O Último Olhar
4 Memórias como Folhas ao Vento
O vento de outono soprava com mais intensidade naquele dia em Kyoto, agitando as árvores e espalhando as folhas pelos caminhos estreitos de pedra. Hana sentou-se num pequeno jardim atrás do templo, rodeada por flores de crisântemo e o aroma doce das folhas húmidas. O corpo estava mais fraco, e cada respiração parecia custar um pouco mais. No entanto, a mente estava clara, alerta, e uma estranha sensação de serenidade começava a invadir o seu coração.
Ele estava lá, como sempre, à distância, sem invadir o seu espaço, apenas observando, silencioso. A Morte já não era uma presença assustadora, era uma companhia silenciosa, paciente, que parecia compreender tudo sem exigir explicações. Hana sentiu-se compelida a falar, não por medo, mas por uma necessidade de organizar os pensamentos e lembrar-se da vida que, tão rapidamente, se aproximava do fim.
— Sabes… — começou ela, hesitante — às vezes penso em tudo o que vivi, e em tudo o que perdi. Não foram apenas os meses de doença, mas anos inteiros em que hesitei, em que deixei de fazer coisas por medo ou dúvida.
A Morte inclinou ligeiramente a cabeça, como a encorajar a continuar. Hana respirou fundo e deixou que as palavras fluíssem.
— Lembro-me da minha infância em Osaka — disse, com um sorriso melancólico. — Corria pelos campos com os meus irmãos, sentia o cheiro da terra molhada depois da chuva, e ria como se nada mais existisse. Depois, cresci, e deixei que as responsabilidades me consumissem. A vida tornou-se corrida, cheia de compromissos, e muitas vezes esqueci de olhar para mim mesma.
Hana fez uma pausa, observando as folhas que flutuavam suavemente até ao chão.
— Às vezes sinto-me injusta comigo própria. Gostaria de ter sido mais corajosa, mais presente, de ter dito a quem amava o quanto os amava antes que fosse tarde demais.
O silêncio da Morte ao seu lado não era opressor, era reconfortante. Cada palavra de Hana parecia ser acolhida sem julgamento. Ela percebeu que, ao falar, estava a organizar a sua própria alma, a dar sentido ao que restava.
— Mas também vivi momentos belos — continuou, agora com um brilho nos olhos — momentos que não mudaria por nada. As pequenas alegrias, os sorrisos inesperados, os dias de chuva passados a ler um livro, os festivais de verão com lanternas coloridas iluminando as ruas. Até os momentos de dor tiveram a sua importância, porque me ensinaram a valorizar o que realmente importa.
Hana respirou fundo e olhou para ele, finalmente.
— Acho que estou pronta para aceitar… para aceitar que a minha vida terá um fim. Não como algo mau, mas como algo natural, inevitável. Não há raiva, apenas… compreensão.
A Morte sorriu levemente, ou pelo menos Hana sentiu o gesto dessa forma. Não havia pressa, não havia imposição. Apenas a certeza tranquila de que cada vida, cada história, chegava ao seu desfecho no tempo certo.
— É normal sentir medo — disse ele finalmente — mas há força na aceitação. Ao abraçar o inevitável, torna-se possível olhar para trás com gratidão, e não apenas com arrependimento.
Hana assentiu.
— Obrigada por me deixar perceber isso. Por me dar tempo. Por me deixar escolher aceitar.
O sol começou a descer por detrás das colinas, tingindo o jardim de dourado e laranja. Hana sentiu-se leve, quase flutuando entre as memórias e o presente. Pela primeira vez em meses, não havia dor constante, apenas a sensação de estar completa, de ter vivido, mesmo que por pouco tempo.
A Morte permaneceu ao seu lado, silenciosa, como quem acompanha um amigo até ao último passo de uma longa jornada. Hana sabia que o momento final se aproximava, mas não havia desespero. Apenas uma paz profunda, um último pôr-do-sol a ser apreciado com gratidão e serenidade.
E naquele jardim silencioso, rodeada por folhas a cair e memórias que dançavam como vento, Hana sentiu que finalmente podia entregar-se ao destino que a aguardava, sabendo que cada instante da sua vida tinha valido a pena.
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