O Último Grande Roubo
6 5 - Falta de bebida (Parte 1)
“Gostou do chapéu?” ela pergunta, em tom cheio de malícia. Ao ver que o sorriso dele só aumenta, ela tem certeza que se trata de um subordinado de Burought.
Ainda que a cidade tivesse triplicado em tamanho em uma decada, o centro antigo continuou o mesmo.
E com ele lá estava a Taberna Garrafa Vazia, em toda a sua glória de dois andares, construção simples de tijolos vermelhos, janelas grandes o suficiente para permitir uma fuga de uma briga, e claro, a clássica portinhola girável por qual Arya passou várias vezes. Frequentemente sozinha, as vezes na companhia dos membros da guilda, e ainda mais raramente, com braços sobre os ombros de Burought.
Ainda que não fosse dada ao sentimento, uma onda de nostalgia a atingiu e deixou sua garganta apertada. Ela tratou de pigarrear, e cuspir no chão, como que expelir aquela comoção irritante.
Ah, isso é falta de bebida, ela concluiu sabiamente. E a passos firmes adentrou a taberna depois de muitos anos.
Mais cheia do que ela esperava, no horário de baixo movimento das duas da tarde. Escuro, tal como ela se lembrava, sempre na penumbra mesmo em dia, devido as cortinas que mais pareciam ser de ferro e a iluminação barata a velas. Ela olha pra cima. Sim, os lustres de cristal eram os mesmos, e ainda imundos.
Também não mudou a o cheiro de álcool e de homens-
Arya é interrompida de sua contemplação quando sente que atraiu olhares de vários elementos espalhados pas mesas, era um dia particularmente cheio na taberna.
Isso é novo. Ela pensa, sua expressão endurecendo à medida que encara um grupo tatuado em um canto a esquerda. Alguém entrando nunca foi motivo de desviar a atenção dos lazeres do estabelecimento, que eram, nessa ordem, os jogos, o álcool, e as garçonetes de espartilho apertado.
Talvez eles estejam em falta de garçonetes? Ela pensou com desgosto devido a alguns olhares prolongados na direção do seu peito. Aparentemente, mulheres como ela ainda eram raridades, fato que ela gostaria que tivesse mudado na sua ausência.
Mas isso nunca chegou a ser uma desvantagem, ainda que irritante. Arya pensa. Eu uso o que eu posso. Com isso em mente, ela desvia do labirinto de mesas com lentidão cheia de graça, um sorriso contido no seu rosto, e o olhar parando nos rostos de alguns homens.
Antes que chegasse ao balcão, surge uma taça cheia de um líquido transparente na sua frente, o que a faz parar de repente.
“Estava esperando por você.” O homem anuncia, sua mão que segurava a taça vestia uma luva negra.
Arya desvia os olhos da bebida desconhecida, e ergue-os para olhar nos olhos do estranho. Humano, com olhos escuros, cabelos castanhos sobre os ombros e sorriso fácil. Ela se foca nas orelhas furadas dele e adornadas por argolas prateadas, assim como o canto do lábio inferior. Carregava uma espada curta no cinto, e um certo ar insolente na sua postura.
Ele praticamente gritava a ladino, Arya conclui em poucos segundos. No meu tempo nós éramos menos óbvios.
“Por favor, Arya.” Ele pede, estendendo-lhe a taça.
Ela aceita e apesar de sua expressão não mudar, o fato dele saber seu nome a coloca em alerta. Quer dizer que ele já sabe que eu cheguei na cidade. Que eficiente. Foram só duas horas desde que eu passei dos portões.
Ela balança o líquido, e o cheira, sem tirar os olhos do ladino. Cheirava a álcool puro. Se tivesse algum veneno ela não seria capaz de distinguir pelo gosto provavelmente.
Ele a observa em retorno, e algo na forma com que ele inclina a cabeça e franze a testa a faz sorrir, repentinamente.
“Gostou do chapéu?” ela pergunta, em tom cheio de malícia. Ao ver que o sorriso dele só aumenta, ela tem certeza que se trata de um subordinado. Ela discretamente olha ao redor, percebendo que ainda atraia muito da atenção de homens que, julgando pelo mal-encaramento, eram possíveis mercenários também.
“Onde eu encontro o Burought?” Ela pergunta, inclinando o tronco junto ao dele, como que para sussurrar lhe um segredo. Ela precisava levar essa conversa pra outro lugar.
Sem tirar os olhos dela, o ladino responde. “É só me seguir.”
“Te seguir para uma emboscada?” Ela pergunta, ainda sorrindo, e devolve para ele a taça. Indica com a cabeça a lateral do bar.
“Gostaria mesmo que me seguisse para meu quarto, Arya.” ele concede, enquanto toma um gole rápido do líquido. E dá lhe as costas, um ato para demonstrar que não era uma ameaça.
Assim que adentram o corredor escuro que leva para a saída lateral, ela rapidamente puxa a adaga e, ao colar seu peito junto às costas dele, estende um braço até encostar a ponta cortante logo abaixo de suas costelas.
“Se houver mais de vocês atrás dessa porta, você morre.”
A ameaça é recebida por um risinho bem humorado. “Morrer nessa posição com você não seria tão ruim.” Ele diz, e sabiamente, permaneceu imóvel. “Mas minha proposta continua de pé.”
Ela aumenta mais a pressão da lâmina, e sussurra no ouvido dele. “Qual delas? A de ir até Burought, ou a de ir até seu quarto?”
“As duas.”
Ela exala audivelmente, em falsa exasperação. Talvez ameaça-lo de morte não envolvia necessariamente colar seus quadris, muito menos flertar. Mas ela não tinha tempo de pensar em sexo, não agora.
“Me diga onde ele está e eu irei até lá, infelizmente sem a sua companhia.”
“Ele está na torre mais alta da cidade, no último andar. Você não vai conseguir chegar pelos telhados. Tem que usar a escada.” Típico dele, paranoico com a segurança. ela pensa, e o homem acrescenta, com um tom de ironia: “Ele deixou um recado para você.”
““Não venha sem o meu chapéu.””
Diante disso, Arya ri, seu riso se tornando cada vez mais frio, e seus olhos se endurecendo.
Vou colocar o chapéu de volta na sua cabeça decepada.
Eles seguem até a porta, que é escancarada para revelar um beco vazio. Arya então se afasta dele, de súbito, cobrindo quase toda a distância do beco com longos passos.
“Meu nome é Giovan” o homem anuncia, antes que ela o deixasse para trás. “Me procure se quiser saber coisas que Burought não te diria. Também, posso te fazer coisas que ele não fará mais pra você…”
Arya lança-lhe um último olhar antes de desaparecer na rua agitada.
—--
A porta estava aberta. Ela era espessa e de metal, digna de uma caixa-forte.
Arya hesita no último degrau da escada quando pode avistar um guarda meio-elfo próximo a janela. Obviamente, Burought temia por sua vida. O que ela não sabia era se ele ainda queria tirar a dela. Seria impossível escapar da sala se a porta fosse fechada, e dificilmente era ganharia em um conflito se tivesse em desvantagem numérica.
A hesitação some quando ela revive um ódio antigo. Sua expressão muda para uma careta feroz antes de voltar ao normal.
Que seja. Vale a pena morrer para ver o medo nos seus olhos uma última vez.
Ela adentra a sala. Imediatamente a iluminação da grande janela diretamente a sua frente a faz apertar os olhos.
“Bem vinda de volta.”
O homem sentado atrás da escrivania de costas para a janela devia ter cerca de quarenta anos. Ele vestia um camisa cinza de um tecido caro, com as mangas dobradas de forma a expor seus antebracos, marcados por linhas de tatuagem. Arya lembrava-se dele mais jovem, menos corpulento e mais esguio, mas mesmo com linhas ao redor dos olhos e da boca, do cabelo curto com marcas grisalhas, ele ainda poderia ser considerado um homem atraente.
"Se você for realmente roubar algo, melhor fazer direito."
Arya ignorou o rapaz, e continuou olhando para o seu copo vazio. Ela observou então, com interesse distante, seu copo ser substituído por um cheio de vinho.
"Minha cortesia." O rapaz disse, sentando-se na cadeira ao lado. "Do que eu preciso para ganhar a sua atenção?"
"Ouro." Arya responde, por algum motivo se dignificando a erguer os olhos e olhar para ele. Assim feito, os olhos dela se arregalam quase imperceptivelmente, ainda mais quando ele ri diante da resposta dela.
"Gostei de você." Ele diz, simples. "Eles me chamam de Burought."
“Vejo que o tempo não foi bom com você.” Ela tratou de mentir, com um sorriso hostil. As memorias daquele tempo subiam-lhe a garganta como uma vontade de gritar, puxavam-lhe seu braco em rumo a sua adaga.
Seu olhar deixou do dele para pausar sobre os dois guardas a postos nos cantos da sala. Eles olhavam para o nada, em posturas rígidas como de estátuas. Seu olhar também passou rapidamente pelos armários dispostos lateralmente, preenchidos por livros e pergaminhos. Havia uma porta a esquerda, fechada. Uma estante que expunha objetos de decoração, dentre eles, adagas ornamentadas.
Você parece ter se tornado alguém muito importante, ela pensa.
“Eu gostaria de dizer o mesmo sobre você, mas não seria verdade.” Burought continuou, depois de uma pausa em que a observava. Sorrindo de volta para ela, ele acrescenta. “Você continua linda e invejavelmente jovem. Mas…”
Ele para, repousando uma mão sobre o queixo em falsa contemplação. “Tem algo sobre você que parece… mais pesado.”
Ela exala pelo nariz, rispidamente. Oh, como eu odeio quando ele começa com seus joguinhos. “Você que ganhou uns quilinhos e não eu, certo, querido?”
Ele ri, e balança a cabeça. “Pela sua resposta eu sei que acertei. Algo aconteceu a você, Arya.” Ele diz com tanta certeza que a faz querer esbofeteá-lo. “Como sobreviveu esses 10 anos?”
Ela inclina a cabeça e sorri mais. “Quanta presunção sua achar que eu não sei me virar sem você e seus amiguinhos. Antes de você desmamar eu já sobrevivia fazendo o que eu faço.”
“Ah, mas esse é o problema não é ?” Burought continua no seu tom frio, falsa preocupação na sua voz. “Quantos anos você tem, Arya? Mais de um século? Você não já se cansou de revirar bolsos e de fugir no escuro da noite? Como atura ainda viver como um animal selvagem sempre em migração?”
Ele se inclina no assento, um sorriso cínico nos seus labios finos enquanto captura o olhar dela. “Você já estava cansada quando eu te conheci.” Ele diz, empunhando as palavras como uma arma. “Eu pensei que você já estaria morta a essa altura, não pela mãos de outros, mas pela a sua própria...
"...Mas pelo visto você não consegue por fim a propria miseria.”
Arya permanece sem expressão na face, e parada junto à porta. O que Burought vê no olhar dela o faz sorrir ainda mais.
“Você mudou mesmo.” Ele afirma, reclinando-se na sua poltrona acolchoada. “A Arya que eu conheci não controlava tão bem as suas emoções.”
“Você me entedia, Burought.” É a resposta dela, com tom neutro, aparentemente não afetada pelas palavras dele. Mas ele não poderia perceber o quanto Arya apertava suas unhas contra o punho, a dor servindo como ancoragem.
“Ah, vamos ao negocios, então!” Ele anuncia, estendendo os braços como um vendedor que mostra seu produto.
“Veio se vingar?”
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