Nyrel - Uma História de Amor
5 Surpresas Boas, Surpresas Ruins
Notas iniciais
NYREE
Seis meses depois de minha malfadada transfiguração em canguru, foi a vez de Darel mostrar a que veio á Tokonga.
Tudo começou quando um rebuliço surgiu entre os Tokonga, com a chegada de uma nova família maori, vinda da Nova Zelândia. Além da família de Darel, eram os únicos que se juntavam aos Tokonga nos últimos quarenta anos.
Eu não me interessei muito pelo casal recém-chegado. Estava mais curiosa era com o garotinho assustado que se agarrara á perna da mãe, os olhos esbugalhados de hesitação diante dos adultos que os cumprimentavam.
Houve, como acontecera com Darel, uma grande haka de boas-vindas, com muita comida e histórias ao redor da fogueira. Akahata, o perfeito anfitrião, introduziu a nova família ao círculo da tribo.
Darel e eu resolvemos conversar com o garoto novo, para que ele se sentisse mais á vontade, enquanto os xamãs interagiam com os pais dele.
– Nau – Darel cumprimentou-o, enquanto eu acenava por trás de seu ombro – Whanautanga também?
O menino assentiu timidamente.
– Eu também era de lá – Darel sorriu – eu sou Darel. Essa é a Mōkī.
– Nyree – bufei, empurrando-o, e, com o resto de dignidade que me restara, voltando a me virar para o menino, enquanto Darel mostrava a língua e ria – meu nome é Nyree.
O garoto pareceu achar graça na nossa brincadeira besta, já que deu uma risadinha.
– Tāwhai – ele segurou nossos pulsos, na espécie de cumprimento que era comum em Whanautanga.
– Quantos anos você tem, Tāwhai? – perguntei, curiosa.
Ele suspirou, fazendo uma careta.
– Seis anos... vou fazer sete – ele encarou Darel, inseguro – tem poucas crianças aqui, não é?
– È, tem poucas. Mas diabos-da-tasmânia tem de montes. Olha um aqui – Darel apontou para mim, me fazendo grunhir e tentar puxar sua orelha – ai, socorro!
Tāwhai começou a gargalhar, enquanto via minha tentativa patética de pular em cima de Darel. Estava tão fula da vida com ele que acabei me transfigurando sem querer, fazendo Darel desabar no chão com o peso da minha forma canguru.
Á essa altura, Tāwhai já estava quase chorando de rir, tão fora de si que nem pareceu ficar curioso pela minha transformação.
– Tira essas patas de cima de mim! – esperneou Darel , embaixo de meu focinho.
Ergui a cabeça, fingindo que não escutara, e aproveitei para pousar a cauda na cabeça dele.
– É sério, parem com isso – Tāwhai soluçou, ainda secando as lágrimas de riso. Pareceu finalmente perceber a forma que eu tomara – nossa... você já é animaga?
Assenti animadamente, ignorando o fato de Darel ter começado a cutucar minhas patinhas com um pedaço de graveto, lutando para sair debaixo de mim.
Dei uma patada bem no meio do rosto dele, dando um salto para trás e fazendo-o cuspir na areia, estremecendo.
– Eca. Pelo de canguru – ele estreitou os olhos para mim, mas não aguentou e começou a rir também.
Tāwhai me olhava espantado, como se nunca tivesse visto nada parecido. Parecia ter visto a coisa mais impressionante do mundo, e aquilo estava começando a me deixar sem graça.
Já mais relaxada, voltei á forma humana, revirando os olhos e ajudando Darel a se levantar,
– Você mereceu – insisti, ao que Darel bufou e girou o olhar para Tāwhai.
Depois disso, fizemos um passeio ao redor da aldeia, mostrando tudo que conhecíamos para Tāwhai.
Porém, á certa altura da nossa excursão, estranhei o fato de só ouvir quatro pés caminhando no chão de areia.
Virei a cabeça para trás, confusa.
– Tāwhai?
Tāwhai estava atrás de mim, e pareceu se dar conta do mesmo que eu.
– Onde está Darel? – ele sibilou, espantado, também olhando para trás.
Arregalei os olhos, sentindo o medo se apossar de mim.
Para onde fora Darel? Quando é que ele havia desaparecido?
Meu coração começou a bater rápido, como se quisesse sair pela boca.
– Darel! – gritei, apavorada – Darel!
Tāwhai começou a chama-lo também, com as mãos em concha.
– Darel! Onde você está? Darel!
Estávamos muito próximos do monte Rota, que era a referência da divisa de Tokonga para o deserto exterior. Se Darel tivesse ido além do monte, onde havia todo tipo de predador cruel querendo te devorar...
Afastei esse pensamento da cabeça. Já estava apavorada demais.
– Estamos longe da aldeia – gaguejou Tāwhai – devíamos voltar, Nyree.
– Não volto sem o Darel – insisti, trêmula.
Um uivo cortou a noite, nos fazendo congelar onde estávamos.
O pavor me inundou, fazendo-me encolher.
Se o som que eu ouvira fosse do animal que estava pensando, estávamos mais do que enrascados.
Em Tokonga, as crianças só eram iniciadas na aprendizagem mágica com oito anos, uma educação continua que se estendia até a maioridade. Sendo assim, Darel e eu não tínhamos nenhuma magia boa o suficiente para nos defender de quaisquer inimigos.
Tāwhai e eu estávamos desarmados, indefesos sem um adulto por perto.
E eu tinha a péssima impressão que o uivo que ouvira era do pior predador não mágico do deserto Tirari-Sturt.
Na escuridão, o caminho de volta desapareceu de nossas visões, nos deixando ainda mais temerosos. Quem daria pela falta de dois pequenos maoris naquela imensidão desértica?
O uivo duplicou-se, me fazendo arfar.
Não era apenas um. Eram dois.
E o som das folhagens ao nosso redor informou que eles haviam nos encontrado.
Tāwhai segurou meus pulsos, de olhos saltados, quando dois dingos surgiram diante de nós, os olhos brilhando maldosamente em meio ao escuro, fixos em nossa direção.
– Tāwhai – solucei, amedrontada.
Passou pela minha cabeça a louca ideia de me transformar e lutar desesperadamente com os dingos, mas eu estava tão paralisada que mal conseguia piscar.
– Haere atu! – Tāwhai bradou corajosamente, mas tudo que conseguiu foi fazer os dingos rosnarem, trincando os dentes afiados.
Acovardada pela ameaça, encolhi-me ao lado de Tāwhai, apertando sua mão. Era tudo culpa minha. Fora minha ideia continuar a procurar Darel no monte... se ele ia pagar pelo meu erro, o mínimo que eu podia fazer era não tentar fugir e receber o que eu merecia por tamanha burrice.
Porém, outro uivo sobrepujou os rosnados dos dingos, fazendo com que nós nos entreolhássemos, atônitos, e os predadores erguessem as cabeças, surpresos.
– Outro não – choraminguei.
Mas não era outro dingo.
Para nossa perplexidade, algo parecido com uma pedra cinza surgiu pululante diante de nós, rosnando violentamente para os dingos.
No entanto... não era uma pedra.
Sem conseguir me mover, assisti, escandalizada, um filhote de lobo ladrar ameaçadoramente para os animais adultos, parecendo completamente alienado á sua diminuta estatura.
– Não! Não o machuquem! – funguei.
Foi uma frase desnecessária.
Por que ao tal filhote simplesmente avançou nos dingos como uma flecha cruel, engolfando-os contra o chão do deserto.
Minha teoria é que o lobinho era tão pequeno que simplesmente atordoou os dois cachorros, que mal viam o que era que os atacava, tamanha a ferocidade do pequeno filhote. Nem conseguiam se reerguer ou nos focalizar outra vez, aparentando estarem dentro de uma nuvem de poeira e rosnados.
Quando o pó da areia baixou, Tāwhai e eu enxergamos vários arranhões nos focinhos dos dingos, que nem conseguiam se manter de pé, definitivamente confusos e assustados.
Com um guincho final do pequeno lobo, os dingos bateram em retirada, sumindo novamente dentro da savana.
Tāwhai me encarou, sem conseguir acreditar. Por que aquele lobinho nos salvara?
Aproximei-me do filhote, com o coração aos saltos.
Ele virou-se para mim, fazendo-me enrijecer onde estava.
Apesar de ter feito um belo estrago nos dingos, o pobre lobinho não saíra ileso. Havia um arranhão bem feio em sua omoplata direita, e um vergão em seu peito.
Mas não foi isso que me fez congelar.
O que me golpeou com o peso de uma cabana foi reconhecer, com um grito, os dois faróis azul-elétricos, que me encararam fixamente em meio ás sombras.
– Darel??
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