Notas iniciais
Olá gente,como vão? Finalmente chegamos ao 100° Revews e eu agradeço muito. Aqui vai mais um capítulo e espero que vcs gostem,bjs

[RECAPITULANDO]

Mas não roubaria os Bingley para comprar o silêncio de Catherine. E o bracelete era a única fonte de renda com que poderia contar quando tivesse de prover o sustento da filha, não abriria mão dele.

Tinha de partir.

Esperava que seu último dia em Mahoning Valley fosse inesquecível, uma recordação que aque­cesse seu coração nos dias mais solitários e difí­ceis. Determinada, juntou-se às festividades como se fosse a mais feliz das mulheres.

Assistiu às competições, riu e esqueceu por al­gumas horas que era Jane Bennet, e que no dia seguinte estaria completamente sozinha, e que todas aquelas pessoas se lembrariam dela apenas como a mulher que os enganara.

***

Não conseguiria partir no domingo. Seria descoberta. Gruver sempre os levava à igreja e depois era liberado para passar a tarde com a família. Jane passou o domingo traçando planos para escapar na manhã seguinte, antes de Charles sair para a fundição. Assim te­ria o dia todo para viajar e estaria bem longe quando ele voltasse para casa.

Deixaria um bilhete para Mary explicando que fora passar o dia na casa dos Crane com Helena

Na noite de domingo, Mary foi procurá-la em seu quarto e a sra. Gardiner serviu o chá.

— Obrigada, sra. Gardiner — Jane agradeceu. — Pode ir descansar agora. Eu mesma levarei a ban­deja e cuidarei de Helena, se ela acordar.

— Obrigada, senhora.

— Sua perna está bem melhor — Mary comen­tou. — Notei que quase não mancou durante o piquenique.

— Sim, estou bem melhor. Só sinto um pouco de dor à noite.

— Porque ainda não está totalmente curada.

— Deve ser isso.

— Espero que saiba como é importante para mim, Anne. Amo-a como se fosse minha filha. Não quero ofendê-la. Sei que tem uma mãe de verdade.

— Não estou ofendida. Entendo o que quer di­zer. — Deixá-la era quase tão difícil quanto deixar Charles.

— Se sabe o quanto gosto de você, não vai in­terpretar mal minhas palavras.

— Do que se trata?

— Amei meu Fitzwilliam como uma mãe é capaz de amar o próprio filho. Como você ama Helena.

— É claro que sim.

— Tolerei muitas de suas tolices. A princípio o perdoava porque ele ainda era muito jovem. E depois disso porque Charles o tratava como se fosse uma criança. Depois continuei perdoando simplesmente porque ele era Fitzwilliam. Como per­dôo Charles por ser dominador e agressivo. Por­que são meus filhos. Uma mãe é sempre capaz de ignorar as coisas que não quer ver.

— Creio que entendo, mas não sei o que está querendo dizer.

— É que... você não parece adequada a Fitzwilliam. Sei que os opostos se atraem, e não estou dizendo que Fitzwilliam não tenha tido centenas de razões para amá-la e admirá-la. Você é adorável... Fitzwilliam também era uma pessoa fácil de amar, mas podia ser alguém de difícil convivência. Ele era... inquieto. Para estar perto dele, era preciso pre­parar-se para tudo e manter-se sempre atenta. Era impossível relaxar estando no mesmo ambien­te que meu Fitzwilliam.

Jane não sabia o que dizer. Fitzwilliam fora um homem generoso, e morrera justamente por causa dessa bondade. Organizando os pensamentos caó­ticos, respondeu:

— Certa vez eu disse que Fitzwilliam foi o homem mais bondoso que conheci. Por favor, não se es­queça disso. Ele era generoso, e tinha muito amor no coração. Tenho certeza de que a amava profundamente.

Lágrimas transbordavam dos olhos de Mary.

— Estou certa de que ele também a amou muito, querida.

— Não esqueça que sou muito grata por tudo que você e seus filhos fizeram por mim. E lem­bre-se sempre de que estou aqui graças ao bom coração de Fitzwilliam.

— Vou me lembrar. — Mary enxugou os olhos e levantou-se. — Agora precisamos descansar. Até amanhã.

Lutando contra o pranto, Jane abraçou a ami­ga. Jamais esqueceria sua bondade. Aprendera muito sobre o amor durante o tempo que passara naquela casa. E sobre ser mãe e mulher.

Sozinha, sentou-se na cama e cobriu a boca com uma das mãos. Seria inútil perder o controle agora.

Helena acordou e ela a amamentou e trocou suas roupas. Não teria outra oportunidade, por isso levou-o ao quarto de Caroline quando foi ver se ela precisava de alguma coisa.

A mulher estava sentada na cadeira ao lado da lareira, e havia uma pilha de jornais a seus pés e uma garrafa na mesa mais próxima.

— Esse é a menina? — perguntou ao vê-la entrar.

— Sim. Helena, minha filha.

Caroline inclinou-se para a frente e inspecionou-a. Não parecia estar embriagada como nas outras noites, mas, mesmo assim, Jane segurou a filha com mais força.

— Não faça essa cara de pavor. Não vou ar­rancá-la de seus braços e derrubá-la de cabeça no chão.

Jane ignorou o comentário e sentou-se diante dela.

— Agora entendo por que todos são malucos por ela. É realmente uma bela garota.

— Obrigada.

— Também tive um filho.

O relatório elaborado pelos detetives da Pinkerton mencionava um irmão de Anne morto em uma briga de rua.

— O nome dele era Walt.

Jane esperou em silêncio.

— Escolhi o nome dele para homenagear uma antiga paixão. Acho que isso o marcou de alguma maneira. O primeiro Walt também foi assassinado.

As palavras de Mary ecoaram em sua mente. Nenhuma mulher devia ter de enterrar o próprio filho. Nunca! Caroline perdera um filho. Não podia deixar de imaginar se a perda tinha alguma relação com sua incapacidade de enfrentar a vida sóbria. E como se não bastasse, ela perdera outra filha.

— Londres não é um bom lugar para quem quer criar os filhos em paz. — Ela bebeu parte do líquido de um copo.

— Imagino que não.

— Mas aqui... Este será um bom lugar para a menina crescer.

— É verdade. — Infelizmente, não poderia ficar em Mahoning Valley eternamente. — Você pode­ria ficar aqui, trabalhar e viver com alguma tran­quilidade. Se quisesse, encontraria um emprego de costureira em algum lugar. Assim ocuparia o tempo e ganharia algum dinheiro.

— Estou velha demais para recomeçar.

— Bobagem. Ninguém é velho demais para vi­ver. Covarde, talvez...

— Não tenho nada a temer.

— Tem certeza?

Caroline a encarou em silêncio.

— Perdeu seus dois filhos — Jane continuou. — Tem todo o direito de sentir certas coisas. Mas ainda está viva. E para viver, vai ter de se le­vantar e seguir em frente.

— Quem pensa que é para dar-me conselhos? O que acha que está fazendo com sua vida?

— Não tive a intenção de condená-la. Só quero o melhor para você, Caroline.

— Sei o que é melhor para mim.

— Está bem. Precisa de mais alguma coisa?

— Não. Você sempre cuida de tudo.

Não podia se preocupar com o que aconteceria depois de sua partida. Charles e Mary cuidariam de Caroline. Afinal, aquela mulher era realmente mãe de Anne.

— Nesse caso, boa noite.

— Boa noite. E obrigada por tê-la trazido.

— Por nada.

Depois de pôr Helena no berço, Jane separou todas as roupas da filha e fez uma lista do que poderia levar em duas sacolas.

Sentada diante da escrivaninha, o peito opri­mido pela tristeza, mergulhou a pena na tinta e escreveu o bilhete que planejava há semanas.

Charles e Mary,

Sei que o que fiz é imperdoável, por isso não vou pedir perdão. Tudo que peço é que não me odeiem. Pretendia contar a verdade desde o minuto em que acordei naquele hospital. Mas quando vi sua dor, Charles, e quando me ofereceu proteção e abrigo para minha filha, não tive coragem de dizer as palavras. Acreditei que seria mais fácil conver­sar com sua mãe.

E então, querida Mary, quando vi suas lágrimas e o amor com que olhou para minha filha, também não pude falar. Continuo sendo covarde demais para dizer a verdade frente a frente, por isso deixo esta carta.

Não sou Anne Bingley. Nunca fui casada com Fitzwilliam. Só o conheci na noite em que sofremos o acidente com o trem. Ele me resgatou da chuva e, juntamente com Anne, alimentou-me e me deu roupas secas e uma cama para dormir.

Se estivessem na cabine naquela noite, talvez ainda fossem vivos. Como já devem ter percebido, sou responsável pela morte dos dois. Essa é uma culpa que carregarei até o último de meus dias.

E as mentiras também. Menti para vocês e fingi ser Anne para tirar proveito dos Bingley até mi­nha perna estar curada. Então seria capaz de cui­dar de mim mesma.

Em anexo encontrarão uma relação de todos os itens que levei comigo. Assim que estiver instalada e tiver um emprego, mandarei o dinheiro corres­pondente às roupas, à comida e ao tempo que pas­sei em sua casa.

Jamais poderei recompensá-los pela bondade, nem pelas mentiras e pela perda de um filho e irmão. Só posso dizer que lamento profundamente e estou muito envergonhada.

Não sei se serão capazes de sufocar o ódio que minha atitude despertará em seus corações, porque eu mesma me odeio pelas coisas que fiz.

Não têm motivos para acreditarem em mim, mas devem ter compreendido que não tenho mais nada a perder, e por isso quero que saibam disso: Fitzwilliam era um bom homem. Ele sabia amar. Era um filho e um irmão digno de orgulho. Eu não pas­sava de uma estranha, mas ele e Anne me tra­taram com bondade e afeto. Sei que teriam gos­tado de Anne. Guardem para sempre em seus corações a memória de um casal que conheceu o amor.

Sinceramente, Jane Bennet.

Jane dobrou a carta e a lista e colocou-as em um envelope, selando-o. Do lado de fora, escreveu os nomes de Mary e Charles e escondeu-o sob o travesseiro.

Assim que Charles partisse e Gruver retornasse, deixaria a carta em lugar bem visível e sairia de suas vidas para sempre.