O Andarilho das Trevas
3 Memórias póstumas
Notas iniciais
Ele andava sem rumo pela mansão, muito mais antiga e enigmática do que a última vez em que a viu, quando brincava e corria entre seus inúmeros corredores e se escondia em seus escuros e tenebrosos aposentos. As lembranças que ele uma vez reprimiu agora estavam à flor da pele, e amontoavam-se em sua cabeça, como as estantes que estavam cheias de livros velhos e empilhados, que guardavam mais mistérios do que ele imaginava.
E os quadros... Sempre teve medo dos imensos quadros na parede, eram pinturas de várias personalidades mundiais, ora antigos presidentes, ora gênios da música clássica. Admitia que o autor das pinturas devesse ter um humor macabro, porque as pessoas nos quadros sempre davam a impressão de estarem alguns centímetros à esquerda e seus olhos parecerem acompanhar todos que por ali passassem, além da aparência mórbida e sepulcral que elas apresentavam. Ele nunca se recuperara dos pesadelos que tivera na infância com o quadro de Abraham Lincoln.
Sua atenção agora se voltava para o brasão de sua família. Um grande dragão negro de olhos vermelhos com um enorme “K” envolto em sua cauda estava em frente à lareira, refletindo o teatro de sombras que o fogo desenhava na parede. Os olhos grandes e penetrantes fixaram sua atenção de tal forma que ele se chegou a se perguntar se estava encarando apenas uma escultura inerte.
Enquanto admirava o dragão, uma voz grave e pesada quebrou o silêncio:
— Deseja mais alguma coisa, senhor?
Perdido no imenso labirinto de suas memórias, não vira o mordomo se aproximar, vestido num terno preto e trazendo uma bandeja com uma garrafa de vinho e uma pequena taça de vidro. As rugas espalhavam-se em seu rosto, deixando à mostra seus 70 anos, mas ele ainda aparentava ser mais novo, e seu rosto enchia-se de puro orgulho quando ouvia isso de alguém. Não parecia bem um mordomo, era um homem alto, magro, com cabelos grisalhos, despenteados e rebeldes, e olhos fundos e escuros, como se tivesse passado várias noites sem dormir.
— Não, obrigado, Michael. E por favor, me chame de Simon. Esse negócio de “senhor” acaba com a minha liberdade individual. — brincou, enquanto o mordomo se aproximava, sorrindo.
— Como queira, mestre Simon. Mas, como vê, é uma força do hábito. Referir-me aos meus patrões como “senhor” virou uma questão de honra e afeição. — Michael deixou a bandeja com o vinho na mesa em frente à lareira, e sentou-se no sofá de veludo — Mas, se me permite perguntar, o que o incomoda tanto?
— Toda essa coisa, sabe... Essa casa, esse legado, isso me assusta, às vezes me parece um fardo que eu tenho que levar comigo. Não que eu não esteja contente em morar aqui de novo. Primeiro minha mãe, agora meu avô... É muito para minha cabeça.
— Entendo perfeitamente — assentiu Michael. Seu lado esquerdo do rosto estava assustadoramente iluminado pelas luzes do fogo da lareira, que parecia dançar ao sopro do vento. — A dor e as sombras de seu passado ainda o assombram e o levam a noites intermináveis de insônia e solidão, não é? — Simon concordou com um gesto da cabeça — Se me permite dizer, não tente fugir deles, mestre Simon. A única forma de se livrar desses demônios é enfrentá-los e aceitar o fato de que eles são parte de você, e que o passado pode ajudá-lo a se tornar um ser humano melhor no futuro.
Michael levantou-se e dirigiu-se à porta mais próxima:
— Agora, se não se importa, irei me retirar. Boa noite, mestre Simon.
— Boa noite, Michael. E obrigado pela ajuda.
— Não há de quê.
Ele sentou-se na poltrona mais próxima à lareira, tomou um grande gole do vinho e ficou a observar o fogo. “As sombras de meu passado. Daria um ótimo titulo para um livro.” Seus advogados lhe informaram que, amanhã de manhã, seu irmão chegaria do Brasil.Parecia-lhe uma coisa estranha, pois não se lembrava de como ele era. Os dois brincavam na mansão quando ainda eram crianças inocentes e suspeitas, mas nenhuma memória da imagem de seu irmão, sorrindo ou talvez chorando, vinha-lhe à cabeça. Como seria a relação entre os dois? Será que eram realmente unidos? Ou intrigados? “Talvez ele também não lembre, pensou, afinal só tinha 6 anos naquela época.”
Simon Parker King era um rapaz bem respeitado entre seus conhecidos. Formado em jornalismo e comunicação, era um escritor de 28 anos e colunista do The Guardian de Londres, além de trabalhar ocasionalmente como professor de literatura. Publicou seus livros de forma independente, e eles foram um sucesso de vendas na cidade. Entre eles, destacavam-se O Retorno da Lua e Abigail, que faziam parte de uma mesma saga de livros de terror, inspirada nas obras de H.P. Lovecraft e Edgar Allan Poe.
Era dono de um senso crítico quase incontestável, e adorava discussões sobre seus assuntos favoritos: futebol, política e religião, que, em sua opinião, “não se discutem” para quem ainda não tem um pensamento formado. Por outro lado, como educador, ele dizia para seus alunos que ninguém tem uma mente completamente formada:
— Todos os dias estamos aprendendo coisas novas e formando ideias novas, todos os dias vemos as palavras se transformarem em mundos e as ideias em oceanos.
Não é preciso dizer que os alunos o adoravam. Para ele, ensinar, antes de ser um trabalho, era um hobbie. Ele gostava de formar mentes pensantes e questionadoras, e não repetidores de ideias, como se vê muitos pelo mundo afora.
Simon tinha uma fama considerável entre as mulheres, mas apenas uma garota despertou seu interesse: Amanda Ryder, filha de um casal de comerciantes judeus. Os dois estudavam juntos quando eram crianças, e ela acabou se tornando sua melhor amiga. Gostavam de fazer muitas coisas juntos e saíam para diversos lugares. Até que, após a explosão de hormônios da adolescência, começaram a gostar de verdade um do outro. Completavam-se inteiramente, “como duas peças de um quebra-cabeça”, como ela dizia.
Mas nem tudo foi um conto de fadas. Porque se fosse, então a mãe de Amanda seria a bruxa malvada, fazendo de tudo para impedir a filha de visitar Simon, pois não gostava de sua família e acreditava que na família King, os homens eram todos orgulhosos e arrogantes que se gabavam de sua herança milionária. Entretanto, ela não contava com a fuga de Amanda, que foi para a casa do pai, o único que a entendia e que passou a cuidar dela, longe do domínio da mãe. E desde então, ela nunca mais deu noticias.
Simon levantou-se da cadeira. Apagou o fogo da lareira, e subiu as escadas de mármore. No terceiro andar da mansão, observou um estreito corredor estender-se para além de seu campo de visão. Dirigiu-se para a segunda porta à direita, e, girando a maçaneta de prata, empurrou-a para frente.
Seu quarto era um aposento consideravelmente grande. Havia uma estante de livros à esquerda que incluía nomes como Nietzsche, Voltaire e Paulo Coelho, além de alguns livros de direito e advocacia. No centro do cômodo, próxima à parede, estava uma enorme cama de casal desarrumada, cujo tamanho ele considerara um desperdício de espaço. Uma pequena cabeceira de madeira de três gavetas estava ao lado esquerdo da cama, com um porta-retratos de sua falecida mãe e um caderno aparentemente velho. E, perto do teto, colado à parede, estava um enorme quadro em preto e branco de Ludwig van Beethoven. Simon herdara o gosto musical do avô, e era um verdadeiro e apaixonado amante da música clássica. Em suas listas, nunca faltavam nomes como Beethoven, Mozart (ou Amadeus, como seu avô o chamava) e Vivaldi.
Sentou-se na cama e refletiu sobre o rumo que sua vida estava tomando e questionava-se sobre o que devia fazer agora. Será que estava no caminho certo? Será que ainda lhe resta inspiração para escrever mais livros? O bloqueio mental era um empecilho cruel, que o sequestrava de sua zona de conforto e lhe afetava como uma enfermidade. Dizia a si mesmo que nunca mais escreveria uma obra que se comparasse a Abigail, pois não tinha mais inspiração como antes. Ainda não se sentia realizado, mesmo tendo vencido tantos obstáculos e degraus para o sucesso; sentia que algo lhe faltava, mas não sabia explicar o quê, e isso lhe causava uma quase depressão angustiante.
O brilho do horizonte o contemplava pela janela, o infinito disco amarelo-pêssego laminado se estendia por trás das montanhas salientes ao longe. Enquanto os minutos corriam apressados, ele observava o pôr do sol se rastejar por trás da cidade escura. O amarelo-pêssego agora dava lugar a um rastro de onda vermelho vivo, que afundava cada vez mais na linha distante do horizonte, criando uma visão mórbida e melancólica, enquanto a noite caía calma e silenciosamente, revelando o manto escuro do céu e suas constelações solitárias.
Segurou o retrato de sua mãe com as duas mãos. Lembrou-se de sua adolescência, quando sua mãe o esperava voltar para casa à noite. Ele mal sabia que ela não dormia até ouvir, aliviada, o som da maçaneta abrindo a porta. Ela não dormia até que o filho voltasse para casa, são e salvo do mundo cruel que existia do outro lado da porta.
Adormecera ali mesmo, com o retrato ainda na mão, envolto completamente pelo manto aconchegante de seus pensamentos, amimado pelo grito de seus conflitos interiores. A enorme janela aberta deixava o ar frio da noite se refugiar em seu quarto, e o cansaço estava levando-o embora para a dimensão nostálgica e utópica de seus sonhos, sem lençol ou travesseiro, sem ao menos tirar a camisa.
• • •
Simon acordou às 5 e meia da manhã com uma dor de cabeça terrível. Enquanto ainda estava deitado, notou em seu corpo uma sensação desconfortante e percebeu que não havia trocado de roupa quando adormeceu noite passada. A calça apertava sua cintura e a região pélvica, e admitira que devia ter comprado sapatos maiores, pois aqueles entorpeciam os dedos de seus pés, especialmente os polegares. A luz entrava aos poucos em seu quarto, mas o Sol ainda não dava vestígios de aparecer.
Levantou-se e dirigiu-se à janela. O dia despertava gradualmente graças ao canto de um casal de beija-flores repousados no galho de uma árvore em frente à mansão. Que bela música eles fazem. As nuvens desciam suavemente pelo céu como lençóis, formando um nevoeiro que pairava sobre o bairro. A cidade distante lentamente acordava, com seus carros apressados para mais um dia de trabalho e pessoas, que se assemelhavam a minúsculas formigas, caminhando com jornais na mão, enquanto conversavam sobre os vários assuntos do dia a dia. Então, uma brisa gelada que há muito tempo ele não sentia tocou seu rosto, como o toque macio da pele de uma mulher. A natureza lhe proporcionava um estado de libertação, transcendência e pureza de sentimentos que um ser humano jamais seria capaz de oferecer.
Simon olhou para o relógio. Não sabia que horas seu irmão havia partido, ou que horas ele chegaria em Londres, mas sabia que ele não estaria ali para recebê-lo. Fora convidado para dar uma palestra em uma instituição de ensino médio sobre o uso de drogas e psicotrópicos na adolescência. Sua cabeça latejava constantemente, e ele cogitou em ligar para desmarcar a palestra e ficar ali deitado. Mas sua consciência foi mais forte, e considerando que seria uma enorme falta de compromisso se ele não fosse, começou a se arrumou para sair.
Tomou uma xícara de café e pegou sua maleta. Procurou Michael para avisar sobre a chegada de seu irmão. Um esforço desnecessário, pois era óbvio que ele já sabia. Deu a volta e, abrindo a porta, descobriu que do lado de fora estava fazendo mais frio do que ele imaginara. Voltou para dentro, pegou um grande casaco que estava pendurado no cabide e dirigiu o Honda Civic preto a caminho da universidade.
Não durou mais que dez minutos para que o táxi parasse em frente à mansão. Alexander deu o dinheiro para o taxista e ajudou Samantha a levar a mala para fora. Enquanto o táxi ia embora, os dois olharam para a enorme mansão, que fora construída sob um morro, muito longe da cidade, e suas imensas árvores, que se estendiam às laterais da propriedade. A mansão assemelhava-se a uma catedral, por causa da arquitetura gótica em que sua construção foi baseada.
— Enfim, chegamos — Alexander suspirou aliviado.
— O que estamos esperando? Vamos em frente — disse Samantha, com uma disposição que ele nunca demonstrou, principalmente àquela hora da manhã.
Os dois abriram o grande portão de ferro, e, circulando a fonte de água do jardim, aproximaram-se da mansão, que pareciam aumentar a cada passo. Será que havia alguém ali? Talvez seu pai e seu irmão, esperando para recebê-lo?
Pararam em frente a uma grande porta de madeira e ferro. Alexander hesitou por um segundo e olhou para Samantha, que fez um “sim” com a cabeça. Tocou a campainha.
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