"Estou aqui..." Ele suspira, implorando, olhando na direção da elfa bem a tempo de ver a porta da rude casa de madeira ser aberta por uma mulher jovem que, depois de uma ínfima pausa, pula no pescoço de Arya.

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Se Arya notou Kyle saindo da parte de trás da carruagem para sentar se ao seu lado na frente, ela não demonstrou. Ele também nao notou a expressão tensa na face dela à medida que eles avançavam pelas ruas ladrilhadas do centro de Ravena. Os dois estava perdidos em seus próprios pensamentos e, com sucesso, ignorando-se.

Para Kyle, o foco era absorver o máximo de informações visuais possíveis. Ele não sabia o motivo que levou Arya a traçar um trajeto sinuoso pela cidade mas graças a isso pode passar por todos os principais distritos dali.

Logo que passaram pelos grandes portões de madeira, (Arya sorriu e desejou bom dia aos guardas em um tom de voz que deu lhe nojo), Kyle se deparou com uma praça circular com a estátua de um homem erguida bem ao centro. Outras carruagens e também cavaleiros levantavam poeira e marcavam o chão de terra batida a medida que se dispersaram para tres direções que se encontravam aos dos pés da estátua. A movimentação o impediu de ler a inscrição que identificaria a ilustre figura, mas o símbolo no escudo erguido rente ao peito da estátua não lhe era estranho. Mais uma vez Kyle desejou ter em mãos um de seus livros de estudo.

Em seguida, eles foram para a área comercial da cidade. Estava acontecendo uma feira pelo o que ele pode deduzir. Diversas barracas de organizavam em inúmeras fileiras, largas o suficiente para permitir a passagem de carruagens em dois sentidos. O barulho era incessante. O som predominante era o de conversas, de transações comercias ou do simples atendimento de clientes pelos comerciantes, as notas mais altas ficando por conta dos vendedores ambulantes que esbravejavam suas ofertas. Pessoas se apinhavam próximos aos balcões ou andavam em ritmo moroso bem rente a carruagem deles, como que uma manada de gado, espiando com interesse os produtos expostos.

Kyle fazia o mesmo, quase que desiquilibrando do banco para tentar olhar dentro das barracas. Ele viu diferentes tecidos, iguarias da culinária, objetos reluzentes de metal, animais estranhos enjaulados, mas tudo muito de relance e brevemente, pois na maioria das vezes os corpos das pessoas servia como uma barreira impenetrável ao seu olhar.

Por esse motivo ele logo mudou o alvo de sua observação, começando a reparar nas pessoas. Julgando pelas roupas simplórias, grande parte da massa era constituída do medio cidadão: comerciante, camponês ou pescador. Mas havia exceções, e eram essas que despertavam o interesse de Kyle: Ele viu um homem gigante, com mais de dois metros e musculoso, vestido de uma armadura de peles, negociando em um canto. Viu meio-elfos com armaduras brilhantes andandos juntos, com o passo cadenciados, silenciosamente observando a feira. Era a primeira vez que ele via soldados reais. Uma memória imediatamente veio a tona:

Uma mão apoiada no queixo, a pena de escrever seca e solta sobre as folhas. La fora Kyle via através da grande janela um belo céu-azul com nuvens.

“Por que os soldados reais sao todos meio-elfos?” Ele indagou ao seu tutor, no momento se cansara de fazer a lição e buscava passar o tempo com perguntas.

“Isso está relacionado com as Guerras Elvas, que duraram mais de um século.”

Kyle franziu a testa, porque seu tutor não estava olhando para ele quando respondeu. “Relacionado como?” Ele pressiona.

Seu tutor ainda evita seu olhar. “Você vai saber quando estudarmos esse assunto.”

“Mas…”

“Termine sua lição, milord.”

Kyle olha pra trás, mas os soldados já sumiram de sua visão há muito tempo. Um pouco atordoado pelas memórias, ele retorna a sua observação, não sem antes pensar com rancor:

“Ele nunca mais vai me responder aquela pergunta.”

O próximo era claramente o distrito comercial abastado. Apesar do casarão de sua família em Risenberg não ter o glamour desses que erguiam recuados atrás de portões bem guardados e belos jardins, moradas nobres não eram muito diferentes, de um lado ou do outro da planície.

Olhando para elas, Kyle foi assaltado por uma nostalgia amarga. A ostentação que seu pai proporcionava com os negócios no seu auge agora lhe parecia uma tolice digna de repreensão. Talvez por ter sido usurpado de sua fortuna, e por estar do lado de uma ladina, aquelas casas sob seus olhos pareciam mais como alvos, chamativos para criminosos e interesseiros. Era fato que se sua antiga morada nao fosse tão digna de admiração ela não teria sido usurpada pelo Duque, e ele forçado a trabalhar como escravo nos corredores que o viram crescer. Ele passou o olhar para suas mãos, focando se no anel avermelhado no dedo médio, um dos poucos pertences que Arya não demonstrou nenhum interesse, e coincidentemente, era o anel da sua família, os Eiserhouers.

Quando eu recuperar meu título, meu título de Duque, ele pensou, girando o anel sobre sua pele com os dedos, nao vou gastar minha riqueza com aparências.

Foi nesse ponto do tour deles pela cidade que Kyle se lembrou dos problemas mais imediatos, e virou para olhar para Arya. Ela tinha o rosto virado para o lado, sem dúvida olhando para a casa a sua esquerda. Kyle acompanhou seu olhar e logo se distraiu com a bela arquitetura jonica dos pilares da entrada, esquecendo de perguntar para ela onde que se instalariam.

A pergunta surge bem depois. Depois de já terem passado pelo porto, onde Kyle foi apresentado ao desagradável cheiro de pescado apodrecido, e aos cortiços que se amontoavam próximos da beira mar, e seguirem rumo a leste, quando as plantações verdes se aproximavam cada vez mais no horizonte que Kyle eh retirado de seu estupor de interesse histórico.

"Arya, mas onde está afinal essa sua casa?" Ele pergunta, a cada palavra mais ciente do fato que eles rodaram por cerca de uma hora. Quando ela se vira para olhar para ele, ele se depara com um olhar distante e uma ausência de expressão na sua face. Kyle involuntariamente reclina seu tronco para longe dela.

Sua tensão é apenas palpável por um segundo. Arya está olhando para a estrada de terra em seguida como se não tivesse o visto. No entanto, para sua surpresa, sua voz se une ao som das rodas de madeira e dos cascos dos cavalos pela estrada.

"Eu ja descartei três opções, restam duas..."

Ela tem cinco casas? Kyle pensa, incrédulo.

"Mas essas duas sao de longe ideias." Ela exala rispidamente pelo nariz, apertando os olhos e franzindo a testa, o que para Kyle fazia parecer vagamente com uma ave de rapina prestes a dar o bote. "... Nao tenho tempo para perder com esses cretinos... E a burocracia que viria..."

Suas palavras chegam a resmungos e depois silêncio. Ela sem dúvida continuou seu discurso mentalmente, deixando Kyle sem a chance de entender. Acostumado com esse tipo de maneirismos, ele também se foca na estrada e nas sua próprias preocupações, deixando o silêncio retornar.

Nao mais do que 15 minutos depois, Kyle está tentando distrair um cachorro preto que agitadamente late e lhe dá patadas na sua barriga. Ele começa a marchar pela grama para se unir a Arya, ou pelo menos tenta, como se animado obstaculo nao existisse, mas sem qualquer intervalo, patadas agora nas suas coxas mostram seus esforços inúteis. Ele suspira, sem qualquer esperança, quando vê outro cachorro surgir espantando as galinhas que ciscavam o terreiro, correndo em sua direção. Juntos, os dois animais o espateiam sem piedade, babam e sujam a única calça linho que ele resgatou de seu closet.

"Arya...." Ele suspira, implorando, olhando na direção da elfa bem a tempo de ver a porta da rude casa de madeira ser aberta por uma mulher jovem que, depois de uma ínfima pausa, pula no pescoço de Arya.

Kyle assiste a cena com olhos arregalados: Arya está sorrindo e rindo, dando tapinhas no ombro da mulher morena que está a abraçando. Quando se separam, fica claro que a morena não é mais do que uma moça, provavelmente nao muito mais velha do que ele.

"Arya! Eu sabia que iria voltar!" Ela exclama, como se tivesse recebido um presente inimaginável.

"Pensei que você não fosse se lembrar mais de mim, Miria." Arya responde e, mesmo com um sorriso no rosto ela ja nao parece mais tão bem humorada. "Como você cresceu..."

Como que ensaiado, a medida que Arya fala ela pisa para frente e Maria para trás, e logo ambas estão fora da visão de Kyle.

Ele fica alguns segundos paralisado, entre surpresa e incredulidade, sendo incapaz de se acostumar em ser ignorado tão facilmente. É especialmente difícil agora, com dois animais imundos, provavelmente moradas de pulgas e outros parasitas, se jogando em cima dele.

A porta se fecha com um baque de finalidade.

Irritado, ele empurra o nariz do um cachorro que tentava cheirar sua perna enquanto o outro o pula nas suas costas.

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