Notas iniciais
Olá meninas como vão? Obrigada pelos comentários deixados, eles são sempre importantes para mim, espero que gostem deste capítulo. Lembrando que aos fantasmas, por favor me digam o que estão achando da fic, pois estamos chegando quase ao 100 comentários e eu ficaria muito feliz se isso acontecesse na próxima vez que eu for postar de novo, bjs

[RECAPITULANDO]

Não sabia o que teria dito. Que estava arre­pendido? Seria mentira. Não devia ter planejado o jogo de sedução, mas teria agido de forma di­ferente, se pudesse voltar atrás? Preferia não ter conhecido a maciez de sua pele ou o sabor de seu corpo? Seria melhor se não a tivesse tocado?

A humilhação estava estampada em seus olhos. Não estava arrependido por tê-la seduzido e ex­citado. Só lamentava que ela houvesse pertencido a Fitzwilliam primeiro, e que assim o privasse do direito de conhecer as delícias de seu corpo.

Silencioso, afastou-se enquanto Anne pegava o bebê do berço e deixava o escritório como se demônios a perseguissem.

Charles olhou para os grampos espalhados no chão perto do divã. Recolheu-os e apertou-os entre os dedos. Não, não estava arrependido pelo que acontecera.

Só lamentava um dia ter conhecido uma mulher chamada Anne Patrick Bingley.

*****

Jane havia esquecido como era adormecer sem preocupações, arrependimentos ou temores. Um ano havia se passado desde que deixara de dormir o sono tranqüilo de uma jovem sem inquietações.

E tudo por causa de sua natureza rebelde, de seu caráter duvidoso. Teria sido melhor se houvesse se casado com um dos rapazes que o pai sugerira. Aceitar os convites secretos do pai da sua filha fora apenas uma forma de vingar-se de um pai ausente que nunca tinha tempo para ela, mas dava ordens e comandava sua vida como se manejasse os cordões de uma marionete.

Pensando bem, talvez houvesse escolhido George por saber que ele não se importava com ela, como o pai nunca se importara, como Charles jamais se importaria.

Por que buscava sempre o afeto de homens que não podiam corresponder, gente que nem gostava dela?

Deixara Helena na cama a seu lado, porque sabia que precisaria dela para encontrar algum conforto.

Tinha Helena. Ninguém jamais poderia tirá-la dela ou afastá-las. Poderia sempre contar com a presença da filha.

Lágrimas corriam por seu rosto e a dor crescia em seu peito. Não era a melhor mãe que uma criança podia ter. Mas amava-a, e faria tudo por ela. Naquela noite cometera outro engano: pusera em risco o bem-estar da própria filha.

Se Charles não houvesse parado antes de concluir o ato, poderia estar grávida de outra criança! Jamais aprenderia? Se não era capaz de garantir o sustento de uma filha, como cuidaria de dois?

Não tinha ilusões sobre Charles. Sabia que ele a desejava como George a desejara, mas tam­bém a abandonaria depois de saciar o apetite físico. Qualquer coisa entre eles era impossível. As mentiras impediriam um relacionamento verdadeiro.

O som de vidro quebrado no corredor assustou-a. Secou os olhos com a ponta do lençol e foi até a porta. A luz do luar penetrando por uma janela muito alta revelou uma forma sentada no degrau da escada, e ela correu até lá.

A dor no pé obrigou-a a diminuir a velocidade. Contendo um grito, mancou até aproximar-se de Carol.

— O que está fazendo? Sabe que horas são?

Carol não tinha noção do tempo. Quando acor­dava, bebia. Quando se embriagava, dormia.

— Estava com fome — ela respondeu com voz pastosa, apesar de soar coerente.

— Num minuto tenho de ameaçá-la para convencê-la a comer, e de repente age como se estivesse faminta.

Uma luz amarelada invadiu o corredor e Charles apareceu subindo a escada com uma lamparina na mão, vestindo apenas a calça, A luminosidade revelou uma poça no chão de madeira e cacos de vidro espalhados pelo corredor.

— Quem se machucou? — ele perguntou.

A questão confundiu Jane, mas em seguida ela notou o sangue no tapete e levou a mão à boca.

— Seu tapete!

— O tapete não importa. Qual das duas está ferida?

Jane fechou os olhos.

— Creio que sou eu.

Sentada ao lado de Carol, segurou a camisola na altura dos tornozelos e ofereceu o pé para que ele o examinasse.

Sem camisa, com os cabelos desalinhados, Chales deixou a lamparina no chão e abaixou-se diante dela. Carol acompanhava a cena com in­teresse, e um brilho de compreensão iluminou seus olhos vermelhos.

Jane fechou os olhos, tentando não lembrar o que havia vivido no escritório pouco antes.

— Ai! — gritou, os pensamentos interrompidos pela pontada de dor.

— Há um caco de vidro bem aqui — ele disse. — Felizmente é pequeno.

— Carol estava com fome. Ela ia descer para comer alguma coisa.

— É verdade. Não jantei...

— Penélope levou o jantar ao seu quarto. Como você não acordou, ela levou-a bandeja de volta à cozinha.

— Não queria acordar a casa toda — ela res­mungou enquanto se levantava. — Só queria co­mer alguma coisa.

Charles agarrou uma toalha de linho de uma mesa próxima e colocou-a sobre o ferimento.

— Por que fez isso? A mancha jamais será re­movida — Carol protestou.

— Fique quieta. Não se mova até eu voltar, ouviu bem? E isso vale para você também, Caroline.

As duas moveram as cabeças em sentido afirmativo.

Ele desceu a escada sem fazer barulho, cercado pela escuridão.

— Existe alguma coisa entre vocês? — Caraol disparou assim que ficaram sozinhas.

— Não. Pensa que sou alguma estúpida?

— Não creio que seja estupidez. Pelo contrário. Se souber usar as armas que tem, poderá criar uma situação bastante favorável.

— Não quero uma situação favorável. Não como está insinuando. E não posso ficar aqui por mais tempo que o necessário.

— Podia estar em algum lugar pior. Nunca tive criados para me servir, sabe?

— E daí? Vai fingir que é minha mãe pelo resto de sua vida?

— E você quem está fingindo, meu bem. Eu sou a mãe de Anne.

— Tem razão — Jane suspirou. — Eu mesma criei toda essa confusão, e não tenho o direito de zangar-me com você. Desculpe-me.

— Por quê?

— Por tê-la envolvido nessa farsa.

— Francamente, teria feito a mesma coisa se estivesse em seu lugar. E Anne também.

A afirmação a surpreendeu.

— Bem, começamos muito mal, nós duas. Não sei como posso reparar tudo agora, porque ainda não tenho ideia do que vou fazer, mas saiba que sinto muito por Anne. Quando encontrar o corpo de sua filha, tomarei todas as providências para que ela seja enterrada aqui, junto de Fitzwilliam. Então poderá visitá-la em sua última morada.

— Também fiz muitas coisas das quais não me orgulho.

Jane interpretou o comentário como uma acei­tação para o pedido de desculpas e sentiu-se aliviada.

Charles aproximou-se com outra lamparina e uma bandeja.

— Não se movam. Em que quarto Caroline está instalada?

— No terceiro à esquerda da escada — Jane respondeu.

Desviando dos cacos de vidro, ele desapareceu com a bandeja e voltou em seguida.

— Venha, Caroline. Estava tomando um lanche quando ouvi o barulho, e por isso sabia que ainda havia um pouco de frango do jantar. Anne, espere aqui enquanto acompanho sua mãe ao quarto. — Segundos depois ele retornou. — Pegue a lampa­rina e segure-a firme — ordenou, esperando que ela obedecesse para tomá-la nos braços. — O pé ferido é o mesmo da perna que foi fraturada, não?

— Sim.

— Como ainda não apóia todo o peso do corpo sobre essa perna, o vidro não se alojou muito profundamente.

No quarto de Célia, Nicholas colocou-a sobre uma poltrona e providenciou mais uma lamparina.

Como uma rainha, Caroline saboreava o frango e lambia os dedos como um gato satisfeito.

Charles começou a limpar o ferimento com o material que reunira pouco antes, e Jane teve de esforçar-se para conter a reposta automática do corpo ao toque daquelas mãos. Devagar, ele conseguiu extrair um pequeno fragmento de vidro. O álcool usado para desinfetar o ferimento pro­vocou um ardor tão intenso, que ela não pôde con­ter as lágrimas.

— Sinto muito — ele disse.

Os olhos encontraram-se, e as palavras adquiri­ram um novo significado. Jane desejou ser outra pessoa, alguém com a consciência limpa e um pas­sado inatacável. Alguém que não houvesse cometido tantos enganos e mentido sobre cada um deles.

Alguém que um homem como Charles pudes­se amar.

Piscando, livrou-se das lágrimas e dos pensa­mentos tolos.

— Vou proteger o ferimento e em dois dias ele deve estar cicatrizado.

— Preciso beber alguma coisa depois de toda essa comida — Caroline anunciou.

— Trouxe um copo de leite — Charles lembrou, apontando para a bandeja.

— Não suporto leite. — Levantou-se e foi buscar a garrafa que deixara sobre a mesa-de-cabeceira.

Charles olhou para Jane como se pedisse uma orientação, mas não obteve ajuda e decidiu agir por conta própria.

— Não vou admitir que continue quebrando os copos desta casa, sra. Pa...

— Não a chame assim — Jane avisou. — Cha­me-a de Carol.

— Não preciso de copos — a mulher respondeu, sentando-se na cama e levando a garrafa à boca.

Furioso, ele saiu do quarto com passos silenciosos.

— Charles me pediu para convidá-la para jantar conosco — Jane contou. — Vai ter de se esforçar para estar em condições de sentar-se à mesa.

— Por que ele quer minha companhia para o jantar?

— Porque as pessoas costumam aproveitar o ho­rário das refeições para se reunirem e conversarem.

— Não tenho nada de interessante para dizer.

— Como pode saber? Talvez possa se interessar pelo que ele tem dizer. E Mary é adorável. Não é saudável passar o tempo todo trancada no quar­to. Virei ajudá-la a vestir-se para o jantar. Esteja preparada. — Ou melhor, não beba, pensou.

Charles retornou com um cálice de prata.

— É bonito — Caroline reconheceu, examinando o objeto à luz da lamparina e encontrando as iniciais gravadas.

Ele apanhou a garrafa e serviu uma doce ge­nerosa no recipiente metálico.

— Fitzwilliam mandou esta lembrança de uma de suas viagens — contou. — Vou ficar mais tranquilo se não puder cobrir a casa de vidros quebrados. Falando nisso — disse, guardando a gar­rafa no bolso e recolhendo o material utilizado para o curativo —, é melhor limpar aquela con­fusão antes que mais alguém se machuque.

— Eu cuido disso — Jane ofereceu.

— Não. — Diga boa-noite a sua mãe.

Ela olhou para Caroline com ar preocupada. A mu­lher caíra deitada sobre a cama e roncava alto.

— Bons sonhos, mamãe — disse.

Charles a cobriu antes de aproximar-se de Jane.

— Posso ir andando — ela protestou.

— E melhor poupar esse pé. — Ergueu-a nos braços como se carregasse uma criança.

Pouco tempo se passara desde que ele a beijara e acariciara, desde que despertara nela o desejo de en­tregar-se e conhecer o mais intenso e completo prazer.

Silencioso, ele a levou para o quarto e aproxi­mou-se da cama.

— Cuidado — Jane avisou. — Helena está dormindo aí.

Identificou a forma do bebê na escuridão e aco­modou-a ao lado dela.

— Obrigada, Charles. E desculpe-me... pelo copo e pela mancha no tapete.

— Tome cuidado com o ferimento. Se notar algum sinal de inflamação, mande chamar um médico.

— Está bem.

Mas ele permanecia imóvel.

Sentia a necessidade de desculpar-se também por Caroline. Ela não era sua mãe de fato, mas Charles acreditava que fosse. E isso a tornava res­ponsável por seus atos.

— Anne, quero que saiba que é bem-vinda nesta casa por todo o tempo que desejar ficar conosco. Para sempre, se quiser. E sua mãe também pode ficar.

Atônita, ela permaneceu em silêncio.

— Não posso culpá-la pelo comportamento de Caroline. Tenho certeza de que passou boa parte da vida reparando seus erros e pedindo desculpas por ela. Não precisa continuar se desculpando. Tomaremos todas as providências necessárias e lidaremos com ela juntos.

Juntos. A palavra teve o dom de confundir seus pensamentos. Não esperava que Charles fosse capaz de dizer palavras tão reconfortantes. Mas sabia que aquele era um sonho impossível. Ela e Charles nunca estariam juntos.

A bondade era mais difícil de aceitar que o des­prezo ou as demonstrações de raiva... porque não a merecia.

— Por quê? — perguntou finalmente.

— Ela é sua mãe. E avó de Helena.

Jane fechou os olhos para resistir à onda de culpa que a invadia. Quando começava a acreditar que o conhecia, quando terminava de preparar todas as defesas, ele fazia ou dizia alguma coisa que realçava sua falta de caráter, sua natureza pequena e mesquinha.

Era a única culpada por aquela situação. Desper­diçara tempo e energia culpando o pai, e a lembrança de George fora como uma tábua de salvação a que se agarrara por muitos meses, mas a verdade era que só ela causara o próprio sofrimento.

Resignada, abriu os olhos.

Charles havia saído.

Deprimida, encolheu-se na cama, tocou a filha em busca de conforto e ignorou o ardor no pé e a dor que tomava conta de seu coração.

Não havia escolha. Jamais haveria.

Teria de ir embora em breve.