Não correspondido
2 Glamour com salgados
O casal decidiu então entrar no hall, após a sala de recepção (esta, por sinal, estava muito bem decorada e munida de funcionários agradáveis que guardavam qualquer pertence seu) e Rika já não sabia bem para onde olhar. A decoração das mesas e as iluminárias acima repleta de cristal dava um ar de glamour. Rika parecia confusa com o eco das conversas e risadas. Também conseguia flagrar um ou outro com rabo de olho para quem entrava na festa e fazia comentários disfarçados em sorrisos plásticos. Isso era pior do que ela imaginava. Hideki tomou atitude em conduzir ela lentamente a uma das mesas e cochichou:
— Podemos começar com o básico. Comida ou bebida?
Rika consentiu meio atordoada. O rapaz riu. Ela tinha um pequeno problema de audição que se tornava perceptível quando existia muito som ao redor. Ele preferiu arriscar pela segunda opção e sorriu vitorioso com acerto. Sua noiva era às vezes previsível.
— Caraca, que farofada – comentou para o noivo sobre a quantidade de gente.
— Normalmente são donos e representantes com alguma acompanhante. Mas às vezes chamam algum funcionário como eu.
— Não um funcionário qualquer, mas o “El destruidor”.
— Não fazemos rixas de máquinas em empresas, amor. E só fui chamado para socializar e garantir um bom vínculo entre as empresas.
Rika apenas concordou enquanto experimentava a bebida. Em seguida decidiu por ali em diante não beber aquela baboseira que parecia água espumante. “Ótimo”, pensou, “agora tenho que carregar essa maldita taça para todo lugar. Apesar de suspirar com a nova responsabilidade, decidiu criar mais coragem em olhar ao redor.
— Só tem velhaco – comentou baixo
— Oi?
— Só tem espetáculo nessa mesa – apontou para a comida.
Hideki se dirigiu a mesa para pegar outro salgado e a garota disfarçadamente colocou a taça com um gole a menos com o restante das taças intactas. Algum sortudo pegaria o DNA dela. O noivo não percebeu o truque de mestre da artimalha e quando foi entregar a comida, estranhou.
— Já terminou de beber? – A garota deu por ombros. Ele, como gentleman, pegou outra bebida a ela.
—Obrigada – Sorri e deu um gole forçado, achando graça da situação em que se meteu — Isso ai que esta comendo, pode pegar um para mim? – A garota fez novamente o truque e riu entretida com a distração do rapaz. Agora teria dois sortudos com seu DNA.
Hideki olhou para as mãos vazias dela e olhou estranho. Voltou a observar o rosto da garota e sorriu sem entender bem o que houve com a taça. Ela deu um beijo em seu rosto e ele apenas entrelaçou suas mãos na dela.
— Queria ficar o tempo todo aqui. Mas temos que nos socializar. Está preparada?
— Bem, acho que nunca estamos preparados para isso.
Andaram lentamente pelo salão, ora fazendo acenos com o rosto, ora o noivo apontava para alguém e falava algo que relacionava com seu serviço.
A garota admitiu a si mesma que não era o lugar ideal dela, mas dava para sobreviver. Tinha apenas que ser polida, sorrir e não falar besteira (optando então por ficar calada). Para Hideki parecia fácil, ele naturalmente era simpático e gentil. Esquecia facilmente de rancores e dos rostos de quem causou dano. Isso era muito bom para ele, pois Rika era ótima em resolver intriga com as próprias mãos.
A garota observou a distância uma mulher bem jovem, talvez da sua idade. Ela era estonteante (ainda existe essa palavra?). Seu cabelo moreno estava com um trançado e jogado para frente, se destacando pelo vestido bege claro que ia até o joelho. Ela era alta e tinha um ar de respeito e não parecia ser uma das acompanhantes. A loira olhava para ela pensando se alguém jovem poderia estar inserido nesse mundo em um padrão mais alto que Hideki (que não era bem alto). A morena percebeu e devolveu o olhar com curiosidade.
De repente Rika fica em rubro. Ela não encarava as pessoas a não ser para desafiar alguém. Sentiu a reação do seu corpo entra em modo luta e fuga . Agiu rápido soltando a mão entrelaçada de Hideki, já virando seu corpo e dizendo que iria ao banheiro.
Mas ela não terminou a frase. Rika acabou batendo na travessa que um dos garçons carregava uma taça vazio. O pobre do rapaz até que lutou junto com o vidro, mas no fim o último acabou espatifando no chão.
Aí houve o silêncio.
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