nas palavras que te disse. Caiu-me o mundo quando me disseram o que fizeste. E todo o carinho no meu coração transformou-se em algo negro que não te sei definir quando te perguntei se era verdade e tu, com os olhos mais duros que já te vi, disseste que sim. Desde esse segundo o mundo pediu-me por silêncio. O meu coração calou-se e quanto mais te movias, mais o sangue me fervia para te fazer desaparecer. Era noite e se num estalar de dedos eu pudesse apagar todas os candeeiros da rua, aquele era um dos raros momentos em que a minha vontade de esquecimento superou o meu medo do escuro.
Tu dizes que te faço sentir em casa e eu digo-te agora que me roubaste um bocado de chão. Não sei caminhar na tua direcção. Acho-te uma espécie de erro, um lapso meu, uma cegueira temporária que apenas mudou de estado. Algo sólido que se evaporou, quase sem experimentar ser matéria liquida. E a cumplicidade e segredos de que éramos feitos não serviram para nos salvar. Tenho a certeza que acabamos por ser corrompidos pelas vontades exteriores às nossas, mas tudo isto me dói mais intrinsecamente do que eu poderia calcular.
Eu quero perdoar-te, meu deus, como eu quero e não consigo. Como eu gostava de não ser tão eu mas foi tão eu que me conheceste em tantos momentos. A estupefacção que tinhas com a minha loucura é a mesma que tenho agora com a tua falta de lealdade. E eu não entendo. Não entendo o porquê. É por isso que me calo, porque eu sei que acabaste por magoar-me a mim e que isso te magoa ainda mais.
Estou a ser egoísta. Podia ser eu do teu lado?! Podia. Mas tu tens muito mais para aprender que eu e sei que provavelmente fui um dano colateral de uma vida que não gostas de viver, numa vida onde não sabes amar porque não te amas, mas não sou consequência de ninguém e não dou lições de moral a quem não tem princípios. Esses que eu achava que tinhas comigo. Comigo. É comigo que te vai custar praticar o verbo da ausência.
E assim mostro-te que não, não é fácil, nada é fácil e perante a ilusão de que seja, parabéns, conseguiste a minha última frase para ti: estás desculpado. Fica com isso. Sem justificações. Porque antes de falares da minha vida e sobre o que nela é fácil ou sobre o que em mim o é também, devias saber que já vi mais dificuldade do que algum dia quero que conheças. E tem respeito, porque é respeito que te falta em tudo o que fazes e em tudo o que dizes. Respeita-te. Com justificações. É que se o valor está naquilo que se faz, o teu é zero.

Ainda habituada com a conformidade e o ritmo cinzento dos meus dias, deambulei pelas ruas da cidade. Assombrada pelas memórias de um passado apenas preenchido por pedaços de amor e palavras efémeras, perdi-me uma vez mais dentro da minha mente. Sabia exactamente em que esquina e rua me encontrava, mas no meu interior a confusão era tremenda. Há muito tempo que não sentia a tua respiração a aquecer-me o pescoço ou a fazer esvoaçar o meu cabelo. Voltei a focar-me nos dias em que, sem me preocupar com horários ou com a solidão, descansava as inquietações no cais e deixava-me embalar pelas ondas do mar imenso. Em como a sua dimensão e imponência ajudavam-me a afastar do meu regaço a teimosa saudade que me se me colava á alma carente desses olhos cor do mesmo mar, que, ironicamente, fazia-me esquecer a tristeza de não ouvir palavras tuas, de não deixar o mundo para trás enquanto me afundava nos teus braços que me apertavam como se a humanidade estivesse condenada e só restássemos nós dois. Desconheco doravante o meu sentido de orientação ou se alguma vez voltarei a sentir-me inteira como outrora, nos dias em que mesmo acompanhada somente pela solidão, trazia-te sempre comigo no meu peito, o teu cheiro dentro do coração e o teu sabor nos lábios. A rotina que se apoderou dos meus dias impede-me de saber como me sentir em relação a ti e a tudo o resto, toldando-me os pensamentos e rasgando-me todas as recordações que sempre guardei religiosamente. Ainda não decidi o que contar ao meu coração, mas enquanto vagueio pelas ruas da cidade, percebo que nada voltará a ser como dantes, mesmo que o mar jamais me volte a sossegar...

Ainda tenho o cheiro pútrido das tuas mentiras espalhado na minha pele, infectando por completo o ambiente em que me isolo esta noite. A raiva que me consome as entranhas é acutilante e a dor que me ensina a calar o coração a que dei ouvidos, é extremamente cruel. Não sei como serei capaz de eliminar do meu interior o som das palavras que perduraram no silêncio da madrugada, o sabor dos teus lábios a queimarem os meus, o toque das tuas mãos a condenarem o meu corpo a um eterno arrependimento, consequências nefastas que abraçei no momento em que acreditei nas tuas promessas. Rasgaste-me a pele, cuspiste-me pedaços de sentimentos e deixaste-me assim ao relento, a mendigar réstias de carícias tuas, peças incompletas de um sentir que nunca admitiste acalentar dentro desse peito frio. Essas mãos geladas, esse coração de pedra, continuam a causar danos colaterais nesta pobre alma minha. Por mero acaso, encontrei, marcada a sangue manchado, uma cicatriz antiga escondida no teu peito, indicio de onde o teu coração existia outrora. És um pecador sem alma que me uniu á sua loucura devassa e incontrolável, és o quase meu que eu nunca e sempre tive. E atingida por esta seta que mortalmente se enterrou em mim, permaneço abandonada no chão imundo onde me deixaste a apodrecer...