O Último Grande Roubo
5 4 - Lembranças ruins
De qualquer forma, havia mercenários na cidade. Ela podia sentir o cheiro deles de longe, típico odor de quem não se banha a tempo, sangue seco, e poeira.
Arya fecha a porta de trás de si. O reflexo a surpreendeu, porque ela o fez inteiramente para impedir o garoto de ouvir a inevitável conversa que transcorreria. Trazê-lo para a casa das garotas era de longe a situação ideal, mas ela não tinha outra opção.
Também a surpreendeu a forma que suas mãos foram para seu cinto, onde estava seu punhal, quando sem aviso, a mulher pulou para abraçá-la. Felizmente, bem a tempo ela relaxou sua postura defensiva, sua tensão se esvaziando em um gargalhada, não totalmente sem humor. Tinha algo de cômico no fato que um segundo a mais sem que ela a reconhecesse, e a garota teria sua barriga furada. Era Maria, ainda que infinitamente mais velha. Arya a reconheceu pelos olhos azuis claros e pela voz, mas ela ainda tinha dificuldades de conciliar a criança que não alcançava a altura da sua cintura nas suas lembranças com a mulher na sua frente.
Eu realmente estive muito tempo fora. Ela pensa. Tudo isso parece outra vida.
Havia alguma reminiscência infantil na forma que Miria sorria para ela, como se ela fosse um personagem mágico das histórias de dormir que ela contava para a garota. "Eu nao acredito." Ela disse, ainda estupefata. "Você voltou! Depois de dez anos! Se Ana estivesse aqui agora...!"
Aquele nome trouxe mais lembranças. Lembranças que Arya não tinha tempo para recordar. Ela ao invés disso olhou a seu redor, reparando no cômodo simples em que se encontravam, nao muito diferente do que ela conheceu: uma mesa de quatro lugares a esquerda, um fogao de lenha apagado ao lado, todo o tipo de utensilhos dispostos em uma prateleira, um corredor próximo a janela levava para duas portas entreabertas. Os quartos, sem dúvida. Era deles que ela precisava.
"Me perdoe, Maria..." Ela disse, ainda mantendo o sorriso. "Mas vamos ter que deixar a conversa para depois."
A moça fez uma exclamação de surpresa. "Você está sendo seguida...?" Ela perguntou abaixando o tom de voz.
Arya riu, se sentindo bem distante da situação. Meu deus, ela não estaria ali se pudesse evitar. "Nao, eu só estou com muita pressa. Eu estou atrasada para uma reunião importante com colegas de trabalho..." A mentira saiu sem qualquer esforço. Como ela esperava, Miria entendeu o que ela quis dizer.
"Ah, entendo!" Ela exclamou sorrindo. "Você não mudou sua linha de trabalho, mudou?"
Arya sorriu de volta, e com um ar de displicência se permitiu sentar no sofá de pano. "Não. Só fiquei ainda melhor." Vendo que Maria permaneceu parada no lugar, sua expressão muda: "Você se importa?"
De acolher alguém que ganha a vida roubando a dos outros? O resto da frase ficou sem ser dito.
"Não! Claro que não !" Ela exclamou, sentando-se ao lado de Arya, e puxando as suas mãos junto das suas. O contato novamente exigiu autocontrole para a elfa não reagir. "Nós devemos tudo a você, e eu nunca irei me esquecer."
"Ana sempre me disse que você retornaria um dia, e que eu deveria lhe receber como uma rainha."
Arya desviou o olhar, prendendo o fôlego. "Por que Ana não pensou em ela mesma me receber?" Sua pergunta a surpreendeu, ao pensar que ela ainda se importava com esses fantasmas do passado.
"Oh, Arya..." Maria apertou as suas mãos. "Ela morreu há cinco anos, foi tuberculose."
Ah, ela não queria continuar aquela conversa. Arya olhou para as mãos que a prendiam sentada ali, forçada relembrar o passado, maos muito mais delicadas que as suas, mas ainda assim surpreendentemente ásperas.
"Você está trabalhando aqui no campo?" Ela indagou, mudando o assunto.
"Sim, eu e meu marido temos uma horta."
A menção de marido, a postura de Arya se enrijeceu imperceptivelmente. "Ah! Você se casou! Meus parabens!" Ela exclamou livrando a sua mão para bagunçar a franja da moça, assim como ela fazia quando ela crianca.
Arrancando uma risada de Maria, seu rosto se corou em satisfação. "Muito obrigada. Eu nunca pensei que fosse conseguir me casar! Rachel também se casou, sete anos atrás, Yulia voltou para a sua antiga família, e Tabatha..."
"Perfeito!" Arya exclamou, interrompendo a moça, sorrindo. Ela se levantou e tirou um dos vários anéis em sua mão. Era dourado com uma pedra azul encravada, delicado como uma aliança de casamento. "Aqui está meu presente: Meus parabéns, de novo!"
Maria recebeu o anel depositado em sua palma com espanto. "Mas Arya, isso custa uma fortuna!"
"Isso nao é nada pra mim." Ela disse, sem qualquer pretensão na sua voz. Fechou os dedos da moça sobre a joia, e olhou para ela, diretamente pela primeira vez:
"Eu preciso de um favor seu."
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A caixa foi colocada no chão com um baque, amplificado pelo piso de madeira velha.
O barulho fez Arya franzir a testa e levantar os olhos. Kyle espanava suas roupas, olhando fixamente para frente, enquanto ele empurrava com o pé caixa que ele depositou para alinhá lha com as outras descarregadas da carruagem.
Arya voltou a sua atenção para a mochila que ela estava esvaziando momentos antes, ignorando a eminente explosão dele. Ela tirou as provisões de viagem que carregava, e as substituiu por dois sacos de moedas de ouro. Tres. Ela acrescenta mais um, apesar de não esperar gastá-lo, só por precaução.
"Ela é uma pessoa honesta." Kyle disse de repente, fazendo Arya parar.
"Quem, eu?"
Kyle faz um somzinho de indignação que a faz sorrir. "Estou falando de Maria, obviamente."
Ela suspira, resignada, em resposta. Ela sabia que não demoraria muito até que ele a questionasse. Para ele, a situação provavelmente era vista sob as lentes de alguém que acreditava que ela era a pior espécie de aproveitadora. Mas ela não era tão ruim assim, fato era que se Arya pudesse escolher, ela não estaria se beneficiando da boa vontade alheia. Principalmente de uma família.
"Sim..." O que dizer para ele? Ela simplesmente não se deu ao trabalho de pensar em mentiras antes e, agora, ela dependia do improviso. "Vou te ensinar outra coisa. No nosso ramo de negócios... é preciso se associar com o todo tipo de pessoas, até com as mais decentes, porque todos têm algo a oferecer." Ela estava se sentindo particularmente inspirada, então ela acrescentou. "Principalmente a ignorância, ah e a tola crença na bondade de seu caráter."
A expressão de nojo dele a fez rir. Aha, está feito, ela pensou, entretida.
"Você não deveria estar nos ajudando a descarregar?" Ele perguntou ríspido, mudando de assunto como ela esperava.
"Eu não tenho tempo para isso." Ela respondeu, alegre. E desejando que ele saísse para evitar mais perguntas, ela começou a desabotoar a frente de seu vestido, como se fosse se despir naquele momento.
E Kyle some rapidamente, como um bom cavalheiro que foi educado para ser, mas fecha a porta atrás de si com força. Arya ri, como ele é engraçado!, com a satisfação infantil de irritar o garoto.
No entanto, aquela conversa não poderia ser evitada indefinidamente. Ela sabia que, se Maria ainda era falante como ela lembrava, Kyle cedo ou tarde acabaria ouvindo histórias suas que agora ela preferiria que caíssem no esquecimento. Eram as histórias que a pintariam como qualidades que ela não tinha, heróicas ou altruístas, só de imaginar tal cena Arya se contorcia em mortificação. Ela não sabia ao certo a origem do sentimento, e como nao queria descobrir, então ela simplesmente ignorou-o.
As coisas que ela não podia fazer eram evitadas, porque ou elas se arranjariam por si mesmas, ou elas nunca estariam dentro do seu alcance. Se ela era incapaz de lidar com um problema, o ideal era evitá-lo até que ele deixasse de ser relevante. Esse era o seu estilo.
Arya começou a se despir. Ela substitui o vestido de camponesa que a auxiliou a passar sem comoção pelos portões da cidade por algo mais seguro em caso de combate. Braceletes de couro revestiam seus braços, no punho luvas com dedos a mostra e uma placa de metal no dorso da mão, calças de couro escuras e uma armadura de couro batido, marrom quase negro. Era reforçada no peito e na virilha e amarrada na lateral. Era suficientemente leve para não atrapalhar seus movimentos mas não era grossa de forma que pudesse parar uma lâmina. Todos os ladinos tinham o mesmo problema: a manutenção mobilidade prejudicava a defesa. Por isso que a melhor defesa de todas era nunca ser pega.
E se ela não pudesse evitar o combate, que ele terminasse rápido com um golpe fatal. Arya apoiou os pés sobre uma caixa, enquanto colocava uma lâmina ao lado de sua coxa esquerda. Arya a chamava carinhosamente de Agulha, por ser mais fina que uma adaga normal. Na coxa oposta ela prendeu outra amarra de couro, e essa carregava três pequenas lâminas, em formato de estrela de quatro pontas, para lançamento.
Em seguida ela colocou suas botas. Elas eram pretas, iam até o seu joelho, acolchoando-o a região, Eram mais macias na sola para evitar que seus passos fizessem barulho. Mas quando realmente precisava ser silenciosa, ela tirava os sapatos. Um cinto de utilidades foi colocado na sua cintura. Era ali que se pendurava uma adaga tradicional e uma bolsinha onde carregava dois frascos de veneno. Nas costas acoplou seu arco longo, e uma aljava.
Talvez todo aquele equipamento fosse excessivo, mas ela preferia prevenir a remediar. Havia um movimento estranho na cidade, que a notou enquanto passavam pelos bairros da cidade em busca de uma casa de Arya que fosse utilizável — e ela ficou exasperada com a prova do tempo: apesar de ser a legítima proprietária dos imoveis, uma de suas casas virou uma vendinha de peixe, outra um cortiço. Uma terceira ela não conseguiu encontrar, por um lapso de memória e também devido às mudanças que a cidade sofreu em uma década. A quarta foi a casa de Ana. Uma quinta casa, o mais correto seria dizer esconderijo, ainda faltava visitar, mas isso ficaria para um dia menos cheio.
De qualquer forma, havia mercenários na cidade. Ela podia sentir o cheiro deles de longe, típico odor de quem não se banha a tempo, sangue seco, e poeira. Arya franziu a testa. Isso não era nada bom.
Ela odiava mercenários. Mais do que isso, odiava concorrência. Tamanha comoção de maus elementos na cidade só podia significar abundância em número ou em qualidade de propostas. Quais das empreitadas era o verdadeiro interesse de lord Byron? Ela não tinha tempo nem paciência para gastar semanas se infiltrando no grupinho de pirataria dele, roubando de migalha em migalha até que conseguisse o respeito do lord.
Arya olhou para a janela, vendo Maria conversar animadamente com Kyle do lado da carruagem. Ela deveria sair antes que eles entrassem. Ela espanou um pano preto jogado por cima de um baú, e jogou-o sobre seus ombros, amarrou uma bandana da mesma cor na sua cabeça e, para terminar, por cima colocou o chapéu roubado de Burought.
Intuicao lhe dizia que Burought ainda estava vivo e ativo no ramo. Apesar do rancor que nutria por ele, Arya sabia que ele era bom no que fazia, e queria consulta-lo. Talvez uma pequena parte dela quisesse reve-lo por pura nostalgia, mas outra parte — a mais importante — queria ter sua vendetta. E ele certamente pensava o mesmo.
Ela viu seu reflexo na janela e sorriu. As chances não estavam a seu favor, mas era justamente nessas situações que ela se sentia viva.
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