Não Sou Quem Você Imagina!
39 Capítulo 39
Notas iniciais
[RECAPITULANDO]
Os filhos? Sim, Fitzwilliam era bastante parecido com a mãe. Mas Charles? Tratava os empregados com respeito, tinha de admitir, mas não considerava Anne boa o bastante para fazer parte da família. Mas não podia dizer isso a Caroline.
— Sim, os filhos também.
— Pode me servir uma bebida?
— Não acha que já bebeu bastante durante o jantar?
— Eu mesma avisarei quando estiver satisfeita.
Jane providenciou uma garrafa e deixou-a sozinha.
***
O sábado foi um dia perfeito para o piquenique. O sol brilhava forte, mas a temperatura era agradável. Jane surpreendeu-se com o número de mesas cobertas por toalhas e cestas cheias de comida. Jamais estivera em uma festividade tão informal, pois todos os conhecidos de seu pai eram banqueiros e investidores de idade avançada e hábitos rígidos. Até as atividades escolares haviam sido formais, uma cavalgada por um parque de Londres fora o mais perto que estivera da natureza.
— Venha ver o troféu que fizemos para a competição deste ano! — Vários homens reuniram-se em torno de Charles, todos falando ao mesmo tempo.
— Anne?
— Não se preocupe comigo.
Mary conversava com algumas mulheres, esposas dos empregados, e Jane decidiu explorar a área sozinha.
Crianças corriam e brincavam, suas risadas alegres pairando no ar. Barracas abrigavam brincadeiras e jogos, e ela assistiu fascinada enquanto pessoas de todas as idades testavam a sorte atirando argolas sobre garrafas e arremessando bolas contra caixas empilhadas.
— Sra. Bingley! Anne!
Jane olhou em volta.
Lidya Crane, carregando o pequeno David no colo e puxando Elissa pela mão, corria em sua direção. Jane admirou o vestido vermelho e azul que ela criara a partir de dois dos antigos trajes de Anne, usando o tecido extra para desenhar um modelo discreto e alegre.
— Olá — cumprimentou-os com um sorriso.
— Já bebeu alguma coisa? — Mary perguntou. — Deve estar com sede depois da viagem.
— Adoraria algo fresco — Jane respondeu.
— Venha comigo. — Mary levou-a a uma sombra sob um enorme carvalho onde dois barris haviam sido acomodados sobre outros dois a fim de estarem acessíveis. — Este contém limonada, e o outro, chá. Se quiser, há um tonel de cerveja logo ali. Perto dos homens.
— Prefiro limonada. — Encheram dois recipientes de metal e beberam.
— Venha, quero que conheça outras pessoas. Jane acompanhou-a e foi apresentada às esposas de outros empregados da fundição. Várias delas usavam vestidos feitos a partir das roupas de Anne. Até as crianças exibiam camisas e aventais coloridos. Jane sorriu, esperando que Anne ficasse feliz por ter feito tantas outras pessoas felizes também.
Uma jovem chamada Vella brincou com Helena e conversou com Jane e Mary.
— Seu cunhado é um homem encantador — ela exclamou. — Esperamos por este piquenique todos os anos. O marido de minha irmã trabalha na Fundição Neligh, e as festas de lá não são tão boas quanto as que temos na Bingley.
— Seu marido trabalha para a fundição?
— Ainda não sou casada. Meu pai é um dos responsáveis pela fornalha.
Helena agitou-se, e Mary encontrou um lugar à sombra para Jane e o bebê. Lá ela o amamentou cercada pelas jovens mulheres e protegida por uma flanela estendida entre duas delas.
A menina adormeceu em seguida.
— Deixe-a aqui. Eu cuidarei dela — Mary sugeriu. David também havia dormido, e Elissa e outra menina da mesma idade brincavam com bonecas de pano. — Por favor. É o mínimo que posso fazer por você. Assim terá uma oportunidade de divertir-se enquanto ela dorme.
— Bem... se tem certeza de que não se incomoda...
— Cuidar de um bebê adormecido não é nada comparado a tratar de uma família doente. Sei que não espera retribuição pelo que fez, mas agora a considero uma amiga, e os amigos sempre trocam favores.
— Obrigada, Mary. Pela oferta e por sua amizade. Acho que vou andar um pouco pelo parque, talvez jogar nas barracas.
— Vá e divirta-se.
Jane caminhou por entre as famílias dos trabalhadores. Era como se todos a conhecessem. Era evidente que nunca a viram, mas o vestido negro que usava sobressaía entre as roupas das outras mulheres. De tempos em tempos, alguém parava para oferecer condolências ou agradecer pelas roupas, ou para comentar que sabiam que ela havia ajudado os Crane.
Charles se mantinha entre os empregados, bebendo cerveja, rindo e conversando como se fosse um deles. Mary passou boa parte da manhã entre as mulheres mais velhas, costurando e trocando impressões sobre receitas e outros assuntos domésticos.
Apesar de serem os patrões, interagiam com os empregados de igual para igual. A sobrevivência daquelas pessoas dependia dos Bingley, mas era evidente que eles tinham conhecimento de que também dependiam do trabalho daquelas pessoas.
A admiração e o respeito que sentia por Charles cresceram.
De repente a multidão foi tomada por um diferente nível de excitação, e os homens reuniram-se sobre uma pequena encosta às margens de um riacho. As mulheres também se dirigiam para lá, e Jane aproximou-se de Helena para que Mary pudesse juntar-se aos outros. Ela estava acordada, apreciando as folhas da árvore com ar fascinado.
— Achei que gostaria de ir ver o que eles estão fazendo.
— Devia ir também. É um cabo-de-guerra.
Jane trocou Helena, abriu a sombrinha para protegê-la do sol e juntou-se ao grupo.
Os homens estavam divididos em dois grupos. Um deles, o que Charles participava, atravessou o riacho por uma ponte estreita e foi posicionar-se na margem oposta. Uma corda foi jogada por sobre o rio. Charles apanhou a ponta e os homens enfileiraram-se atrás dele, assumindo suas posições ao longo da corda.
A mesma formação repetiu-se do outro lado do rio, e um grito anunciou o momento em que todos deviam começar a puxar a corda.
As mulheres aplaudiam, e algumas correram até a ponte de onde podiam ter uma visão privilegiada.
Jane nunca vira nada parecido. Se um dos lados não puxasse com força suficiente, todos seriam arrastados para dentro do riacho.
— Essa é a ideia — Mary confirmou rindo. — Os vencedores serão aqueles que permanecerem secos.
— Que divertido!
Era estranho ver Charles e Fitzwilliam participando dos jogos dos empregados da fundição.
A brincadeira estendeu-se por vários minutos, até que o time de Charles foi arrastado para dentro do riacho. Rindo, todos se reuniram novamente para trocar congratulações.
Jane seguiu Mary e Vella e sentou-se com as crianças enquanto as mulheres serviam a refeição. A tarefa foi cumprida em pouco tempo, e depois Jane foi procurar por Mary. Encontrou Charles com ela, a camisa branca molhada e amarrotada e a calça ensopada, como os sapatos. Mas ele não parecia incomodado.
— Gostou do cabo-de-guerra, Helena? — Charles perguntou com tom divertido, olhando para o bebê nos braços de Jane. — Assim que ganhar mais alguns quilos, poderá me ajudar.
Mary pegou a menina e pediu a Jane para estender um cobertor.
— Vai ter que deixá-lo comigo durante o resto da tarde — disse. — Nós, mulheres idosas, também precisamos de um pouco de diversão.
Encheram os pratos com a impressionante variedade de comida espalhada sobre as mesas e foram sentar-se no cobertor aberto sobre a relva. Jane comeu até não poder mais, surpresa com o sabor especial de cada prato.
Os Crane acenaram de um cobertor a alguns metros de distância.
Jane retribuiu e observou a família por alguns segundos.
— Onde está Fitzwilliam? — perguntou.
Charles olhou em volta com ar despreocupado.
— Deve ter encontrado alguém com quem comer. Trouxe um pedaço de torta para você.
— Obrigada, mas... creio que não consigo comer mais nada.
— Pelo menos experimente.
Ele estendeu o garfo onde havia um suculento pedaço de massa crocante com recheio cremoso. Jane não teve outra escolha senão aceitar a oferta. Abriu a boca e deixou que ele a alimentasse.
— Hum. Deliciosa — disse com sinceridade. Os olhos dele se tornaram mais escuros e buscaram seus lábios.
Jane sentiu o coração bater mais depressa. O calor invadiu seu rosto.
Encarou-o e soube que ele estava pensando nos beijos ardentes que haviam trocado. Lembrou-se de como reagira às carícias e foi tomada de assalto pelo constrangimento. Olhou para Mary, mas ela havia terminado de comer e brincava com a filha.
— Quer mais um pedaço? — Charles ofereceu.
Jane balançou a cabeça e manteve os olhos baixos.
Ele terminou de comer e permaneceu sentado sobre o cobertor, relaxado e satisfeito. Depois de alguns instantes Jane também relaxou e esqueceu o momento de estranheza.
— Estão se divertindo? — uma voz feminina perguntou.
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