Rika estava parada na frente do espelho com olhar perdido.Seu cabelo loiro estava escovado e cacheado, respeitando o cabelo na lateral. E sua maquiagem para encontro, bronze com chocolate, realçava seu olhar castanho. Passou a mão na lateral do vestido rosa bebê, que enlaçava seu pescoço e terminava rodada até os pés. Ela não era de vestido, mas se pudesse escolher certamente seria mais curto. Mas era tão moleca que não iria conseguir ficar muito tempo de pernas cruzadas como uma dama. Definitivamente o que ela via no espelho não era ela. E Inferno, como odiava isso.

—Rika? – Perguntou Hideki, abrindo devagar a porta – Nossa... Está muito bonita.

A loira sorriu para o noivo que sequer tinha outra reação que a primeira. Era importante saber como outros iriam ver ela, já que seria o dia em que iriam oficializar o noivado. Após o pequeno delay, o rapaz pede para a garota levantar seus cachos. Quando obedece, ele coloca um colar com pingente de coração.

— Wow, que bonito. Agora sim seremos o casal mais lindo da festa – Rika disse fazendo Hideki rir. Ela da um rodopio para olhar nos olhos e sorri com aprovação – Gosto do seu cabelo assim, jogado pra trás – aproveitou e roubou-lhe um beijo – Heh, você vermelho é tão fofo.

O noivo apenas sorriu envergonhado. De fato era um casal estranho. Rika era exmembro de uma gangue. Teve que mudar e muito seu comportamento para se adaptar a nova realidade. Com certeza Hideki a ajudou bastante. Mas parece que nem tudo mudou. Ela, extrovertida e impulsiva, ele, controlado e tímido. Como poderiam ter dado tão certo? Nem ela conseguia explicar isso para os amigos que os viam como casal modelo.

Mas no fundo não era assim. Rika sabia e sentia o amor que Hideki tinha por ela. Mas mesmo passado dois anos, ainda assim não se sentia encaixada na nova rotina.

— Se quiser, não precisamos ir – disse parecendo ler sua mente.

— Deixa de ser besta, se vou ser mesmo sua noiva então tenho que ir lá e te representar.

Hideki trabalhava numa empresa importante de tecnologia. Toda vez que ele começava a explicar sobre seu serviço, Rika não conseguia parar de imaginar uma luta de robôs em que cientistas malucos apostavam em cima deles. Não tinha nada haver com a realidade, mas era mais divertido quando contava sua versão para as pessoas (as crianças particularmente piravam).

Estavam então já dentro do carro indo pro evento que bimestralmente ocorriam, coisas que empresas importantes pelo jeito faziam para desperdiçar dinheiro.

O silêncio da garota sempre agitada era estranho pro rapaz, mas ele entendia. Ele sempre entendia.

— Querida?

—Hn? Que cara é essa? Não se preocupa, só estou um pouco nervosa.

— Uma ex deliquente... Nervosa?

— Bem, não é sempre que deliquentes vão à festa de galã.

— Querida, você sabe que não precisa ir se for ‘forçar a barra’ – ela riu com o linguajar que ele puxou dela com o tempo de convivência – não precisamos ir.

— Não cara, nos vamos até o fim. Só estou nervosa porque... Sei lá. Antes não precisava ligar pra nada. Mas agora é diferente, qualquer cosia posso manchar seu sobrenome.

— Você nunca vai manchar meu sobrenome. -A garota riu com a frase mais manjada que as “vídeos cassetadas do Faustão”. O jeito dele tão clichê de ser foi uma ótima forma de relaxar ela.

Como um lorde inglês extinto para época, Hideki desceu do carro e abriu a porta para a noiva, dando sua mão para auxiliar ela. Já a loira estava um pouco nervosa, então saiu sem ajuda, nem percebendo a boa intenção do rapaz. Ele apenas riu até porque se não fosse assim não seria ela.

Quando avistaram o salão enorme em que iriam entrar, já aparentando bem movimentado por entra as janelas, Rika parou hesitante. Seu noivo apenas imitou o comportamento esperando por ela. Ele estava sendo bem compreensivo, mas não sabia bem o turbilhão de emoções que passavam na cabeça dela. Se pudesse escolher, a garota preferiria arrancar aquela porcaria de vestido e sair correndo livre, leve e solta (com direito a gritar pros quatro ventos e esmurrar o primeiro coitado que aparecesse em sua frente). Era muita pressão ir há um lugar em que pessoas nasceram para ir lá só para esbanjar seu status, fazer comentários fúteis e saber quais eram os últimos podres das pessoas que trabalhavam em impressas importantes. Eles analisariam que tipo de noiva seria Rika e isso a incomodava. Queria estar no mesmo nível de Hideki. Ao mesmo tempo, queria esquecer-se de tudo e poder voltar no tempo. Na época em que ainda se preocupava entre atacar e ser atacada. Na época em que Shinji... Epa, prometeu a si mesma a nele de novo, principalmente neste dia tão importante.

Para falar a verdade então, no fundo Rika não achava que merecia nada daquilo. Não merecia ir numa festa de galã de uma empresa e muito menos estar noiva de alguém tão compreensivo quando Hideki. Ela se sentia um lixo por ele saber tudo sobre ela e ainda assim aceitá-la. A garota tomou um susto quando sentiu uma mão entrelaçar a sua.

— Eu sei que está preocupada. Mas as pessoas que estão lá dentro sempre encontram motivos para se queixar. Então seja você mesma.

Ela entrelaçou seus dedos com os deles e agradeceu. Estava tudo bem, ele estava lá com ela. Eles teriam um futuro juntos e o passado era o passado.