Alexander nunca havia entrado em um avião antes. Por mais que lhe dissessem que este era um dos meios de transporte mais seguros do mundo, era uma vítima do estrago que os noticiários de televisão faziam, e refém do medo das turbulências e explosões.

O aeroporto estava movimentado. O tráfego de pessoas era constante; algumas iam, outras viam, mas ele viu que quase todas se abraçavam calorosamente aos seus amigos e familiares. Os imensos aviões decolavam lá fora, alguns pousavam, mas o mesmo som das turbinas fazia estremecer o ar. Daqui a poucos minutos estaria ali, dentro de um desses pássaros gigantes de aço, como Clarisse costumava chamá-los, fugindo de tudo que conhecia para um lugar completamente diferente da realidade que ele se acostumara tão bem. Era uma sensação nova, e absurdamente estranha.

Quando se sentou numa cadeira para verificar uma última vez sua bagagem, uma estranha visão chamou sua atenção.

Havia um grupo de pessoas vestidas com longas capas e batinas pretas paradas no pátio do aeroporto, com colares enormes de cruzes penduradas no pescoço. Eram três homens e duas mulheres, todos com a mesma expressão ameaçadora. Formavam estranhamente um círculo, enquanto conversavam discretamente, e pareciam atentos a todas as pessoas no lugar, como se estivessem procurando alguém.

— Um desses grupos góticos extremistas que não têm mais o que fazer, isso é o que são! — Um homem que estava sentado ao seu lado gritou para as pessoas. Entretanto, elas não o ouviram.

Alexander achava que eles pareciam mais com os personagens de Matrix do que com góticos, mas resolveu deixar isso de lado, e se pôs a conferir sua bagagem.

— Roupas estão aqui, livros na mochila... — Pôs a mão no bolso para pegar a carteira. — Passaporte, tudo certo.

Procurou pelo balcão de embarque da companhia aérea e entrou na fila para realizar o check-in. Por sorte, na sua frente só havia uma garota de cabelos vermelhos curtos, camisa preta e calça jeans, muito mais baixa que ele. Levava nas costas uma pequena mochila, com espaço suficiente para caber uns três ou quatro livros, e sua mão direita segurava a alça de uma mala muito maior que a dele, como se estivesse “escondendo uma arma ali dentro”, como Alexander pensou. Falava baixo com a atendente do balcão, quase sussurrando, mas ele a ouviu mencionar que tinha 18 anos.

18 anos? Tá certo... Ela deve estar à espera de seus pais, isso sim.

Enquanto esperava para ser atendido, olhou para os lados procurando novamente o tal grupo gótico extremista de Matrix. Contudo, não os viu. Quando a garota virou-se depois de ser atendida, seus olhos castanho-claros se encontraram com os dele, e Alexander sentiu uma falta de respiração momentânea. Ele nem sequer reparou em seus lábios vermelhos carnudos ou na estranha e profunda cicatriz em seu rosto, pois seus olhos, que pareciam incendiar sua alma, o fitaram com uma profundidade que prendeu completamente sua atenção, a ponto de não ouvir a voz da atendente do balcão.

— Posso ajudá-lo, rapaz?

Olhou para a atendente, atônito. A garota do olhar misterioso havia desaparecido.

— Sim, sim... Desculpe.

Apresentou seus documentos e o bilhete da passagem aérea e entregou sua mala, que foi pesada e despachada, após receber uma identificação com suas informações. Não entendia muito sobre voos, mas lhe foi recomendado optar por um voo direto, o que significava que o avião só iria pousar na cidade de destino, no caso Londres, e não faria nenhuma parada no caminho. Bem satisfatório.

A atendente lhe entregou seu cartão de embarque e pediu que ele aguardasse no salão para Embarques Internacionais. Esqueceu completamente da garota e daquelas pessoas misteriosas. A última coisa que ele precisava agora era de uma conspiração em seu primeiro voo de avião.

Seu voo partiria em 40 minutos. Tirou um chiclete da caixinha que Rafael lhe dera, e ficou a esperar.

• • •

Ela estava nervosa. As mãos trêmulas faziam seus dedos baterem inconscientemente. Não queria estar ali. Todos que passavam por ela reparavam em sua cicatriz facial, que estava bem exposta devido ao corte de cabelo; os olhares estranhos das pessoas a fizeram se sentir como se ela fosse um animal de zoológico.

— Acho que consegui despistá-los.

Tentava manter a calma. Até ali, tudo ocorrera bem, e não havia motivo para entrar em pânico. Só levantaria suspeitas, e pior, chamaria a atenção deles. E também deveria tentar se controlar, com tantas pessoas ali. Recapitulou o que acontecera até agora, para não ter mais problemas.

Não tivera muita sorte com a falsificação dos documentos: a atendente do balcão de embarque desconfiara de sua verdadeira idade, e ela tivera que persuadi-la, de uma forma pouco convencional...

— Quantos anos você tem, menina? Olha, não tente me enrolar.

— Tenho 18 anos. Tenho 18 anos a muito tempo... — disse ela, olhando para a mulher com uma intensidade que emanava daqueles grandes olhos castanho-claros, os lábios vermelho-escuros se movendo de forma a congelar sua visão. A atendente não teve a menor chance.

Resolvera este pequeno problema com tamanha facilidade. Agora só precisaria esperar a hora do embarque. E deveria ser mais cautelosa do que nunca, pois este seria o momento provável para eles a capturarem. Eles estariam de vigia, esperando ela passar. Olhou para os lados procurando-os, mas não os achou. Onde eles estão?

— Ei mocinha, você não está perdida, está?

Ela virou-se para ver quem falava, e viu o segurança do aeroporto, um homem gordo e volumoso, quase sem pescoço, e com um bigode estilo francês, aproximando-se dela, com uma rosquinha açucarada na mão e um ar de desconfiança que não a agradou muito.

— O que você pensa que está fazendo andando por aí sozinha? Onde estão seus pais? — ele perguntou, enquanto comia a rosquinha, deixando à mostra os dentes mal escovados com pedaços de comida.

Era só o que me faltava.

— Meus pais não estão aqui, sou só eu. Vou pegar um avião para Londres, para resolver umas coisas.

O segurança deu uma gargalhada alta, que fez muitas pessoas olharem para os dois, inclusive duas mulheres altas que estavam passando.

— Você é bem engraçada, garotinha. Olha pra você, acho que perdeu sua boneca por aqui, não foi? — Ele ainda não se recuperara do riso. — “Resolver algumas coisas”, essa foi boa. Acha mesmo que sabe alguma coisa do mundo, criança?

Do que você me chamou?

De repente, foi como se a visão das duas mulheres enganasse seus olhos. Certamente deviam estar sob um estresse enorme com o voo que atrasara, mas podiam jurar que viram a garota segurar a gola do terno do segurança e erguê-lo no ar com as próprias mãos, levando em conta o aparente peso do homem. Tudo isso em questão de segundos. As duas ficaram de boca aberta, entreolhando-se, sem acreditar no que viam.

— E você?! Acha que pode vir aqui e fazer perguntas sem ao menos saber quem eu sou? — disse ela, cujos olhos agora se esvaziavam de ódio. — Quem é a criança agora? Idiota!

Sua respiração estava rápida e profunda, suas mãos tremiam apreensivas, e ela sentia seu coração bater cada vez mais rápido a cada segundo que fitava o homem, que àquela altura já estava completamente apavorado. E então, olhou ao seu redor, e viu várias pessoas reunidas em volta dos dois. Apontavam, cochichavam e chamavam outras pessoas, cujas cabeças apareciam por trás da multidão para verem o que estava acontecido.

A fúria momentânea da garota foi embora com a mesma rapidez com que se apoderara dela. Suas mãos desapertaram a gola do homem, que caiu com um baque no chão, ao mesmo tempo em que sua respiração voltava lentamente ao normal. Perdendo os sentidos, caiu de quatro no chão. Sua visão estava embaçada. Um rapaz aproximou-se dela, e ajudou-a a se levantar. Estava se sentindo um pouco tonta, não via mais que a sombra daquelas pessoas.

— Estão olhando o quê? Vocês não têm mais o que fazer? — ela ouviu o rapaz gritar para as pessoas, que logo se dispersaram, mas ainda continuaram comentando sobre o que viram — Você está bem? — ela assentiu, sem, contudo saber quem era.

Ela queria sair dali. Não deveria ter feito aquilo, devia ter mantido o controle. Começou a andar em passo acelerado, sem saber para onde suas pernas a estavam levando. O rapaz a seguiu. Um grupo de adolescentes abriu espaço para ela passar, enquanto ocupavam seu tempo em memorizar cada detalhe de seu rosto, talvez para contar aos amigos depois.

Foi quando chegaram num restaurante que a preocupação veio logo em seguida. Muitas pessoas viram o que ela fizera. Isso só podia significar uma coisa: eles podem tê-la descoberto por causa desse pequeno incidente, talvez estivessem entre aquelas pessoas. Mesmo não se lembrando de tê-los visto, o risco de ser apanhada aumentava cada vez mais.

— Então, o que aconteceu? — o rapaz estava sentado à sua frente, com as mãos entrelaçadas.

Quando levantou a cabeça para olhar quem era, teve um sobressalto. Era o mesmo rapaz que estava na fila do check-in, com quem trocara um longo olhar, um tanto suspeito.

— Eu... Eu não sei explicar. Obrigada por ter me tirado de lá. — suas mãos ainda tremiam. Ela suava, sentia que seu rosto estava corado de vergonha, e a proximidade dos rostos dos dois não ajudava.

— De nada. Mas você está melhor agora? Quer comer alguma coisa? — Alexander procurou ajudar a garota de todas as formas. Não sabia muito bem o que dizer em um momento como esse, e os olhares intensos e penetrantes dela também não cooperavam.

— Não, obrigada. Eu... Não quero. — ela parou por um segundo, encarando seu rosto.

A verdade é que ela não podia comer ou ingerir nada. Nem água, nem frutas, nem doces ou frituras. Podia tentar apenas engolir, mesmo tendo que vomitar tudo depois, pois seu organismo rejeitava e não reconhecia mais nenhum gosto de qualquer alimento que não fosse... Continuemos com a história.

— Então, tudo bem.. Sabe, ainda não ouvi seu nome.

Alexander tentou conhecê-la melhor sem deixá-la mais assustada do que ela já estava. Escutara um murmúrio quando estava esperando a hora do embarque, e foi saber o que era. Quando viu que todas aquelas pessoas estavam olhando para a garota que ele vira na fila, resolveu agir impulsivamente.

— Porque eu não o disse — disse ela friamente, ao ver a expressão desapontada do rapaz ao ouvir sua resposta, tentou recuperar sua atenção. — Desculpe. Meu nome é Samantha Collins, mas pode me chamar de Sam. — Ela deu um sorriso meigo, fazendo-o levantar a cabeça, com o rosto corado. — E o seu?

Samantha. Que nome lindo...

— Hum... Muito prazer, Samantha. Meu nome é Alexander King. — disse ele, estendendo a mão para a garota. — Então, para onde você vai?

Ela percebeu que o som de seu nome parecia silvar em seus lábios. Alexander apertou a mão leve e suave da garota, e os pelos de seu braço levantaram ao sentirem a superfície incrivelmente gelada de sua pele.

— Vou para Londres. Assunto de emergência. E você?

— Londres? — ele abriu um sorriso que iluminou seus olhos. — Também estou indo para lá. Assunto de família.

Sam deu uma olhada à direita, e viu um deles. Alto, cabelo curto, quase raspado, e uma longa capa preta. Tudo voltou novamente, o medo, a lembrança da perseguição.Esqueceu-se completamente deles enquanto conversava com Alexander. Devia ter sido mais atenta, e aquele estranho tirara sua atenção. “Droga!” Mas o homem da capa preta estava de costas, ocupado, observando o corredor à sua frente. Devia sair dali agora mesmo.

Inquisidores... Eles nunca desistem.

— A propósito, o nosso voo sai que horas? — disse Sam, de repente, olhando para o relógio no braço de Alexander.

— O voo! — exclamou Alexander, olhando para o relógio de pulso. — Faltam 12 minutos. Temos que nos apressar, senão perderemos o avião.

Os dois se apressaram, quase correndo. Sam não olhou para trás. No caminho, ela viu novamente o segurança, agora com uma expressão de quem não queria fazer novas amizades. Olhava fixamente para a garota, com cara de mau, enquanto falava algo pelo rádio.

Chegando à sala de embarque, colocaram as mochilas em uma esteira e passaram pelo detector de metais. Enquanto encaminhavam-se para o portão de embarque, Sam olhava para os lados constantemente, procurando-os, imaginando se estariam a observando. Por uma coincidência, Alexander começou a rir, e explicou-lhe:

— Lembrei-me de um grupo de góticos com capas pretas que estava perto da fila do check-in.

— Eles estão aqui?? — Ela olhou para ele, alarmada. O nervosismo começava a invadir sua cabeça e perturbava novamente sua consciência.

— Calma, não estão — Alexander não entendera o motivo de tanta agitação. — Por que a pergunta?

— Por nada — disse ela, aliviada, sem dar mais explicações.

Mas Alexander sabia muito bem que, às vezes, “nada” significava muita coisa. No entanto, decidiu por não fazer mais perguntas.

Entraram no avião junto com os outros passageiros. Sam sentou-se ao lado de Alexander, num assento junto à janela, pois gostava da vista do céu lá fora. Agradeceu a Deus por não ter sido surpreendida por eles enquanto embarcavam. Pelo menos até chegarem em Londres, ela estaria salva. Devem ter perdido meu rastro.

O voo partira às 12h03min. Alexander pôs mais um chiclete na boca devido ao balanço que o avião deu quando estava erguendo-se no ar. Ele queria conhecer o legado de sua família, e, quem sabe, começar uma vida nova. E afinal, quem era realmente Samantha Collins? Bem, cá entre nós, viajar na companhia dessa garota misteriosa não teve preço. Tudo estava acontecendo ao mesmo tempo dentro de sua cabeça enquanto o avião ganhava altitude.