Não se muda o passado

2 Episódio 2: Desconexo


Notas iniciais
Tá, eu demorei muito para postar esse episódio 2, me desculpe! Esse ep sofreu muitas mudanças até esse final, que por sinal me inspirei em um comentário de um leitor que não me recordo agora. Queria que esse episódio estivesse tão bom ou melhor que o ep 1, espero que gostem! Sinopse: Apos seu reencontro com Jack noite passada, Lucas agora vai atrás de informações do que aconteceu com ele nesses anos que esteve fora.

A luz que vinha do nascer do sol invadia o quarto de hotel, inundando-o com uma alegria repentina e natural. Remexi-me na cama quando aquela grandiosa luz alcançou meus olhos. Abri-os vagarosamente e olhei ao redor. Havia pássaros cantando do lado de fora, eles faziam tudo parecer melhor. Era como se aqueles pequenos animais dessem sentido a algo maior. Sentei-me na cama a fim de espantar a preguiça que ainda estava instalada em mim.

Olhei para Emily, que estava virada de costas para mim. A noite que ela tinha me proporcionado havia sido maravilhosa, ainda mais porque ela conseguiu desviar meus pensamentos do Jack. Não me lembrava muito bem do que havia acontecido depois de reencontrá-lo, apenas lembrava de ter voltado para o hotel e ter tomado um remédio para dormir. Hoje era o dia da reunião, olhei rapidamente em meu celular preocupado com a hora, o relógio indicava ser 6:10 da manhã.

̶̶̶̶ Não, eu não estou atrasado. – Suspirei aliviado enquanto a tensão se esvaia aos poucos do meu corpo.

Fiquei alguns minutos sentado tentando vencer aquela vontade de dormir apenas mais alguns minutos, assim que levantei fui até aquele amontoado de malas e peguei minha pequena mochila, nela havia apenas os utensílios indispensáveis no manual de um homem moderno. Diferentemente de Amy que parecia ter se preparado para passar a vida com aquelas cinco bagagens de roupas. Peguei uma roupa social e tudo do necessário e fui tomar banho. O banheiro era dominado por um grande espelho localizado acima de uma pia igualmente grande. Encarei-me durante alguns segundos e sorri, satisfeito. Naquele dia eu me sentia bem. Minha barba por fazer dava um ar de superioridade ao meu rosto fino, e, apesar das poucas gordurinhas, eu me sentia feliz com o meu porte físico.

Coloquei tudo sobre a pia e segui para o chuveiro. Onde a água morna batia, meu corpo relaxava. Depois disso me barbeei e me troquei.

̶̶̶̶ Ainda mais bonito! – Admirei-me no espelho.

A gravata sempre ficava sob responsabilidade da Amy. Eu até tentei colocá-la sozinho, mas parecia uma missão impossível pra mim. Segui para o quarto e decidi acordá-la com a sua frase preferida.

̶̶̶̶ Comida grátis!– Falei em um tom brincalhão.

̶̶̶̶ Comida? –Ela levantou a cabeça assim que terminei a frase. Quase que ela me atingiu com sua cabeça. – Onde? Onde tem comida? – Ela demonstrava sonolência, fato que fazia a cena ser mais engraçada.

̶̶̶̶ Bom dia Amy, será que dá para você dar um nó aqui para mim, por favor?

̶̶̶̶ Não... você não me acordou para dar um nó de gravata, Lucas... – Ela revirou seus grandes olhos – Nossa, você não respeita ninguém mesmo, como você pode?! – Sorri um sorriso amarelo. Ela era sempre estressada e sensível antes do café da manhã, era como se ela sempre estivesse de TPM quando acordava.

̶̶̶̶ Desculpa, amor. Mas dá para dar um nó aqui? – Abracei-a e depositei um beijo em sua cabeça tentando comovê-la.

̶̶̶̶ Tudo bem. – Ela sorriu. Suas mãos ágeis começaram a dar o nó bem devagar e foram aumentando a força. Logo eu sentia dificuldade para respirar.

̶̶̶̶ Olha... acho que você está... me sufocando... – As palavras saiam baixas e espaçadas.

̶̶̶̶ Sim... – Ela me olhou com aquela cara de psicopata que, às vezes, ela tinha.

̶̶̶̶ Acho que o nó já está bom, você já pode parar. – Tentei convencê-la.

̶̶̶̶ Não, ainda está um tanto frouxo...

̶̶̶̶ Aquilo é um croissant?!- Apontei para algum lugar atrás dela.

̶̶̶̶ Onde? – Ela me soltou para olhar para o lugar que eu tinha apontado. Levantei-me da cama correndo e peguei minha maleta. O sorriso não abandonava meu rosto.

̶̶̶̶ Até mais tarde amor. – Gritei já abrindo a porta do quarto.

̶̶̶̶ Você me enganou seu desgraça... – Foram as únicas coisas que consegui entender antes de fechar a porta atrás de mim. Sei que ela pode ser um pouco estressada quando acorda, mas não acho que ela seria capaz de me matar. Eu acho.

Cheguei em frente da empresa e respirei fundo. Meu estômago revirava o copo de leite que eu tinha ingerido pela manhã. Uma secretária loira me guiou até uma enorme sala de reuniões. Seu piso era preto, suas paredes um azul escuro. Quadros aleatórios enfeitavam as paredes e uma enorme sala de madeira que dominava o centro da sala. Janelas estavam espalhadas por todos os cantos.

Conversamos sobre vários assuntos, fiz com que eles dessem um pouco de risada e levantei a auto estima da reunião. Os papéis estavam na minha frente e o diretor me explicou como eu deveria coordenar sua empresa em Paris.

̶̶̶̶ Então, é só você assinar aqui e você irá para Paris nos representar. – Ele arrastou a folha do contrato para mim. Eles eram uma empresa iniciante e provavelmente nunca haviam assinado um contrato tão importante antes, nós apenas havíamos aceitado fazer uma parceria com eles porque o projeto era realmente bom. Além do mais, meu pai achava que já estava na hora de eu assinar meu primeiro acordo. Inclinei-me para ler o contrato, a faculdade de Direito me ajudava a entender melhor os conceitos do contrato e após revisar cada cláusula, sentia-me pronto para assinar. Peguei a caneta em meu bolso e olhei ao redor rapidamente. Eles estavam, claramente, ansiosos e tensos com a minha decisão. Assim que encostei a caneta no papel parei, ouvi alguém respirar fundo, era como se fosse a final de um campeonato repleto de tensão.

No momento de assinar, a imagem do mesmo Jack da noite passada dominou minha mente. Eu parei a caneta e pensei um pouco. Se eu assinasse o contrato, eu teria que ir para Paris e não teria como eu ficar para ajudá-lo. Encarei o Presidente da empresa que parecia um tanto suado. Sua camisa branca estava colada ao corpo, demonstrando seu nervosismo. Dei um sorriso leve.

̶̶̶̶ Podemos adiar um pouco?-Eu preciso de um tempo para pensar, é uma escolha difícil para mim! – Menti.

̶̶̶̶ Claro! – Sua frustração era notável. Todos na sala pareciam me julgar, suas expressões negativas me deixaram com um péssimo humor. Eu não gostava de chatear pessoas.

̶̶̶̶ Vou pensar ao longo dessa semana e na próxima terça comunicarei a minha decisão. – Foi a única coisa que pensei para tentar melhorar pelo menos um pouco o clima. Levantei-me e saí do prédio um tanto quanto pensativo sobre o Jack.

̶̶̶̶ Eu. Não. Acredito! – Uma voz desconhecida interrompeu meus pensamentos, virei para ver se reconhecia a pessoa que me chamava. Era uma loira alta que escondia metade do rosto sob óculos de sol. – Quanto tempo! – Ela veio me abraçar.

̶̶̶̶ Oi, tudo bem? – Tentei fingir que a conhecia, mas meu rosto demonstrava confusão.

̶̶̶̶ Lembra de mim?

̶̶̶̶ Não... – Sorri de canto.

̶̶̶̶ Sou eu, Ju! – Quando eu não demonstrei reação, ela pareceu perder a paciência. – Juliana. Do colégio!

̶̶̶̶ Ju?! Nossa, como você está mudada! – Olhei mais outra vez para reparar o quanto ela havia mudado.

̶̶̶̶ Nossa, todo engravatado! Você trabalha aqui agora? – Ela encarou o prédio atrás de mim, parecia surpresa.

̶̶̶̶ Não, eu apenas vim assinar um contrato.

̶̶̶̶ Olha só... além de lindo, é todo milionário. – Sua voz demonstrava descontração.

̶̶̶̶ Que isso ... – Virei o rosto para esconder a timidez. – Escuta, você sabe algo sobre o Jack? – Tentei parecer discreto e despreocupado.

–Jack? Ah sim, eu sei sim. – Ela olhou em volta. Parecia ter medo de alguém ouvir.

̶̶̶̶ O que? – Perguntei entusiasmado.

̶̶̶̶ Olha, não sou de dar informações gratuitamente...

̶̶̶̶ Então...?

“Sério que ela pediria dinheiro pra mim?“- Pensei

̶̶̶̶ Você pode ir à uma festa comigo hoje, e quem sabe eu não te conte...

̶̶̶̶ Ah, olha eu não tenho boas recordações de festas com você. – Dei uma risada animada que também a fez rir.

̶̶̶̶ Ah, não me diga que você ainda lembra disso! Eu era jovem na época, e, aliás, eu nem fiz aquilo inocentemente.

̶̶̶̶ Então você armou tudo aquilo?

̶̶̶̶ Venha à festa para descobrir.

̶̶̶̶ Posso levar minha noiva, moça dos mistérios? – Ela sorriu de forma carinhosa.

̶̶̶̶ É claro, vai ser de arrasar! – Ela falou se animando ainda mais – Tenho que ir agora, a festa vai ser no Beauty Queen, te vejo às 10:00! – Ela andou rápido, como se tivesse um compromisso muito importante. Voltei para o hotel, e assim que abri a porta do quarto me deparei com Amy à minha espera.

̶̶̶̶ E então? – Ela usava uma roupa de praia, óculos de sol e um chapéu de palha.

̶̶̶̶ Você está maravilhosa Amy!

̶̶̶̶ Vamos, quero sair! Você sempre me disse que o sol do Brasil é incrível, então quero aproveitar. – Ela me puxou pelo braço.

̶̶̶̶- Ei, ei, ei. Onde nós vamos?

̶̶̶̶ Algum lugar para comer.

̶̶̶̶- Será que pelo menos posso tirar essa roupa?

̶̶̶̶ Ai meu Deus, Lucas... vai logo. – Soltou-me de forma impaciente.

Coloquei uma bermuda de praia e uma camisa estampada. Fui ao seu encontro e sorri pra ela, que devolveu o sinal de afeto.

̶̶̶̶- Então, qual lugar maravilhoso você vai me mostrar primeiro?

̶̶̶̶ Pode ser no senhor Carmon! – Sugeri. Ela ergueu uma sobrancelha. – Você vai adorar! – Disse entrelaçando nossos braços. Andamos do hotel até a padaria do senhor Carmon, que não ficava muito longe. – Chegamos!

̶̶̶̶ Mas isso é uma padaria! – Ela falou um pouco confusa e claramente decepcionada.

̶̶̶̶ Sim, mas não é só uma padaria qualquer, é a padaria do senhor Carmon! Aqui tem de tudo. – A padaria do senhor Carmon era um pouco de tudo. Além de padaria e super mercado, ainda era restaurante e pizzaria.

̶̶̶̶ Tudo bem então. –Sua expressão revelava desconfiança.

Entramos naquela gigante e movimentada padaria e fomos até a área que ficava a lanchonete. O local estava quase lotado, achamos apenas uma cadeira vazia, mal nos acomodamos e o senhor Carmon veio ao nosso encontro.

̶̶̶̶ Arriba, arriba, olemos que tinemos ahí! (Olha, olha, vejamos quem temos aqui.) – Seu Carmon tinha inventado um jeito estranho de falar, ele misturava italiano com espanhol e um pouco de inglês, mas inicialmente ele havia feito isso para ser um sotaque de português de Portugal, algo que obviamente não deu certo.

̶̶̶̶ Oi seu Carmon! – O cumprimentei.

̶̶̶̶ Si nó és Lukito... e quinés esta sinorita que haja con yo? (Se não é o Lucas... e quem é essa senhorita com você?)

̶̶̶̶ Essa é minha noiva, Emily! – Fiz as devidas apresentações. Emily estava com aquela cara de “Opa, isso é sotaque ou estou louca?”

̶̶̶̶ Oi! – Ela falou meio desconcertada.

̶̶̶̶ Entonces lo que joy gostarias de cumier? – Ele pegou um caderno de dentro do bolso.Emily apenas virou o rosto para mim, mas aquele olhar já falava mais do que mil palavras. Eles diziam “O que diabos esse loco ta falando?”

̶̶̶̶ Então, Emily, o que você vai querer?

̶̶̶̶ Ah, sim, eu achei que... enfim, eu acho que vou tomar um suco de laranja com 3 sanduíches bem reforçados e também um pedaço bem grande de bolo de chocolate. – Parou para pensar. – Aliás, traga-me um bolo completo com muita cobertura! – Era incrível a capacidade da Amy de comer e nunca engordar. Quando ela aparecia com uma gordurinha, alguns dias de exercício já eram o suficiente para queimá-la, agora eu... qualquer coisa já fazia-me engordar o suficiente para malhar o mês inteiro.

̶̶̶̶ Veho que quieres relarrar... – Ele sorriu sarcasticamente. (Vejo que você quer relaxar...). Entendi a referência na hora, e tentei me conter para não rir.

̶̶̶̶ O que? Eu disse algo engraçado?

̶̶̶̶ Não amor, é coisa de brasileiro.

̶̶̶̶ E yo do que lo vayas comier? (E você o que via comer?) – ele se virou para mim.

̶̶̶̶ Quero um suco de limão e um sanduíche natural, por favor. – Concluí. Ele anotou.

̶̶̶̶ Amor, onde fica o banheiro?

–Arí no fundo na dirrreita.(Alí no fundo à direita)-Senhor Carmon respondeu por mim.

̶̶̶̶ Ah, sim... eu vou lá. – Ela fingiu que entendeu por educação.

̶̶̶̶ Senhor Carmon? – Aproveitei a saída da Amy para questioná-lo. – Você soube algo do Jack?

̶̶̶̶ Jackito? Si, si, he foiá la persona que jo mai oví falhar. (Jack? Sim, sim, ele foi a pessoa que mais eu ouvi falar)

̶̶̶̶ Você sabe o que aconteceu com ele?

̶̶̶̶ Ele se sentou ao meu lado tentando dar um ar de seriedade — Olé, tudo que lo jo puedo disser és que he está dieviendo muto mas muto dinero! (Olhe, tudo que e posso dizer é que ele está devendo muito dinheiro!)

̶̶̶̶ Que? Como? – Tentei não mostrar minha confusão.

̶̶̶̶ Si, e he istá dievendo para uno cara chamaro “Rottweiler”. Ma jo no sabé dieviendo poque, esso única cosa que jo ouvire. (Sim, e que ele está devendo para um tal de ”Rottweiler”. Mas não sei porquê, isso é tudo que ouvi. )

̶̶̶̶ Tudo bem... – Ele sorriu e saiu com a promessa de que voltaria logo com os pedidos.

Amy voltou alguns minutos depois do seu Carmon ter ido embora, e parecia um tanto quanto frustrada.

– O que foi Amy?

̶̶̶̶ O que foi? Aquele banheiro estava com um cheiro insuportável, nossa, quase vomitei. – Amy era uma americana rica, nunca havia ido ao um banheiro de “classe inferior”, ela apenas tinha aprendido à falar português por minha influência.

̶̶̶̶ Tudo bem, calma. Logo-logo a sua comida estará aqui!

̶̶̶̶ Bom mesmo! – Ela ficou meio emburrada e se inclinou sobre a cadeira. Eu estava faminto também. Já se passava das 14:00 quando nossos pedidos chegaram.

̶̶̶̶ Uno bolo de chocolate, 3 sanduíchez e um suquinho de lalanja para reraxar! Que dilicia! – Novamente essa referência me fez da uma engasgadinha de risada.- E para yo su suco de limão e sanduíche natulau. – Agradeci com a cabeça e ele se retirou.

̶̶̶̶ Por que sempre que ele diz laranja você dá risada? – Ela perguntou curiosa.

̶̶̶̶ Você não entenderia. – Ela me olhou com desconfiança, mas logo se voltou para aquele banquete em sua frente.

Desviei o olhar dela enquanto comia.

̶̶̶̶ Estou cheia! – Ela disse, enquanto eu estava na metade do meu lanche.

̶̶̶̶ Como você pode ter comido tudo isso tão rápido?

̶̶̶̶ Eu não fui rápida, é você que come que nem uma lesma! Vamos quero aproveitar para ir à praia.

̶̶̶̶ Posso terminar pelo menos? – Eu disse enquanto ela resmungou e disse que eu poderia comer no caminho.

Ela me puxou pelo braço, pagamos e então fomos à praia. Estávamos caminhando por aquele imenso calçadão ao lado das dunas. O sol das 14:30 batia com muita intensidade ainda, havia vários banhistas. Eu terminava de abocanhar o ultimo pedaço do sanduíche quando Emily me puxou novamente.

̶̶̶̶ Olha que vista linda! – Ela disse virada para o mar com um tom de surpresa.

̶̶̶̶ Sim, mas pode me deixar comer aqui?

̶̶̶̶ Ah, desculpa, come isso logo. – Ela me deixou para trás comendo e foi à beira da praia para se bronzear. Ela foi para um dos lugares mais vazios e esticou sua imensa toalha e deitou-se de bruços.

Terminei o lanche e fui para junto dela, sentando no chão mesmo, já que ela nem havia me dado tempo de pensar em pegar uma toalha.

̶̶̶̶ Vou a uma festa hoje. – Puxei assunto.

̶̶̶̶ Como assim? – Ela levantou o corpo se apoiando nos cotovelos.

̶̶̶̶ Encontrei uma amiga e ela me convidou para ir à uma festa.

̶̶̶̶ E você nem me consultou? – Uma de suas sobrancelhas se ergueu.

̶̶̶̶ Amy, é só uma festa, e ela me disse que pode falar mais sobre o Jack se eu for. – Choraminguei.

̶̶̶̶ Ata, você vai se casar daqui a mês e você vai a uma festa sem nem mesmo pedir minha opinião?

̶̶̶̶ Você pode ir também.

̶̶̶̶ Você acha que eu sou tão fácil de ser convencida? Vai precisar de muito mais que isso...

̶̶̶̶ Vai ter comida grátis.

̶̶̶̶ Que horas vai ser? – Ela mudou o semblante para um enorme sorriso.

̶̶̶̶ Dez horas. – Conclui.

̶̶̶̶ Já estou animada! – Ela deu uma gargalhada bem fraquinha.

̶̶̶̶ Lembra-se no dia em que nos conhecemos? – Perguntei, lembrando-me da cena.

̶̶̶̶ Não – Nós rimos.

̶̶̶̶ Foi naquela festa na cobertura do prédio da sua amiga.

̶̶̶̶ Ah, sim, quero dizer não!

̶̶̶̶ Você tinha bebido tanto que você ficou com ânsia e começou vomitar da sacada em cima das pessoas que passavam na rua – Comecei a rir alto quando me lembrei da cena – Ai a sua amiga, para não perder a piada falou “Are you puking kidding me?” – Comecei a perder o ar e então comecei a tossir, quando me recuperei continuei a história – Depois ela pediu para que eu te levasse em casa, você estava tão bêbada, mas tão bêbada que não conseguia nem mesmo andar, e então eu te levei para o seu quarto, mas eu estava tão bêbado e cansado que acabei dormindo junto, e quando seu pai entrou no quarto no dia seguinte para te acordar, ele achou que nós tínhamos ficado. – Emily colocou as mãos nos olhos de vergonha enquanto eu só conseguia rir.

̶̶̶̶ Ele ainda acha que rolou alguma coisa entre nós naquele dia, então não ria!

̶̶̶̶ Desculpa amor, eu não consegui resistir. – O clima começou a ficar silencioso e todas aquelas memórias de momentos felizes começaram a invadir minha mente como pequenos flashes de nostalgia.

O dia passou como um raio e logo era praticamente o pôr do sol, e, para variar, Amy tinha dormido. Acordei-a delicadamente e então voltamos para o hotel para ela poder se vestir. Por ser o mais rápido a ficar pronto, decidi tomar banho primeiro.

Peguei uma de minhas calças jeans e uma camiseta branca com caveiras na estampa. Amy demorou exatamente duas horas para se vestir e não era à toa. Quando ela começava a se vestir ela adorava tirar diversas fotos, então algo simples se tornava uma sessão de fotos intermináveis. Enquanto olhava para a parede do hotel, eu só pensava em dormir e em ficar de bobeira. Quando ela ficou pronta, saiu desfilando para que eu pudesse vê-la. Sorri.

Ela estava com um vestido preto de alças decoradas com renda que ia até metade das coxas, seus pés descansavam em um sapato de salto fino que não a deixava tão alta. Ela segurava uma bolsa pequena e prata ao lado do corpo.

̶̶̶̶ Como sou?

̶̶̶̶ Como estou, Amy... – Ela ainda misturava sou com estou.

̶̶̶̶ Desculpa, eu sempre confundo.

Olhando diretamente para o rosto dela me perguntei onde estava o bronzeamento da pele dela, ela tinha ficado o dia todo no sol, Ela tinha que estar bronzeada.

̶̶̶̶ Amy, será que você poderia dar uma voltinha?

̶̶̶̶ Claro! – Assim que ela virou não deu para perceber nada, até porque os cabelos longos dela cobriam seu pescoço, mas quando olhei para as pernas dela vi que estavam todas marcadas pelo sol. Fiz uma cara engraçada.

̶̶̶̶ O que? – Ela perguntou assustada.

̶̶̶̶ Amor... acho que você só se bronzeou de um lado. – Falei receoso. Tinha medo da sua reação.

Ela correu para o banheiro para checar sua aparência. Tapei os ouvidos para evitar aquele grito que ela dava sempre que algo dava errado. O grito foi tão alto que pude ouvir mesmo com os ouvidos tampados.

̶̶̶̶ Meu Deus, o que vou fazer agora? Eu não posso ir assim! – Fui para perto dela me segurando para não rir. – O que eu faço, Lucas? O que eu faço? Isso é o fim do mundo!

̶̶̶̶ Olha, não é exatamente o fim do mundo. Olhe para o lado bom, agora você é bipolar. – brinquei rindo e me afastando.

̶̶̶̶ Seu desgraçado! – Ela veio correndo e me dando tapas.

̶̶̶̶ Calma! – Eu Dizia sorrindo.

̶̶̶̶ Eu não vou! – Ela parou e jogou a bolsa na cama sentando emburrada.

̶̶̶̶ Ah, vamos Amy, ninguém vai notar. – Ela negou com a cabeça.

̶̶̶̶ Você vai perder a comida!

Ela ficou um momento pensando.

̶̶̶̶ Tudo bem, vamos. – Sua voz transmitia serenidade.

Deixamos o hotel e fomos até a boate. Antes mesmo de entrar eu já sabia o que ia acontecer, eu conhecia Emily o suficiente para prever as reações dela em cada situação, eu era um tipo de noivo vidente.

O preço das entradas não estava nada barato, mas nem hesitei em pagar. A boate era praticamente escura, as poucas luzes que a iluminavam eram coloridas e flashes brancos que deixavam qualquer um tonto. Amy olhava para todos os lados, procurando o local das comidas, provavelmente. Assim que avistou, ela saiu correndo por entre as pessoas, deixando-me pra trás.

̶̶̶̶ Amy, espera! –Tentei chamá-la, mas o barulho fazia com que qualquer tentativa de conversa se tornasse falho.

Eu não estava muito a fim de festejar, estava muito preocupado com o motivo de estar ali para poder me deixar levar pelo momento. Procurei por Juliana, mas era como tentar achar uma agulha em um palheiro, além da escuridão e da música alta, havia muitas pessoas ao redor.

Fazia algum tempo desde a minha última balada. Desde que comecei a namorar a Amy, tínhamos parado de frequentar esse tipo de local. Eu não me sentia à vontade para dançar, mesmo que quisesse. Andei lentamente entre os corpos imersos na batida na intenção de encontrar Juliana ou Amy, mas eu não estava obtendo sucesso.

Um novo estilo musical começou a tocar, e eu reconheci imediatamente. Era Got well soon, byBreton. Minha música preferida por sinal, minha cabeça começou a se mexer no ritmo da batida, e se eu continuasse daquele jeito, logo estaria dançando como um louco no meio da pista. Mas quando eu estava me entregando à vontade, uma mão firme tocou o meu ombro, fazendo-me girar.

̶̶̶̶ Oi. – Era Juliana que me cumprimentou com um beijo. Ela sorriu de lado. – Quer dançar?

̶̶̶̶ Não, obrigado! Eu apenas preciso que você me conte o que você sabe sobre o Jack.

̶̶̶̶ Ah não, vamos dançar. Depois a gente fala dele. – Ela bateu o pé de forma insistente.

̶̶̶̶ Tá, mas só se você for dançando e falando.

̶̶̶̶ Ah, ta bom. – Ela me guiou até uma parte menos movimentada. Seu semblante mostrava um pouco de embriaguez, mas nada preocupante. Sua dança era meio robótica por conta de uma margarita que ela carregava em sua mão direita. Assim que percebeu que eu não estava dançando, ela começou a reclamar.

̶̶̶̶ Ah não, você vai ter que dançar também.

Comecei a entrar na vibe apenas para que ela falasse logo.

̶̶̶̶ Então... você pode falar agora? – Minha impaciência era aparente.

̶̶̶̶ Tudo que eu sei é que ele saiu da cidade.

̶̶̶̶ Saiu? Por quê? – Ergui uma das minhas sobrancelhas.

̶̶̶̶ Não, sei, algo relacionado à maus relacionamentos com pessoas da cidade. Ele nunca me falou muito sobre a vida dele.

̶̶̶̶ Só isso?

̶̶̶̶ Não, ouvi também que ele estava tentando fugir de um tal de André.

̶̶̶̶ O tio dele?!

̶̶̶̶ Não sei. Fiquei sabendo apenas do nome. – Ela parou de falar de repente.

– Indaguei-a com o olhar – Se quiser saber mais você vai ter que me beijar! Aliás, eu te desafio a me beijar! – Ela falou fazendo uma cara sensual.

̶̶̶̶ Eu sou comprometido, Ju. Esqueceu?

̶̶̶̶ Mas cadê ela? Ela não está aqui... É só um beijo, não vai fazer mal. Em festas assim, essas coisas sempre acontecem. – Ela se aproximou de mim lentamente, fazendo uma dança sensual e passando a mão pelo meu tórax. Eu só imaginei a briga que seria caso Emily visse aqui.

̶̶̶̶ Juliana. – Falei em tom de repreensão.

̶̶̶̶ Nossa, você está parecendo o Jack. – Ela revirou os olhos. – Onde está aquele moleque que não tinha medo de se divertir?

̶̶̶̶ Ele está comprometido e muito apaixonado. – Novamente ela revirou os olhos claros. Ela fazia muito isso.

̶̶̶̶ Também soube que o pai dele estava no hospital, mas não soube mais nada.

̶̶̶̶ O que?!

̶̶̶̶ Sim, foi isso que ele me disse.

̶̶̶̶ Parei um pouco e pensei no dia da festa de aniversário do Jack e então perguntei — Por que você me roubou um beijo naquele dia?

̶̶̶̶ Minha intenção inicial era fazer com que o Jack saísse do meu pé, mas eu tinha muita dó para dar um fora direto nele. Eu não queria aquilo naquela época.

̶̶̶̶ Você armou toda aquela ceninha para tirar ele do seu pé? – Ela deu de ombros e acenou com a cabeça.

Olhei para o meu lado direito, tentando não demonstrar meu remorso. Em algumas cabeças de distância, duas garotas seminuas dançavam em cima do balcão. Algumas pessoas tiravam fotos, outras jogavam dinheiro, mas a maioria, assim como eu, estava boquiaberta. Distanciei-me de Juliana e fui atrás da minha noiva perdida. Andava rapidamente quando uma mão tocou meu ombro.

̶̶̶̶ Quanto tempo! – Uma voz desconhecida alcançou meus ouvidos. Era um homem que tinha uma aparência meio punk, ele levantou o braço para me cumprimentar com um aperto de mão e eu retribuí o gesto. Olhei mas uma vez e logo o reconheci.

̶̶̶̶ Justin?

̶̶̶̶ Sim, cara! Ainda bem que você se lembra. – Ele parecia ter mudado muito seu estilo, antigamente ele era mais skatista e agora parecia muito mais um punk.

̶̶̶̶ Nossa, você mudou um pouco, né? – Sorri.

̶̶̶̶ Sim, larguei o skate e agora sou mais do rock mesmo. – Assenti levemente.

̶̶̶̶ Você soube alguma coisa do Jack? – Aproveitei para perguntar.

̶̶̶̶ Jack? Nossa. Sim, cara. Soube que ele foi transferido para um orfanato depois que o pai dele morreu.

̶̶̶̶ Mas o pai ele não estava no hospital? – Todas aquelas informações giravam em minha mente. Estava cada vez mais confuso e sem direção.

̶̶̶̶ Não sei, foi o que me disseram.

̶̶̶̶ Ah... você viu uma garota de cabelos amarelos com vestido preto e duas cores na pele?

̶̶̶̶ Duas cores? Cara, estou chapado, mas nem tanto! – Brincou.

̶̶̶̶ Obrigado, foi bom ver você Justin, até mais!

Fui para os fundos da boate e me deparei com um grande alvoroço. Uma mulher dançava feito louca em volta da piscina, e ao julgar pela aparência, era Emily.

Ela virou repentinamente para um homem que estava na beira da piscina e o empurrou com o pé, então ela jogou o copo que estava em sua mão no chão fazendo uma pose de fúria.

̶̶̶̶ Poseidon clama por sacrifício! – Depois deu um grunhido de raiva e subiu em uma das mesas. Acertava a mesa com pontapés e socos como se fosse realmente uma pessoa. Aproximei-me o mais rápido que pude.

̶̶̶̶ Emily? – Ela virou o rosto direto para mim abrindo um sorriso enorme, então desceu e veio em minha direção.

̶̶̶̶ Ei, amor, porque você não bebe um pouquinho? – A cara dela estava toda manchada de maquiagem, igual a daquelas mulheres que choram depois de terminar com o namoro.

̶̶̶̶ Beber o que? – Perguntei com um pouco de medo da possível reação dela. Ela virou o rosto para a mão e começou a apalpá-la procurando o copo.

̶̶̶̶ Who stole my cup? – Ela provavelmente esqueceu que estava no Brasil, e que precisa falar em português para as pessoas entenderem, ela gritou olhando para todo mundo ao redor –Huh? You little thieves! Give me back my cup you shit! – Ela chutou o ar como se estivesse batendo em alguém e acabou perdendo o equilíbrio, caindo. Levantou-se e ficou de quatro fazendo uma espécie de imitação de leão – Uá! Eu sou perigosa! – Ergui as sobrancelhas em espanto. Esforçava-me para não rir.

̶̶̶̶ Vem cá, Amy. –Levantei-a e a tirei do local, enquanto ela gritava pedindo o copo. Ao chegamos do lado de fora, ela parecia ter esquecido do mesmo.

̶̶̶̶ Eu não estou me sentindo bem, eu acho que vou vomita... – Ela fez um gesto como se fosse gorfar.

̶̶̶̶ Como você pode ter ficado bêbada em tão pouquíssimo tempo? – Ela respondeu algo inteligível, misturando Inglês com Português.

Agarrei-a pela cintura e segui até a farmácia mais próxima na intenção de comprar algo para sua cabeça dolorida e também para a provável ressaca que estava por vir. Deixei-a sentada em um banco de frente para a farmácia e fui, como bom noivo, comprar os remédios. O farmacêutico me indicou alguns que a ajudariam, comprei todos e voltei pra fora.

Encarei o carro preto que estava parado no semáforo. No banco do passageiro estava Jack. Ele encarava o céu como se buscasse respostas, seu rosto transmitia aflição. Aquela era minha chance de colocá-lo contra a parede, ele não teria escolhas. Eu saberia o que estava acontecendo com ele e faria de tudo para ajudá-lo, comecei a atravessar a rua quando ouvi um gemido de dor. Encarei Emily com a mão na cabeça.

̶̶̶̶ Minha cabeça! – Ela gemeu.

A decisão não era fácil. Ou eu descobria a verdade ou ajudava o amor da minha vida. Olhei-a com afeto e sorri. Eu não poderia deixá-la de lado naquele momento, Jack poderia esperar pra ser ajudado, ela não. Agachei ao lado dela e fiz um carinho leve em sua cabeça. Dei os remédios pra ela e depositei um beijo em sua testa.

“Ela precisa mais de você, Lucas.” Esse pensamento me dominou e eu me senti menos culpado por ter deixado Jack ir. Acompanhei o carro quando o semáforo abriu. Ele seguiu reto e virou a terceira esquerda, sumindo de vista. Segurei Amy e seguimos para o hotel.

Notas finais
Episódio 3: "Represália" já disponível.