O Último Grande Roubo
7 6 - Falta de bebida (parte 2)
“Ah, vamos ao negocios, então!” Ele anuncia, estendendo os braços como um vendedor que mostra seu produto.
“Veio se vingar?”
Nesse instante, ambos os guardas voltaram seu olhar antes inerte para Arya. Até mesmo o sorriso de Burought diminuiu e sua expressão ficou séria, uma mão dele foi para debaixo de sua mesa, sem dúvida para alcançar alguma arma.
Arya permaneceu imóvel e sem produzir um som, mas se a tensão dos seus dentes cerrados fosse só um pouco maior, eles começariam a ranger. A adrenalina que subiu pelo seu sangue estava quase a fazendo tremer de antecipação.
Se eu atacar, talvez consiga o ferir fatalmente... mas serei morta com certeza, ela pensa, e ao contrário do que poderia-se supor, tal pensamento apenas lhe trazia estranha calma.
Mas eu... Algo se esboça na mente dela, mas o pensamento se fragmenta e quebra em mil partes antes que ela pudesse entendê-lo.
Uma risada inesperada corta a tensão da sala, surpreendendo inclusive a Arya, que parece não ter registrado que o som veio dela.
Ela relaxa minimamente a postura, e revira os olhos. “Me poupe dos clichês, estou aqui a negócios.”
"Mesmo?" Burought pergunta, no seu tom de cinismo, com talvez — talvez — um pouco de alívio. Ele relaxa as costas contra sua poltrona. "Eu pensei que seria orgulhosa demais para me procurar depois do que eu fiz com você."
Dessa vez a provocação não tem qualquer efeito em Arya, ela só registra vagamente o desejo de matá-lo, junto aos cálculos mentais que ela fazia de quantidade de peças de ouro.
"Orgulho nunca foi um dos meus defeitos."
E dizendo isso, abre a mochila e retira dela um saco que produz o característico som de metal quando manipulado. Burought faz um gesto de autoridade, levantando um braço com o punho cerrado, tranquilizando a seus seguranças.
Arya sabia que ele conhecia o som de ouro melhor do que ninguém. Em um movimento fluido ela lança o saco em direção a escrivania, e ele o captura com a palma de uma mão.
"Eu quero ir a festa de Lord Byron, hoje a noite." Arya anuncia. "E eu quero que você me diga como eu faço para entrar."
Burought sorri — um sorriso de pura satisfação — quando abre o saco e despeja as moedas douradas sobre a sua mesa.
"Nao se preocupe. Eu ainda sou o melhor o informante da cidade." Ele levanta uma sobrancelha para ela. "Mas essa quantia aqui.." — Ele gira uma moeda entre os dedos. "... Não paga nem metade do que você quer saber."
Arya sorri. "Isso porque vou te vender informação em troca, o que cobre a outra metade."
Isso parece capturar o interesse do homem, mas ainda havia um ar de desdém na sua expressão que dizia que ela ainda não tinha o convencido a negociar.
"Eu vim do norte, além das grandes planícies..." Ela comeca, para testá-lo.
"-Eu já sabia disso." Ele responde, a interrompendo. "A carruagem com que entrou na cidade é desenhada para climas mais frios."
A expressão dela endurece. "Como você soube qual era a minha carruagem?"
Será que eu levantei suspeitas no portão de entrada? Ela pensa, irritada.
"Essa informação vai ser de graça para você." Ele pisca. "Você realmente achou que as suas antigas casas não seriam monitoradas?"
Ela produz um som de incredulidade. "Você deve estar de brincadeira. Aquele senhor da vendinha de peixe, um vigia seu...?"
Burought ri. "Claro que não, tolinha. Ele é mais um honesto pescador. Mas a casa ao lado é uma das sedes da Guilda. Eu criei uma naquele lugar especialmente na possibilidade de você querer retornar para buscar suas coisas."
Mesmo assim, como algum membro da Guilda me reconheceria? Mesmo considerando que fosse um membro antigo. Ela pensa, incrédula. Eu não fiquei lá mais de 5 minutos!
"Ah é mesmo." Ela responde, ainda imersa em seus pensamentos. Tinha algumas joias roubadas escondidas no assoalho do lugar, assim como cartas falsas de títulos de nobreza. Nada muito especial. "Tinha até me esquecido."
"Bom, 10 anos é muita coisa, afinal — eu pensei que você estaria morta como eu disse. Mas essa cidade não se esqueceu de você, muito menos os membros mais antigos da guilda."
"... Nem eu, na verdade." Ela acrescenta, em tom baixo, um misto de flerte e de uma ameaça.
Arya faz uma careta de mais profundo desgosto. "Ai que nojo."
Ele ri, e balança a cabeça, como se aquilo não passasse de uma piada entre amigos.
"Na verdade foi quando você visitou a sua segunda casa que eu fui devidamente notificado."
"Como?"
A satisfação no rosto dele o faz parecer bem mais jovem, quando ele responde:
"Magia."
A palavra manda um calafrio pela espinha de Arya. Ela cerra os olhos. "Magia só pertence aos escolhidos do exército real."
"-Você ficaria surpresa..." Ele a interrompe, lançando-lhe um olhar de pena, como se não pudesse conceber o quão desinformada ela estava. "Mestiços dissidentes só crescem em número, há boatos de que até aqueles que receberam os feitiços de sua raça traíram a confiança do Rei. Boatos de que eles podem espalhar esse conhecimento ao preço certo…”
"Foda-se."
Arya responde, subitamente. "Sera que podemos voltar para os negocios?" Ela cruza os braços. "O tom da sua voz me irrita."
Burought ergue uma sobrancelha. "Vejo que continua com essa sua tendência escapista. Você não pode ignorar o fato que você é uma das últimas da sua raça aqui no reino. Talvez você seja compatível com a Herança Mágica — pelo menos você tem mais chances de ter afinidade mágica do que os sangues- mestiços."
"Não estou interessada." Ela devolve. O sorriso dele some, e ele parece genuinamente irritado. "Preste atenção, porque eu só vou dizer uma vez: O duque Barma Eisenhouer morreu recentemente."
"Quem?"
Mais um saco e jogado na direção dele por Arya. Dessa vez, o conteúdo não produz nenhum som quando atinge a madeira da escrivaninha. Burought lança lhe um olhar demorado antes de abri-lo.
"Ah." Ele exclama, não totalmente indiferente ao fato de ter se deparado com um pedaço de couro humano entre panos. "Isso é pele de...?"
"Costas." Ela informa, prestativa. "É da pele de um homem que se dizia chamar Duque Toire. Veja a marca dos piratas vermelhos.”
Burought demora olhando para os traços cor de sangue que produziam um desenho geométrico simples. Um triângulo preenchido por um xis, cercado por dois traços que cruzavam-se em uma ponta.
"De fato."
"Eu já estava procurando-os quando cheguei até a antiga casa de Barma. Esse pirata, Toire, usurpou da riqueza e do status dos Eisenhouers..."
De súbito a imagem do garoto olhando-a com olhos cheios de esperança veio a mente. Os olhos escuros deles se confundiram com outros mais claros e maiores, e ela se viu olhando para Maria de novo. Uma sensação de amargor tomou-lhe o paladar. Ela precisava mesmo de uma bebida.
"...tratava-se de uma família de novos-nobres, eles compraram seus títulos há menos de 20 anos. Tragicamente, expandindo seus negócios de transporte de carga eles acabaram tendo que negociar com os piratas. Imagino que houve um desentendimento em uma negociação e eles foram visados."
"E dai?" Era a vez de Burought ficar impaciente.
“Você sabe qual foi a última negociação que seu pai fez?”
Kyle parecia ponderar se responderia a pergunta dela.
“Eu soube que um cliente queria pagá-lo para transportar carga humana.” Ele disse por fim, receioso. “Meu pai parecia especialmente irritado por isso, porque ele sabia que isso era ilegal.”
Burought franze o cenho depois que ela reconta o diálogo.
Arya conhecia aquela expressão dele. Ela tinha o seu interesse, finalmente.
“Sei o que você está pensando. Há três possibilidades. Ou era um carregamento de escravos, ou talvez de procurados pelo governo real? Ou..." Ela pausa, dramaticamente. "...o navio seria usado para levar os próprios piratas vermelhos e associados.”
“Não sou idiota” Burought a interrompe, ríspido. “É óbvio que há apenas uma possibilidade plausível, que é a última.”
Arya sabia que ele estava acompanhando o raciocínio dela, e acrescenta, só de capricho:
“A questão é — Ela propõe — por que diabos eles não usariam seus próprios navios para carregar seu pessoal?”
Silêncio toma conta da sala por um instante. Para os dois, a resposta era apenas uma, e não precisaria ser dita em voz alta. Arya apostava que aquilo seria o suficiente para compra-lo.
O homem atrás da mesa parece ceder.
“Sua informação foi aceita.” Ela a informa, com certa relutância, mas ha um brilho nos olhos dele que a intimida. “Vou responder a suas perguntas....”
“Vou te dizer tudo o que sei sobre Byron, e vou te colocar dentro da festa dele hoje a noite. Mas do que isso, vou te dizer uma forma de você entrar em contato direto com ele...”
Um pressentimento ruim toma conta da elfa. Ela já sabia o que ele iria dizer em seguida, antes que as palavras saíssem de sua boca.
“Mas com uma pequenina condição: Quero você atue como minha informante.”
Burought sorri triunfante.
“Claro que você será bem paga pelos seus serviços.” Ele parece alegre. “Não consegui ninguém que fosse tão bom quanto você, Arya. Você entende o que quero dizer, certo?”
Imediatamente, a elfa sente a raiva que nutria por ele, quase insuportável, a fazer cerrar os dentes.
Que desgraçado!
Ele queria forçá-la a trabalhar para ele de novo, simplesmente porque ele podia.
Ele me quer submeter a humilhação de ter que me dobrar a suas ordens, porque sabe que eu não tenho tempo, contatos e opções para atingir Byron por meus próprios meios.
“Então?” Ele pressiona, prazer sádico visível em sua expressão ao colocá-la naquela situação. “Orgulho não é um dos seus defeitos, correto? Nem um dos meus…”
Nesse momento, ele se levanta de trás da sua escrivaninha. Ele contorna a mesa de vagar, como um lobo que cerca a sua presa.
Sua presença sempre foi imponente, mesmo quando ele não passava de um rato das ruas, a extrema confiança que ele irradiava ganhar seguidores sem que ele precisasse usar sua lábia. Agora mais do que isso, ele se porta como alguém que tem poder, real poder. Poder foi tudo o que ele sempre quis, e ele nunca se importou com os metodos. Quando ela percebeu isso, já era tarde, e ele a traiu como descarta algo que não precisava mais.
É naquele momento que ela repara no grande anel dourado que ele carregava no dedo, com um familiar símbolo. O mesmo que estava no escudo da estátua na entrada de Ravena.
Ele não havia se tornada alguém simplesmente poderoso e importante. Ela conclui com nojo. Ele agora é o prefeito da cidade.
O tempo parece passar mais devagar. Ao vê-lo vindo-lhe em sua direção Arya tem uma intuição, tão precisa quanto o corte de uma lâmina.
Eu ainda vou matá-lo.
A certeza de tal fato era tão grande, que a segurou parada mesmo quando ele se aproxima o suficiente para ela enxergar-se no reflexo dos olhos dele.
Os dois se encaram.
“Vamos esquecer tudo o que aconteceu entre nós, e começar de novo, sim?” Ele propõe, ao mesmo tempo que ergue o braço rumo a cabeça dela.
Arya saltou para trás como um animal selvagem, uma pequena lâmina brilhou entre seus dedos quando ela cerra os punhos.
“Não me toque.”
Ele sorri para ela, apesar da expressão de dor. Ele avalia o corte na palma de sua mão, lentamente escorrendo sangue. Os guardas não se moveram atrás dele, não acompanharam o rápido ataque da elfa.
“Eu só queria pegar meu chapéu de volta.” Ele responde, em falsa inocencia.
Arya sorri, ela sabia que ele iria querer seu pertence de estimação de volta. Ele ainda era tão infantil quanto ela o conheceu. Ela poderia jogar esse jogo.
“Eu aceito seus termos.” Arya concede. “Mas na condição de que eu te devolva seu chapéu no momento que eu escolher, Burought.” Ao ouvir o nome dele na voz da elfa, algo muda na expressão dele.
“Você vai saber quando.”
… Vai ser quando nos encontrarmos de novo, vou me vingar de tudo o que você me fez.
Os dois se encaram sorrindo, com expressões quase idênticas superioridade e ganancia, permeadas pelo palpável desejo de fazer causar ao outro sofrimento, quanto mais fosse possível.
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