Não tão clichê
4 Três.
Notas iniciais
DOIS ANOS ANTES
9 de Novembro de 2013,Sábado, 02: 11
– Você acredita em Deus, Nina?
Naquele dia, eu e Lívia estávamos deitadas lado a lado no telhado da minha casa. Obviamente, a ideia de subir foi dela, já que a mesma queria passar a noite olhando as estrelas ou algo do tipo. Relutei um pouco no inicio, já que sempre tive um pavor imenso de altura, e passar um minuto sequer no ponto mais algo da minha casa me dava arrepios. Mas depois de alguns minutos deitada lá com ela ao meu lado, descobri que se eu simplesmente não olhasse para baixo, ficava razoavelmente bem.
Razoavelmente, é claro. Eu ainda estava escrevendo mentalmente meu testamento para caso algo acontecesse.
– Não sei. Acho que acredito em Deus, sim – respondi.
– Por quê? – Ela me perguntou.
Observei as estrelas com atenção, mais uma vez.
– Eu não sei bem por que eu acredito em Deus. Porra, nunca me fizeram essa pergunta antes.
Lívia, ao meu lado, riu fraquinho.
– Mas... Sei lá, o mundo é uma coisa tão bonita, Lívia. Eu sei que os humanos deram uma bela de uma estragada, mas ele continua lindo. E eu não consigo acreditar que uma coisa assim foi criada através de uma explosão ou o que seja. Não, acho que tem algo mais... Especial por trás disso. Deus ou sei lá mais o que. Mas eu não consigo acreditar só em ciência.
– Entendi.
Ficamos em silêncio por algum tempo. Não consegui ouvir nada além das nossas respirações. Era de madrugada e eu morava em um bairro extremamente calmo, ou seja, nada de carros, televisões ligadas ou festas barulhentas. Nós duas, mesmo no telhado, conversávamos através de sussurros com medo de algum vizinho conseguir nos ouvir.
– Você acredita? – perguntei. Eu sabia aonde Lívia queria chegar com esse papo todo de Deus e eu queria só que ela parasse de enrolar e chegasse logo lá.
– Acredito – ela me respondeu no mesmo instante – Só acho que Ele não anda mais acreditando em mim esses tempos.
Virei o rosto e a observei.
Minha melhor amiga não me encarava e sim às estrelas. As estrelas estavam realmente bonitas naquela noite, era um fato, mas ela só as olhava porque não tinha coragem de olhar para mim. Eu sabia que ela estava triste e não queria que eu percebesse. Mas já era tarde demais. Eu inclusive já sabia o motivo da tristeza.
Lívia e eu somos melhores amigas desde pequena. Sempre fui um livro aberto, enquanto ela nunca mostrou os sentimentos completamente. Mas, uma com a outra, nós sempre fomos como água cristalina. Eu conseguia ver tudo dentro dela e ela via tudo em mim.
A maioria das pessoas chama isso de conexão e é verdade. Nós tínhamos uma ligação extremamente forte uma com a outra.
E me partia o coração vê-la de coração partido.
– Porque você acha que Deus não acredita mais em você, Lí?
Ela demorou alguns segundos para me responder e, quando respondeu, falou tão rápido que quase não a acompanhei.
– Nina, eu...tô fazendo uma coisa tô...percebendo uma coisa que...eu tenho lutado há tanto tempo e eu simplesmente não quero mais lutar contra isso.
Revirei os olhos.
– Você não vai por Inferno só porque gosta de garotas, Lívia.
Ela quase caiu do telhado nessa hora. Foi engraçado. Sorte que eu segurei seu braço antes.
– Você sabe? – Seus olhos estavam completamente arregalados no momento em que ela me fez a pergunta. Eu conseguia ver a verdadeira surpresa neles. Eu poderia ter dado um tapa nela pela lerdeza naquele exato segundo, mas escolhi ser boazinha.
Afinal, ela já estava passando por uma barra. E ia passar por uma maior ainda futuramente. A família da Nina era muito religiosa. Se eles descobrissem que a Nina era lésbica...eu não sei direito o que aconteceria. Mas coisa boa é que não é.
– A sua surpresa me ofende, querida. Eu sei há muito tempo. Estava só esperando você parar de lutar contra isso para dizer alguma coisa – respondi.
– Eu vou ir pro Inferno, Nina – Lívia choramingou.
Balancei a cabeça de um lado para o outro.
– Não vai não – afirmei com o tom de voz mais concreto que consegui usar.
– Fala isso para a minha família. Você consegue imaginar a minha mãe...o que ela vai sentir quando...bem, ela é toda religiosa e...o que você acha que ela vai sentir quando descobrir que a única filha dela é ...errada? — Lívia se embolava nas palavras enquanto falava e eu percebi que estava começando a ficar com a voz embargada e estava prestes a chorar.
Sorri triste. Ela não ia chorar por uma coisa dessas, não se eu pudesse impedir.
Levantei meu tronco e fiquei sentada em cima do telhado. Ela veio mais para o lado e aconchegou a cabeça no meu colo, confortavelmente. Comecei a mexer em seus cabelos enquanto falava.
– Você não é errada. É uma das pessoas mais certas que eu conheço, pode ter certeza.
– Nina, mas...e se tudo o que ela me disse for verdade? E se eu for errada mesmo? E se Deus me mandar pro Inferno ou algo do tipo?
– Eu não sei muito sobre Deus. Mas eu tenho certeza que ele não mandaria uma menina que nem você para o Inferno.
Ela riu. Um riso de verdade,sincero. Com tudo o que uma risada tem direito: sorrisos e dentes mostrando. Um pouco de baba na minha mão também, mas eu ia tentar relevar.
–Você tá copiando a fala daquele cara de Terabítia – me acusou.
Dei ombros.
Ela tinha rido! São Longuinho, eu com certeza ia dar no mínimo uns dez pulos mais tarde.Tanto faz se fosse para o santo certo ou o errado. Ela estava rindo!
– Talvez. Mas isso não importa. Você é uma das melhores pessoas que eu conheço. Minha melhor amiga. E a pessoa mais certa que eu conheço – afirmei, com convicção. E era verdade.
Nesse momento, a gente ficou por uns bons trinta minutos sem falar nada, olhando para as estrelas. Ela, deitada no meu colo, pensando em “sabe só Deus o que” e eu, mexendo no cabelo da minha melhor amiga, pensando que a minha vida não era tão ruim assim. Eu tinha ela por perto. E isso era bastante coisa.
– Nina, eu te amo – ela me disse.
– Eu também te amo, Lí – respondi.
E eu sabia que não era aquele tipo de amor de borboletas no estômago, beijo de língua e nervosismo. Era aquele tipo de amor de risadas, filme com pipoca e melhor amiga.
Sinceramente, eu estava muito feliz naquele momento.
9 de Novembro de 2015, Segunda-feira, 17:51
Parecia que eu tinha voltado de uma guerra.
Ou melhor, que eu ainda estava em guerra, porque conseguia sentir alguma coisa batendo contra a minha bochecha várias e várias vezes. E olha, não era uma coisa leve.
– Severina...Severina...
Era a Morte me chamando, eu tinha certeza. Mas eu nunca imaginei que a voz da morte seria a voz de um idoso. Sempre imaginei que seria uma voz tipo a do Loki, de Thor.
E porque diabos eu estava pensando nisso mesmo estando morta?
– Senhorita Severina?
A Morte me chamava de senhorita?
Okay, estranho. Ninguém nunca havia me chamado de senhorita na vida e eu duvidava que a Morte seria a primeira ( ou o primeiro, pelo jeito ) a chamar.
– Pelo amor de Deus, senhorita Severina, acorde!
A Morte usando o nome de Deus? Isso era um pouco contraditório, já que a Morte é malvada...ou, quem sabe, ela é boazinha. Talvez o povo de Hollywood tenha apenas interpretado e criado uma imagem errada para a Morte. Isso deveria ser bullyng...porque eu estava pensando aquilo?
Novamente, alguma coisa bateu na minha bochecha com força. E, cacete, doeu de verdade naquela vez!
Levantei meu tronco de uma vez e abri os olhos. “Acordar” tão rápido provavelmente não foi uma boa escolha, já que senti uma tontura gigantesca. Senti alguém colocando a mão na minha cintura e a apertando com força, me segurando.
Tá, Leitor, eu podia ter pensado que era alguém tentando me ajudar, o que eu admito que faria mais sentido. Mas assim que eu senti uma mão na minha cintura e eu não fazia ideia de quem era, a parte do meu cérebro que ouvia as histórias da minha vó sobre meninas estupradas e o perigo da humanidade foi acionada.
Eu dei um chute na pessoa e eu não sei bem aonde acertou. Eu acho que foi na coxa. A pessoa gritou.Era um velhinho.
– Tira as mãos de cima de mim! – gritei com todas as minhas forças.
O velhinho me olhou surpreso. Que abusado! Encostava em mim, levava um chute e ainda ficava surpreso.
Dei alguns passos para trás, até encostar em uma parede fria. Olhando ao meu redor, percebi que ainda estava no mesmo banheiro de antes de encontrar aquela mulher. O banheiro simples e fedido de um parque que ficava “ sabe lá Deus aonde”.
Olhei de novo para o velho. Ele arfava com uma mão no peito e outra mão na coxa, onde o acertei. Por um momento, senti culpa. Mas só por um momento bem passageiro mesmo. Tá que ele era um velhinho, mas mãos bobas para cima de mim, não!
Mesmo sentado e arfando, pude notar que ele não era muito alto. Era uma figura bem pequenina, para dizer a verdade. Ele usava um terno preto bem elegante, luvas brancas nas mãos e um chapéu na cabeça. Era um chapéu parecido com os de pilotos de avião, eu acho. Foi a primeira coisa que associei.
– Senhorita Severina, a senhorita se sente bem? – ele perguntou enquanto se levantava com algum esforço.
Eu tinha acabado de dar um chute na coxa do cara e ele estava perguntando se eu me sentia bem?
– Porque você está me chamando de senhorita?E de Severina? – Okay, foi uma pergunta besta. Mas eu tinha tantas perguntas diferentes e aquela foi a primeira a escapulir pela minha boca. Não me julguem.
– Eu sei que a senhorita prefere que a chamem apenas pelo seu nome, mas sabe que sua mãe não gosta disso – ele me respondeu prontamente.
– Minha mãe?
Ele me olhou com certa desconfiança.
– Sim, sua mãe. A senhorita se sente bem?
Ele já tinha se levantado e eu ainda mantinha uma distância segura de mais ou menos uns dez passos entre nós dois. E ele parecia estranhar isso.
– Eu me sinto ótima. Obrigada? É, obrigada. Mas, bem, sabe como é. Eu preciso ir para casa, então...tchau.
Ele ia protestar, mas fui andando em direção da porta rapidamente. Teria saído correndo para fora do banheiro se não tivesse dado uma olhada no espelho por exatamente uma fração de segundo.
– Mas que porra é essa?
– Senhorita! – ele me repreendeu, provavelmente pelo palavrão. Mas eu estava tão chocada com meu reflexo no espelho que não tive tempo de me importar com a caretice.
Eu não estava com o meu uniforme velho da escola mais. Pelo contrário. Usava um vestido elegante. Por Deus, eu parecia uma princesa com aquela roupa. Um vestido curto, rodado e marcado na cintura. Não que a minha cintura fosse a coisa mais fina do mundo, porque não era, mas aquele vestido simplesmente a apertava tanto que parecia mais fina Ele era branco na parte de cima, com alças todas trabalhadas em um tecido diferente, parecendo um ramo de folhas. A saia era rodada, bege, com um tule branco por cima cheio de detalhes espalhados em branco parecidos com os das mangas. Eram...flores?
Aquele vestido era lindo. Eu não conseguiria simplesmente descrevê-lo de um jeito que chegasse a verdade.
Coloquei a mão por cima dos meus ouvidos. Eu estava usando brincos que...ai, não, aquilo não era uma bijuteria. Era uma joia de verdade!
Eu estava devidamente maquiada e com o meu cabelo preso em um coque elegante.
Porque diabos eu estava daquele jeito, meu Deus?
Eu não tinha nenhuma joia, ou vestidos daquela elegância e muito menos sabia me maquiar tão bem do jeito que eu estava maquiada?
– Porque tanto choque? A senhorita está muito bonita, posso lhe garantir – me elogiou o velhinho.
– O-o-brigada – gaguejei.
Fiquei um tempo me olhando no espelho, em estado de choque. Aquela menina no espelho...não era eu. Não podia ser. A não ser que...
Ah, meu Deus! Aquele sonho,que eu tive...era verdade?
– Hãn...qual o nome do senhor? – perguntei.
– A senhorita deve ter batido a cabeça muito forte. Sou Lary. Seu motorista. Recorda-se?
Motorista. Lary, o motorista. Lary, um cara para me levar para onde eu bem entender.
A nova eu não tinha que andar de ônibus então?
Tá, eu podia pensar nisso depois. Os desejos...o quê foi que eu desejei mesmo?
“...Também quero que minha mãe tenha...sei lá...ganhado na loteria há uns meses atrás e que nós fossemos bem podres de ricos, para ela não ter que ficar trabalhando todas as noites...”
Então, agora eu era rica. Rica, de verdade. Com dinheiro. E motorista.
O que mais será que eu tinha?
Tateei meus bolsos, procurando meu celular. Então eu me dei conta de que eu não tinha bolsas naqueles vestidos.
– Hãn...Lary, você por acaso viu meu celular por aí?
O velhinho olhou pelo banheiro por um tempo, até achar alguma coisa perto da porta de uma das cabines. Ele se abaixou devagar, pegou meu celular, se levantou e veio até mim com cuidado. Como se eu fosse uma louca que bateria nele a qualquer momento.
Revirei meus olhos. Tá, eu merecia aquele tratamento. Eu bati no meu motorista.Eu bati no meu motorista. Que tipo de madame bate no próprio motorista, meu Deus?
Ele entregou o celular na minha mão e...
– Puta que pariu, é um iPhone.
Ele deve ter me olhado com repreensão mais uma vez, mas ignorei. Eu estava completamente perdida na beleza do celular na minha mão. Eu tinha um iPhone.
Meu Deus.
Desbloqueei a tela, digitando o dia e o mês do meu aniversário. Eu era muito previsível, credo.
A primeira coisa que eu vi foi uma ligação perdida da Tia Clara.
Tia Clara. Tia Clara.
A mãe do Rodrigo. A que morreu anos atrás.
Qual tinha sido meu outro desejo mesmo?
“Eu quero que...o acidente que meus tios morreram, nunca tivesse acontecido! Nunca, nunca mesmo. Então eles estariam vivos e o Rodrigo também estaria bem e feliz”
Meus tios estavam vivos. Eu tinha eles de volta. O Rodrigo tinha pais.
Era muita coisa para o meu cérebro assimilar.
Mas eu me lembrava que meu primeiro desejo foi ter meus tios de volta. Meu segundo desejo foi que minha fosse rica. Meu terceiro desejo foi...
– Ah, não, por favor, por favor, eu não posso ter feito isso!
– Feito o que, senhorita?
Fui até a agenda de contatos do meu celular. Com pressa, escorri meu teto pela tela até chegar na letra M.
Marcela ( que Marcela?), Mariana, Marcos, Mariely ( que porcaria de nome era esse?),Marina, Murilo...
Mas nenhum Matheus.
“ E, agora, meu último desejo. Eu conheci o Matheus quando eu tinha dez anos e me apaixonei por ele. Meu desejo final é... Meu desejo é ter passado o dia inteiro em casa, sozinha, no dia em que deveria ter conhecido o Matheus e me apaixonado por ele”
Meu Deus. O que diabos eu tinha feito?
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