O Último Olhar
5 O Último Olhar
A manhã chegou silenciosa sobre Kyoto, envolvendo a cidade num véu de névoa dourada pelo sol tímido que se erguia entre as montanhas. Hana sentia o corpo ainda mais pesado do que nos dias anteriores, mas não havia medo. Apenas uma tranquilidade profunda a preenchia, uma aceitação serena que lhe permitia encarar cada instante como se fosse único e definitivo.
A Morte estava à sua espera, como sempre, mas naquele dia parecia ainda mais próxima, não como um visitante, mas como um antigo amigo. Sentada na varanda da sua casa, Hana observava o jardim em frente, as folhas de bordo vermelhas e laranjas cobriam o chão como uma manta suave, e o aroma húmido da terra misturava-se com o perfume das flores de outono. Cada detalhe parecia mais intenso, mais vivo, como se o mundo a quisesse consolar no seu último dia.
— Estás pronta? — perguntou a Morte, sem pressa, a sua voz calma preenchendo o silêncio.
Hana assentiu lentamente, os olhos fixos no reflexo do sol nas gotas de orvalho. — Sim… Acho que sempre estive, só não sabia. Agora sei que não há razão para lutar contra o que é inevitável. Tudo tem o seu tempo.
A Morte aproximou-se, sentando-se ao seu lado sem tocar, sem invadir o seu espaço, apenas presente. Hana sentiu um calor estranho, não físico, mas reconfortante, como se estivesse a abraçar tudo o que viveu de uma só vez.
— Sabes… — disse ela, com a voz trémula mas firme — sempre temi o desconhecido. Sempre pensei que partir seria solitário e assustador. Mas ao teu lado… não sinto medo. Sinto… paz.
A Morte inclinou a cabeça, como a escutar com atenção.
— O medo nasce da resistência. Quando aceitamos, até o desconhecido se torna familiar. Cada vida termina, e cada história encontra o seu ponto final. A diferença está em como a abraçamos.
Hana sorriu suavemente, lembrando-se de todos os dias que viveu: os sorrisos, os pequenos gestos, os abraços silenciosos, os momentos de pura alegria que se escondiam entre os dias mais comuns.
— Vivi — disse, quase para si mesma — vivi de verdade, mesmo que tenha sido pouco. E isso basta.
O vento mexeu as folhas ao redor, algumas caindo lentamente, outras levadas pela corrente do ar. Hana sentiu cada instante como se fosse um sopro de vida, um último presente. Ela olhou para a Morte, e pela primeira vez, viu não um fim, mas um companheiro que a conduziria para algo que não precisava de nome.
— Obrigada — murmurou — por me esperar, por me dar tempo, por me ensinar a aceitar.
A Morte apenas sorriu, um gesto simples, silencioso, que continha toda a compreensão do mundo. Hana fechou os olhos e respirou fundo, sentindo a leveza a percorrer cada célula do seu corpo. Pela primeira vez em meses, não havia dor. Apenas uma sensação de completude, como se a sua vida, em toda a sua fragilidade e beleza, tivesse chegado exatamente onde devia.
O seu último olhar encontrou o céu, o jardim, a cidade, e finalmente a Morte, que a acompanhava sem pressa, sem imposição. Hana não tinha medo, não havia arrependimentos que pesassem demais. Tudo o que era importante estava presente naquele instante: a vida que viveu, as memórias que guardaria, e a aceitação do que vinha a seguir.
E assim, numa manhã de outono, rodeada pelo silêncio do mundo e pelo calor inesperado da eternidade, Hana entregou-se ao destino. Sem luta, sem medo, apenas com a paz serena de quem compreendeu que a vida e a morte são apenas duas faces do mesmo reflexo, e que, no fim, tudo é inevitavelmente belo.
O último olhar que trocou com a Morte não foi de tristeza, mas de entendimento. E com esse olhar, desapareceu suavemente do mundo dos vivos, deixando atrás de si uma sensação de calma que perduraria no vento, nas folhas que caíam, e no murmúrio silencioso da cidade que continuava a viver, como sempre, indiferente e bela.
Fale com o autor