O Último Chamado
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Geeente, esse capítulo tem pouco mais de 7 mil palavras! FICOU GRANDE, MAS EU AMO CAPÍTULOS ASSIM! AAAAH! Fica por conta desse atraso de uma semana para atualizar, ok? Bem, cheguei ao décimo capítulo, e falta muita coisa para acontecer.
Espero que vocês leiam com atenção, porque esse capítulo tem informações MUITO importantes sobre todo esse mistério! :]
Boa leitura para vocês!
PS: desculpem a demora para postar o capítulo!
Eram quase onze da manhã quando a campainha soou na casa de Thomas. Guido, afundado no sofá da sala, foi trazido de seus devaneios a respeito de sua suposta culpa na morte de Nate e Ronald. O som da campainha soou novamente. Guido se levantou disparando um sonoro “já to indo!”, e se dirigiu rumo à porta. Ao abri-la, imediatamente, sentiu uma profunda paz ao vislumbrar seus pais e sua avó.
— Não acredito que vocês vieram! — soltou Guido, com um sorriso inigualável brilhando em seu rosto. A primeira pessoa que abraçou foi sua avó. Em seguida, seus pais o abraçaram, e Carrie pôs-se num ritmo frenético a examinar o filho a fim de se certificar de que tudo estava bem, e ele estava inteiro. Praticamente esqueceram-se de que estavam parados na varanda da casa.
— Guido, como isso foi acontecer?... — dizia sua mãe, abraçando o filho novamente. Eliot soltou um riso.
— Acho melhor entrarmos. — disse o pai.
Minutos depois estavam reunidos na sala.
— Onde está Thomas? — perguntou Eve, calorosa. Guido olhou a avó.
— Ele foi para o consultório. — contou — Ele queria cancelar as consultas da manhã, todas.
— Ele provavelmente está assustado com tudo isso, Guido. Todos nós estamos. — comentou Eve. E nesse instante, Carrie fitou o filho. Mas quem falou foi Eliot.
— Filho, você se lembra de alguma coisa de ontem, antes de você apagar?
Guido ponderou, por um instante. Na realidade lembrava-se de tudo até o momento em que caiu dormindo no escritório. Já havia relatado a Thomas a experiência estranha, mas não se incomodou de repetir tudo para seus pais e sua avó. Afinal, nem ele mesmo conseguia acreditar no que se passara. Guido contou tudo para sua família, em detalhes. No fim, Eve percebeu algo de errado na expressão do neto, mas achou que não fosse aquele o momento propício para abordá-lo. Ela, com toda a sua experiência, e por conhecer tão bem aquele menino, sabia exatamente que ele se sentia imensamente culpado pelas mortes de Nate e Ronald. Mas mais do que isso, Eve conseguia sentir a loucura que se iniciava no coração de Guido. E como nunca, ela sentiu que precisava conversar com ele. Mas, deixaria isso para mais tarde.
— O que foi, vó? — disparou Guido. Carrie e Eliot olharam para Eve.
A avó balançou a cabeça.
— Nada. Só estou pensando em como nós tivemos sorte. O poste caiu do lado certo. — disse Eve.
— Graças a Deus! — exclamou Eliot, soprando o ar em seguida. Guido riu daquilo. Até o momento, ele não tinha pensado exatamente na sua sorte. Só conseguia pensar na culpa que sentia. E no medo que lhe consumia. Meus pesadelos podem matar pessoas. Mataram Nate e Ronald...
— Guido? — chamou sua mãe, de forma calma.
Guido pareceu saído de um transe. Olhou a mãe, e sorriu.
— Desculpe, estou pensando em tudo isso...
Foi rápido, mas Guido conseguiu captar uma furtiva troca de olhares entre sua mãe e sua avó. Elas estão me analisando. Guardou para si.
— Você já almoçou filho? — perguntou Eliot.
— Não. — respondeu ele. — Mas estou pensando em sair pra comprar a comida, e trazer pra comermos aqui. Aproveito e compro pro Thomas, ele deve chegar daqui uma hora, mais ou menos. Tem um restaurante novo a uns três quarteirões daqui. Pode ser pra vocês? — perguntou ele.
— Tudo bem. Mas eu levo você. — disse Eliot, passando a mão carinhosamente pela nuca do filho.
— Ok. Eu vou trocar de roupa, volto já. — disse o arquiteto.
Guido não levou dez minutos para se vestir. Colocou uma roupa simples, e um tênis. Desceu e encontrou seus pais e sua avó conversando sobre qualquer coisa na sala. Naquele instante, Guido sentiu uma grande paz dentro de si, e pensou em como seria bom ter seus pais e sua avó por perto, assim como tinha Thomas. Pensar em Thomas fez o coração do rapaz bater mais forte.
— Mãe, vocês vão dormir aqui em casa hoje, não é? Não tem lógica voltarem pra Hither Hills, são três horas de viagem...
Carrie contraiu as sobrancelhas.
— Filho, nós até trouxemos roupas de dormir, já estávamos com a intenção de voltar amanhã, mas pensamos que ficaríamos essa noite no seu apartamento. Será que o Thomas não ficaria incomodado?...
E Guido soltou uma risada.
— O Thomas? Incomodado com vocês? Nunca, mãe! O Thomas adora vocês, ele mesmo me pediu pra acomodá-los nos quartos vagos lá em cima. — Guido olhou sua avó, e piscou para ela. — Fora que seria muito bom se a dona Eve fizesse aquele chocolate quente que só ela sabe fazer...
Eve riu quando Guido a abraçou e lhe deu um beijo no rosto.
— Tem os ingredientes? Se tiver, eu faço! — disse a avó.
— Não, eu e Thomas evitamos açúcar — ele riu. — Mas é uma ocasião única, e já que eu e meu pai vamos sair agora pra trazer comida, posso aproveitar e comprar tudo. — disse ele. Eve assentiu.
— Então eu faço. — ela soltou uma risada. Antes de saírem para comprar a comida, Guido levou a mãe e a avó para o segundo andar, e lhes mostrou os quartos que ficariam. Eram próximos da suíte principal, onde ele dormia com Thomas.
Quando os dois saíram, Carrie e Eve ficaram sozinhas. Mãe e filha entreolharam-se sabendo o que uma e outra pensava, e foi inevitável que não tocassem no assunto. Estavam num dos quartos. Eve, sentada numa poltrona de couro marrom, macio, e Carrie na ponta da cama.
— Mãe, o que a senhora acha? — disparou a mãe de Guido. Estava muito séria.
Eve deu de ombros.
— Ele está se culpando, eu pude ver isso nos olhos dele. Na verdade, acho que o Guido está muito mal. E o pior é que ele está forçando para parecer que está bem. — ela deu um resignado ar de riso no final. Carrie anuiu.
— Eu também achei isso. — disse ela. — Estou muito preocupada com meu filho, mãe. Eu sei que isso não vai fazer bem a ele...
— Carrie, minha filha, você sabe o que temos de fazer. Precisamos contar ao Guido. Ele precisa começar a lutar pela própria sobrevivência, é um direito que ele tem...
Ouvir aquilo fez Carrie sentir-se tensa. Com os dedos das mãos, arrastou os cabeços para trás das orelhas e contraiu os lábios. Olhava para o chão.
— Eu tenho medo de como ele vai reagir quando souber, mãe. Não quero que ele ache que o amo menos por isso...
Eve balançou a cabeça.
— Conheço o meu neto. Ele é inteligente, e é muito forte. Não vai pensar isso, ele sabe que você e o Eliot o amam muito.
— Mãe, o Gui pensa que eu e o Eliot somos os pais biológicos dele. Há vinte e oito anos que ele acredita nisso...
— Carrie, o Guido não é mais criança. Ele é um homem feito. Ele vai reagir com maturidade, eu acredito nisso. Mas, quer saber? — Eve, no fim das contas, também estava tensa. Suspirou. — dizer ao Guido que ele é adotado, nesse momento, não é uma questão de escolha. É uma questão de saída. É a nossa saída para ajudá-lo. — disse ela. Em seguida, as duas fizeram silêncio. Carrie não conseguia dizer nada, porque a hipótese de ter de contar a verdade para o filho era, no mínimo, assustadora demais.
Embora Eve e Carrie estivessem sozinhas no quarto, a lustrada porta de madeira estava entreaberta. Elas não viram, nem ao menos desconfiaram, mas as últimas palavras de Eve tiveram um terceiro ouvinte.
Durante o intervalo para o almoço, Thomas decidiu ir a sua casa para ver Guido. Quando chegou, deixou o carro estacionado no acostamento da rua. Não precisaria abrir a garagem já que teria de voltar para o consultório. Logo, o portão automático não fora acionado, e sua chegada não provocou ruídos. O psicólogo entrou em casa e subiu as escadas rapidamente, pensando que encontraria Guido deitado na cama, tal como o deixou quando saiu por volta das nove. Mas, talvez por uma grande ironia, antes que ele pudesse chegar até a suíte, ouviu vozes vindas de um dos quartos de hóspedes, e se aproximou com o impulso de verificar quem estaria ali. Sabia exatamente que Eve e os sogros viriam de Hither Hills, mas não viu nenhum carro parado quando chegou e, portanto, não suspeitava de que já estivessem lá. Agora, reconhecendo as vozes de Carrie e Eve, teria entrado no quarto para cumprimentá-las, mas as palavras que ouvira o detiveram, e ele não conseguiu se mover. “Carrie, o Guido não é mais criança. Ele é um homem feito. Ele vai reagir com maturidade, eu acredito nisso. Mas, quer saber? Dizer ao Guido que ele é adotado, nesse momento, não é uma questão de escolha. É uma questão de saída. É a nossa saída para ajudá-lo.” A respiração de Thomas enfraqueceu, por um momento, devido às batidas aceleradas de seu coração. Não era nenhum absurdo o fato de alguém ser adotado, mas aquele era um contexto diferente. Era uma questão que envolvia muitas outras. E, inicialmente, Thomas quis entrar e fazer perguntas. Mas não conseguiu. Em lugar disso, deu meia volta. Momentaneamente, não soube para que direção seguir. Sua mente foi tomada por uma preocupação alarmante com Guido. Como ele vai reagir?, pensou. Foi para a sua suíte, mas não chegou a entrar. Da soleira, viu que Guido não estava na cama, e rapidamente deduziu que ele nem estivesse em casa. Elas não falariam disso com ele em casa.
Thomas voltou para o primeiro andar, e sentou-se no sofá. Baixou o rosto sobre as mãos, e ficou assim por um tempo. A primeira decisão foi de que não falaria nada para Guido, embora nunca escondesse nada do amado. Mas é que seu senso ético praticamente berrava que aquele era um assunto que dizia respeito, primeiramente, a Carrie e Eliot. Embora, é claro, sentisse muita piedade do namorado porque temia pela reação dele. Guido já havia passado por muitas coisas nos últimos dias, como aquela notícia seria recebida? E, com muita certeza, Thomas sabia que Guido estava se culpando pelas mortes de Nate e Ronald. Era visível, principalmente quando o arquiteto tentava sorrir.
Passados uns vinte minutos, os pensamentos viajantes de Thomas foram interrompidos pela porta principal da casa, que se abriu. O coração de Thomas saltou quando ele viu Guido entrar, seguido pelo pai, Eliot. Eles pareciam animados e conversavam qualquer coisa. Quando Guido viu o namorado, sorriu alegremente.
— Faz muito tempo que você chegou?! — perguntou o arquiteto, entrando e depositando as bolsas com a comida sobre um aparador. Thomas não respondeu. Levantou e foi na direção de Guido. Abraçou-o, apertado. Era como se Eliot nem estivesse ali, mas estava, e com um divertido ar de riso.
— Tudo isso é saudade? Ele já está de volta, Thomas. — brincou ele. Rapidamente, Thomas e Guido se afastaram, e o psicólogo cumprimentou seu sogro, tentando muito parecer simpático, agir como se não soubesse absolutamente nada. E conseguiu, pelo menos para Eliot que não percebeu nada errado. Mas Guido...
— Está tudo bem? — perguntou o arquiteto. Thomas assentiu com um aceno.
— Vou levar essas bolsas para a cozinha. — disse Eliot, deixando os dois ali. Thomas segurou a mão de Guido, e lhe deu um beijo na boca, apaixonado e preocupado. Você é a minha vida, sussurrou no ouvido de Guido, provocando arrepios no namorado. Guido sorriu para ele.
— E minha vida é você, Thomas. — respondeu, e em seguida beijou Thomas, apaixonadamente. Quando se afastaram, Guido mirou bem no fundo dos olhos do amado, e soube que havia algo que não estava bem. Suspirou, e tentou rir. — O que aconteceu? Não quer me contar?
Thomas deu de ombros.
— É só preocupação. Eu cheguei e não te encontrei... você não dormiu, né? — questionou o psicólogo. Guido meneou a cabeça. É que, mesmo Thomas ainda não conseguindo aceitar totalmente essa história de pesadelos ferindo Guido, (e para dizer a verdade, o psicólogo ainda tentava encontrar outra explicação mais cabível), não queria que o amado sofresse com aqueles sonhos ruins, e por isso, lhe pediu para que não dormisse enquanto estivesse sozinho.
Guido soltou um risinho.
— Não dormi, não se preocupe. — disse ele. — Fiquei deitado assistindo televisão, e depois desci. Vim pra sala, e me joguei nesse sofá. — apontou para o mobiliário. — Logo depois, meus pais e minha avó chegaram. Você as viu?
— Não. — disse Thomas. E só disse isso.
— Elas devem estar lá em cima. — disse Guido.
— Onde você e seu pai foram? — perguntou Thomas.
— Fomos comprar o almoço num restaurante que abriu aqui perto, na semana passada. E passamos rapidamente no mercado. Só isso. — Guido estreitou os olhos. — Tem certeza que você está bem? Parece tenso...
Thomas forçou o sorriso.
— Não consigo mentir pra você. — disse o psicólogo. E Guido assentiu. Agora era oficial: algo estava errado.
— Me diz, por favor. — pediu Guido. Thomas suspirou. Não podia falar a verdade. Não podia mesmo. Mas também não queria mentir para Guido...
— Nós vamos conversar, eu prometo. Mas antes eu preciso organizar tudo aqui dentro, entende? — disse Thomas, apontando para o próprio coração.
Guido gelou. Ele vai terminar comigo.
— Você vai terminar comigo? — disparou o arquiteto. E, apesar de tudo, Thomas não conseguiu segurar a risada. Guido, pelo contrário, não riu. — Não é engraçado... o que eu fiz?
Thomas se aproximou de Guido com calma, e colou seus lábios nos dele. O beijo trouxe uma onda de eletricidade tão forte nos dois, que foi difícil controlar os impulsos do corpo. No fim, eles se olharam, bem profundamente. E, tão sério como conseguia ser em alguns momentos, Thomas disse: — Eu sou completamente entregue a você. Eu sou completamente apaixonado, louco, desesperado por você, Guido. Não estou confuso em relação a nós. Você é meu, e é só meu. Eu sei que ninguém tem dono, mas você é meu. E eu sou teu. Você foi construído pra mim. Entende isso? — e sorriu. E seu sorriso tão lindo fez com que Guido sentisse lágrimas tocarem seus olhos. — Eu te amo, seu bobo. — Thomas puxou Guido para si, e o abraçou. E o arquiteto relaxou naquele abraço. É que o perfume de Thomas era o melhor cheiro do mundo, e seu abraço, o lugar mais seguro. De repente, a sua culpa por Ronald e Nate se foi. E seu coração estava leve novamente, como quando era criança.
(...)
Quando retornou ao consultório, Thomas encontrou Anne, a secretária, fazendo algumas anotações em uma agenda. Ao passar por ela, cumprimentou-a rapidamente, e entrou em sua sala. Era por volta de uma e quinze da tarde, e ele ainda atenderia alguns pacientes até as seis. Isso se repetia quatro vezes por semana, afinal, Thomas era um psicólogo bastante requisitado, possuindo uma vasta clientela. Embora seus pais também fossem médicos, cirurgiões, atuantes em Nova Jersey, Thomas sempre preferiu o lado lúdico da medicina, em particular, a psicologia. Estudar e curar a mente. Quando se formou, seis anos antes, trabalhou em algumas clínicas, e logo depois, abriu seu próprio escritório. O dinheiro em sua família nunca faltou, mesmo porque sempre o tiveram com muita fartura. O irmão mais novo de Thomas trabalhava em New Jersey, com os pais. Já a irmã caçula ainda estava na universidade, também cursando psicologia, e quando se formasse, viria trabalhar com Thomas em Nova York. A família Williams era inteiramente formada por médicos.
Sozinho em sua sala, Thomas sentou-se no sofá de dois lugares de couro grafite, comprada por Guido para o consultório. Os pensamentos do jovem estavam longe. Ele simplesmente não conseguia deixar de pensar na conversa que ouvira entre Eve e Carrie. É claro que ele as cumprimentou normalmente depois, e os cinco almoçaram juntos, no bom e habitual clima descontraído. Estavam todos realmente felizes e agradecidos por Guido estar são e salvo. Mas Thomas bem que sentiu olhares furtivos direcionados de Eve para ele, e imaginou que a avó de Guido, tão perspicaz, desconfiava que ele, Thomas, tivesse ouvido qualquer coisa. Por quê? Bem, foi obviamente estranho quando Eve e Carrie tomaram conhecimento de que Thomas estava em casa enquanto elas acreditavam que estavam sozinhas, e falavam coisas são secretas em um quarto cuja porta estava entreaberta. Com toda certeza elas agora desconfiavam de que Thomas tivesse ouvido qualquer coisa. Mesmo assim, agiram normalmente. E Carrie o tratou como um filho, como ela sempre o fazia. O mesmo fez Eve, como sempre. Mas ainda assim, havia algo no ar. O psicólogo bem que quis conversar com as duas, e tentar entender melhor tudo aquilo. Mas conteve-se. Não queria deixar Carrie mais desesperada do que ele sabia que ela estava.
Pequenas batidas na porta despertaram o transe do psicólogo. “Entre”, disse ele. E Anne adentrou ao escritório.
— O que aconteceu? — perguntou Thomas, sobressaltado. Anne pareceu espantada com a pergunta.
— Nada. — disse ela. — Só vim deixar as fichas. A primeira paciente da tarde já chegou, é a Sra. Evans.
— Hm. — Thomas respirou e soprou o ar em seguida. — Espere dois minutos e mande-a entrar, pode ser? — Thomas se levantou do sofá, e caminhou para a cadeira que ficava atrás da mesa de vidro e inox, onde a secretária depositava algumas fichas.
Anne o olhou.
— Está tudo bem, Thomas? — perguntou ela.
Thomas assentiu.
— Sim, tudo perfeito. — respondeu ele.
— E o Guido, está bem?
Thomas sorriu.
— Graças a Deus, agora ele está, sim. — falou. Anne sorriu em resposta.
— Que bom, fico feliz por ele. — disse a secretária.
(...)
Após deixar o consultório, Thomas seguiu para a academia onde malhava todos os dias, com Guido. Naquela noite, porém, iria sozinho. O local era próximo de sua casa, dava até para ir a pé. As atividades na academia transcorreram normalmente, e Thomas evitou pensar nas palavras que ouvira de Eve mais cedo. Após cerca de uma hora, Thomas seguiu para o vestiário, onde tomou um banho rápido e se trocou para voltar pra casa.
Quando voltou pra casa, estacionou o carro na garagem, e ao entrar pela cozinha, deparou-se com Eve, Carrie e Guido. Eve preparava chocolate quente, enquanto Carrie fazia bolinhos de chuva. Thomas cumprimentou as duas normalmente. Depois abraçou Guido apertado.
— Não entendo como tem gente que não aceita isso. — comentou Eve. — Vocês tem tanto amor um pelo outro quanto um casal formado por um homem e uma mulher.
Guido sorriu ao ouvir aquilo. Sua avó tinha a mente bem aberta, e vez em quando, umas sacadas dessa saíam de sua boca. Ela piscou para os dois, que sorriram.
— Thomas, hoje vocês dois vão comer bolinhos de chuva. — disse Carrie, em tom de zombaria. Ela sabia que tanto Guido quanto Thomas evitava açúcar.
— Só vou comer porque o seu é o melhor. — disse Thomas, fazendo-as rir. De repente...
— Thomas — chamou Eve, com aquele olhar sereno de sempre. — Precisamos conversar. Só eu e você...
Thomas ficou sério. Ela sabe. Ela já sabe.
Ele pigarreou.
— Tudo bem. — respondeu. Guido olhou dele para a avó, e depois para a mãe. E então para a avó novamente. Elas vão perguntar a ele se eu estou surtando. Na cabeça de Guido o jogo estava assim: avó e mãe preocupadas com sua saúde mental. Guido começava a duvidar de sua sanidade, mas tudo em segredo.
— Perdi alguma coisa? — perguntou o arquiteto. Eve sorriu.
— Guido, meu filho, Thomas é como meu neto e, portanto, precisamos conversar ás vezes. — disse Eve. Guido não respondeu, afinal, aquilo era típico de sua avó.
— Tudo bem, Eve. Mas é algo grave? — sondou ele. Será que você quer falar sobre o Guido ser adotado?...
— Não é grave, é apenas uma conversa. Se não der pra ser hoje, pode ser quando nos encontrarmos novamente. Compreende?
Thomas assentiu.
O restante da noite foi até agradável. Eliot se juntou a eles na cozinha, e o lanche foi servido. Comeram, conversaram, e riram até. Era como se nenhuma verdade estivesse pairando sobre o ar, entupindo a atmosfera. Quando terminaram, Guido e Thomas cuidaram da louça enquanto Carrie e Eliot saíram para dar uma volta por Nova York, eles visitavam a cidade com pouca frequência, mesmo morando em a cerca de três horas de distância. Quanto a Eve, subiu para o quarto, onde descansava.
Quando finalmente ficaram sozinhos, em sua suíte, Guido e Thomas tomaram um banho juntos. Claro que aproveitaram o momento para algo mais que um banho. E terminaram na cama, os dois. Acabou que perderam completamente a noção da hora. E Guido adormeceu logo após fazerem amor. Embora se mantivesse abraçado ao namorado, Thomas não sentia um pingo de sono. A todo o momento as palavras cochichadas por Eve e Carrie, sobre Guido ser adotado, voltavam-lhe a mente. Temia, porque não sabia como o arquiteto reagiria àquela notícia, e era justamente isso que estava lhe tirando o sono. Entretanto, ao mesmo tempo, se sentia feliz por tê-lo seguro em seus braços. Guido exalava um delicioso aroma suave de perfume, e seu corpo estava quente e relaxado. Seu sono parecia tranquilo, e sua respiração, leve. Vez em quando ele se mexia, mas era muito delicado.
Um pouco mais tarde, ainda acordado e com pensamentos que vinham aos turbilhões, Thomas decidiu ir até a cozinha pegar uma caneca de chá. Levantou-se com extremo cuidado para não despertar Guido. Já de pé, por um momento, admirou-o dormir. E aquela cena fez o coração de Thomas bater ainda mais acelerado. Mais uma vez, agradeceu aos céus por Guido ter escapado ileso do acidente.
Àquela hora da madrugada, a casa estava silenciosa. O luar penetrava pálido pelas janelas, e iluminava a sala. Enquanto descia a escada, Thomas percebeu que havia uma luz acesa, e soube que era a da cozinha, pois fachos se estendiam pelo lado direito do living. Quando chegou ao cômodo, encontrou Eve. Ela estava sentada a frente da bancada, sozinha, com um copo de água sobre o quartzo. Ao ver Thomas, seu rosto se abriu em um sorriso caloroso.
— Perdeu o sono? — perguntou ela, sorrindo.
— Não cheguei a dormir. — respondeu Thomas, com um suspiro.
— Eu também não consegui dormir, pra dizer a verdade. — disse ela.
Thomas caminhou até o armário, abriu-o e pegou uma caixinha de chá de hortelã.
— Quer um chá? — ofereceu a Eve, mas ela limitou-se a balançar a cabeça negativamente. Observava Thomas com uma expressão serena e descontraída. — Quer ter aquela conversa agora? Acabei esquecendo, desculpe... — comentou ele, enquanto enchia a chaleira com água.
— Não faz mal. Mas podemos conversar agora, sim. — respondeu Eve. — Porque você não está conseguindo dormir? — questionou, intuitiva. Thomas soltou um meio sorriso.
— Existe um motivo.
— Sim, eu sei. Existe um motivo. — repetiu Eve, em tom afirmativo. Thomas depositou a chaleira com a água sobre o fogão embutido na bancada de quartzo, e ascendeu uma das bocas. Depois se virou para Eve, muito sério. A avó de Guido apoiou um o cotovelo direito sobre o balcão, em seguida inclinou um lado do rosto na mão. — Prossiga. — disse ela. Parecia calma como um oceano em dias tranquilos.
Thomas, um tanto constrangido pelo olhar examinador de Eve, cruzou os braços.
— Eu não sei se deveria me intrometer, Eve. Mas é que diz respeito ao Guido, e ele é a pessoa mais importante da minha vida. — disse, enquanto Eve o ouvia. Ela assentiu.
— E?...
— Não foi por querer, mas é que eu ouvi você e a Carrie comentarem mais cedo que o Guido é adotado. — disparou. Eve permaneceu na mesma posição: cabeça inclinada sobre uma das mãos, e um olhar tão pacífico quanto ela era. E então sorriu, inabalável. Aquilo provocou certo desconforto em Thomas, porque como psicólogo, ele conseguia ler quase todas as pessoas. Mas não Eve.
— Você contou isso a ele, Thomas?
— Não.
Eve suspirou, e tomou mais um gole de sua água. O copo já estava suando, e gotas escorriam pela parte externa, molhando a bancada escura. Depois mirou Thomas novamente, e por um instante ele foi o objeto de estudo.
Então Eve soltou um ar de riso, e se movimentou no assento.
— Parece que o universo está conspirando, Thomas. E você... você... — ela fez uma pausa, examinando-o seriamente. — Sente-se, por favor.
Resoluto, Thomas apagou o fogo, e se sentou do outro lado do balcão, posicionando-se de frente para Eve. Ao redor, apenas o silêncio espreitava os dois naquela hora da madrugada. Mas era possível ouvir o vento chacoalhando os arbustos e as copas das árvores no jardim particular da residência, ao lado do cômodo em que estavam.
— Eu vou lhe contar a parte da história que você não sabe sobre o Guido. — disse ela, sem cerimônia. Thomas observava, calado. Mas por dentro, seu coração saltava, e sem saber por que, ele sentiu medo por Guido. Eve prosseguiu: — Sim, ele foi adotado. Mas nós não contamos antes porque queríamos protegê-lo da família biológica dele. Não são boas pessoas...
— Então ele foi realmente adotado? — interrompeu Thomas, de forma retórica. Pela fisionomia, ele não recebera a notícia muito bem, pelo mesmo motivo que o sono não lhe chegava: como Guido receberia aquilo? Como, depois de todos os últimos estranhos acontecimentos?
— Sim. — ela confirmou, pacientemente. — É como eu te disse. Mas a... a família biológica dele... Não são boas pessoas... — repetiu ela. — Isso aconteceu a vinte e oito anos, a idade do Guido, é claro. De alguma forma, a mãe biológica dele soube que nós, da Casa da Mesa Branca, tínhamos bastante doutrina espiritual, e dentre outras coisas, fazíamos caridades. Então ela veio para Hither Hills, e deixou o filho recém-nascido na porta da Casa. Foi de um jeito bem simples, na verdade... — Eve fez uma pausa. Naquele momento ela simplesmente pareceu muito cansada, e até amedrontada.
— Não precisa continuar, se não quiser, Eve...
Eve meneou a cabeça, delicadamente.
— Não, Thomas. Eu quero que você saiba. Por alguma razão, você o protege sem fazer nenhum esforço. Ele não tem pesadelos quando você está por perto. Ou tem? — questionou ela, já sabendo a resposta.
— Não. — respondeu ele. E pensou que era a mais pura verdade. Mesmo que não estivessem no mesmo quarto, estando na mesma casa que Thomas estava, Guido jamais tinha pesadelos. Aquilo era, até então, inexplicável, mesmo para Eve.
Ela assentiu, com um aceno. E sorriu, confortada.
— Bem... — recomeçou. — O Joshua, que é o neto do fundador da Casa, encontrou a criança. Junto ao bebê, só havia uma carta assinada por Esther, à mãe dele. — Eve fez silêncio novamente, como se buscasse juntar as palavras. Instantes depois, ela prosseguiu calmamente: — Dentro do envelope da carta havia uma certidão de nascimento, sem o nome do pai, é claro. Só o nome de Esther. E na carta, escrita por ela, havia uma breve explicação sobre tudo, e um pedido de desculpas. Ela praticamente implorava para que cuidássemos dele, e que o protegêssemos. Dizia que o bebê corria perigo se permanecesse com ela. Guido só tinha nove dias de vida, mal abria os olhinhos... — E aqui, Eve sorriu, suavemente. — Num primeiro momento achamos que Esther não tinha meios de criá-lo, sequer alimentá-lo. Então Joshua achou melhor deixar a criança com Carrie. Na época, minha filha e Eliot estavam muito mal emocionalmente, porque ela havia acabado de sofrer um aborto espontâneo na sua primeira gravidez, e Joshua acreditava que aquele novo bebê, abandonado pela mãe, faria bem tanto a Carrie, quanto a Eliot. Eles se afeiçoaram tanto ao Guido, desde o início... Todos nós, para dizer a verdade. Era uma criança tão pequena, e parecia tão indefeso. E, além disso, naquela mesma semana, Joshua sonhou que Carrie ganharia um bebê, mesmo ela tendo perdido o que estava esperando. Guido era a resposta para a visão de Joshua. Estava escrito, então, que minha filha era a pessoa mais indicada para ser a mãe...
Naquele instante, uma forte trovoada estremeceu o coração tanto de Eve quanto de Thomas. E, lá fora, o vento pareceu tornar-se mais forte, porque o farfalhar dos arbustos e das árvores aumentara consideravelmente.
Após um momento, Eve recomeçou a falar.
— O Jeffrey, advogado da Carrie e do Eliot na época, cuidou de todo o processo de adoção legal do Guido, afinal ele havia sido entregue de papel passado. Como eu disse antes, havia uma certidão, somente com o nome da mãe, e o nome que ela escolhera para o filho. Decidimos, então, deixar o nome que Esther escolheu, mas fizemos um novo registro, mantendo a data de nascimento verdadeira, dia seis de novembro, e todo o resto. Os pais legais passaram a ser Carrie e Eliot, e os avós, eu e Oswald. E tudo fluiu normalmente nos meses que se seguiram. No início Carrie tinha muito medo de Esther voltar e querê-lo de volta, mas isso nunca aconteceu. Também... não poderia...
— Por quê?... — estranhou Thomas, sua voz soou rouca. Eve ouviu-o questionar, mas seu olhar parecia vago. Ela olhava Thomas, mas não parecia enxergá-lo. Era como se estivesse absorta em um passado distante, revivendo acontecimentos que a marcaram, como ferro quente.
— Por quê?... Porque, quase um ano depois que Guido foi deixado na Casa, nós recebemos uma visita, em uma das sessões da Mesa Branca. O espírito de Esther veio, e Joshua psicografou suas mensagens... recebemos com muito assombro o fato de que ela estava morta, mas o mais assustador para nós, era o fato de que a mensagem deixada por ela, psicografada por Joshua, dizia respeito somente a Guido. Ela falou que havia uma ordem chamada Rosa Negra, e pediu para que protegêssemos o menino enquanto ele fosse criança. O espírito de Esther não estava em paz, e isso nos assustava muito, sabe? — Eve deu um profundo suspiro. — A mensagem soava terrível. Ela deixou claro que nunca permitíssemos que Guido, enquanto fosse criança, buscasse por seu passado, mas fomos avisados que o passado de Guido iria procurá-lo, no futuro. E que teríamos que ajudá-lo. Nunca mais tivemos contato com o espírito de Esther. Até recentemente.
Eve realmente sentiu a respiração de Thomas enfraquecer. Até recentemente. A pequena frase voltou à mente do jovem, e sua fisionomia mostrou todo o medo que sentia. Guido está em perigo?
— Acalme-se, Thomas. Tudo está caminhando, e o Guido está conosco. Vamos ajudá-lo...
— Você disse... como assim? O que ela disse? Ele está em perigo, é isso?
Eve respirou fundo, e segurou a mão de Thomas. Encarou-o, olhando no fundo de seu olhar.
— Acalme-se. Vou te contar o restante. — Eve disse para ele, com seus olhos cinzentos muito tranquilos, agora. — Foi quando vocês estiveram lá em casa, no último final de semana. Como você sabe, eu não estava bem naquele dia, e o Richard me deu um calmante. Eu dormi quase o dia inteiro, e nesse ínterim, Guido foi ao quarto me ver. Naquele momento, quando Guido me tocou, Esther encostou em mim, e deixou um recado para ele. Entenda Thomas, um espírito incorporar em um médium é algo muito raro. No momento em que isso ocorreu, eu soube que ela precisava dar um recado importante, e o motivo é que algo estaria acontecendo ao Guido. Algo grave, você compreende?
— Grave?...
Eve assentiu, com um meneio.
— Guido me disse que, recentemente, procurou você e te mostrou um corte no braço. Ele disse que aquele corte havia sido feito num pesadelo...
Thomas foi atingido por um verdadeiro turbilhão de sensações. Aquilo tudo não poderia ser real. Como um pesadelo poderia ferir alguém?! Isso tudo está realmente sendo conversado? Estamos falando sobre isso?...
— Eve, não sou cético... mas é que...
—... Você só precisa ver as coisas, Thomas. Só precisa ver...
— Como?
— Guido é uma pessoa perfeitamente sã. Você sabe disso, melhor do que ninguém...
Thomas realmente não era cético. Nunca foi. Acreditava em manifestações paranormais, mesmo porque havia um braço da psicologia que estudava fenômenos daquele tipo. Mas o fato de Guido acordar machucado por feridas que ele arranjara dentro dos pesadelos, soava simplesmente como a coisa mais estranha do universo naquele momento. Só que então, por um instante, pensou em Guido. Lembrou-se do arquiteto tão perdido e transtornado naquela tarde, quando veio até sua casa e tentou lhe explicar como conseguira aquele corte na lateral do braço. Sem dúvidas era absurdo! Mas poderia ser verdade? O jovem psicólogo lutou para acreditar, quis se concentrar na hipótese de aquilo ser real, mas precisaria de um tempo, e de algumas explicações. Talvez fosse a hora de procurar respostas na parapsicologia? Thomas agitou-se, calado e incomodado. Mas pensando muito, em tudo. Em Guido.
— Eve, eu acredito em forças sobrenaturais. Acredito em tudo isso... Perceba que, se realmente for assim, se o Guido estiver sendo ferido por pesadelos... — Thomas não soube como completar o raciocínio, não sabia o que dizer. Por um instante achou que fosse enlouquecer. Seu Guido estava sendo ferido por qualquer coisa que ele não conseguia explicar...
— Thomas, acalme-se... — pediu Eve, falando como se fosse sua avó. E por um instante breve, vislumbrou nos olhos de Thomas, um olhar similar ao do neto. Em termos de aparência, Guido e Thomas não se pareciam. Eram muito bonitos, mas com traços muito diferentes. Só que, ás vezes, o olhar de um parecia surgir nos olhos de outro. E Eve pensou, naquele momento, que a conexão entre eles estava, de fato, acima da própria explicação terrestre. Ela via isso também em Carrie e Eliot, e muitas vezes, viu isso em si mesma, e em Oswald. Os verdadeiros casais têm disso.
Fizeram um longo silêncio. Mas o mesmo pareceu apenas um breve instante, porque as informações eram muito pesadas. Principalmente para Thomas.
— Eu acredito no Guido, eu sei que acredito... — sussurrou Thomas, mas na verdade parecia estar tentando se convencer.
Eve fechou os olhos, por um momento. Depois os reabriu, e fixou-se em Thomas.
— Não acho que você vai encontrar respostas convincentes em livros, ou até mesmo com seus ex-professores da faculdade, Thomas. Mas penso que, talvez, deva conversar com o Guido. Eu sei que você acredita nele, mas te falta uma compreensão melhor. Falta você enxergar os olhos dele enquanto ele conta tudo. Você, mais do que ninguém, vai entender como.
Thomas ouvia as palavras de Eve, e as processava e compreendia. Mas a lembrança de Guido lhe estendendo o braço e mostrando o pequeno corte estava voltando a sua memória novamente. Naquela tarde tudo acontecera com tanta divisão de momentos. A saudade que sentiam falou muito mais alto, porque não se viam há semanas, devido a tal chantagem de Ronald. Mesmo insistindo, Thomas não conseguira convencer Guido a continuarem juntos, mesmo que nunca tivessem se separado de fato. Só que, de repente, naquela tarde chuvosa de terça-feira, o arquiteto apareceu na sua porta, chorando, amedrontado, mostrando um ferimento e tentando dizer que o ganhara em um pesadelo. Porém, a saudade falou mais alto e subjulgou todo o motivo principal da visita. Os impulsos do amor! No entanto, agora, tudo se conectava novamente, fazendo com que, pela primeira vez, os pesadelos de Guido transformassem-se em algo terrível para Thomas. E mesmo sem entender tudo de uma só vez – porque, o fato de ser verdade não fazia com deixasse de ser um absurdo – seu coração soube que precisaria ajudar seu amado. E, subitamente, lhe ocorreu a seguinte questão...
— O que ela disse ao Guido? — perguntou ele, meio assustado, e meio apático. Eve passou uma das mãos pelos cabelos loiros, e depois cobriu parcialmente a boca.
— Esther disse que Guido é o sétimo filho. — respondeu a avó de Guido, novamente sem cerimônias. Não há tempo para isso, pensou ela. E, mesmo sem entender o que significava, Thomas assentiu. Mas então a ficha caiu e ele a encarou, com seu lábio inferior contraído.
— E o que isso quer dizer?
Eve balançou a cabeça.
— Eu não sei. Nós não sabemos. — disse. — Mas tem a ver com a Rosa Negra...
— O que vocês sabem sobre essa Rosa Negra? O que eles são?
Eve, mesmo muito evoluída em toda a sua doutrina espiritual, não estava preparada para aquela resposta, pois simplesmente não havia com o que responder. As únicas coisas que conhecia a respeito da Rosa Negra eram informações quebradas, psicografadas por Joshua a partir da única visita de Esther, a mais de vinte e cinco anos. E, ao longo dos anos, quando todos na Casa da Mesa Branca tentavam procurar informações mais sólidas, não às encontraram. Mais recentemente, ao que parecia, nem o próprio Google abrangia algo a respeito. O mais perto que chegaram foram algumas notícias distorcidas em sites medíocres. Tais reportagens falavam a respeito de alguns pastores que declararam guerra a uma nobre família do interior de Nova Orleans, um deles acusando-os de serem os patriarcas da Rosa Negra. Mas nada mais era dito. E, as tais notícias, haviam sido publicadas a cerca de dois anos. Desde então, nem mais uma palavra. É claro que a Rosa Negra era cercada de mistério, e segredos. Mas Eve desconfiava que fosse algo relacionado à magia. Não a magia dos contos infantis, mas uma magia antiga e obscura, cheia de rituais ou coisas assim. Mas principalmente, uma magia estranha que mexia com a mente das pessoas. Uma espécie de sabedoria antiga, muito antiga. Nas mãos erradas, porque as palavras de Esther, ao serem psicografadas, disseram um pouco mais do que ela poderia contar a Thomas naquele momento. Ainda não é a hora, segredou a si mesma.
(...)
A fogueira ardente no meio da clareira iluminava o negro da noite. Ao redor, a floresta parecia adormecida, mas Guido sabia que as árvores podiam olha-lo, observa-lo e guarda-lo. De algum jeito bem estranho, sentia-se protegido. Ao longo do seu campo de visão podia vislumbrar um casarão colonial erguido por entre as copas das árvores. Sabia que estava em algum lugar longe de Nova York. E havia um rio de águas calmas e escuras que refletia o luar prateado, de forma brilhante. Tudo era silencioso, a exceção de alguns pios de corujas e do estalar das chamas de fogo. Guido deu alguns passos pela clareira, mas parou abruptamente depois de dois segundos. O que estou vestindo? Somente naquele instante reparou em suas próprias roupas: usava uma calça preta extremamente justa, que contornava de forma sensual os músculos de suas pernas, e subia até acima de sua cintura. A camisa que vestia era de um linho espantosamente branco, e as mangas eram cumpridas e bem largas. A gola estava aberta, mostrando boa parte de seu peitoral. Seus cabelos estavam cacheados, exatamente do jeito que eram quando Guido era criança. Cachinhos. Ele sorriu ao tocá-los. Depois, suas mãos desceram para seu próprio rosto, com suavidade, e ele pode sentir uma barba em formato de cavanhaque, que descia em espécie de “V” pelo seu queixo. E em uma de suas orelhas havia uma pequena argola de ouro. Mas o que mais lhe chamou a atenção foi o cordão que usava: uma corrente dourada de onde pendia uma lua abraçando uma estrela. Guido segurou o pingente e viu uma pedra vermelha incrustada no centro da estrela...
— É o seu coração — disse uma voz feminina, tão limpa e nítida como Guido jamais ouvira. Ele levantou o olhar e, só então, pôde vê-la. Era uma mulher jovem, e muito linda. Sua pele era branca. Os cabelos negros, cacheados, eram longos de um jeito que desciam até a cintura fina. A saia era vermelha, rodada e longa, apenas os pés descalços podiam ser vistos. Por cima da saia, na altura do ventre, havia correntes com moedas pendentes. Uma blusa escura, drapeada e colada, parava acima do umbigo, deixando-o o a mostra. As pulseiras que ela usava em ambos os pulsos brilhavam sob a luz do luar. O rosto da cigana parecia uma pintura... sobrancelhas grossas e bem desenhadas, como as Guido. Os lábios eram vermelhos, e úmidos. Os olhos tão negros e penetrantes como a noite que os cercava. Traços finos, e delicados. Das orelhas, brincos de moedas desciam até o topo dos ombros. A mulher segurava duas rosas.
— Quem é você? — perguntou Guido, assustado e deslumbrado ao mesmo tempo.
A mulher sorriu.
— Boa noite, homem. — disse ela. — Meu nome é Esther. E você é Guido, meu filho precioso.
Guido arquejou. Filho? Minha mãe se chama Carrie... o pensamento foi esse.
— Mas ela é sua mãe também. Ela o ama como eu, homem.
Guido sentiu os arrepios que subiram.
— Como assim? — ele gaguejou.
A cigana soltou uma gargalhada suave, sensual. Depois deu alguns passos leves em direção a Guido. As correntes dela, assim como as pulseiras, chacoalharam. Quando Esther parou, frente a frente com ele, tocou sua face. Guido era mais alto que ela, mas a cigana conseguiu acariciar facilmente seu maxilar.
— É tão lindo como eu sabia que seria. — disse ela, e se aproximou mais ainda de Guido, cujo coração saltava quase pela garganta. Então a cigana lhe deu beijo no canto da boca. — Guido. Guido é seu nome. — sussurrou Esther, como se fosse uma prece. Depois ergueu uma das rosas, e deslizou a flor pelo rosto do filho. Guido sentiu seu delicioso aroma. — É sua. Pegue-a.
Guido obedeceu, pegando a rosa. Ele sentiu uma imensa onda de proteção e carinho quando a cigana ergueu uma de suas mãos e tocou sua fronte, novamente.
— Sangue quente. Noite quente. O fogo dança. Dancemos com ele. — Esther sussurrou novamente, então deu alguns passos para trás, sempre com os olhos cravados nos do filho. Desse modo, deixou que a rosa que segurava caísse no chão. — Solte a sua. — mandou ela. E Guido soltou a sua. A rosa caiu sobre o chão da clareira.
E então, espantosamente, uma melodia doce e viciosa surgiu, como se trazida pelo vento que atingia a floresta naquele instante. Ao lado deles, as chamas da fogueira dançavam, vivamente, cada vez mais altas e vermelhas. Esther pegou a mão do filho, e o guiou para mais próximo do fogo. E inexplicavelmente, eles começaram a dançar juntos. Sincronizados. Guido sentiu como se soubesse aquela dança desde sempre, e a cada passo que dava, já sabia qual viria em seguida. Com movimentos fortes e precisos. O vento tocava seus cachos e bagunçava seus cabelos, e ele parecia mais altivo que nunca. O cigano Guido. A saia de Esther esvoaçava, e suas correntes chacoalhavam sonoramente. Ela girava em seu próprio eixo, perfeitamente. Os cabeços cobriam o rosto, e então deslizavam, desvendando a face. E o vento continuava correndo por eles, dançando junto, trazendo a melodia mais doce que Guido já ouvira.
Notas finais
Obrigaaaaaado! Por favor, não me xinguem pelo tamanho do capítulo, eu faço com muito carinhooo! ♥ É que tem tanta informação, sabe...
Bem, também peço desculpas pelos eventuais erros de gramática que apareceram. Eu revisei tudo umas três vezes antes de postar (por isso demoro tanto errr), mas mesmo assim, se que passou algum desapercebido.
Também peço que, se você gostou, comente!! Motivação é sempre bom!
Essa semana será mais fácil de atualizar, feriadão! Vou me dedicar integralmente a história, tá?
PS: não esqueçam, comentem! :]
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