Nós nos conhecemos?

1 Fileira 13. Poltrona C.


Olhei no meu relógio que era 20 minutos adiantado por precaução.

- Tem certeza que não quer companhia?. – Perguntou Daniel, meu melhor amigo.

- Claro que não. Eu quero fugir de você, um pouquinho, — me virei para o meu sobrinho Vitor – e de ti também.

Vitor apenas encolheu os ombros.

— E pra fugir da gente precisa ir pra Paris, por duas semanas?

- Pra fugir de vocês não, mas para fugir de tudo sim.

- Você vai pra um dos lugares mais românticos do mundo, sozinho. Dor de cotovelo é para os fracos, você quer mesmo é uma depressão. – Falou Vitor.

- Dor de cotovelo, — Eu repeti de maneira debochada. –

- Voo 1856 com destino a França, Paris, seu embarque está aberto – Soou pelo aeroporto aquela vozinha abafada de mulher.

- Pois é. Faz tempo. Meu voo, gente.

- Tudo bem, nós vamos te deixar na sala de embarque.

Eu peguei minha bagagem de mão e nós três fomos andando em direção a sala, Daniel como sempre olhando para toda mulher que passava por nós, e pela primeira vez Vitor não fazia o mesmo.

Paramos em frente ao segurança, eu e Daniel demos um aperto de mão, e abracei Vitor, me sentindo um pouco culpado por deixa-lo sozinho com meu irresponsável melhor amigo.

Entrei na sala de embarque, ajeitei minha gravata de frente pro vidro da janela e me senti mais culpado ainda. Minha irmã no leito de sua morte tinha me feito prometer cuidar de Vitor, já que o pai do garoto não dava a mínima, nem sequer pagava uma pensão de respeito, ela pediu pra eu brigar na justiça pela guarda dele – disse que não ficaria em paz se Vitor fosse morar com o pai – já que eu era a única família que ela confiava e com meu salário eu poderia pagar a melhor escola pra ele.

Minha irmã me achava muito irresponsável, porem confiava o suficiente em mim para pedir que eu cuidasse de seu pequeno filho de 11 anos.

Ali, sentado naquela cadeira da sala VIP de embarque, pensando naquelas coisas, me lembrei da expressão no rosto de Vitor quando sua mãe morreu... Seu cabelo preto um pouco grande de quem passou do dia de cortar, ele me olhou com seus dois grandes olhos azuis e abraçou o meu quadril – eu sou bem alto mesmo – e começou a chorar. Eu não precisei nem falar nada, ele entendeu, acho que deve ter notado pela minha expressão.

Olhei para o lado e já tinha gente indo embarcar, ajeitei minha gravata mais uma vez, e entrei na fila pra ir para o avião.

13C, 13C, 13C...

Coloquei minha mala no bagageiro, e me sentei no 13C, olhei para esquerda, 13D.

Ela sorriu pra mim, e amarrou seu cabelo ruivo em um rabo de cavalo, e voltou a me dar um sorriso.

Quando eu ia sorrir de volta para a 13D, a 13 B chegou e fez o favor de pisar no meu pé, e espantada com o meu xingamento caiu no meu colo.

- Nossa, eu juro que não costumo ser tão fácil. – Brincou a loira, 13B.

Eu tentei não rir pra não dar muita corda, eu não sou chato, tenho um ótimo humor, mas eu estava muito cansado para brincadeiras corteses com desconhecidos, não importando o quão bonita ou loira esse desconhecido fosse.

Eu só limpei a garganta e ajudei com sua bagagem e ela pôs se a sentar.

Quando o avião decolou 13B parecia meio inquieta, o que não me deixava relaxar.

- Você tem medo? – Perguntei um pouco irritado, já que ela tinha praticamente duas poltronas a disposição e ainda assim não conseguia se acomodar.

- É, tenho. E eu ainda esqueci meu travesseiro. O que quer dizer que eu estou pior. – Falou ela tirando seu cachecol e se abanando com a mão.

- O que um travesseiro tem haver com isso? – Perguntou afrouxando a gravata e abrindo dois botões da minha blusa.

- Eu me acalmo mais abraçando algo. – Nessa terceira frase percebi que ela tinha um sotaque estranho que eu consegui identificar de onde era.

- Ah tá...

Eu recostei a minha cabeça na poltrona, e em menos de 10 minutos, eu já estava quase dormindo, relaxado enfim, sem Daniel me pedindo para ensina-lo a ter jeito com as mulheres – não que eu tenha jeito, e ele não, as mulheres simplesmente confiam fácil em mim, nunca soube se é por causa de beleza, ou o dinheiro, ou outros fatores – sem Vitor me pedindo dinheiro, ou pedindo para eu ensiná-lo a dirigir. Ah... mais cedo ou mais tarde eu teria que fazê-lo, arranjar tempo, comprar outro carro... depois tirar a...

- Qual é a do terno?. Agente saiu do Rio de Janeiro, você devia estar morrendo de calor, — Perguntou de repente 13B me assustando. – 13C.

Olhei para a esquerda e vi 13D, ainda com o cabelo amarrado, lendo um livro qual minha olhada rápida não me permitiu identificar.

- Eu sou advogado, você também estava de cachecol, no calor do Rio. – Brinquei apesar de ter voltado a fechar os olhos.

Eu já estava quase cochilando de novo, quando uma súbita duvida me subiu a cabeça, então eu falei: — Seu sotaque, 13 B?... De onde é?

- Austrália, nasci lá, e fui pro Rio quando tinha 15 anos.

- E até hoje não perdeu o sotaque?. – Perguntei sentindo a minha vontade de dormir se esvair.

- Não, meu pai é australiano.

- Ah...

Ela colocou a bolsa no chão e se sentou com as pernas cruzadas uma por cima da outra. Ela parecia pequena, mesmo sentada. Talvez por isso usava saltos assustadoramente altos.

- Você é casado?, é né?

Hum, admiro a sua ousadia, loira: Porque pergunta?. – Falei levantando uma sobrancelha desconfiado.

- Você estava flertando com a 13D, quando cheguei você se assustou e você tem uma marca no dedo. – Ela falou e por fim bateu o dedo indicador na minha mão esquerda.

- Você é uma boa observadora, mas mesmo assim errou em umas coisas.

Ela abriu um sorriso, o que iluminou o seu rosto: Sério?!, quê eu errei?.

- Não, eu não sou casado, sim, eu estava flertando com a 13D, e me assustei pelo fato de você ter caído em mim e a marca no dedo é na verdade uma cicatriz, — Falei lhe mostrando a mão – causada em um noite de bebedeira, então claro que meu dedo é bicolor.

Ela balançou a cabeça concordando debochadamente.

- É pode ser que também faça sentido. Você pode muito bem mentir pra mim, você vive disso.

Eu quase me senti ofendido e falei alguma coisa, mas achei melhor deixar pra lá.

- Ok, você está certa, não vou nem discutir.

- Você vai voltar a flertar com ela? – Falou 13B tirando os seus saltos.

- Talvez, mas estou cansado demais pra isso agora.

- Saiu direto do trabalho, né?

- Sim.

- Hum... – Ela se encostou na parede do avião. – Se você quiser dormir, eu deixo.

Uma sensação de alívio dominou meu corpo e minha alma.

- Com uma condição. – Ela falou quando eu estava virando a cabeça para o lado oposto. – Você tem que deixar eu te abraçar.

Me ajeitei na poltrona me ponto ereto, ouvi ela sussurrar “nossa, você é alto”, me apoiei no braço esquerdo da poltrona e levantei o braço direito deixando ela passar os braços envolta da minha cintura em um abraço, e ela apoiou a cabeça no meu peito.

- Você é realmente grande. – Ela falou mais uma vez e em seguida ficou bem quieta.

Pouco tempo depois percebi que ela estava dormindo, o que quer dizer que talvez ela só estivesse um pouco aflita mesmo, porque agora ela simplesmente parecia exausta.

A 13D olhou para mim, e depois olhou para a cabeça da 13C no meu peito.

- Ela tem medo de voar. – Sussurrei para a ruiva.

13D apertou os lábios e levantou as sobrancelhas como quem desacredita.

Desisti da 13D e virei a cabeça para dormir.

Acordei com uma dor excruciante no meu – bem, pela falta de vontade de ser mais educado – saco.

- Porra! – Sussurrei reprimindo um “PORRA!” gritado.

- Desculpa, desculpa, desculpa... – Falou 13B. – Eu tava dormindo ai minha mão que estava no seu ombro e...

- E eu fiquei estéril.

- Você já não era?

Meu queixo involuntariamente caiu.

- Porque em nome de Deus eu seria estéril?

- Ah, sei lá, a presença do terno, a falta de casamento, e como você é bonito, muito bonito. E qual a melhor maneira de evitar casamento sendo bonito e suponho, rico também?. Fazendo uma vasectomia!.

Passei as mãos pelo cabelo impaciente e a encarei.

- Ou eu posso simplesmente ser um filho da puta de carteirinha, não acha?.

- É, talvez. – Falou ela pensativa.

- Talvez nada, é isso sim, eu sou um filho da puta, não estéril. Você podia parar de tentar acertar coisas sobre mim. Nem me conhece.

Ela franziu o cenho assustada por ser confrontada.

- Engraçado como se o saco tiver no meio, o homem fica todo sentido.

13B se ajeitou na cadeira, calçou os saltos assustadoramente altos, pegou sua bolsa e se levantou.

- Pra onde você vai?. Estamos em um avião, pelo amor de Deus, não tem pra onde ir. – Falei tirando de vez minha gravata só com uma puxada.

- Eu posso ir pra França, nós chegamos.

Eu olhei em volta e realmente todos estavam se levantando.

Peguei minhas coisas e me dirigi a saída com 13B colada nos meus calcanhares, e 13D nos calcanhares dela.

No aeroporto 13B tinha sumido. Ah, a mulher mais bonita que mais me irritou em tão pouco tempo.

O que eu achei estranho, foi que me peguei procurando por ela.

Depois de pegar minhas malas, fui para o hotel que eu tinha reservado. Por não ter dormido direito só cheguei e me larguei na cama.