Não se muda o passado
4 Episódio 4: Em direção à verdade
Notas iniciais
Alguns dias tinham se passado até as vésperas da formatura e o plano era simples. Roubar o molde do aluno do ano da sala do diretor. Jack tremia de medo enquanto encarávamos a velha sala do homem que poderia nos expulsar caso o plano desse errado.
̶̶̶̶ Acho melhor não. – Ele disse, apavorado.
̶̶̶̶ Calma. Tudo vai dar certo, ok? Você chama ele e faz o que combinamos. – Deixar a parte de distrair as pessoas com Jack era um ato perigoso, pois além de tímido e inseguro, ele não falava muito bem. Poderia acabar não convencendo o diretor.
Fiquei de lado, como quem não quer nada e apenas esperei para ver o que aconteceria. Eu fingia fazer uma lição, mesmo estando de pé. Jack bateu na porta e o diretor abriu a porta, com a cara amarrada.
̶̶̶̶ É... Oi diretor. – Jack deu um sorriso amarelo.
̶̶̶̶ O que foi? – Olhava-o de cima, na tentativa de intimidá-lo.
̶̶̶̶ Está tendo uma briga horrível no pátio!
̶̶̶̶ E daí? Isso é coisa para os monitores cuidarem. – Revirou os olhos e virou-se, quase fechando a porta.
̶̶̶̶ É que... – Ele puxou o homem pelo braço e tentou bolar uma desculpa convincente. – Eles estão brigando porque caiu uma sacola de dinheiro enorme no pátio. – Arregalei os olhos para a desculpa, querendo rir. No entanto, o diretor pareceu se interessar. – Parece que tem milhões lá dentro!
̶̶̶̶ Então vamos lá resolver isso. – Ele correu, logo sendo seguido pelo garoto.
Aproveitei e entrei na sala. Ela era escura e tinha vários triângulos verdes estampados no carpete preto. Alguns armários estavam encostados na parede, eram marrons e sem graça. Corri para a mesa naquele pequeno amontoado de papéis e procurei o que eu queria. Olhei por cima das gavetas e lá estava ele. Peguei-o, saí da sala e voltei para a mesma posição que me encontrava incialmente.
̶̶̶̶ Eu juro que tinha uma bolsa de dinheiro no pátio! – Jack disse, com voz inocente. À sua frente, o diretor parecia revoltado.
̶̶̶̶ Pare de mentir, moleque. Vá inventar mais o que fazer! – Bateu a porta assim que entrou, então eu sorri e relaxei.
̶̶̶̶ Acho que estou começando a te corromper! – Brinquei, empurrando-o levemente com o ombro.
Agora precisávamos entregar o bilhete falso.
Fomos até o armário do Rafa e colocamos o bilhete lá. Nele, tinha o seguinte: “Rafa, é a Kimberly. Olha, eu sei que você vai me achar uma idiota por estar mandando esse bilhete, mas eu gostaria que você soubesse que eu te amo e que estou disposta a ser sua namorada. A única coisa que você precisa fazer é uma declaração pública, hoje à noite. Se você for capaz de vencer o medo e se declarar, serei sua para sempre. Só falarei com você caso se declare no anúncio do melhor aluno do ano”.
Depois disso seguimos para a biblioteca e colocamos o papel sobre uma daquelas imensas mesas brancas do local.
̶̶̶̶ Eu nem acredito que está sendo tão fácil. – Ele murmurou. Eu sabia que o Jack era um medroso assumido, mas toda aquela adrenalina tinha o deixado de uma maneira nunca vista antes. Ele andava sorrindo com uma feição de malícia, e não ficava sempre questionando as coisas.
̶̶̶̶ Tudo bem, mas agora fique quieto porque essa parte é complicada. – Precisávamos copiar a assinatura do diretor e para isso tínhamos um boletim como base, pois sempre tinha assinaturas nele. Permiti-me olhar para ela e notei como ela era complexa, cheia de rabiscos e voltas. Suspirei.
̶̶̶̶ Fudeu! – Jack disse fazendo com que eu olhasse para ele, chocado. Ele nunca dizia palavrões.
Eu sempre tinha sido o mandante das travessuras que fazíamos, então as ideias de como resolvê-las sempre vinham de mim. Jack era mais como um ajudante que aguentava junto comigo a bronca que vinha depois. Ele pegou o papel da minha mão e eu fiquei surpreso por ele ter tomado alguma atitude. Colocou o papel sobre a assinatura e então rabiscou por cima.
̶̶̶̶ Quando não se sabe desenhar, use técnicas do primeiro ano! – Debochou.
̶̶̶̶ Eu poderia ter tido essa ideia...
̶̶̶̶ Sim, mas não teve. – Seu sorriso era ainda maior.
̶̶̶̶ Você está se sentindo bem?
̶̶̶̶ Eu só quero ver a reação dele amanhã. – Ele parecia realmente feliz por estar fazendo aquilo. Revirei os olhos e o segui para fora da escola.
(...)
Estava sentado à beira da cama, como sempre, esperando alguém terminar de se vestir. Dessa vez era o Jack, ele saiu de terno e fez uma pose que dizia “E ai, como é que estou? ”. Sorri de volta e então fomos direto a escola. A cerimônia ocorreria na quadra coberta.
Era um lugar bem aberto, no chão havia algumas demarcações de vários jogos. Janelas enormes localizavam-se nas laterais, várias mesas estavam dispostas no centro do local. Algumas pessoas já estavam lá. Uma música tocava no fundo, embalando a festa.
Jack seria o entregador do envelope com melhor aluno do ano, mas dessa vez nós não saberíamos quem foi realmente o melhor aluno do ano. Sentamos em uma mesa e fomos ignorados pela maior parte dos alunos. As únicas pessoas que conversaram com a gente foram os professores de matemática e história.
A noite passou rápida até o momento do anúncio. Jack, como entregador, dispôs-se a pegar o envolve falso e entregar ao diretor. Enquanto o velho pedia silêncio a todos, Jack voltava e sentava-se em seu lugar.
̶̶̶̶ E então, chegou a premiação mais esperada do ano! – O diretor mostrou três passagens de avião, que seriam o prêmio do aluno que ganhasse. Então abriu o envelope e demonstrou surpresa. – Rafael Melo! – Falou em alto e bom som.
Olhamos diretamente para Rafa, que parecia não acreditar. Kimberly estava do outro lado da quadra e explodia de raiva por não ter ganhado. Ele subiu tímido ao palco, com todos os olhares virados pra ele, no entanto, ninguém o aplaudiu.
̶̶̶̶ Eu quero... – Ele parecia ter congelado. – Queria falar umas coisas. – Engoliu em seco.
̶̶̶̶ Vai, chama ela! – Torci, baixinho.
̶̶̶̶ Queria dizer o quanto estou feliz por ter sido indicado como o melhor aluno do ano e obrigado à todos que me ajudaram até aqui. É só isso. – Já ia xingar-me mentalmente quando ele respirou fundo e voltou a falar. – Não é só isso. Gostaria de chamar a Kimberly aqui no palco. – Kim ficou receosa, mas não perdeu seu lindo jeito de princesa e foi até ele.
Apesar do sorriso em seu rosto ela fingia estar feliz por educação, mas ela mantinha uma boa distância dele. Meu peito ardia em felicidade por aquele plano estar dando certo.
̶̶̶̶ Kim, eu gostaria de dizer que... – Ele a encarou e sorriu. – Que eu te amo. E queria que você namorasse comigo. – Ela olhou pra ele e deu uma risada.
̶̶̶̶ O que?! Eu? Com você? – Ela gargalhou profundamente. – Você tem algum distúrbio? Você não passa de um fracassado que pensa que é alguém, por favor. Essa viagem era pra ser minha, não sua. Nem sei como você saiu do pré! – Ela parecia revoltada. – Prefiro ser queimada em praça pública a olhar na sua cara! – Ela quase cuspiu as palavras.
Rafa estava encolhido, morrendo de vergonha e sem saber o que fazer, enquanto ela dava um longo discurso do que preferia fazer ao em vez de ficar com ele. Ele saiu aos prantos do palco, fazendo com que todos rissem.
̶̶̶̶ Nós conseguimos! – Jack bateu sua mão contra a minha no ar.
Quando a festa acabou, nós decidimos ir andando pra casa. Jack ainda estava de muletas, o que nos fazia caminhar devagar pela longa rua. Um vento refrescante fazia-me não ter sono.
̶̶̶̶ Nem acredito que deu certo! Vamos fazer isso todo ano. – Jack riu um pouco.
̶̶̶̶ Sim, deveríamos fazer isso todo ano. – Concordei.
O céu estava muito estrelado e a lua minguava o céu. Passávamos por aqueles pés de Ipês enquanto conversávamos.
̶̶̶̶ Você lembra do dia que minha mãe morreu? – Ele puxou aquele assunto.
̶̶̶̶ Não vamos falar disso, ok?
̶̶̶̶ Eu quero falar sobre isso, Lucas. Quero falar sobre como eu me sinto em relação à tudo aquilo. – Era um assunto proibido falar sobre a mãe do Jack. Ele ficava muito diferente quando tocávamos naquele assunto. – Quando ela ainda era viva, ela disse pro meu pai, em uma discussão, que preferia que você fosse filho dela, ao em vez de mim.
̶̶̶̶ Jack...
̶̶̶̶ Não. Eu quero falar sobre isso. – Ele tinha pequenas lágrimas nos olhos. – Na época, eu não entendi muito bem o que ela quis dizer e pensei que você tomaria o meu lugar. Eu pensei que você fosse alguém que ia arruinar a minha vida, e cheguei à conclusão de que se eu me afastasse de você, as coisas dariam certo. – Ele sorriu. – Lembro que passei um ano te ignorando, todos os dias, mas mesmo assim nós sempre estávamos juntos, por causa da nossa família. Então comecei a achar que estava perdendo, sabe? – Assenti, e ele respirou fundo antes de continuar. – Depois daquele ano, minha mãe morreu de câncer e eu estava destruído, chorando pelos cantos. Meu pai estava na sala sendo consolado pelos seus pais, e eu não tinha ninguém. E você entrou no quarto e sentou-se ao meu lado. E naquele momento eu comecei a te xingar e a gritar, mandando você sair. – Ele pareceu ficar ainda mais emocionado. – E tudo o que você fez foi me abraçar e prometer... – Ele se engasgou com o choro fazendo-o precisar parar por um momento. — Prometer que sempre estará aqui pra me ajudar. Eu fiquei sem reação, eu... Pensei em continuar a gritar, mas vi que não mudaria nada. Enquanto eu estive mal, você foi o único que se importou comigo. E desde então a sua promessa está sendo cumprida, você está sempre comigo. – Várias lágrimas escorriam pelo seu rosto, mas mesmo assim ele conseguiu sorrir. – Acho que por isso que somos tão amigos, né?
̶̶̶̶ É, eu acho que sim. – Aproximei-me dele e dei-lhe um meio abraço. – E eu estava falando sério. Eu sempre estarei aqui, Jack. Daqui a dez, onze ou cinquenta anos. Eu prometo que sempre vou cuidar de você. Sempre.
(...)
Aquela lembrança foi como um golpe. Eu sempre tinha prometido que estaria por perto, mas eu tinha quebrado aquela simples promessa. E agora a vida dele estava um inferno, e eu me sentia culpado.
Levantei-me do velho banco da praça e fui em direção ao hotel. Quando cheguei já estava anoitecendo, e logo seria a hora do churrasco. Respirei fundo antes de entrar no quarto, pois sabia que o meu estado estava um tanto quanto deplorável.
Assim que abri a porta, notei que a Amy não estava lá. Talvez tivesse saído para fazer compras e gastar. Peguei uma roupa limpa e segui para o banheiro. Tomei um longo banho morno, esfregando-me demoradamente, na intenção de tirar todo aquele sangue seco e aquela sujeira. De banho tomado, olhei-me no espelho. Minhas costelas doíam e minha barriga tinha marcas roxas, assim como o meu olho esquerdo e minha boca. Suspirei.
Depois disso, segui para o antigo galpão. O local era bem velho, quase caindo aos pedaços. Várias mesas e cadeiras de madeira estavam espalhadas pelo local, lembrando-me do dia da formatura.
̶̶̶̶ Olha quem temos aqui! – O prefeito me olhava surpreso, mas seus lábios carregavam um sorriso carinhoso. – Mas o que diabos aconteceu com o seu rosto? – Ele demonstrou espanto. Sorri.
̶̶̶̶ Uma briga rápida com uns amigos de escola!
̶̶̶̶ Rafa... – Ele completou. Eu sorri e assenti com a cabeça.
̶̶̶̶ Desculpa pelo Jack. – Disse, um pouco sério. – Deve ser horrível ver um velho amigo de infância em uma situação como a dele.
̶̶̶̶ Você sabe algo dele? – Perguntei entusiasmado.
̶̶̶̶ Claro! Eu sei tudo o que acontece nessa cidade.
̶̶̶̶ O que você sabe? – Indaguei logo após sorrindo.
̶̶̶̶ O Jack... – Uma pessoa o interrompeu, falando em seu ouvido. – Certo. Tenho que ir agora, Lucas. A gente se vê mais tarde. – E saiu apressado.
Frustradas, outra vez, minhas tentativas de saber algo sobre ele. Fui sentar em alguma mesa. Sentei-me na ultima da fileira do meio, várias pessoas estavam em pé já que não estavam comendo dando bastante lugar para se sentar.
Levantei meus olhos e me deparei com Jack. Ele estava sentado, solitário, m uma mesa logo à minha frente. Estava cabisbaixo, mas mesmo assim me viu. Corri para a mesa dele e sentei-me sem mesmo perguntar se podia.
̶̶̶̶ Jack! – Não consegui esconder meu alívio e minha felicidade em vê-lo.
̶̶̶̶ Lucas. – Ele respirou fundo e foi saindo do local.
̶̶̶̶ Ei, espera! – Estávamos do lado de fora e ele levava consigo um prato de carne.
̶̶̶̶ O que você quer de mim, afinal? – Ele demonstrou impaciência.
̶̶̶̶ Só conversar, eu juro.
̶̶̶̶ Sim, conheço esse tipo. – Não entendi muito bem o que ele quis dizer, mas continuei sério.
̶̶̶̶ Sei que você deve estar zangado e tudo mais, mas eu preciso falar com você. Eu sei que só você pode me falar a verdade... Por favor. – Supliquei.
̶̶̶̶ Eu tenho que ir para casa agora. – Ele disse, impaciente.
̶̶̶̶ Eu vou com você.
̶̶̶̶ Que? – Jack levava no rosto um semblante de questionamento.
̶̶̶̶ É, eu vou com você e conversamos.
̶̶̶̶ Não! – Ele foi se afastando ainda mais.
̶̶̶̶ Qual é, Jack?! Se você responder as minhas perguntas prometo que sumo da sua vida se você quiser. – Ele pareceu tentado a aceitar e então assentiu com a cabeça. Abri um sorriso ainda mais largo e entramos em seu carro, que era bem velho por sinal. Ligou o motor e saímos de lá em direção à sua casa.
Estávamos agora na estrada. O céu estava coberto de estrelas novamente e eu estava logo ali no banco da frente ao lado dele. Pela primeira vez percebi o quanto ele tinha mudado. Ele continuava o mesmo baixinho de sempre, mas estava muito mais musculoso e também tinha barba dessa vez. Assim que percebeu que eu o fitava ele olhou para mim desconfiado.
̶̶̶̶ O que foi?! – Virei o rosto, tímido.
̶̶̶̶ Nada... – Era esquisito estar ao lado dele novamente, era como se fossemos dois estranhos que se conhecessem, mas que quisessem manter distância. Eu mal conseguia olhar para ele sem me sentir envergonhado. E agora, eu sentia que estava muito perto de saber toda a verdade.
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