Não se muda o passado

5 Episódio 5: Socos de infomações


Notas iniciais
Sim, uma semana depois estou de volta com as respostas e-e, e por sinal várias delas, kkk, espero que gostem do capítulo. Claramente ainda falta muito para chegarmos ao que realmente está acontecendo - Risos maléficos.

Já fazia um bom tempo desde que tínhamos saído de Marezal e ainda estávamos na estrada. Passamos por uma blitz parada na saída da cidade e eu já não fazia ideia de para onde iríamos.

A paisagem externa era exatamente a mesma que eu me lembrava, muitas árvores no fundo de imensos pastos. Alguns poucos animais pareciam abandonados ali, mas a maioria já tinha sido recolhida pelos devidos donos.

̶̶ Você está me sequestrando? – Brinquei com a situação de estarmos nos afastando da cidade. Ele virou o rosto para mim com uma cara de poucos amigos, coisa que me fez arrepender-me de ter feito tal piada.

Mesmo estando, aparentemente, muito calmo, meu interior estava um caos. Um misto de felicidade, preocupação, curiosidade, medo e culpa me dominavam, fazendo com que eu não soubesse se deveria sorrir ou chorar. Estava satisfeito por ter, finalmente, reencontrado o meu velho amigo de infância, embora estivesse me sentindo um lixo por tê-lo abandonado por tanto tempo, curioso para descobrir o motivo da vida dele ter tomado esse rumo e preocupado por não saber se ele tinha alguma pretensão de me matar ou algo do tipo.

Dei um meio sorriso a mim mesmo ao pensar que ele poderia estar planejando algo ruim pra mim, afinal, ele era o Jack. Ele não machucaria alguém por mais coragem que tivesse. No entanto, o tempo havia passado e eu não sabia se o menino inocente, inseguro e politicamente correto ainda estava ali ou se tinha ido embora de vez.

̶̶ O que diabos aconteceu com o seu rosto? – Sua voz fria e desinteressada cortou o silêncio.

̶̶ Nada... Só uma briguinha com uns otários. – Revirei os olhos, sentindo-me injustiçado. A última coisa que eu queria era mencionar o nome do Rafa, achei que eu deveria poupá-lo de mais preocupações. Não que ele se importasse comigo.

Ele manteve-se em silêncio, comprovando que ele não se importava nem um pouco com o meu estado de saúde. Apenas continuou dirigindo calado e inquieto. Eu pagaria um milhão de reais para poder ouvir seus pensamentos naquele momento. Eu realmente queria saber o quanto a minha aproximação o maltratava ou o deixava feliz. A viagem seguiu em silêncio por ambas as partes.

Fomos parar em outra cidade de nome Luz. Nunca ouvira falar dela e pareceu-me novidade. Seu estilo era um tanto quanto rústico, levado para o lado rural. O chão era revestido por blocos de concreto com pequenas divisões entre si, luzes amarelas iluminavam as ruas e havia várias pessoas sentadas nas calçadas, conversando. Era um daqueles típicos lugares interioranos onde todos se conhecem e fofocam sobre vidas alheias, sem nenhum pudor ou piedade. Uma pessoa com uma vida igual a do Jack devia ser hostilizada de tantos comentários maldosos, o que me fez pensar que Luz não era tão diferente de Marezal.

Lembrei-me do bilhete que encontrara no painel da cidade há algumas horas e olhei fixamente para Jack. Reprimi minha vontade de pedir desculpas ou de lhe dar um abraço apertado, pois primeiro eu precisava reconquistar sua confiança. Voltei-me novamente para a janela antes que ele percebesse alguma coisa.

Andamos mais um pouco com o carro até chegarmos a uma ladeira íngreme que estava vazia comparada ao resto dos locais pelos quais passamos. Apenas duas garotas andavam por ali, a mais alta parecia ser bem comportada, com um vestido estampado de bolinhas e uma bolsa preta de alça, seus cabelos também eram pretos e não parecia ter mais do que dezesseis anos de idade. A mais nova tinha cabelos encaracolados e loiros, usava um vestido rosa e era muito pequetucha, aparentando ter seis anos ou um pouco menos. Eram como mãe e filha.

Jack não esperou que eu saísse do carro. Fechou a janela e a travou, batendo a porta com força e ignorando-me. Ele foi logo avistado pelas duas que pararam o que estavam fazendo para cumprimentarem-no.

̶̶ Papai! – A menor gritou em direção ao Jack. Confesso que não consegui esconder meu choque ao ouvir aquilo.

“Ele tem uma filha!” Exclamei mentalmente. Continuei observando aquilo sem conseguir acreditar.

̶̶ Oi, pequena! – Ele se agachou para dar um abraço bem apertado na menor e logo após se levantou, levando-a nos braços.

̶̶ Oi amor. – A mais velha logo se aproximou, dando-lhe um beijo um tanto quanto demorado. Aquilo foi como dois socos de informações bem fortes. Eu não esperava por aquilo, e muito menos que Jack estivesse envolvido com uma garota tão jovem.

“O que que está acontecendo na minha vida?!” Levei a mão ao rosto, claramente surpreso.

O casal ficou cochichando por alguns instantes, então sua mulher olhou por cima dos ombros do Jack e cravou seu olhar em mim, perguntando, mesmo sem falar, quem eu era. Ele olhou pra trás e também me encarou. Seu olhar era um tanto sombrio e me intimidou. Impiedosos, seus olhos pediam para que eu saísse de lá.

Contrariando meu bom senso e o pedido do meu velho amigo, andei até eles com certa timidez, tentando pensar em algo para dizer. Como um idiota, sorri amarelo.

̶̶ Oi. – Disse baixinho, esticando a mão para cumprimenta-la.

̶̶ Oi! – Ela respondeu, aproximando-se para me cumprimentar com um beijo no rosto.

̶̶ Oi... – Escondi a mão.

̶̶ ... Oi. – Ela esticou a mão. Sorri. Então decidimos nos cumprimentar das duas formas. Ela ria da situação enquanto Jack encarava-me com certa descrença junto com sua filha que brincava com uma pequena boneca.

̶̶ Acho que você deve ser o... – Ela pendeu a cabeça em questionamento.

̶̶ Lucas. Lucas Matter Santos. – Dei um sorriso enquanto colocava meus braços para trás do corpo. – E você?

̶̶ Katherina de Albuquerque, mas pode me chamar de Kate.

̶̶ Ok, Kate. Só por curiosidade, quantos anos você tem? – Eu perguntei tentando exclarecer minha dúvida. Mas assim que as palavras saíram da minha boca, eu me senti um idiota.

̶̶ Não é educado perguntar a idade de uma dama... – Ela completou de forma educada, mas claramente me repreendendo.

̶̶ Desculpa é que… Eu fiquei meio curioso. – Tentei me justificar.

̶̶ Tudo bem, dessa vez eu deixo passar. Eu tenho dezenove. – Ela disse meio irritada, mas mesmo assim abriu um sorriso amarelo.

̶̶ Nossa você parece mais jovem.

̶̶ Ta me julgando pela minha altura?! – Ela riu.

̶̶ Não, claro que não... – Incrível minha capacidade de atrair mulheres agressivas, achei que tinha saido do lado da Amy.

̶̶ Tô brincando. – Ela disse mudando o semblante. – Tenho que ir agora amor, te vejo amanhã May.

̶̶ Tchau. – Ele se despediu de uma forma meio seca.

̶̶ Té. – A menininha disse de uma forma fofa.

Jack colocou-a no chão e pegou em sua mão, reiniciando a caminhada. Andamos até uma esquina onde a área era plana e onde tinha um prédio velho de cor amarela. A tinta que revestia a parede de fora estava gasta e descascada.

Adentramos a parte da frente do local e nos dirigimos à porta. Ele e a filha não esperavam por mim, apenas iam seguindo seus caminhos, como se fizessem isso todos os dias e deixavam-me de lado. Novamente me senti intruso.

Atrás da porta de entrada, a primeira coisa com a qual nos deparamos foi uma escada. Ela parecia levar para o primeiro andar do local, que era plano. O chão cinza lembrava uma penitenciária, mas as paredes brancas transmitiam um pouco de serenidade. O lugar era extremamente abafado e, ao fundo, uma mulher acima do peso estava sentada ao lado de uma janela, suas mãos balançavam um leque na tentativa de fazerem vento. Logo que avistou Jack, colocou-se de pé e foi em sua direção. Carregava uma carranca no lugar do rosto.

̶̶ Cadê o meu dinheiro? – Ela disse em um tom mesquinho. – E o que eu disse sobre trazer clientes para cá?

̶̶ Será que poderíamos falar em particular? – Ele puxou-a para um dos cantos enquanto colocaram-se a conversar em um tom bem baixo.

̶̶ Você é meu titio? – Uma voz gentil e dócil pôde ser ouvida ao meu lado. Tive um sobressalto e logo olhei para o lado. Era a filha do Jack, ela me fitava emburrada.

̶̶ É… Não. – Respondi, afastando-me um pouco. Eu detestava crianças, nunca tinha levado jeito para lidar com elas, o que me fazia repensar na ideia de ser pai. – Como você saiu do lado do seu pai tão depressa?

̶̶ Eu andei! – Ela trocou a cara séria por um sorriso sapeca. Assenti com a cabeça, tentando dar fim à conversa.

̶̶ Qual é seu nome? – Ela perguntou.

̶̶ Lucas. – Respondi-lhe-a friamente.

̶̶ O meu é Mabel, mas a titia Kate me chama de May. – Ela completou.

̶̶ Que bom... – Sorri amarelo, tentando pôr, novamente, fim à conversa.

̶̶ Quantos anos você têm? – A menina parecia uma matraca. Contive minha vontade de não respondê-la.

̶̶ Vinte e seis. – Nem mesmo olhei pra ela.

̶̶ Eu tenho todos esses aqui! – Ela me mostrou sua mão, a qual tinha os cinco dedos levantados. – Papai odeia falar sobre a idade dele.

̶̶ Você gosta dele? –Questionei, sentindo-me um pouco emocionado. Ela acenou com a cabeça, confirmando.

̶̶ Você é muito grande! – Ela afirmou fazendo uma comparação de tamanho com as mãos.

̶̶ É né?! – Estava cansado daquele papo então a deixei falando um pouco sozinha.

Ela não parou mais de falar. Falou sobre tudo o que acontecia na escola dela e um monte de outras coisas as quais eu não quis dar bola. A essa altura, eu já tinha andado de um lado para o outro, mas ela me seguia. Estava a ponto de explodir com ela quando a voz da mulher me chamou.

̶̶ Lucas! – A mulher gorda praticamente gritou olhando para mim.

̶̶ Oi... – Fiquei com medo daquele tom com o qual ela havia me chamado.

̶̶ Quanto tempo! Lembra-se de mim? – Ela veio correndo me abraçar.

̶̶ Claro... – Menti. Eu não fazia ideia de quem era ela.

̶̶ Sou eu. Elsa. – O nome rodou a minha mente e então eu me lembrei dela.

̶̶ Elsa, a dona do casarão? – Apontei vendo se era realmente ela.

̶̶ Sim! – Ela pulou de alegria.

̶̶ Nossa, como você mudou! – Elsa era uma dona de um casarão velho em Marezal. Antigamente a cidade era ainda menor e não possuía hotéis, se você quisesse algum lugar para ficar normalmente você ficava com algum morador que dividisse a casa. Elsa tinha um casarão bem velho na cidade o qual alugava para ganhar dinheiro. Se bem que, na época, ela era bem magricela.

̶̶ Nem me fala, olhe para você! Está um homem, todo estiloso e ainda mais bonito. – Ela fez uma entonação diferente em “bonito”, algo que soou meio estranho. – Eu não sabia que você era um desses…

̶̶ “Desses” ? – Questionei, curioso.

̶̶ É… Sempre disseram coisas sobre você, mas eu nunca dei bola, eu sempre te achei muito homem para aquelas fofocas.

̶̶ “Coisas” ? – Eu começei a ficar mais confuso do que no começo.

̶̶ Sim, mas olha... – Ela deu uma pausa e bateu de leve em meu rosto. – Não precisa ter vergonha. Isso não é exatamente um problema, viu?

̶̶ Do que você está falando? – Olhei, preocupado e suspeitando do que ela se referia.

̶̶ Olha, preciso ir, mas pode ficar tranquilo que não vou contar para ninguém. – Ela foi se afastando, deixando-me sozinho em meio a várias perguntas.

Ela saiu pela porta, fechando-a com violência. Segui para o fim do corredor e subi mais uma escada. Sentia-me atordoado e um pouco furioso. No andar de cima encontrei Jack que, um pouco apavorado, tentava encontrar a chave de casa.

̶̶ Droga, de novo não! – Ele reclamava, segurando um molho com algumas chaves.

̶̶ O que foi?

̶̶ Eu perdi de novo a chave de casa.

̶̶ Você não tem nenhuma reserva?

̶̶ Sim, eu deixei com a Elsa para caso eu perdesse a original. Eu já volto.

̶̶ A Elsa saiu. – Rebati.

̶̶ Como assim? – Seus olhos pequenos se arregalaram.

̶̶ Ela acabou de sair e pareceu que ia demorar.

̶̶ Merda! – Ele deu uma cabeçada na porta. Mabel parecia comovida com o sofrimento do pai e o abraçou.

̶̶ Eu tenho a solução. – Uma ideia me veio à cabeça.

̶̶ E qual seria? – Ele disse, sem colocar muita fé nas minhas palavras enquanto ainda estava com a cabeça na porta.

̶̶ Grampo de cabelo! – Sorri, vitorioso.

̶̶ Por que tenho a sensação de já ter ouvido isso?

̶̶ Porque você já ouviu. Com licença! – Tirei-o da frente da enorme estrutura de madeira, agachando-me até a altura da fechadura. Peguei um grampo no cabelo de Mabel e então comecei as tentativas.

̶̶ Se esse grampo quebrar ai dentro você vai me pagar uma porta nova! – Ele disse impaciente.

̶̶ Eita povo de pouca fé! – E em alguns segundos a porta se abriu. — Abre te, sésamo! – Empurrei-a, fazendo uma piada.

Ele aplaudiu vagarosamente, seus lábios carregavam um sorriso que eu ansiava ver fazia algum tempo. Adentrou o local e acendeu a luz. Meu coração deu alguns saltos. Eu finalmente descobriria a verdade.

O local era frio e bem pequeno. As paredes eram cheias de móveis e a janela tinha uma cortina branca completamente encardida. No canto esquerdo, uma imensa cama de casal tomava a maior parte do local, fazendo todo o resto parecer minúsculo. As paredes também eram brancas e havia duas portas que levavam, provavelmente, ao banheiro e à cozinha.

Jack tirou seus tênis e jogou-se na cama, parecendo adorar aquilo. Mabel subiu na cama também e deitou-se ao lado do pai enquanto brincava com uma boneca. Fechei a porta atrás de mim e encostei-me na parede vaga, sentindo-me deslocado.

̶̶ Vamos acabar com isso! – Ele se ajeitou em um dos travesseiros na cabeçeira da cama e então pegou um cigarro.

̶̶ Você fuma?! – Fiquei surpreso.

̶̶ Algum problema? – Ele perguntou, arqueando uma das sobrancelhas.

̶̶ O que aconteceu com “Lucas, fumar é errado, isso destroi seus pulmões e blá-blá-blá”? – Fiz aspas com os dedos.

̶̶ Quantos anos eu tinha nessa época?

̶̶ Eu acho que uns 13.

̶̶ Então. Nessa época você costumava dizer que nunca ia me abandonar e que estaria sempre aqui, não é? O mundo gira, Lucas... – Ele deu uma gargalhada amarga. Aquela frase foi como uma facada. Entortei o rosto. – Bem, você tem três perguntas e então você some daqui e nunca mais aparece. – Ele acendeu o cigarro e deu uma longa tragada.

̶̶ Ok. – Pensei um pouco. — Quem é a mãe dela?

̶̶ Eu não quero falar sobre isso. – Ele disse logo em seguida.

̶̶ O que? É sobre a mamãe? – Mabel pareceu se interessar pelo assunto.

̶̶ Não, brinca quietinha aí! – Ele falou de uma maneira séria. Mabel abaixou a cabeça, claramente magoada. — Duas perguntas. – Ele repetiu antes de dar outra tragada igualmente profunda.

̶̶ Ok. Onde seu pai está?

̶̶ Ele está morto. – Ele falou, sem expressar nenhum tipo de reação.

̶̶ O que?! –Demonstrei confusão. – Como? Digo... Como ele morreu?

̶̶ Acidente de carro. Pronto, fim do interrogatório! Foi horrível te ver de novo e agora desapareça daqui!

̶̶ Calma, calma. Como assim seu pai morreu em um acidente?

̶̶ Eu disse três perguntas. Agora vai embora. – Ele tragou novamente. A essa altura meu olhos lacrimejavam com tanta fumaça. Peguei o cigarro que ele fumava e o apaguei no chão.

̶̶ Ei, eu estav…

̶̶ Sim, não está mais! Agora eu quero respostas!

̶̶ Tá bem, duas perguntas e acabou.

̶̶ Por que você está fazendo isso?

̶̶ Isso o que? – Ele rebateu, confuso.

̶̶ Se vendendo…

̶̶ Cala boca! – Ele fez um sinal com a cabeça para a menor indicando que não queria falar sobre aquilo na frente dela.

̶̶ OK. Que seja. – Pensei em outra coisa para perguntar. – A Kate é a mãe da Mabel?

̶̶ Não! – Ele respondeu em uma risada.

Eu estava andando de um lado para outro, claramente desnorteado com tudo que ouvira, cada pedaço daquele puzzle estava tentando se juntar em minha mente, mas muita coisa estava faltando.

̶̶ Conte tudo. Tudo! Agora mesmo e eu juro que desapareço se você quiser.

̶̶ Última pergunta então. Faça essa com sabedoria. – Ele parecia começar a se divertir com o meu desespero.

̶̶ O que aconteceu com seu tio? Por que você está fugindo dele?

̶̶ Eu não estou fugindo dele, eu estava fugindo dele.

̶̶ Por quê? – Praticamente implorei por mais detalhes.

̶̶ Desculpa, acabaram as suas tentativas. – Ele fez um biquinho, como se realmente estivesse triste.

̶̶ Jack, eu... – Fui interrompido por um toque de uma mensagem.

Ele pegou o celular meio despreocupado enquanto me ignorava. Sentou-se na cama para poder ler, assim que teminou jogou o telefone na cama muito furioso.

̶̶ Esse filho da puta! – Ele disse se reclinando sobre a cabeceira com uma mão na testa.

̶̶ O que foi? – Perguntei, um pouco preocupado, aproximando-me.

̶̶ O Rotwailer aumentou minha dívida.

̶̶ Como assim aumentou? – Estava meio confuso enquanto boiava na conversa.

̶̶ Ele aumentou! Disse que eu tinha que pagar pelos cuidados médicos, já que a minha “turminha” tinha aprontado uma para ele. – Ele parecia tenso. Mabel se aproximou e o abraçou, logo recebendo o carinho de volta.

̶̶ Nossa, que barra.

̶̶ É mais ou menos assim que minha vida funciona, eu não faço nada, mas mesmo assim eu tenho que pagar. Eu vou ter uma conversinha com o Rafa…

̶̶ Rafa? O que ele tem a ver com essa história?

̶̶ Chame ele como quiser. Rotwailer, Rafa, filho da puta, da mãe…

̶̶ Eles são a mesma pessoa?

̶̶ Sim, por quê? – Elevei minha mão aos meus cabelos, claramente entendendo o que ocorrera. Rafa estava descontando no Jack o que eu fizera com ele mais cedo. — O que foi? – Ele perguntou, curioso.

̶̶ Eu... – Novamente um barulho me interrompeu, mas dessa vez o do meu celular. Peguei-o e admirei a bela foto da minha noiva. Amy estava me ligando. – Eu preciso atender.

̶̶ Faça o que quiser. – Ele disse, e voltou a se deitar na cama.

̶̶ Alô?! – Estava acanhado e com o celular longe do ouvido, pois sabia que viriam gritos.

̶̶ Onde caralhos você está? – Ela gritou do outro lado da linha.

̶̶ Estou em outra cidade, amor.

̶̶ Outra cidade? OUTRA CIDADE? Está com alguma vadia aí, não é? Passa o telefone pra ela agora! – Ela parecia tão estressada que eu estava com medo de voltar para o hotel.

̶̶ Calma! Não tem ninguém aqui.

̶̶ Claro que tem! Eu estou vendo ela agora. Estou visualizando essa safada. Coloca ela na linha que eu vou ensinar como se faz um barraco! E não vou montar só o barraco, vou montar a feira inteira!

̶̶ Calma, você está meio exaltada…

̶̶ Coloca essa puta no telefone agora, Lucas! – Ela disse gritando a frase inteira.

̶̶ Alô? Amy? Não estou entendendo.

̶̶ Alô? Você ta me ouvindo filho de uma piranha descascada? – Ela respondeu ainda mais nervosa.

̶̶ Alô, Amy? Olha te ligo amanhã, não espere por mim ok?

̶̶ Coloca essa vagabu... – Desliguei antes que ela pudesse continuar. Ela provavelmente estava bêbada no quarto de hotel ou sóbria e no meio da cidade. Mas a última coisa que ela precisava era me ver.

̶̶ Nossa, acho que ela precisa te ver agora. – Ele disse, claramente espantado com tanta violência.

̶̶ Acredite, ela não precisa me ver, não hoje.

̶̶ Hm, que bom, agora, será que dá para sair? Eu meio que não quero te ver mais.

̶̶ Jack… Olha… Eu sei que você ta bravo e tudo mais, mas... – Vi que ele, além de bravo, estava estressado demais para me ouvir, então desisti do que ia falar. – Eu não posso voltar pra casa, será que posso dormir aqui?

̶̶ Eram apenas algumas perguntas e agora você quer dormir aqui?

̶̶ É, você pode chegar mais para o lado junto da Mabel e eu durmo na ponta.

̶̶ Ah, vai. Ah, se vai. – Ele falou de uma forma sarcástica. — Se quiser, durma no chão!

̶̶ Nossa, você divide a cama com vários homens e têm problemas para dividir com seu melhor amigo? – Assim que terminei a frase vi a besteira que havia falado. Ele fez uma cara de ódio, mas não respondeu nada. Apenas apontou para o chão ainda mais decidido. – Pode pegar pelo menos um cobertor? – Apelei.

̶̶ Não! – Ele gritou, indo em direção à luz e apagando-a. Deitei naquele chão frio sabendo que não tinha muitas opções. Enquanto ele passava, pisou em cima de mim várias vezes e deu alguns chutes, os quais eu acho que foram propositais. –Boa noite! – Virou-se para a janela falando friamente.

Naquele chão sujo e frio, eu já podia sentir a dor nas costas com a qual eu acordaria na manhã seguinte. Mas eu não tinha muitas opções, então virei para o lado e tentei dormir ao em vez de ficar pensando em tudo o que tinha acontecido naquele dia.

(...)

Estávamos na festa de aniversário do Jack, naquele jardim bem bonito em frente à sua casa. Eu observava Jack e Juliana ao longe, conversando ao lado da cerca de madeira.

̶̶ Seu idiota. Isso não sai! – Caroline disse nervosa, enquanto esfregava a mancha do líquido.

̶̶ É... Continua esfregando! – Disse, enquanto ainda observava os dois.

Ela deu um grito de frustração ao perceber que eu não estava me importando com ela e com seu vestido, então saiu resmungando.

̶̶ Eu vou voltar pra lá!

̶̶ Não! – Segurei seu braço.

̶̶ Ah!! Lucas, me larga! – Ela disse, socando o meu braço com força. Tive que pensar rápido, pois se ela voltasse para lá, com certeza seria fim de jogo. Puxei-a para o meio da festa e todos começaram a nos olhar. – O que você acha que está fazendo? – Ela perguntou no meu ouvido, assim que grudei nossos corpos.

̶̶ Vamos dançar!

̶̶ Claro que não! – Ela me empurrou.

Soltei uma grande quantidade de ar pela boca.

̶̶ Olha, lembra do que aconteceu com o Rafa? – Ela assentiu. – Então, se você sair de perto de mim sem dançar, eu juro que vou começar a espalhar por ai que essa mancha no seu vestido é xixi. Você não vai querer ser a menina que molhou o vestido, né?

̶̶ Ai, começa a dançar! – Ela abriu um sorriso gentil.

Dançamos uma música lenta, a qual dançamos coladinhos um no outro, logo todos os adultos ficaram adimirados com a nossa iniciantiva começando a dançar também. Alguns garotos da escola estavam com uma cara de nojo, mas todos os adultos adoraram a ideia. Logo até colocaram uma música de época para embalar ainda mais o clima.

̶̶ Você quer dançar? – Jack arriscou convidar Juliana.

̶̶ Olha, eu não curto esse estilo de música, eu... – Assim que viu a feição de decepção do garoto, ela mudou seu discurso. – Eu adoraria! – E então colocaram-se a dançar.

Todos ficaram nesse embalo por um longo tempo até que a música parou. Em meio aos “ahs” de tristeza por aquilo ter acabado tinham também aplausos para nós dois que tinhamos iniciado tal evento. Carolina correu para os fundos da casa para fugir dos holofótes, enquanto eu era cumprimentado por muitas pessoas. Subitamente uma mão me virou.

̶̶ Precisamos conversar! – Era Juliana e ela parecia séria.

̶̶ Ok, pode falar. – Eu tinha um sorisso convidativo no rosto.

̶̶ É particular. Podemos entrar para conversarmos melhor? – Ela sugeriu.

̶̶ Claro. – Então a segui para dentro de casa para descobrir o que ela tinha a me dizer.

(...)

Notas finais
Continua... Não se esqueça de comentar por favor! e-e