Não se muda o passado

3 Episódio 3: Represália


Notas iniciais
Yo. Eu de novo e-e. Desculpa a demora como sempre, mas acho que ninguém lerá de qualquer forma então... Quem se importa né? Boa leitura d-d

Chegamos no hotel tarde da noite. Eu carregava Emily, apoiando seu braço em meu pescoço enquanto mantinha minha cintura colada à dela. Ela estava dormindo profundamente, completamente adormecida. Sua expressão demonstrava que ela nem sabia o que estava acontecendo.

Deitei-a delicadamente na enorme cama de casal do local, que, por sua vez, estava tão escuro que precisei fazer meus olhos se acostumarem. A única luz que passava pelas frestas da janela pertencia à lua, que, minguante, parecia um tanto quanto aborrecida. Algumas poucas nuvens tentavam cobri-la, mas sem sucesso. Apesar de cansado, eu me sentia extremamente angustiado para poder deitar e descansar naquele momento, então segui até a sacada e sentei-me na cadeira de balanço que estava ali.

Fiquei olhando o céu e tentando entender tudo o que tinha acontecido naquela noite. Tantas informações chegaram até mim, que eu nem conseguia assimilar todas ao mesmo Jack. Elas eram desconexas, vagas e pouco detalhadas. Eu não conseguia achar um caminho que não fosse contraditório.

̶̶̶̶ Se ele está fugindo do tio dele, por que ele ainda continua aqui? – Apoiei o queixo na ponta dos dedos e soltei um suspiro alto. Uma dor horrível dominava minhas têmporas. Olhei para a lua, pedindo uma resposta. Queria poder saber onde ele estava. – Talvez ele esteja... – Contive-me antes de terminar aquele pensamento.

Era péssimo pensar que seu amigo de infância tinha sofrido tanto à ponto de tomar caminhos que, na verdade, ele não queria. Encarei a minha cicatriz por alguns segundos e me perdi em pensamentos. Meus olhos ardiam e eu parecia mais cansado do que realmente estava. A preocupação e a culpa estavam me deixando neurótico. Apesar da culpa não ser totalmente minha, eu poderia ter mantido contato e demonstrado que, mesmo longe, eu ainda me importava com ele. Mas não, eu apenas fui embora, mesmo depois de ter jurado que nunca o deixaria sozinho e que sempre estaria lá pra ajudá-lo.

Pensar naquilo fazia-me ver o quanto eu tinha crescido e amadurecido naqueles últimos anos. Aquela simples frase tomava um significado diferente agora. Quando se é criança, as palavras tornam-se mais fáceis de serem proferidas, mas quando crescemos, percebemos que as coisas não podem ser do jeito que queremos. Eu ainda me importava com Jack, e para mim ele ainda era o mesmo garoto que tinha crescido comigo, mesmo que talvez ele me odiasse agora.

Tudo me fazia achar que a minha história com Jack era destino. Eu era mais velho que ele por poucos meses, mas eu sempre jogava isso na cara de qualquer um como se fosse grande coisa. Eu era o mais velho e cuidaria do meu irmão mais novo sempre. Além de sempre vivermos juntos, tínhamos sido batizados na mesma igreja e no mesmo dia, meus pais costumavam dizer que éramos irmãos de famílias diferentes.

Um sorriso pequenino e sem graça tomou conta dos meus lábios. Olhei calmamente pra trás e encarei Emily, que dormia de forma tranquila e tinha um enorme sorriso nos lábios contornados, virada para o lado que eu me encontrava, a lua fazia seu rosto parecer um pouco sombrio. Toda vez que eu parava pra pensar na minha vida, eu chegava à conclusão de que tinha tudo o que um homem poderia querer, e assim parecia estar reclamando demais.

Voltei para dentro e sentei-me no sofá cama, que estava encostado do lado esquerdo do quarto, isolado do resto dos móveis. Aquele sofá era tudo o que eu precisava, pois eu só queria ficar longe de todos, incluindo Amy. Continuei olhando pela janela até que o sono me envolveu, levando-me a adormecer calmamente.

Um empurrão abrupto fez meu coração acelerar, então abri os olhos e dei de cara com as feições raivosas de Emily. A encarei e soltei um suspiro.

̶̶̶̶ O que foi? – Semicerrei os olhos pra ela.

̶̶̶̶ O que foi? – Ela repetiu, contrariada. – Por que você tem agido desse jeito? – Ela olhou, apontando o dedo para mim.

̶̶̶̶ Que jeito?

̶̶̶̶ Desde que nós chegamos aqui você tem agido estranho, você desaparece por mais de um dia, fica rindo sem motivo, ignorando-me e agora você não dormiu comigo?

̶̶̶̶ Você me jogou da cadeira apenas para me confrontar sobre como eu estou agindo?

̶̶̶̶ Sim! O que diabos está acontecendo, Lucas? Eu quero saber. – Ela parecia furiosa.

̶̶̶̶ Você está de TPM? – Assim que terminei a frase me dei conta da besteira que tinha falado. Emily bufou em fúria antes de responder, seu rosto carregava uma coloração um pouco rosada.

̶̶̶̶ Eu. Não. Estou. De. TPM! – Ela falou pausadamente, como se tentasse se acalmar. Logo em seguida, em uma tentativa falha, começou a me chutar.

̶̶̶̶ Calma! – Tentava inutilmente me defender com as mãos.

̶̶̶̶ Tá bem, eu vou me acalmar! – Ela respirou fundo e voltou a sentar à beira da cama. – O que tá acontecendo, Lucas? Apenas me responda.

̶̶̶̶ Nada está acontecendo! – Gritei, a essa altura já estava estressado também. Levantei-me raivoso e deixei o local, Emily correu atrás de mim, logo me puxando pelo braço.

̶̶̶̶ Aonde você vai? – Sua voz estava ríspida e autoritária. Pela forma como as sobrancelhas dela estavam arqueadas, ela estava revoltada.

̶̶̶̶ De preferência para algum lugar bem longe de você! – Eu sabia que ia me arrepender de ter dito aquilo, mas saí andando. Ela começou a querer discutir, mas eu não dei bola, apenas deixei o hotel antes que ela começasse a falar coisas ruins.

Eu precisava esfriar a cabeça e dar tempo para que ela fizesse o mesmo. Emily estava exaltada sem motivos, eu tinha certeza que não tinha feito nada de errado. Decidi me dar outro leve choque de nostalgia e caminhar pelo centro da cidade. Lá era o local onde tinha a grande tabela de eventos importantes da cidade.

Eu estava em uma imensa ladeira, e logo acima já era possível ver algumas características da tabela que ficava em uma placa de concreto, no meio daquela praça. Ali também se encontrava uma fonte d’água e alguns brinquedos para as crianças. Três homens estavam encostados em uma parede amarela, à minha direita. Assim que me notaram, vieram em minha direção.

̶̶̶̶ Olha só se não é o gay do Lucas! O que você ta fazendo aqui? Soubemos que tinha fugido. – Ele se colocou na minha frente, encarando-me de cima. Só de ouvir aquela ofensa e aquela voz, reconheci que era Rafa, com seus seguidores Josh e Calvin.

̶̶̶̶ É incrível, né? O tempo passa, as pessoas mudam, mas os dois trouxas ainda andam com você, Rafa. – Olhei pra cima, depois o encarei com um sorriso debochado. Ele sempre zombava de todos que passavam na rua ou na escola, mas ele gostava de implicar comigo e, consequentemente, com Jack. Talvez o fato de eu não ter medo dele, fazia ele querer provar que era melhor que eu. Seus dois seguidores demonstraram irritação e ameaçaram me bater, mas logo Rafa abriu os braços, parando-os.

̶̶̶̶ É como dizem. Amigos que são realmente amigos, permanecem juntos. Bem diferente de você e de Jack, coitado. O sofredor eterno sem amigos, é tão triste!

̶̶̶̶ Ainda bolado pelo o que aconteceu com a Kimberly? – Toquei na ferida.

̶̶̶̶ Não, superei aquilo faz anos. – Rafa tentou passar tranquilidade, mas estava se remoendo por dentro. – Diferente do seu amigo, né? Ele realmente achou uma profissão que combinavam com... – Sem que eu pudesse me controlar, depositei um soco em seu nariz. Aquilo não era só pelo o que ele tinha acabado de dizer, mas sim por todos os anos que ele tinha zombado de mim e eu tinha ficado calado.

Ele deu uma cambaleada pra trás e colocou uma das mãos no nariz. Seus olhos carregavam uma raiva que eu nunca tinha visto, e ele olhava muito sério pra mim. Seus dois amigos me encararam, e estavam pra me acertar quando Rafa os mandou parar.

̶̶̶̶ Podem deixar! Eu vou adorar quebrar a cara desse filho da mãe! – Ambos deram espaço para que ele passasse. Seu nariz ainda sangrava, mas a sua mão não estava mais ali. O terreno era íngreme e qualquer queda poderia significar um belo machucado. Quem derrubasse o outro primeiro, ganhava aquilo. – Acho que finalmente resolveremos isso, não é Luquinhas? – Seu tom era carregado de zombaria.

Ele tentou me acertar um soco, mas eu andei um pouco pra trás e consegui desviar. Ele tentou mais uma vez e acertou, de raspão, o meu queixo. Mas não o suficiente para me desorientar, virei a mão e acertei-lhe um soco no queixo, que o fez recuar. Tentei socar seu estômago, mas ele segurou meu soco com grande força, dando-me um chute nas costelas. Soltei um gemido baixo de dor e tentei mais um soco, dessa vez acertando sua garganta. Assim que ele perdeu o fôlego, eu o derrubei no chão, dando um chute em seus testículos.

Calvin e Josh me imobilizaram para que Rafa pudesse vencer. Calmamente ele se levantou do chão e me deu um soco no rosto, fazendo com que uma dor lancinante tomasse conta do meu rosto. Meus olhos encheram-se de lágrimas espontâneas, e quando eu estava me recuperando, ele socou meu nariz ao mesmo tempo que chutava minhas costelas. Senti o líquido viscoso descendo pelo meu nariz, entrando vagarosamente na boca. Abri os olhos e o encarei, cansado.

Os dois capangas ergueram-me, fazendo-me ficar em pé. Eles riam de mim e zombavam do fato de eu estar machucado, então aproveitei a distração para chutar o estômago de Rafa, fazendo-o cair de bunda. Logo em seguida dei uma cabeçada em Josh, e uma cotovelada em Calvin. Os dois me soltaram, então caminhei até Rafa e o chutei novamente, fazendo com que ele ficasse no chão.

Segundos depois, eu estava no chão e alguém, em cima de mim, socava meu rosto. Apertei os golpes com as mãos e cuspi sangue no rosto dele. Era Calvin. Depois o empurrei, e sentei em cima dele. Meu rosto carregava um sorriso homicida, coisa que me assustava. Soquei-o até que ele ficasse molenga e levantei, cambaleando levemente pra trás. Josh estava me olhando com uma feição assustada, sentado ao lado de Rafa, que soltava curtos gemidos de dor.

Assim que meu coração se acalmou, eu me afastei e tentei retomar o ar. Meu corpo doía e minha visão estava embaçada. Algumas gotas de sangue caíam no chão e meu rosto parecia estar deplorável. Vagarosamente, os três se levantaram.

̶̶̶̶ Você e seu amigo vão me pagar! – Rafa disse em um gemido, e tentando manter a pose, saiu andando, acompanhado de seus comparsas. Ele nunca tinha sido um bom lutador, mas sempre soube usar a vantagem numérica. Revirei os olhos e saí andando no sentido oposto ao deles.

Entrei em uma pequena pastelaria e segui até o pequeno banheiro dos fundos. Encarei-me no espelho e respirei fundo. Meu rosto estava completamente manchado de vermelho e minhas mãos estavam marcadas pelos golpes. A água limpa ficava vermelha a cada vez que eu lavava o rosto e as mãos. Até que ela voltou a ficar limpa. Sequei o rosto com algumas folhas de papel e olhei minha aparência menos suja.

Meu olho esquerdo estava bem menor e com certeza ficaria roxo dali algumas horas. Minha calça estava encardida e com algumas gotas de sangue. Senti-me infeliz por ter destruído minha calça preferida e me retirei do local, seguindo meu caminho até a tabela que eu tanto ansiava rever.

O centro da cidade era, na verdade, o marco zero. Todos os pontos cardiais se encontravam ali, alguns prédios estavam ao redor e, no meio, uma grande parte de concreto igualmente redonda era rodeada por Ipês rosas. A tabela ficava virada para a ladeira, e normalmente o prefeito a usava para deixar avisos ou recados para os habitantes. A madeira que a sustentava era escura e antiga, estava um tanto desgastada e tinha vários papéis ilegíveis colados em suas bordas.

Passeei os dedos em sua superfície, igual eu fazia quando mais novo. Um cartaz pedia informações sobre um homem chamado José Silva que havia desaparecido há dois dias. Continuei passando os olhos pelos recados e notei alguns grafites. Uns criticavam o prefeito, outros o governo do país e um, em especial, chamou minha atenção. “Jack, minha puta” era o que estava escrito em uma letra enorme e chamativa.

Respirei bem fundo assim que vi aquela mensagem maldosa, meu coração como amigo se apertou um pouco enquanto como humano se encheu de ira. Peguei a caneta que sempre levava comigo e passei em cima da superfície até que não pudesse mais ser visto o nome. Guardei-a e continuei a passar a mão sobre aquela superfície. A próxima notícia era, na verdade, um convite.

“Hoje à noite! Grande churrasco. Galpão abandonado atrás do açougue. As 18 horas. Esperamos você!

Com carinho, Prefeito. ”

Pensei um pouco até que decidi ir. Seria legal passar um tempo em algum lugar para ter mais recordações do passado, e ainda mais do galpão. Em meu coração, eu tinha esperanças de que talvez Jack aparecesse.

(...)

̶̶̶̶ Não corre, Lucas! – Jack disse, enquanto eu andava um pouco apressado. Ele tinha fraturado a perna na educação física, então ele precisava que eu fosse mais devagar caso quiséssemos andar juntos.

̶̶̶̶ Eu só estou brincando, Jack. Será que dá para parar de ser tão sério o tempo todo? – Brinquei. Passávamos pela parte pavimentada ao lado do riacho, onde eu geralmente passava os meus dias brincando.

Jack parou e ficou olhando para algum ponto fixo. Encarei-o, confuso.

̶̶̶̶ O que foi?

̶̶̶̶ Olha! – Ele apontou. Rafa estava ali, implicando com Elton, um menino que era cadeirante e bastante solitário.

̶̶̶̶ Vamos! – Puxei-o pelo braço para que pudéssemos nos aproximar.

̶̶̶̶ ... olha bem pra você, seu defeituoso. Acha mesmo que alguém iria se importar com você? – Rafa puxou a sua cadeira, jogando-o no chão com violência. – Se você não tivesse nascido, seus pais não passariam tanta vergonha! — Elton caiu no chão, choramingando.

̶̶̶̶ Nós temos que ajuda-lo! – Jack disse, erguendo-se.

̶̶̶̶ Não! – Eu o segurei. – O que exatamente vamos fazer?

̶̶̶̶ Lucas, aquele garoto poderia ser eu! – Ele demonstrava desespero. – Eu iria querer ajuda.

̶̶̶̶ Mas não é você. Nem nunca será. Eu sempre estarei lá pra te ajudar, Jack. Agora vamos embora daqui.

̶̶̶̶ Lucas...- Ele pareceu confuso enquanto procurava algum argumento. — Que tipo de pessoa é você? – Ele parecia indignado. – Ele precisa de ajuda! — Dei-me por vencido.

̶̶̶̶ Tudo bem. Então você fica aqui e eu vou.

̶̶̶̶ Não! De forma alguma.

̶̶̶̶ Jack, você está machucado. Eu vou e resolvo isso, tá bem? – Olhei pra ele, como uma ordem. Ele abaixou a cabeça e concordou. Coloquei toda a coragem que tinha e fiz cara de mau. – Será que dá pra deixar o menino em paz? – Meu tom de voz saiu sereno, mas eu estava tremendo de medo por dentro.

̶̶̶̶ Olha só quem temos aqui! – Os três me encararam.

Rafa se aproximou de mim e me encarou nos olhos, tentando me intimidar. Eu não demonstrei reação, apenas estufei o peito e prendi um pouco a minha respiração, na tentativa de esconder mais ainda o meu medo.

̶̶̶̶ Que corajoso! – Ele riu debochado, e depois deu um soco no meu rosto. Apesar da dor, eu sabia que podia ter sido pior. Ele se agachou ao meu lado e disse em um tom baixo. – Eu poderia acabar com você, mas não o farei. Você me dá pena. – Sorriu e saiu andando com os seus amigos. Segundos depois, Jack estava ao meu lado.

̶̶̶̶ Você está bem? – Sua voz carregava culpa.

̶̶̶̶ Claro, eu apenas levei um soco. Acho que posso sobreviver. – Brinquei. Mesmo com muletas, Jack me ajudou a levantar. Então ajudamos o Elton, recolocando-o na cadeira e o acompanhando até em casa. – Por que eles estavam implicando com você? – Eu empurrava sua cadeira enquanto Jack acompanhava na caminhada.

̶̶̶̶ Eles implicam com todos, afinal. – Elton respondeu, enxugando uma lágrima.

̶̶̶̶ Ah sim, eles vivem nos atazanando. – Jack completou.

̶̶̶̶ Obrigado por me ajudarem. A maioria das pessoas teria ido embora. – Ele deu um sorriso pequeno. Senti-me culpado por no início ter tido a vontade de ir embora.

̶̶̶̶ O Rafa tem que pagar pelo o que tem feito. – Jack disse.

̶̶̶̶ Ele é invencível, é melhor desistir. – O menino na cadeira dizia, um pouco receoso e preocupado. Pensei um pouco e então a ideia perfeita me veio à mente.

̶̶̶̶ O Rafa ainda gosta da Kimberly? – Ambos assentiram com a cabeça. – Acho que está na hora de um pouco de C.S.I Marezal...

Notas finais
Espero que tenha curtido esse ep e-e Não se esqueça de comentar plsss. Episódio 4: "Em direção à verdade", agora disponível.