Notas iniciais
Olá moças como vão? Obrigada por terem deixado para a minha pessoa, obrigada por todos recados deixados, e espero que gostem do capítulo, bjs

[RECAPITULANDO]

Encarou-o e soube que ele estava pensando nos beijos ardentes que haviam trocado. Lembrou-se de como reagira às carícias e foi tomada de assalto pelo constrangimento. Olhou para Mary, mas ela havia terminado de comer e brincava com a filha.

— Quer mais um pedaço? — Charles ofereceu.

Jane balançou a cabeça e manteve os olhos baixos.

Ele terminou de comer e permaneceu sentado sobre o cobertor, relaxado e satisfeito. Depois de alguns instantes Jane também relaxou e esque­ceu o momento de estranheza.

— Estão se divertindo? — uma voz feminina perguntou.

***

Jane ergueu a cabeça e viu-se diante de um par de olhos verdes em um rosto vagamente familiar protegido por uma sombrinha. Sentia que devia lem­brar onde a vira antes. A jovem segurava o braço de um homem musculoso com cabelos e olhos castanhos.

— Sim. É um lindo dia — respondeu.

— Como vai? — A mulher estendeu a mão para Mary.

— Ainda não fomos apresentadas. Sou Catherine de Bourge.

— Não seguiu com a equipe do teatro? — Charles perguntou com tom vagamente contrariado.

Era isso!

Vira a mulher no restaurante em Hampshire na noite em que fora ao teatro.

— Decidi passar mais algum tempo na cidade. — E bateu no braço do rapaz que a acompanhava.

— J.W. — Charles o reconheceu.

— Sr. Bingley — o jovem respondeu com um sorriso educado.

A atriz decidira ficar por ter conhecido um empregado da fundição?

— É um prazer conhecê-la, Catherine. — Mary respondeu. — Já conhece Anne?

— Oh, sim. Nós nos conhecemos há muito tem­po. Não é verdade, Anne?

Jane piscou.

— Conheci Anne em Londres, antes de Fitzwilliam. Ela fez as roupas para Sonhos de Uma Noite de Verão. Fui a protagonista.

— Oh — Mary respondeu interessada.

— Anne criou um lindo vestido azul bordado com centenas de pérolas. — Os olhos verdes de Catherine enviavam uma mensagem silenciosa. — Lembra-se, Anne?

O tom de voz a deixou em estado de alerta. A comida que acabara de saborear transformou-se em uma pedra em seu estômago. O pânico ameaçou sufocá-la e o coração perdeu a força, como se pudesse parar de bater.
O que aquela mulher estava dizendo? Qual seria seu objetivo? Se conhecera Anne e pretendia des­mascará-la, por que não agira na primeira vez em que a vira?

Era evidente que esperava uma resposta para a pergunta que acabara de fazer.

— Eu... eu...

— O vestido era azul cobalto — Catherine acrescentou.

— Eu... sim, é claro que me lembro daquele figurino.
Charles a encarava com curiosidade.

— E quem é esse? — Ela se ajoelhou ao lado de Mary, que segurava Helena.

— Este é minha neta, Helena Fitzwilliam Bingley.

— Oh! Helena Fitzwilliam Bingley. É claro. Acha que ele se parece com Fitzwilliam, sra. Bingley?

O coração de Jane disparou.

— Ela tem alguns traços de meu filho, mas é uma pequena réplica de Anne. Está vendo o quei­xo? E os cabelos claros, a boca...

— Oh, sim.

Charles e o rapaz que ele chamara de J.W trocaram um olhar.

— Quer me acompanhar numa bebida?

O rapaz sorriu como se houvesse acabado de receber uma grande honra.

— Certamente.

Os dois dirigiram-se à área onde barris de cer­veja haviam sido postos sob árvores frondosas.

— Vá se divertir — Mary disse a Jane. — Helena e eu temos algumas damas a impressionar.

Jane ajudou-a a pôr-se em pé e a viu afastar-se para retornar ao círculo de que havia participado antes do almoço.

Nervosa, encarou a jovem que havia se acomo­dado com desenvoltura no cobertor. Catherine apon­tou para o espaço vazio a seu lado.

— Agora que estamos sozinhas, que tal recor­darmos os velhos tempos... Anne?

— O que está fazendo?

— Eu? — E levou a mão ao peito num gesto dramático. — Ora, estou apenas sendo uma velha amiga!

O sorriso provocou um arrepio.

— E atestando sua história, é claro.

— Sabe tão bem quanto eu que nunca nos vimos antes daquela noite no restaurante.

— Nós duas sabemos disso. Mas os Bingley não sabem. Ainda...

Jane tinha a impressão de que o ar não che­gava aos pulmões.

— E presumo que queira preservar nosso pe­queno segredo.

— O que quer?

— As mesmas coisas que você, é claro. Um ma­rido rico, roupas novas e muitas jóias.

— Perguntei o que quer de mim.

— Oh, muito pouco, comparado ao que já con­quistou na casa dos Bingley. Apenas uma pequena doação para as coisas refinadas que nós duas tanto apreciamos. Estou certa de que patro­cinar a arte a deixaria muito feliz.

— Não tenho dinheiro.

— É claro que não. Se tivesse, não estaria aqui. Mas tem um bom relacionamento com os Bingley. Se desempenhar seu papel com eficiência, terá uma aliança no dedo antes de tirar essa fantasia de viúva.

— Já disse que não tenho dinheiro para lhe dar. Por que não nos deixa em paz?

— Acha que sou estúpida? Aquelas pessoas pen­sam que você é uma Bingley! Sei que vai conseguir convencê-los. E enquanto não obtiver algum dinhei­ro, pode dispor daquele lindo bracelete...

— Aquela jóia era de minha mãe!

— Ela certamente apoiaria a doação. Afinal, é por uma boa causa. Poderá ter muitos outros como aquele.

— Será que não entende?

— Entendo mais do que imagina. E se não quer que seu adorado Charles passe a entender tam­bém, fará exatamente o que eu disser. — Ela se levantou.

Jane fitou-a horrorizada, incapaz de mover-se.

— Irei procurá-la dentro de dois dias. E partirei mais rica do que chegarei. Compreendeu?

Jane assentiu aturdida.

— Caso contrário... o sr. Bingley terá seus olhos abertos. Bem abertos. Fui clara, querida?

Jane repetiu o movimento afirmativo com a cabeça.

— Bem, agora devo ir me juntar ao meu divertido e encantador acompanhante. Ele não tem di­nheiro, mas possui... talentos bem interessantes.

Catherine abriu a sombrinha e afastou-se.

Jane não sabia se chorava ou desmaiava.

Os sons das crianças brincando e de adultos conversando chegou aos seus ouvidos. Estava sen­do vítima de uma chantagem. Só os assassinos e ladrões eram chantageados.

Não. Qualquer pessoa que tivesse horríveis se­gredos podia sofrer o mesmo tormento. E ela tinha um segredo.

Um terrível e enorme segredo.

Cada dia a empurrava para mais perto do mo­mento decisivo. Estivera vivendo um tempo que não lhe pertencia desde o instante em que chegara àquela casa. Mais cedo ou mais tarde, Caroline aca­baria deixando escapar alguma coisa, ou ela mes­ma se trairia.

Mas não roubaria os Bingley para comprar o silêncio de Catherine. E o bracelete era a única fonte de renda com que poderia contar quando tivesse de prover o sustento da filha, não abriria mão dele.

Tinha de partir.

Esperava que seu último dia em Mahoning Valley fosse inesquecível, uma recordação que aque­cesse seu coração nos dias mais solitários e difí­ceis. Determinada, juntou-se às festividades como se fosse a mais feliz das mulheres.

Assistiu às competições, riu e esqueceu por al­gumas horas que era Jane Bennet, e que no dia seguinte estaria completamente sozinha, e que todas aquelas pessoas se lembrariam dela apenas como a mulher que os enganara.