Não Sou Quem Você Imagina!
42 Capítulo 42
Notas iniciais

[RECAPITULANDO]
Jane dobrou a carta e a lista e colocou-as em um envelope, selando-o. Do lado de fora, escreveu os nomes de Mary e Charles e escondeu-o sob o travesseiro.
Assim que Charles partisse e Gruver retornasse, deixaria a carta em lugar bem visível e sairia de suas vidas para sempre.
***
chegou cedo em casa, de bom humor e faminto.
— Sr. Bingley, sua mãe me pediu para conduzi-lo ao salão assim que chegasse — Penélope anunciou. — Ela tem uma visita.
Foi com surpresa que ele encontrou Catherine de Bourge. Mary parecia bastante incomodada com a presença da jovem atriz.
Ela usava um vestido verde, um tecido muito parecido com aqueles que Anne havia dado às famílias dos empregados da fundição. O decote era amplo, mas ele procurou manter os olhos bem afastados da área exposta pelo modelo ousado.
— Sr. Bingley. — Catherine estendeu a mão protegida por uma luva. — Passei o dia todo esperando por Anne. Havíamos marcado um encontro.
— E ela não está?
— Ela deixou um bilhete dizendo que ia passar o dia na casa dos Crane — Mary explicou. — Mas já devia ter voltado. E ela levou Helena, o que não é usual.
— O bebê é filha dela.
— Sim, eu sei. E como os Crane já se recuperaram, creio que ela julgou seguro levá-la para um passeio.
— Por que diz que ela já devia ter voltado, mamãe?
— Porque Anne sempre supervisiona os preparativos para o jantar. E é estranho que tenha esquecido um compromisso com a srta. De Bourge.
Preocupado com a inquietação da mãe, Charles chamou Gruver.
— A sra. Bingley estabeleceu um horário para que fosse buscá-la na casa dos Crane?
— Eu não a levei à casa dos Crane — o empregado respondeu. — A sra. Bingley foi a Hampshire.
— Hampshire! E quando irá buscá-la?
— Ela disse que voltaria por conta própria, senhor.
— Onde, exatamente, deixou a sra. Bingley, Gruver?
— Exatamente. Numa joalheria. Ela me perguntou se eu conhecia algum estabelecimento que comprasse peças valiosas por um bom preço.
Charles estava confuso. Que jóia ela teria ido vender? E por quê? Não precisava de dinheiro. Tudo parecia tão bizarro... Como se estivesse fugindo. Mas por que fugiria?
Se era ela tudo que suspeitara a princípio, podia ter conhecido alguém e fugido com esse homem. Mas por que manteria suas intenções em segredo?
Mary o encarava com a incredulidade estampada no rosto.
— Pobrezinhos! — Catherine exclamou. — Era o que eu temia. Vim para preveni-los, mas parece que cheguei tarde demais.
— O que está dizendo? — Charles colocou-se diante dela.
A atriz levantou-se e deu um passo na direção dele, assumindo um ar provocante.
— Conheci Anne em Londres, e ela sempre seguia aquele que tinha mais a oferecer.
Catherine aproximou-se ainda mais e roçou um seio em seu braço. Enojado, Charles afastou-se.
— Em seu lugar, iria verificar se ela não levou as jóias e a prata da casa.
— Anne não seria capaz... — Mary começou.
— Não? — Catherine a interrompeu. — Esperava que ela partisse sem ao menos dizer adeus? — E foi sentar-se ao lado da sra. Bingley para segurar sua mão. — Pobrezinha. Deve estar desolada. E com boas razões. Não suporto pensar naquele adorável bebê sob a guarda de uma mulher tão irresponsável.
Mary arregalou os olhos e virou-se para o filho.
— Não posso crer... Oh, céus...
Charles sentou-se ao lado da mãe, abraçou-a e lançou um olhar ameaçador para Catherine por cima de sua cabeça.
— Você a viu com o bebê, mamãe. Sabe que ela sempre cuidará bem dela.
— Oh, sim. Estou certa de que ela cuidará da herdeira dos Bingley — a atriz apressou-se em concordar. — Afinal, ela vale uma fortuna.
— Que assunto veio tratar com Anne? — Charles perguntou irritado, tentando impedi-la de dizer mais alguma coisa que pudesse perturbar Mary.
— Ela me devia dinheiro, mas vejo que jamais conseguirei recuperá-lo.
— Que dinheiro era esse?
— Uma quantia que Anne tomou emprestada em Londres. Ela estava metida em encrencas e eu achei melhor ajudá-la. Ela vivia dizendo que um dia me reembolsaria.
— Quanto?
— Não vamos pensar nisso agora. Já tem problemas demais com que ocupar-se, especialmente com o desaparecimento da bebê. Vou deixá-los em paz para... verificarem seus valores.
Charles tentou não deixar a mãe perceber sua inquietação.
— Gruver, acompanhe a srta. De Bourge até a porta.
— Com prazer — o empregado respondeu, fitando-a de maneira bastante significativa.
— Se precisarem de alguma coisa, contem comigo — ela ofereceu com tom meloso. — Estarei rezando pela segurança da pequena Helena.
Assim que ficaram sozinhos, Mary ergueu a cabeça para fitar o filho.
— Não acredito que Anne tenha feito isso, Charles. Acha que podemos ter certeza de que ela não sofreu algo terrível? Um acidente, talvez?
— Ouviu o que Gruver disse, mãe. Ela partiu por vontade própria.
— Talvez tenha havido algum engano. Talvez ela volte.
Mas Charles não tinha esperanças.
— Venha comigo — disse.
— Aonde?
— Vamos examinar suas jóias.
— Não!
— Então eu irei sozinho.
Ela se levantou e segurou-o pelo braço.
— Está bem.
Pouco depois entravam no quarto de Mary. Ela abriu uma gaveta e desenrolou um porta-jóias de cetim. Incapaz de conter-se, a sra. Bingley começou a soluçar.
— O que foi? Sente falta de alguma peça?
— Meus anéis. O colar de esmeralda que seu pai me deu. O bracelete de diamantes que trouxe para mim em meu último aniversário.
— Eu sabia! Tinha certeza de que aquela mulher nos traria problemas!
Mary sentou-se na beirada da cama e enterrou o rosto entre as mãos, chorando convulsivamente.
— Como ela pôde fazer isso conosco? E Helena! — soluçou. — Temos de encontrá-la. Não podemos permitir que nada aconteça a menina!
Charles identificou o pânico na voz da mãe e conteve-se. Sentado ao lado dela, abraçou-a e apoiou sua cabeça contra o peito.
— Acalme-se. Ela percebeu que é uma pessoa muito generosa e tirou proveito disso.
Não havia palavras para confortá-la. Mary choraria pela neta como havia chorado a perda do filho e do marido.
— Vai atrás dela? Minhas jóias...
— Comprarei outras.
— Não me importo com as jóias. Estou preocupada com Helena!
— Eu sei, mãe...
— Por favor, encontre-a. Quero minha neta. Preferia não ter de pôr os olhos em Anne nunca mais, mas não suportava testemunhar o sofrimento da mãe.
— Está bem, irei atrás dela — prometeu.
— Obrigada, meu filho. Não entendo... Por que ela nos roubou e fugiu?
— Uma mente pervertida nunca age de acordo com o bom senso.
— Mas o dinheiro que ela pode ter obtido com a venda das jóias não é nada comparado ao que teria aqui. Ela só precisava pedir.
Mary tinha razão. O quadro não fazia nenhum sentido.
— A menos que ela tenha ficado conosco apenas para ganhar tempo, e precisasse de algum dinheiro para lançar-se numa aventura mais lucrativa.
— Não — a sra. Bingley protestou. — Não acredito nisso.
Mais tarde, depois de chamar um médico que receitou um sedativo para que Mary pudesse descansar, Charles foi ao quarto de Caroline. Anne havia abandonado a própria mãe, mas talvez ela soubesse de alguma coisa.
Charles bateu várias vezes na porta e, como não obtivesse resposta, entrou.
Caroline estava desacordada na cadeira ao lado da lareira. Havia uma garrafa vazia a seus pés e outra, pela metade, na mesa mais próxima. O quarto cheirava mal.
— Caroline!
Ela não respondeu.
Charles abriu uma janela, levou-a para a cama e encheu um cesto de lixo com todas as garrafas, cheias e vazias, antes de sair carregando a estranha carga.
Instruiu os empregados para não levar bebida ao quarto de Caroline sem sua autorização, passou pelos aposentos da mãe e finalmente foi trancar-se em seu quarto. Havia sido o responsável pela casa desde a juventude, mas nesse momento daria qualquer coisa para deixar as decisões a cargo de outro alguém.
Não queria encontrar Anne.
Mas sua mãe queria a neta.
Mesmo depois de verificar os objetos pessoais e descobrir que também perdera um relógio e um prendedor de gravata de diamante, teve de admitir que a fuga de Anne não fazia sentido.
Acendeu a lamparina e deitou-se na cama. A traição o consumia. Estivera certo ao desconfiar dela. Anne se casara com Fitzwilliam por causa do dinheiro dos Bingley.
E enquanto ele não se casasse e tivesse um filho, ela seria a mãe da única herdeira dos Bingley.
Podia ter obtido muito mais permanecendo em Mahoning Valley.
Dava valor ao dinheiro. Estava furioso pelas jóias.
Charles pôs um braço sobre os olhos. A chama se extinguiu e a escuridão o envolveu.
Era horrível, mas uma suspeita penetrava em sua mente como um animal venenoso e letal. Darcy.
Não. O amigo jamais o trairia. Era sensato e equilibrado demais para se deixar envolver por uma mulher.
Mas... não tinha opinião idêntica a respeito dele mesmo? E fora envolvido com facilidade espantosa. Anne era capaz de enganar o mais astuto dos homens.
Não. Tinha de controlar os pensamentos. Fitzwilliam era um homem de boa aparência, mas não possuía a fortuna necessária para atrair gente da espécie de Anne. Além do mais, era decente e leal, e não fugiria com a cunhada de seu patrão e amigo.
O que estava acontecendo com ele? Por que ainda a desejava tanto, depois de tudo que acontecera?
Sentira-se atraído por Anne desde o primeiro encontro, mas o sentimento de deslealdade para com a memória do irmão e o medo das conseqüências o levaram a sufocar a paixão.
Anne podia ter tido toda a fortuna dos Bingley a seus pés. Não entendia por que ela fugira, se sua tática de sedução surtira os efeitos desejados. Ela devia ter percebido como o incendiava com aquele ar inocente e os grandes olhos azuis.
Mas Anne havia partido. E isso era tudo que tinha nesse momento.
Não queria vê-la nunca mais. Mas teria de honrar o desejo da mãe.
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