Nyrel - Uma História de Amor

4 Só Mais Uma Loucura Qualquer


Notas iniciais
Olá, meus Nyrelers lindos! ♥ Bem, aqui está mais um P.O.V. do Darel para vocês *-* Boa leitura!

DAREL

No meu aniversário de sete anos, tive a honra de presenciar a primeira demonstração de magia de Nyree.

Para minha perplexidade, porém, não aconteceu como nós esperávamos.

Depois de uma cerimônia simples com meus pais e tios, onde houve uma haka muito animada, finalmente fui liberado para passear pela aldeia.

Carregava, em minha mão, minha primeira faca, presente de papai.

Numa outra cultura, alguns pais provavelmente se escandalizariam com o fato de uma criança estar carregando algo afiado sem a supervisão de um adulto. Mas ali, em meio á Natureza, em nossa convivência crua com o mundo externo, sete anos era uma idade em que um maori já sabia muito bem o que fazer e o que não fazer com aquele objeto.

Estava louco para mostrar a faca para Nyree. Ela era linda, cheia de ornamentos que mamãe desenhara em sua empunhadura macia. Eu era um tanto zombeteiro e inconsequente na época, e queria ver a cara de inveja dela quando pusesse os olhos na arma.

Porém, quando fui até a cabana de Ruau, estranhei ao encontrar apenas Hana, a irmãzinha mais nova dela, brincando no tapete trançado.

– Hana – falei, confuso – sabe onde está Nyree?

Hana fungou, soltando a boneca de palha e me olhando.

– Nyree saiu. Pra brincar perto da savana.

Assenti, saindo da cabana, sentindo a mágoa me inundar. Nyree nunca tinha saído pra brincar sem me chamar antes.

Enquanto andava pela areia, chutando as pedras sob meus pés, comecei a resmungar comigo mesmo. Será que eu tinha feito alguma coisa nas semanas anteriores? Por que Nyree não havia ido á minha cerimônia de aniversário? Ela nunca havia deixado de ir a nenhuma delas antes...

Intrigado e querendo tirar aquilo á limpo, resolvi me aproximar da savana ao lado do rio, para ver se a encontrava.

– Nyree! – gritei, sentindo a brisa arrepiar minhas costas nuas – Nyree!

O único som que me respondeu foi o farfalhar das plantas amareladas que circundavam a água.

Desanimado, embainhei a faca em meu cinto e me ajoelhei diante do rio, levando as mãos em concha para recolher um pouco de água.

Foi quando eu percebi o barulhinho que veio da outra margem.

Ergui o olhar, tenso, sem sair da posição em que estava. Minha mão foi automaticamente para a empunhadura da faca.

– Quem está aí? – exclamei, com a voz tremula – apareça!

Pensei que poderia ser um diabo-da-tasmânia, ou um dingo. Fantasiei se poderia até ser um bunyip, imaginando a cara de papai e mamãe se eu trouxesse a carcaça de um bicho daqueles para casa.

Mesmo que fosse qualquer um destes animais, eu não consegui me mexer, enrijecido como estava de medo.

Ainda não tinha treinado com os maoris mais velhos nas caçadas. Se fosse um predador, eu não teria tido a menor chance.

Mas não era um predador.

Guinchei de surpresa quando enxerguei o focinho negro que surgiu por entre as folhas, sentindo o medo se dissipar, dando lugar ao choque.

Era um canguru, sem dúvida. Um exemplar claro e muito bonito.

Porém, era ligeiramente menor, indiscutivelmente um filhote, quase do meu tamanho.

Nunca tinha visto um antes. Bem, não um filhote. Os cangurus ali geralmente eram os adultos, transfigurados. Não existiam cangurus pequenos.

Estranho. Será que era um verdadeiro canguru, que havia se perdido dos pais? Ou uma criança maori, que milagrosamente conseguira se transformar?

Quando o animal saltou na água e começou a nadar, eu deduzi que se tratava da segunda opção. Nenhuma criatura conseguia nadar daquele jeito.

Recuei, pasmo, quando ele se empertigou, me farejando.

Finalmente prestei atenção nos olhos amendoados e grandes do animal.

Enfim, os reconheci, me desequilibrando e caindo na areia.

Não tinha como não os reconhecer.

– Nyree – ofeguei.

A canguruzinha envergou a cabeça, olhando para suas patinhas. Percebi que estava tremendo, e enfim notei sua expressão apavorada.

Me boquiabri.

Nyree havia se tornado animaga.

Isso nunca tinha acontecido antes. Não com uma criança.

Nyree emitiu um guincho angustiado, se encolhendo.

– Ei, calma – ergui as mãos para a canguru, que se afastou, insegura – tudo bem, Nyree. Se acalma...

Ela baixou a cabeça, hesitante, antes de se acomodar em meu abraço, encostando a cabecinha peluda em meu ombro.

Afaguei suas costas, rindo quando sua cauda bateu no chão.

– Vamos voltar pra Tokonga. O Akahata vai saber o que fazer.

Nyree afastou a cabeça, balançando-a em negativa.

Revirei os olhos. Ela ainda tinha muito medo do xamã, desde nossa estripulia com o cajado. Provavelmente pregara algum trauma daquilo.

– Pare com isso – puxei-a – ele vai ajudar!

Nyree estreitou os olhos, pulando para fora de meus braços e saltitando de modo teimoso. Eu não sabia se ria ou se tacava a pedra mais próxima em seu focinho.

– Ok –cruzei os braços, me erguendo. Como podia ser tão... Nyree? – fique como canguru pelo resto do ano. Não diga que eu não tentei ajudar.

Dei as costas, já andando de volta para a aldeia.

Sorri, vitorioso, quando ouvi o patear nervoso que começou a me seguir alguns metros adiante.

Nyree ainda parecia indecisa entre pular e andar, já que ainda não pegara o jeito da coisa. O resultado foi uma canguru gingando ao meu lado, numa espécie de cavalgada reptiliana que quase me fez chorar de rir.

Não era preciso entender Nyree. A expressão chupada dela dizia claramente “está se divertindo, não é, infeliz?”.

– Desculpa – dei de ombros, sem graça – é uma situação estranha...

Ela meneou a cabeça em concordância, piscando para cima.

Quando estávamos quase chegando á grande cabana de Akahata, Nyree focinhou a faca em minha cintura.

– Ah – retirei-a do cinto, mostrando a lamina á luz do sol – ganhei de papai.

Os olhos de Nyree se arregalaram, admirados.

Infelizmente, se ela ia fazer alguma coisa, nunca saberei, já que, naquele momento, um maori corpulento surgiu atrás de nós, ajeitando a capa de pele que usava.

Nyree se assustou, escondendo-se na varanda.

Timidamente, cumprimentei o nosso chefe.

– Ahau kite koe, Akahata.

Para meu alívio, Akahata sorriu.

– Ahau kite koe, Darel – ele segurou meu ombro – o que o traz aqui, tama?

– É a Nyree – ofeguei.

– A filha de Ruau?

– Sim – assenti – senhor... aconteceu... não sei como... acho que ela... se transformou.

Akahata ergueu a sobrancelha, espantado, quando Nyree se aproximou, de cabecinha rente ao chão.

– Um canguru? – ele gracejou, me fazendo morder o lábio e rir também – que inusitado, tamaiti.

Nyree aparentou choque quando Akahata a pegou em seus braços, aninhando-a em seu colo.

Ele me encarou, segurando minha cabeça.

– Ela vai ficar bem, Darel. Acalme seu espirito, rapaz – Akahata me soltou – acho que nós poderemos esperar grandes feitos de você.

Enquanto Akahata entrava com Nyree na cabana, senti o peso daquelas palavras desabar sobre mim, e a perplexidade e a alegria inundarem minha mente.

Se o maior bruxo Tokonga dizia uma coisa daquelas á você, poderia ter certeza de que seu futuro seria realmente especial. E para um rapazinho de sete anos, pareceu ser o melhor presente de aniversário do mundo.

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Nyree saiu da cabana algumas horas depois, já de volta á forma humana.

– Então? – perguntei, enquanto ela vinha em minha direção – como foi?

Nyree me deu um tabefe na orelha, o que me fez bufar em protesto e rir em seguida.

– Isso é por você ficar zombando de mim – ela bufou – ah, tudo bem. Foi esquisito. Ele falou um monte de palavras estranhas, aí eu voltei ao normal. Disse que agora posso... decidir quando me transformar.

– Ah, então terminou tudo bem – dei de ombros, segurando o pescoço de Nyree, que gritou, e bagunçando seus cabelos – falei que ia dar tudo certo, Mōkī.

– Que seja – ela se soltou de mim, me empurrando – seu bobo.

– Sua chata.

–Maldoso.

Entreolhamo-nos, rindo logo á seguir.

– Mas foi divertido – comentei.

Nyree me olhou, sorrindo. E, enquanto retribuía o olhar, senti algo quente e muito gostoso aquecer meu peito, como se alguém tivesse colocado um pedaço de pão recém-saído do fogo naquele ponto.

Segurei sua mão, erguendo o olhar em direção ao céu azulado.

Estava feliz por Nyree estar feliz. E sabia que sempre seria assim. Não havia anda naquele mundo ou em outro que poderia abalar nossa amizade.

Ou foi nisso em que acreditei.

Notas finais
E aí? Comentários? Xingamentos? Até o próximo capítulo *3* E um ótimo começo de ano para vocês!