O Último Chamado
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Boa leitura! :]
O dia amanheceu cinzento e chuvoso em Nova York. Na casa de Thomas, o primeiro a despertar foi Guido. O arquiteto levantou, desvencilhando-se dos braços quentes do amado ainda adormecido. Por um instante, Guido admirou-o dormir. Era uma visão reconfortante. Eu te amo tanto, meu Thomas. Sorriu.
Guido sentiu frio, não apenas por estar sem camisa. Éque o clima estava realmente gelado na cidade. Após lavar o rosto, ele vestiu um casaco de moletom, e deixou o quarto. Seus pais ainda dormiam. E sua avó também, ao que parecia. Embora Guido achasse que estivesse sendo difícil para Eve dormir sozinha, sem Oswald, depois de tantos e tantos anos de casamento.
Enquanto descia a escada para o primeiro andar da casa, o sonho que tivera durante a noite lhe voltou à memória. Guido estava agradecido por aquele sonho! Foi lindo e intrigante, e definitivamente, não fazia sentido nenhum. Esther. Minha mãe Esther. Mas minha mãe é Carrie. Guido riu sozinho daquele absurdo. E embora não conseguisse detectar, apesar de toda essa confusão, algo havia retornado ao seu espírito. Estranhamente, Guido estava feliz. Nunca tivera um sonho como aquele antes, nunca! E até que queria contar para sua avó, mas sabia que não haveria tempo – eram muitos detalhes, e seus pais viajariam de volta para Hither Hills assim que acordassem. E, Guido, teria de chegar ao escritório antes das nove, no máximo, pois ás dez teria uma reunião com seu advogado para tratar de como ficaria a tal sociedade com Nate, agora não mais válida... Além de disso, o dia seria cheio, o arquiteto já premeditava. Estava ciente de que teria de finalizar todo o projeto da HF Cosméticos, e contaria com a ajuda de Clarisse, outra arquiteta do escritório. De antemão, Guido já havia avisado a ela que teriam de unir forças para terminar tudo. Sabia que naquele dia a finalização e a organização do projeto da HFC mobilizariam não apenas os dois, como também os três estagiários do escritório. Só que Guido gostava dessa vida. Era sua profissão, ele amava fazer isso.
Na cozinha, preparou café, e segundos depois, enquanto a cafeteira exalava fumaça e aroma, Guido se serviu da bebida. Entre um gole e outro, o vapor quente e aromático lhe beijando a face, ocorreu a ele que deveria sair e comprar uns pães e alguns doces diferentes para o café da manhã de sua família. A ideia o divertiu, e ele não precisou pensar uma segunda vez... pegou a chave de seu carro e, cerca de cinco minutos depois, adentrava a padaria mais próxima que havia de casa. Lá, comprou tortinhas, pães quentes e umas broas recheadas que haviam acabado de sair do forno. O cheiro era ótimo! Quando retornou pra casa, cerca de vinte minutos depois, entrou pela cozinha e encontrou Thomas bebendo café, enquanto assistia atento ao canal do tempo na tevê que havia no cômodo. Quando viu o amado, o psicólogo sorriu, amoroso.
— Bom dia, amor... — disse a Guido. Beijaram-se, suavemente. — Aonde você foi? — quis saber Thomas.
Guido deu de ombros.
— Por aí... — respondeu, com um risinho no canto da boca. Estava virado para a bancada da parede, tirando os pães da sacola de papel e os depositando em uma travessa de vidro. Divertindo-se, fingia não dar atenção a Thomas... e o psicólogo aceitou o joguinho. Levantou-se, e sorrindo irônico, agarrou Guido pelas costas, depois o virou, e o imprensou de contra o balcão.
— É que eu já sei aonde você foi, mas sabe que me deve satisfações, arquiteto... — disse, com a voz baixa e sensual, e as palavras roçaram deliciosamente próximas ao pé do ouvido de Guido. Ao fim, Thomas o encarou com um divertido ar de ciúme.
— Está me analisando? — disparou Guido, participando da brincadeirinha de provocar.
Os dois riram, e Thomas imprensou-o mais firme. O corpo de ambos correspondeu aos contatos... já era possível sentir os membros rijos encostarem-se por debaixo das calças de nylon que ambos vestiam. Um calor convidativo subia por eles. Os corações batiam acelerados...
— Se estivéssemos sozinhos, psicólogo, eu arrancava sua roupa, aqui mesmo. — disse Guido, num tom de voz parecido com que Thomas falara ao seu ouvido. Então o arquiteto passou seus braços pela cintura do namorado, e o beijou calorosamente. O beijo distribuiu ondas elétricas, vibrantes... um podia sentir o coração do outro, pulsando acelerado. As respirações estavam fracas, mas era graças ao beijo, que eles aprofundavam mais e mais. E quando ao ato começava a se tornar mais intenso, e o corpo já pedia outros toques, Guido fez um esforço sobre-humano, e se afastou...
—... Minha família está em casa... — sussurrou ele, um tanto ofegante, com Thomas descendo beijos pelo seu pescoço, provocando-lhe arrepios de prazer.
— Vamos voltar pro quarto, por favor... — pediu Thomas, alternando as palavras com os beijos que dava em Guido.
O arquiteto sorriu, deliciado pelos beijos de Thomas.
— Não posso, amor. — disse Guido. — Preciso me arrumar e voar pro escritório. Reunião, daqui a pouco...
E os lábios dos dois se encontraram novamente. O delicioso sabor do café com canela era sentido na língua de ambos, durante. E quando se afastaram, olharam-se nos olhos. E sorriram. Depois se abraçaram, amorosamente. Não era necessário um dizer ao outro que o amava, ou vice-versa, naquele momento. Eram muito conectados, muito ligados. E o coração de ambos parecia bater com uma sincronia exata. Então apenas relaxaram um nos braços do outro. Guido sentiu uma paz absurda, e novamente, era como se nada pudesse alcançá-lo, ou lhe fazer mal. Ele estava protegido, e assim, protegeria Thomas! Inesperadamente, ele pensou no sonho que tivera durante a noite. Na realidade, Guido fez uma conexão de sentimentos, ainda subconscientemente. É que ele ligou, sem notar, o sentimento de paz e segurança que sentia quando estava com seu amado, ao sentimento de bem estar e proteção que sentiu ao ficar frente a frente com Esther, em seu sonho. Era uma sensação muito única. E a pergunta se formou em sua cabeça: porque me senti tão seguro na presença daquela mulher? Não é normal...
— Thomas... eu... eu tive um sonho essa noite. — disse, sem saber ao certo o motivo. Mas disse. Ainda estavam abraçados, mas ao ouvir as palavras do arquiteto, Thomas se afastou. Parecia chocado.
— Pensei que não tivesse pesadelos quando está comigo... — disse, quase sussurrando.
Guido sorriu, e achou aquilo a coisa mais linda do mundo. Não conseguiu segurar, e roubou um beijo de Thomas. Um beijo quase que infantil, mas extremamente romântico.
Thomas não reagiu, e se sentiu confuso.
— O que foi?
— Não se preocupe... Não foi um daqueles pesadelos. Esse foi um sonho bom. — revelou Guido. — Foi bem louco, na verdade, eu confesso. Mas foi muito bom...
Thomas semicerrou os olhos.
— E como foi?
Guido se virou novamente para a bancada da parede, e recomeçou a tirar os pães e os doces da sacola de papel.
— Eu sonhei com uma cigana. Ela me disse que o nome dela era Esther e...
Esther... o nome fez eco na mente de Thomas. Ele não queria demonstrar assombro, mas...
—... ela me disse que eu era o filho precioso dela...
...mas agora, Thomas estava realmente chocado. Verdadeiramente chocado. Seu coração saltou, por mais que ele quisesse se controlar. Como ele sabe sobre ela? Thomas considerou inicialmente que Guido pudesse ter ouvido qualquer coisa da conversa entre ele e Eve, durante a madrugada. Mas será?...
Thomas recostou na bancada, e cruzou os braços. Tentou agir naturalmente, observando enquanto Guido tirava as coisas da sacola.
— E... o que aconteceu nesse sonho?
Guido deu de ombros, e depois olhou para Thomas. Pela sua fisionomia, aquilo não parecia importante. Mas ele estava entusiasmado, de alguma forma.
— Nós só dançamos, como ciganos. Eu estava até vestido como um, acredita? — contou Guido, sem realmente imaginar uma vírgula da conversa entre Thomas e sua avó.
Thomas não conseguiu perguntar mais nada, por mais que quisesse soar natural. Não conseguiria responder também a qualquer pergunta curiosa de Guido. Percebeu, pelos olhos do amado, que ele realmente não ouvira nenhum pedaço da conversa. Só então, argumentando silenciosamente consigo mesmo, é que a razão o lembrou de que Guido não era de esconder as coisas, principalmente se tivesse ouvido algo sobre ser adotado. Não mesmo. Ele teria entrado na cozinha e tirado toda a história a limpo. Até que seria melhor... considerou o psicólogo. Então, sem alardes explícitos, Thomas concluiu que aquela situação era verdadeira. Guido sonhou com Esther, e isso significava muitas coisas. Mas principalmente: é tudo verdade, pensou ele, assustado. Um arrepio suave percorreu o corpo do jovem, eriçando até a penugem de sua nuca, e as palavras ditas por Guido de forma tão inocente voltaram a sua cabeça... Eu sonhei com uma cigana. Ela me disse que o nome dela era Esther. E ela me disse que eu era o filho precioso dela. E, sentindo-se sujo, Thomas culpou-se por não poder contar a verdade para o amado. E só não contaria por um motivo: Eve o fez prometer, e por consciência lógica de que aquele assunto era para ser tratado entre Guido e seus pais, o psicólogo acatou ao pedido da avó do namorado. Mas mesmo por essa razão, seu sentimento de culpa não diminuía.
— Amor, pode fazer uma coisa pra mim? — pediu Guido, interrompendo os pensamentos de Thomas, mas estava de costas e não notou a expressão assustada no rosto do amado. — Você poderia arrumar essas coisas na mesa, enquanto eu subo pra tomar um banho? Daqui a pouco meus pais e minha avó descem, quero que eles encontrem a mesa posta...
Apático, Thomas assentiu. Mas agora, Guido reparara...
— Está tudo bem? — perguntou o arquiteto, franzindo o cenho.
Thomas confirmou, com um aceno de cabeça. Depois sorriu, tentando parecer descontraído.
— Sim. Está tudo bem, Gui. Eu te amo. — disse ele, e beijou suavemente os lábios de Guido.
— Eu também te amo. Amo muito! — respondeu Guido, quando se afastaram. O arquiteto deu um beijo suave no pescoço de Thomas. — Eu vou tomar um banho rápido, tá? Volto já!
Guido deixou a cozinha de forma apressada. Thomas ficou ali, parado por um momento, de braços cruzados, pensando em sua conversa com Eve, e somando tudo ao que acabara de ouvir. Ele sonhou com Esther. Ele sonhou com a mãe biológica e não sabe. Mas ela disse a ele... E, para completar, como se fosse o destino agindo, Eve adentrou a cozinha naquele instante. Ao ver Thomas, ela sorriu, serena como sempre era.
— Bom dia, querido — disse Eve, aproximando-se dele e lhe dando um carinhoso beijo na testa. Thomas sorriu para ela, mas ficou claro que alguma coisa não estava bem. E Eve detectou logo... — o que aconteceu? O Guido...
— Ele está bem. E não sabe de nada, fique tranquila. Mas agora á pouco ele me disse uma coisa...
Eve recuou, e fixou seus olhos cinza sobre Thomas.
— O que ele disse?
Thomas soprou o ar.
— Ele sonhou com uma mulher chamada Esther.
Eram raros momentos como aquele, mas Eve ficou abalada. A expressão no rosto da avó de Guido foi uma só: assombro.
— Guido sonhou com Esther? — Eve retesou-se. A repetição das palavras foi apenas retórica, e o psicólogo não reagiu.
— Mas você não sabe a parte mais estranha... — recomeçou ele. — ela disse a Guido que é mãe dele...
Assombrada, Eve se sentou num dos bancos altos próximos ao balcão. Ela não tremia, mas estava muito abalada. Por mais espiritualizada e doutrinada que ela fosse, eram a vida e os sentimentos do neto que estavam em jogo, e ela não queria que Guido saísse machucado, por isso sempre dizia que toda a verdade tinha de ser dita aos poucos, e com calma. Mas tinha de ser dita o quanto antes. E novamente, para Eve, o universo estava conspirando...
— Eu encontrei o Guido subindo as escadas, ele me pareceu bem. — comentou a avó. — Então, ele não reagiu mal a esse sonho, não é?
Thomas deu de ombros.
— Não. O Guido acha que foi um sonho louco. Parece que não está levando tão a sério, mas isso é porque ele não sabe... — e calou-se. Eve já sabia o que viria a seguir, e por isso não fez mais perguntas. O silêncio se fez, por alguns instantes. Até que Eve, depois de pensar um pouco, virou seu olhar para Thomas.
— Thomas?
Ele ergueu o rosto, e a encarou.
— Diga...
— Leve o Guido a Hither Hills nesse fim de semana. Carrie já está convencida de que precisa dizer a verdade ao filho. Ela e Eliot estão convencidos, na verdade. E não podemos mais esperar. Nós vamos conversar com ele, lá. Pode ser?
Thomas sentiu um pouco de medo com a possibilidade, mas assentiu.
— Ok. — disse ele, por fim.
(...)
Os pais de Guido, e sua avó Eve, foram embora logo após o café. Embora tenha se despedido normalmente do filho, calorosa e coruja como sempre, Carrie não conseguiu esconder certa apreensão. Abraçara Guido três vezes, e uma quarta, antes de entrar no carro para irem embora. Mas para o filho, aquilo soara normal. Era do feitio de sua mãe, e não percebeu nada errado. Quanto à apreensão de Carrie, Guido deduziu internamente que fosse pelos últimos acontecimentos pelos quais passou. E agiu normalmente, sem perguntas. Mas percebeu quando sua mãe falou qualquer coisa com Thomas, enquanto o abraçava. E, depois, Thomas lhe veio com uma proposta que até soaria normal, não fosse pelo modo como foi abordada. O carro dos pais havia acabado de partir, e já virava a esquina, quando Thomas segurou na mão de Guido, e sem olhá-lo, lhe perguntou se ele não gostaria de viajar a Hither Hills no final de semana. Estava muito sério, e distante.
Guido riu.
— Eu adoraria, amor. Mas precisava ficar tão sério só pra me perguntar isso? — disse Guido. Thomas riu, e olhou-o. Mas não soube o que dizer. Em lugar disso, entrelaçou seus dedos no do amado, e beijou sua mão.
(...)
O trabalho fora exaustivo. Na verdade, o dia todo foi. Até do ponto de vista emocional. A reunião com o seu advogado foi cansativa, é claro, mas Guido sentiu grande segurança em relação ao futuro do escritório. Entretanto, a principal responsável pelo cansaço geral foi, com toda certeza, a revisão do enorme projeto da HF Cosméticos. Esse trabalho detalhado exigiu energia e mobilização de todos ali no escritório. Guido e Clarisse, conectados cada um a seu computador, trabalharam lado a lado para terminar tudo, enquanto dois estagiários finalizavam o projeto executivo, e um terceiro adiantava a maquete volumétrica com base nas atualizações que Guido enviava via rede. Clarisse, aliás, teve de ser colocada á par de tudo, já que o parceiro de Guido naquele projeto era Nate. Visto isso, ela praticamente interrompeu um projeto que realizava com um dos estagiários para se dedicar a finalização do atual maior trabalho do escritório. Da-li á dois dias um jornalista da revista “In Project” viria ao escritório para entrevistar os arquitetos responsáveis e fazer uma reportagem especial sobre a nova sede da gigante HFC em Nova York. Guido, no fundo, sentia-se ansioso e nervoso, pois ele era um dos profissionais que vinha causando mais frisson na mídia especializada, afinal, com apenas vinte e oito anos ele já conseguia um espaço na nata arquitetônica norte-americana. Ele, é claro, dividiria com Nate todos os méritos. Na verdade, Guido se sentiu na obrigação de fazer uma menção especial a Nate no memorial do projeto. Fato que foi prontamente aprovado pelos executivos da HFC. E, por falar neles, na manhã seguinte haveria uma reunião para entrega oficial do projeto. Guido estava frenético, mesmo agora se sentindo cansado.
Já era quase meia-noite quando uma das últimas pranchas estava sendo impressa. Clarisse, e um estagiário em hora-extra, fiscalizavam tudo. Guido, em sua sala, fazia alguns ajustes na maquete eletrônica. O arquiteto sentiu-se satisfeito ao ver que tudo estava praticamente pronto. Os últimos cinco meses trabalhando nesse projeto realmente valeram a pena. Em frente ao computador, esticou-se. Estava realmente com sono, mas a sensação era de missão cumprida. Então seu iphone disparou em chamada.
Guido sentiu o coração acelerar ao ver a foto de Thomas aparecer no visor. Atendeu, com um sorriso largo.
— Oi, amor. — disse ele. Thomas sorriu.
— Eu to com saudade. — disse o psicólogo, com voz suave e um risinho. — Como está o trabalho?
— Praticamente terminado. — Guido suspirou. — Só falta revisar as pranchas, e aí eu vou conseguir ir pra casa. Prometo.
— Er... eu sei que você tá trabalhando, Gui, mas é que eu preciso de ajuda aqui...
Guido retesou-se.
— O que aconteceu, Thomas? — perguntou.
O psicólogo soprou o ar...
— É que eu preciso te beijar, só isso. — e soltou outro risinho.
Guido relaxou na cadeira, aliviado. Então se permitiu uma risada.
— Então eu prometo que assim que eu chegar aí, você pode fazer o que quiser comigo. — disse ele, corando.
— Não fala assim... — disparou Thomas. — Se não eu vou ter que ir até aí e roubar você...
Guido riu.
— Thomas, agora não. Eu preciso terminar tudo aqui, é sério...
— Uhum, tudo bem. — O tom de voz do psicólogo foi sexy. — Eu te amo, sabia?
— Eu sei. — Guido deu um riso. — E eu também te amo — respondeu ele. Seu coração estava acelerado.
Os dois ainda permaneceram alguns minutos ao telefone, apaixonados e divertidos um com o outro. E, menos de um minuto depois que a chamada fora encerrada, o iphone vibrou novamente. Tratava-se de uma mensagem de Thomas. “Não me mata de saudade. Eu te amo.” E ao ler, Guido não conseguiu segurar o sorriso. Ele só conseguiu pensar no quanto amava Thomas, e o quanto o psicólogo sempre o fazia sorrir. De repente, sentiu um impulso louco de ir pra casa e agarrar Thomas. Mas conteve-se. Tinha um trabalho a terminar, e era muito profissional. Guido, apesar de tudo, refletiu em como o relacionamento parecia em paz, outra vez e finalmente, já que as chantagens haviam acabado. E, como se sua mente trabalhasse com diagramas, ao pensar na palavra “chantagem”, seu coração apertou. Automaticamente, a culpa pelas mortes de Ronald e Nate lhe pesou a mente de uma forma dolorosa. Guido sentiu certo enjoo por aquilo tudo. Meu Deus, não foi minha culpa. Eu não pude controlar. Eu não posso controlar meus pesadelos...
Subitamente triste, Guido abaixou a cabeça sobre os braços dobrados por cima da mesa. E fechou os olhos, sentindo-se exausto e abalado pelo peso de sua culpa. Não queria pensar em nada daquilo, então se concentrou em Thomas e no amor que o esperava quando voltasse pra casa. Só isso o salvava. Só isso me salva. Sem saber por que, a imagem da cigana Esther projetou-se em sua mente. Guido a viu novamente, dançando, com a saia esvoaçante e os cabelos beijados pelo vento. Meu nome é Esther. E você é Guido, meu filho precioso. As palavras da cigana lhe vieram, novamente. Então Guido sentiu uma profunda onda de relaxamento tomar conta de si. E a melodia suave que dançara com Esther na floresta, em seu sonho, pareceu soar novamente dentro de sua cabeça...
Na outra sala, Clarisse agora se encontrava sozinha. O último estagiário havia acabado de ir embora. Só restava ela e Guido no escritório. Clarisse sentou no sofá ao lado da grande mesa de trabalho dos estagiários, e vislumbrou a pilha de pranchas, que já estavam todas impressas. Calma, porém cansada, a arquiteta retomou a revisão de uma delas. Faltavam poucas agora, porque muitas já haviam sido revisadas. Na que olhava, tudo parecia estar certo. Clarisse bocejou, terminou de fazer algumas marcações, e passou para outra prancha. A mulher estava realmente se dedicando, pois sabia que agora cresceria naquele escritório. Guido lhe confessara isso, mais cedo naquele mesmo dia, enquanto trabalhavam juntos na sala dele. A arquiteta sentia-se satisfeita também, por tudo. Ela gostava bastante de Guido, confiava nele, porque sabia perfeitamente que sua contratação partira dele, e não de Nate. E com a morte deste, certamente ela conseguiria mais espaço lá dentro. Clarisse era sincera, nunca gostou do sócio de Guido, mas o tolerava. Ele era um de seus patrões, afinal. A mulher estava, honestamente, muito chocada pela morte dele, mas não podia deixar de pensar que agora não se sentiria mais ameaçada no escritório. E pensar naquilo, mesmo que de um modo estranho, lhe provocou alívio.
Por detrás de seus óculos de aros vermelho vivo, os olhos azuis da mulher examinavam traços e simbologias, minuciosamente. Uma ou outra coisinha era marcada a caneta para ser rapidamente corrigida no computador, e reimpressa em seguida. Seus cabelos castanhos claros estavam presos em um coque mal feito, porém bastante eficiente. E seu rosto parecia corado, embora a fisionomia estivesse cansada depois de um dia longo. Em seus lábios, o batom vermelho já estava desbotado, mas ainda podia ser notado. Enquanto passava para outra prancha, a arquiteta ergueu seu rosto, e entreviu, através da enorme janela à frente, que uma fina chuva acabara de começar, banhando a rua com seus pingos gelados. Essa frente fria não vai embora tão cedo. Ela deduziu que lá fora estivesse mais frio que lá dentro. Olhou rapidamente seu celular mirando nas horas, 23:42, e depois voltou à concentração novamente para uma das pranchas que analisava. O trabalho até que andava rápido, tendo em vista que eram dezenas de pranchas.
...Guido girou a maçaneta, e abriu a última porta do corredor avermelhado. A já conhecida, mas sempre bizarra, festa, transcorria como de costume. Guido sabia que havia cochilado, e Thomas não estava por perto. Fora pego novamente por um daqueles pesadelos recorrentes, e sentia-se um idiota. Mas não podia acordar, não conseguia. Tinha de avançar e ver o que havia para ver. Meio enjoado pelo forte cheiro de cachimbo, andou devagar por entre as pessoas sem rostos. Olhava seus drinks, olhava suas roupas e até mesmo a decoração sinistra da festa. Nada daquilo fazia sentido, e ele detestava tudo. Quando finalmente se aproximou dos fundos do salão, próximo ao altar de mármore negro, ele viu o outro Guido. Mas algo a mais lhe fez sentir um medo tão real quanto poderia ser: Clarisse estava sentada, distraída, estudando uma prancha qualquer de um projeto. O coração do verdadeiro Guido disparou, e seus sentimentos nos pesadelos pareciam mais verdadeiros a cada dia. Tudo estava muito real! Guido sabia perfeitamente que Clarisse encontrava-se realmente estudando pranchas numa outra sala, e aquilo o assustou, principalmente quando o outro Guido – que trajava uma roupa idêntica a que o verdadeiro vestia – começou a estrangular Clarisse.
A mulher se debateu, e seu coque se desfez... pranchas foram pisoteadas por seus pés desgovernados, enquanto gritos eram sufocados em sua garganta. Mãos frias e pesadas continuavam agarradas ao pescoço fino da mulher, erguendo-a facilmente do chão, demonstrando que o Guido dos pesadelos possuía uma força sobre-humana, como um monstro feroz preso dentro de alguém. O rosto da vítima começava, então, a tornar-se roxo, e sua língua já pendia para fora quando Guido sentiu um solavanco inesperado, a sensação da queda, e uma intensa dor na testa...
Cochilando, o arquiteto não sentiu, mas seu corpo – relaxando pelo sono – impulsionou-se para frente, de modo que a cadeira de rodinhas foi empurrada para trás, até que num momento rápido, o vão formado entre o assento e a mesa fez com que Guido, dormindo, não tivesse apoio, e então ele caiu. A queda fez com que sua testa batesse na ponta do tampo da mesa, abrindo um corte, e depois o arquiteto estava no chão, despertado de seu sono com um sobressalto alarmante, sentindo o coração bater num verdadeiro ribombar. A cadeira também estava virada, ao seu lado. Enquanto lutava para se reorientar, Guido esfregou a testa, e ao sentir a mão úmida, olhou-a. Havia sangue. Seu sangue. Sua cabeça latejava de dor quando o arquiteto se lembrou de Clarisse e do pesadelo. Num impulso desesperado, ele se levantou e correu a passos gigantescos e um tanto confusos até a sala ao lado. E então vislumbrou Clarisse... ela estava desacordada, caída por cima dos papéis que examinava.
— Clarisse! — berrou Guido, sem conseguir controlar o choque e o pânico. O arquiteto avançou até ela, ajoelhando-se e pegando em seu pulso. Após segundos, finalmente conseguiu detectar batimentos cardíacos na mulher. Mas não foi suficiente para seu medo... Frenético, inclinou seu ouvido para próximo dos lábios dela, na tentativa de ouvir uma respiração, por mais fraca que estivesse. E constatou: ela está respirando! As lágrimas de Guido escorreram, talvez por alívio, ou mesmo por pavor por toda a situação macabra. Mas o choro era involuntário. Quase matei outra pessoa... pensou. O sangue da ferida aberta em sua testa escorreu pela sua têmpora, e Guido sentiu o líquido quente, mas não se importou. Apalpou o bolso da calça da mulher e retirou seu celular. Ligou para a emergência, e pediu uma ambulância, dando rapidamente o endereço do escritório. Depois disso, correu até sua sala. Embora estivesse descontrolado, tentava e muito se conter e não tremer de medo. Pegou seu iphone e ligou para Thomas. Com a voz bastante nervosa, Guido lhe contou tudo.
(...)
Thomas ouviu a voz alterada de seu Guido, embora este não gritasse. Só que, mesmo não gritando, o arquiteto parecia a ponto de um ataque psicótico. Vem pra cá, Thomas, por favor! Implorou. E, finalmente, o choro não pôde mais ser contido. Ele parecia um garotinho gritando por socorro, perdido e indefeso. Depois, a chamada foi encerrada, sem mais nem menos... Mas Thomas estava chocado demais para conseguir tirar o telefone do ouvido. Seu coração disparado, sua respiração enfraquecida. O psicólogo não conseguiu se mover. É tudo verdade. Guido... Os pesadelos dele ferem, de verdade. Thomas não estava acostumado aquele tipo de sensação, mas aquela foi, definitivamente, sua súbita compreensão de tudo. É verdade. É tudo verdade, está acontecendo. Explicavelmente, isso lhe trouxe um medo apavorante e desesperado. Como vou proteger o Guido? E foi justamente esse pensamento que o fez reagir. E então, no milésimo de segundo seguinte, o jovem disparou rumo à garagem, puxando a chave do carro de cima do aparador do hall, sem pensar em mais nada a não ser na forma sinistra como tudo aquilo se desenrolava. Minutos depois, Thomas seguia para o escritório de Guido. A chuva que molhava a cidade era fria, mas, o medo, por si só, gelava o coração.
(...)
Os paramédicos colocaram Clarisse, desacordada, sobre uma maca, e a transferiram para dentro da ambulância. Guido, com os olhos vermelhos pelo choro já estancado, era tratado por uma das médicas. Ela fazia um curativo em sua testa. O corte na fronte não precisaria de sutura, mas havia sido profundo, mesmo assim. O trabalho da mulher não levou mais que alguns minutos, e ao terminar, ela direcionou a Guido um olhar pacífico e piedoso.
— O que aconteceu, Sr. Williams? — perguntou, com tranquilidade. Guido baixou o olhar.
— Eu dormi e acho que a cadeira andou, e eu caí. — disse ele.
— E quanto a Sra. Anderson?
Guido encarou a paramédica.
— Eu não sei. — disse ele, indiferente. — Quando eu levantei, e fui vê-la, ela estava desacordada, caída por cima das pranchas.
O sorriso da paramédica foi simpático, mas não esboçava qualquer tipo de indicio do que ela pensava, ou qualquer tipo de reação. Mas a Guido ocorreu que aquilo poderia ser um problema para ele. Sentiu medo. Cadê o Thomas? A ambulância já estava saindo quando o psicólogo chegou ao escritório. Vislumbrou a viatura médica, com o coração apertado. Quando encontrou Guido, dentro do lugar, o arquiteto correu para ele e o abraçou, de um jeito desesperado. Com o amado envolvido por seus braços, Thomas sentiu que deveria enfiá-lo dentro do carro e levá-lo embora junto com ele, para qualquer lugar, o mais longe possível dali. Mas sabia que aquela não era a solução. Os pesadelos são o problema, e o seguirão, em qualquer lugar. Só que comigo ele não tem pesadelos...
— O que eu faço agora, Thomas? O que eu faço... — Guido chorava outra vez. Thomas quase chorou junto. A cena era de partir o coração. Guido era a pessoa que ele mais amava na vida, não suportava vê-lo daquele jeito. Então continuou abraçando-o, porque acreditava que naquele abraço poderia fazê-lo sentir protegido de tudo, e de todos. E Guido realmente se sentia assim, embora seu choro saísse com demasiada sofreguidão. Por um instante, ninguém mais falou. E ficaram assim, por muitos minutos de silêncio. Então Guido conseguiu recuperar parte da calma, e se afastou de Thomas, olhando-o nos olhos. O psicólogo pousou a mão na face do namorado, e enxugou uma lágrima. Depois acariciou seu rosto, com profundo afeto e piedade.
— Não precisa falar, Gui... eu entendo. Eu acredito em você. — disse Thomas.
Guido estreitou seus olhos sobre o namorado.
— Acredita? — indagou.
— Sim. — respondeu o psicólogo. E tocou suavemente a testa de Guido. — Você está ferido, amor?
— Eu caí... — respondeu Guido, enxugando mais uma lágrima, e fungou, tentando estancar o choro. — Ela não morreu. A Clarisse não morreu. Mas está mal, como se tivesse sido asfixiada... — e aqui, Guido interrompeu a si mesmo com um riso ácido e desiludido. — Honestamente, ela foi. Mas eu levei um tombo... — e indicou o curativo na testa. — A sensação de queda faz com que as pessoas despertem do sono, eu já li sobre isso. Então eu acabei acordando. Essa foi à sorte de hoje, Thomas. Espero que possa continuar contando com ela...
— Nós vamos resolver isso, Guido. Eu prometo. — disse Thomas, puxando o amado para si e o abraçando apertado. Guido se deixou levar, e relaxou. Não conseguiu chorar novamente, mas a tristeza que sentia era insuportável e pesada. Matei Ronald, e Nate. E quase matei Clarisse...
É claro que, agora, as mortes de Ronald e Nate ganhavam outra imagem para Thomas. Ele entendeu, de forma coesa, que a questão envolvendo o subido ataque de Ronald em descer do veículo em movimento era simplesmente devido a qualquer coisa bizarra que estivesse acontecendo no pesadelo. E, de forma automática, conectou a mesma explicação à morte sinistra de Nate, cujo coração simplesmente parou de bater. O mesmo teria acontecido com Clarisse, se Guido não tivesse caído. A sorte, nesse caso, lhe favoreceu novamente. Primeiro, o poste desabou sobre o carro exatamente do lado em que Guido não estava, e agora, a física explicava. Era sorte, mesmo assim. Guido era sortudo, e continuaria sendo. Mas será?
O que aconteceu depois era de comum espera entre Guido e Thomas: o marido de Clarisse foi chamado no hospital para onde ela fora levada, e lá, um investigador lhe fez perguntas. Dentre elas, se Guido e Clarisse possuíam algum tipo de relação conturbada. Fato que foi negado pelo marido da arquiteta, mas até ele estranhou que sua esposa quase tivesse morrido por asfixia. Tudo tornou Guido ainda mais suspeito quando o ferimento em sua testa foi mencionado. Pode ter havido uma briga entre eles. Quando chegamos ao local, havia muitas coisas fora do lugar, caídas no chão, próximas à vítima desacordada. E o Sr. Williams estava sentado, catatônico. Nesse caso, uma briga é a explicação mais plausível. Esse foi o assunto entre paramédicos e policiais. E não tardou até que Taylor Anderson, marido de Clarisse, abordasse Guido, que estava com Thomas no hospital. Thomas, por sinal, tomou a frente do amado, embora sempre mantendo a calma como o verdadeiro psicólogo que era. É claro que Taylor não acreditava realmente que Guido houvesse agredido Clarisse, eles se conheciam há mais de dois anos. Mas é que os indícios apontados pelos policiais eram tão convincentes... e não havia outra explicação para o caso: Clarisse quase morrera sem ar, Guido estava ferido na testa e o cenário onde a mulher foi encontrada, sugeria uma briga. Como resolver?
Na verdade, Guido e Thomas foram ao hospital com a consciência plena de que uma investigação poderia ser aberta. Mas, mesmo assim, o arquiteto quis saber se sua amiga ficaria bem. É claro que, havia sempre o fato de que se ele não fosse, reforçaria as suspeitas sobre si.
No fim, teve de responder a perguntas de um investigador e sua parceira.
— Há quanto tempo conhece Clarisse Anderson?
— Quase três anos. — respondeu Guido. Aquele não era um interrogatório oficial, mas o procedimento de coleta de informações era padrão.
— Não há marcas de mão no pescoço da Sra. Anderson. Mas, entenda Sr. Williams, a situação é muito delicada.
— É muito estranha, na verdade. — acrescentou a parceira do policial. Era uma mulher de expressão serena, e jovial.
Guido assentiu, com um aceno. Mas então decidiu que precisava falar a seu favor...
— Eu não encostei nenhum dedo na Clarisse. Nós nos conhecemos há algum tempo, e somos amigos. Ela gosta de mim, e eu gosto bastante dela. Não tínhamos motivos para brigas. Estávamos apenas trabalhando, e fui eu quem chamou a emergência. Se fosse uma tentativa de assassinato, porque então eu chamaria o socorro?
Os policiais se entreolharam. Thomas observava tudo, ao lado do marido de Clarisse, mas estavam em outra sala. Só fora permitida a entrada de Guido. Ainda estavam no hospital.
— Bem, Sr. Williams, o Sr. Anderson não pretende dar queixa, mas só até que a vítima esteja apta a falar o que aconteceu.
— Se estiver... — começou a investigadora. — o médico afirmou que Clarisse Anderson bateu a cabeça, e existe a possibilidade de a memória recente ter sido apagada. Talvez ela nem se lembre do que aconteceu nas últimas horas...
Ao ouvir isso, Guido sentiu um arrepio sinistro percorrer sua espinha. Não respondeu.
O policial suspirou, percebendo o abalo de Guido.
— Bem, Sr. Williams, pelas próximas horas, não saia da cidade. Compreendeu?
Guido não acreditava que aquilo estivesse acontecendo. Era tudo muito surreal. Era tudo ridículo! Mas não era o momento de bancar o adolescente rebelde, até porque era um adulto agora. Portanto, limitou-se a confirmar apenas com um aceno de cabeça. Então, sem mais perguntas, os investigadores o liberaram. Ao sair da sala, Guido dirigiu um olhar a Thomas, e depois se aproximou de Taylor. O marido de Clarisse estava visivelmente chocado com toda aquela situação, mas não foi brusco com Guido.
— Eu quero pedir desculpas a você por esse susto. — disse Guido, olhando-o nos olhos. — Mas também preciso que você acredite em mim quando eu digo que não agredi sua esposa. Eu não faria isso nem se tivesse motivos, não sou desses homens.
Taylor baixou o olhar.
— Não sei por que, mas acredito em você, Guido. — respondeu ele, com a voz séria. Calado, Thomas se aproximou de Guido.
— Taylor, eu preciso voltar ao escritório e organizar tudo, mas, sem querer abusar de você, me dê notícias da Clarisse. Por favor. E me liga se precisar de qualquer coisa... — disse Guido.
— Tudo bem. — confirmou ele.
O arquiteto tocou seu ombro.
— Obrigado por acreditar em mim. — disse. Taylor até que tentou sorrir, mas estava abalado. Sem forçar mais nada, Guido deixou-o. Thomas sempre ao seu lado.
O trajeto do hospital ao escritório foi cheio de tensão e aflição. Guido confessou a Thomas que estava assustado e com medo por essa situação com a polícia. Ainda não conseguia acreditar no que acontecia. Thomas lhe deu força, mas no fundo também temia pelo amado. Quando chegaram ao escritório, Thomas ajudou Guido a organizar tudo.
— Amor, eu preciso terminar de corrigir essas pranchas. A Clarisse adiantou bastante, mas eu preciso concluir. A reunião é amanhã, ás onze. Acho que não vou conseguir voltar pra casa hoje...
Thomas o abraçou. Compreendia a situação de Guido, e estava decidido a permanecer ali com ele. Não o deixaria.
— Vou ficar com você. Faz o seu trabalho, e se precisar, eu te ajudo. É só dizer o que posso fazer...
Guido sorriu. O perfume de Thomas pairava em seu ar. Continuavam abraçados, fortemente. A princípio, Guido olhou, mas não viu. Não enxergou. Só que, depois de alguns segundos...
— Thomas...
Guido se afastou. Thomas o encarou, confuso com a expressão no rosto do arquiteto, que olhava firme através do pano de vidro que forrava grande parte da belíssima fachada do escritório. Ainda chovia fino, como no momento em que toda a confusão aconteceu. Mas era visível que havia um círculo vermelho luminoso brilhando num ponto na fachada do salão de beleza do outro lado da rua. Guido estreitou seus olhos sobre aquilo... e depois, virou para trás, esquadrinhando seu próprio escritório. A sala onde Clarisse estivera revisando as pranchas estava virada para a rua principal, de frente para o salão. Aquela sala havia sido planejada por Guido e Nate como um cartão de visitas do escritório, quatro anos antes. De fora, as pessoas poderiam contemplar os arquitetos trabalhando lá dentro. Esse era o conceito. Guido mirou novamente a rua, olhando fixamente para o círculo vermelho brilhante. Foi aí que Thomas se concentrou na fachada do salão, e finalmente percebeu...
— Guido...
O arquiteto sorriu para ele.
— Sim. Lembra que, a cerca de um ano e meio aconteceu um assalto naquele salão? Eu cheguei a falar com o dono na época, Thomas. Eles instalaram um sistema de câmeras de segurança, dentro... e fora.
Thomas se aproximou do vidro, olhando fixamente.
— Mas será que estava gravando?...
Guido também se aproximou, parando ao lado dele.
— A sorte de hoje, Thomas. Será que ela me ajudou nisso também?
O coração dos dois bateu fortemente. Deram as mãos, ainda olhando fixamente para o outro lado da rua. A vibração dos batimentos de ambos pareceu viajar de mão para mão, e a adrenalina foi compartilhada. Será que a sorte os favoreceu com tanta eficácia? Se sim, Guido estaria livre de qualquer suspeita. Como as coisas funcionam...
— Juro que se eu conseguir me livrar da polícia, vou fazer uma coisa que já deveria ter feito há muito tempo...
Thomas não perguntou, sabia exatamente do que Guido estava falando. E, pela milésima vez naquela noite, se questionava sobre a conversa que teve com Eve, e em como toda aquela situação deveria ser, logo, esclarecida. Guido deveria saber de tudo, pra que finalmente possa conseguir se ajudar.
Notas finais
Até o próximo!
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