O Andarilho das Trevas
1 Boa parte de mim vai embora
Notas iniciais
“Qual vai ser o programa, hein?”
Um barulho de alguma coisa caindo o despertou, causando-lhe um enorme susto. Seu corpo estava pesado, e o sono ainda estava o chamando de volta, mas a luz em seu rosto foi o suficiente para fazê-lo desistir de voltar a dormir. Este seria o “good morning” daquele domingo de setembro, que lentamente exibia seus raios de Sol. As cortinas da pequena janela, de tonalidade azul clara, idênticas à coloração das lentes de seus olhos, estavam abertas e deixavam o vento entrar, levando ao chão alguns papéis que estavam em sua escrivaninha.
— Droga... — falou, enquanto levava as mãos à cabeça, que martelava por causa da noite mal dormida.
Seu quarto era uma completa bagunça, ou “um esconderijo remanescente da Segunda Guerra Mundial”, como Rafael costumava chamar. Encontrar qualquer coisa jogada ali era uma tarefa realmente complicada e desafiadora. Sua cama estava no centro do quarto, encostada à parede. Havia CDs arranhados, pacotes de batatas fritas e vários papéis, alguns amassados, descartados sobre o chão frio. Duas latinhas de Coca-Cola estavam sob a cabeceira ao lado de sua cama. Os pôsteres das bandas de rock, que estavam num estado lamentável, cobriam o azul escuro das paredes, que entraria em contraste com a cor branca na sala de estar.
Procurou à sua volta o que havia causado aquele barulho, e quando viu o que era o problema, um sentimento de culpa e estupidez percorreu sua espinha. A Stratocaster preta caíra no chão com uma pancada violenta, que poderia ter sido evitada se ele tivesse a guardado na posição correta na noite passada, antes de se entregar ao sono. A voz de sua consciência pedira a palavra: Um prejuízo a mais, seu idiota!
Depois de reclamar, notou o livro aberto ao seu lado. Adormecera lendo o exemplar de Laranja Mecânica que ganhara de presente de Clarisse, uma de suas melhores amigas e baixista de sua banda. Também ganhara as cinco temporadas de Breaking Bad em DVD, um presente de Rafael. Lembrou-se da insistência dos amigos em quererem organizar sua festa de aniversário, e da sua teimosia em recusar, pois tinha uma completa aversão a esse tipo de comemoração. Após uma longa discussão, como todas as outras antes dela, tudo terminou em pizza.
Aos 23 anos, Alexander Wolfgang King tinha cabelos curtos e 1,68m de altura, que ele considerava apropriada para uma criança de 16 anos. Aos olhos de quem o vê, seria mais um jovem imaturo e irresponsável que queria fazer música, mas ele sempre garantia para quem quisesse ouvir que seria diferente. Sua descendência europeia lhe permitira ser fluente em duas línguas. Aos 6 anos, saiu da Inglaterra e veio para o Brasil para morar com sua avó materna, que lhe ensinara a língua portuguesa.
A visão da guitarra caída no chão o obrigou a se levantar e colocá-la sobre seu colo. Pensou na loja mais próxima para comprar cordas novas, pois duas cordas arrebentaram na queda. Alexander ganhava a vida dando aulas de violão e tocando em bares e clubes da cidade com sua banda. A Roadhouse Bar era formada por ele, que tocava guitarra e fazia os backing vocals, Clarisse, que tocava baixo e cantava, e um jovem chamado Johnny, que os dois conheceram no condomínio e assumira a bateria. Tocavam covers de The Doors, Pink Floyd e Black Sabbath, e ainda não pensavam em composições próprias. Não tinham contrato com nenhuma produtora, mas a Roadhouse Bar não era uma banda iniciante; eles eram quase sempre reconhecidos em muitos lugares onde passavam.
E por mais que todos tentassem lhe fazer desistir dessa ideia de música e arranjar um emprego decente, ele sempre recusava. Ganhava bem, o suficiente para ter uma vida normal, pois nunca tivera a ambição de ter um daqueles carros enormes na sua garagem. Mais que isso, ele acreditava na música como seu ponto de equilíbrio, a única forma de mostrar seus pensamentos para o mundo e controlar a confusão em sua mente.
Por outro lado, Rafael Vianna, seu melhor amigo, estava cursando o segundo semestre da faculdade de Sistemas de Informação e trabalhava consertando computadores e como atendente de uma locadora perto dali. Rafael tinha um aspecto bem mais quieto e reservado e era do tipo autoritário, que não gostava de coisas inacabadas ou malfeitas; em sua opinião, quando tinha que fazer alguma coisa, seja um relatório da escola ou até mesmo uma coisa simples, teria que ser da melhor forma possível, caso contrário, nem deveria começar. Isso o fez ganhar uma fama de perfeccionista entre seus amigos e conhecidos, mas, em suas palavras, essa era “uma implicância feita para o bem”. Por outro lado, todos o consideravam um rapaz com um futuro promissor, apaixonado por MPB.
Os dois dividiam um apartamento alugado, que era mantido com uma parte de suas finanças. E também tiveram que aprender a dividir as tarefas dentro do aposento. Alexander lavava os pratos enquanto Rafael cozinhava. No entanto, os dois concordaram em arrumar a casa, embora Alexander não entendesse bem o significado de “organização”.
Mas voltemos à história. O despertador do celular começou a tocar, e a voz de Nick Cave lhe informou que ele já estava atrasado. Não arrumara sua mala, e suas roupas estavam sobre a cama, algumas amassadas, pois estiveram sobre ataque de seus pés pelas suas mudanças constantes de posição durante a noite. Deixou a guitarra em cima da cama e entrou no banheiro, pensando nessa viagem e no que ela traria de bom para ele.
Semana passada recebera uma visita inesperada de dois advogados, que lhe informaram que ele herdara uma mansão em Londres que antes pertencera ao seu avô, um ex-líder revolucionário. À primeira vista, pensou que era mais um golpe para lucrar em cima de idiotas. Estivera a ponto de mandá-los embora, mas os homens, que não pareciam estar de brincadeira, lhe mostraram vários papéis oficiais e assinados. Questionou a veracidade daqueles documentos, mas logo mudou de ideia. Quando os advogados foram embora, lhe deixaram uma cópia do testamento do avô e falaram que ele tinha uma semana para pensar sobre o assunto.
Então, por uma semana, ele pensou, e pensou. O continente onde viveu seus primeiros anos de vida agora o chamava de volta, para assumir uma herança que ele acreditava que não merecia. Alexander era filho único do segundo casamento de Jonathan King, um homem rico e respeitado, e nunca teve qualquer contato com o pai. E em todos esses anos morando no Brasil, nem por um segundo sentira saudades de Londres, até porque nem sequer lembrava bem de como a cidade era. Não fizera muitos amigos por lá, como descobriu pelos vagos resquícios de memórias que conseguia trazer à mente.
Mas enfim, ele decidira-se. Iria para Londres, pois queria cumprir a vontade de seu avô, que ele também nunca conhecera. Podia ser legal, talvez uma oportunidade de conhecer lugares novos. Mas tinha receio de ser recebido com quatro pedras na mão pela família de seu pai. Seus amigos, é claro, tiveram um choque com tal noticia. Sentiria saudades de Clarisse e Rafael, mas prometera aos dois que mandaria cartões postais todos os finais de semana e escreveria assim que chegasse lá.
Hoje era o dia de sua viagem, e pegaria o voo que partiria ao meio-dia. Saindo do banheiro, vestiu a camisa do Venom, calça jeans e all-star preto. Dobrou as roupas de qualquer jeito e colocou-as na mala. Guardou o Laranja Mecânica junto com alguns livros na mochila, que já incluía escova de dentes, sabonetes e outros objetos de higiene. Olhou para o relógio. Eram 10h30min da manhã. Deveria estar no aeroporto com duas horas de antecedência, para evitar quaisquer transtornos ou atrasos que pudessem ocorrer. Certificou-se de que estava tudo guardado, e, dando uma última olhada no pôster do Dark Side of the Moon, saiu do quarto.
Antes de ir à sala, parou em frente ao quarto de Rafael. As lembranças de todas as coisas que os dois faziam juntos todos os finais de semana vieram à sua cabeça: ora conversar sobre garotas e seus problemas, ora tomar uma cerveja ou dividir uma garrafa de uísque. Imaginou se tempos com esses algum dia voltariam. O cômodo era praticamente idêntico ao de Alexander, exceto pelo fato de que estava completamente arrumado, com todas as coisas em seu devido lugar. A única coisa que havia sobre o chão era um par de tênis brancos. Era um quarto bem iluminado, por causa da grande janela que dava uma vista perfeita da rua ao lado do condomínio. Rafael era um leitor assíduo, ao contrário de Alexander, que lia no máximo uma história em quadrinhos de tempos em tempos. Sua estante de livros colada à parede ao lado da cama continha nomes que iam desde Machado de Assis a Arthur Conan Doyle.
Na sala de estar, a televisão exibia o clipe nostálgico de Clint Eastwood, dos Gorillaz, enquanto Rafael tomava uma xícara de café com um pacote de biscoitos integrais ao lado da garrafa térmica em cima da mesinha de vidro em frente ao sofá. Tinha uma expressão vazia e distante, talvez por causa do rompimento com a namorada na noite passada ou pelo fato de que seu melhor amigo e confidente estava indo embora para bem longe. Contudo, nunca dava explicações ou deixava transparecer quaisquer sentimentos.
Alexander sentou-se e, tirando a mochila das costas, pegou a garrafa térmica para colocar um pouco de café em sua xícara. Só um pouco, pois não podia atrasar.
— Bom dia.
— Clarisse veio aqui hoje cedo. Me pediu para te desejar boa viagem. — Rafael não se deu ao trabalho de olhar para ele, e seus olhos continuaram vidrados na televisão.
— Hum. Certo... E aí, dormiu bem?
— Acha que vai gostar de lá?
— Sim, eu acho... Só não estou preparado para conhecer minha outra família, mas fora isso está tudo bem.
— Entendo.
— O que você tem hoje? — Alexander não entendia o que estava acontecendo com Rafael. Sabia que ele sempre fora quieto e um pouco estranho, mas hoje estava demais.
— Talvez uma pequena insegurança. Nós dois sabemos que você é uma pessoa completamente desprovida de juízo, e que pode entrar em várias confusões ao mesmo tempo, principalmente numa cidade como Londres.
— Haha, eu gosto mesmo é do estrago. Se esta é a sua forma de me desejar um “toma cuidado”, então muito obrigado.
Alexander deixou à mostra o sorriso que seus amigos tanto conheciam, e levantou-se para apertar a mão de Rafael.
— Só não se esqueça da gente, ok? Você sabe que Clarisse é capaz de cortar seus testículos fora e amarrá-lo a uma fogueira em praça pública se não der mais noticias.
— Pior que sim. Mas não se preocupe com isso — Olhou novamente para o relógio, que agora marcava 10h45min. — Nossa, estou atrasado. Já devia estar no aeroporto.
— Então é hora de você ir. Ah, leve isto com você. — Ele tirou do bolso uma pequena caixa de chicletes de tutti-frutti. — Até mais, pequeno Alex. Não vai se perder por aí.
— Valeu, Rafael.
Os dois se despediram com um longo abraço, batendo nas costas um do outro, o tipo de abraço que só amigos de verdade conheciam. Era evidente que a amizade dos dois não seria abalada pela distância. Rafael voltou para terminar seu café da manhã, e Alexander fechou a porta do apartamento número 203 do terceiro andar. Queria se despedir de Clarisse, mas o tempo estava contra ele. Pegou um táxi à porta do condomínio, e partiu para o aeroporto.
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