Nyrel - Uma História de Amor
37 Fúria
Assim que voltamos para o hotel, decidi já organizar os preparativos para levar Rony, Hermione e seus pais de volta para casa.
Tínhamos vindo o caminho todo conversando sobre tudo que havíamos passado, desde que nos conhecemos, até agora. Eu ainda tinha um sorriso no rosto, fruto da animação contagiosa de Hermione, que não parara de tagarelar desde que deixara o consultório.
Estava verdadeiramente feliz por ela. Tinha no peito aquela satisfação gostosa de dever cumprido, misturada á felicidade de ter conseguido cumprir com nosso acordo.
— Vou subir daqui à uma meia hora, tá? – comentei, na fila da recepção, enquanto Rony e Hermione subiam escada acima.
— Beleza – Rony sorriu, assentindo, e seguindo Hermione em direção ás suítes.
Quando chegou minha vez, sorri para a recepcionista.
— Queria registrar a devolução das chaves dos quartos 211 e 212 para amanhã. Acredito que tem que avisar a gerência...
— Sim, correto – ela me lançou uma piscadela, sorridente,a notando a numeração das chaves em sua planilha. Porém, franziu o cenho ao olhar para outra tabela – estranho. Alguém pediu a chave do 212 há pouco tempo. Não faz nem uma hora. Não liberamos por causa da política de privacidade, mas...
Ergui a sobrancelha. Será que os Granger já haviam chegado antes de nós?
— Devem ter sido os pais da minha colega, suponho.
— Sua amiga? – a recepcionista balançou a cabeça, distraída – a mulher estava sozinha. Bonita, bem jovem. Não deve ser a mãe dela.
Arfei, chocado.
Alguém viera até o hotel e pedira a chave do quarto de Rony e Hermione. E não fora a Sra. Granger.
Não. Não devia haver mais ninguém interessado em nossa localização. Não podia ser coincidência.
E não poderia ser ninguém com boas intenções. Beatriz e Russel teriam me ligado.
— Essa pessoa foi embora?
A recepcionista parou de digitar, e me olhou de esguelha, parecendo nervosa.
— Sim, saiu do hotel – sussurrou, ansiosa – mas, se eu fosse você, ficava de olho. Estava agindo bem estranho. E não pareceu feliz quando negamos a chave. Pareceu-me aquelas pessoas que não sabem ouvir um não. Não gostei nadinha do jeito que ela nos olhou, sabe. Foi como se... – a moça estremeceu – fosse rogar uma praga contra a gente ou coisa parecida.
Meus olhos se arregalaram, em pânico.
— Ela disse o nome dela? Como se parecia?
— Não, não deu nome algum, exceto o da Srta. Granger... o nome que está no quarto da chave que ela queria. Magra, cabelos negros, ficava cobrindo o braço o tempo todo com a manga de uma capa. Francamente, capa, neste calor. Muito estranho. Estou lhe dizendo, senhor, a mulher me deu arrepios. Escondia alguma coisa no cós da calça – a recepcionista pareceu se arrepender em falar demais sobre os visitantes – é tudo que sei.
Meu coração saltou, abalado.
Só havia um tipo de pessoa, bruxa ou não, que usaria capas em qualquer lugar do mundo. Só havia um tipo de bruxo que evitava mostrar o braço em público, onde esconderia algo que, do contrário, causaria pânico geral.
E, decididamente, só havia um tipo de gente que viria atrás de Rony e Hermione.
Um Comensal da Morte. Um bruxo das Trevas.
Menos de uma hora atrás...
E que definitivamente ainda estava lá.
E, se estivesse lá...
Não.
Não, não, não...
— NYREE! – exclamei, desesperado, correndo desenfreadamente escadaria acima, deixando a recepcionista perplexa.
A energia que fluiu por meu corpo foi tamanha, e o desespero em mim foi tão avassalador, que não me importei com o fato de vir a me transformar em meio á uma multidão de nonmīharos que pudessem me aparecer no caminho.
No entanto, a escadaria e o corredor estavam vazios, e, sem observadores, pude disparar, galopante, em direção ao quarto de Hermione.
A porta cedeu sobre meu peso como se fosse nada, escancarando-se contra a parede com um estrondo.
Sentia meu pelos eriçados, e meu focinho retraído num rosnado bestial.
Meus olhos, agitados, percorreram o quarto, focalizando Rony, encolhido no batente do banheiro. Hermione, trêmula e ofegante, mal conseguindo sustentar a varinha.
E, finalmente, a Comensal da Morte, que se virou em minha direção.
Não lhe dei tempo de reagir.
Lançando-me contra ela, plantei meu focinho em seu pescoço, impedindo-a de sustentar a varinha, que caiu no chão com um estrépido.
A preocupação, a angústia e a fúria se misturaram em minha mente, turvando meus pensamentos. Naquele momento, durante meu ataque, sentindo o sangue molhar minhas patas e fluir por meus dentes, eu nunca me sentira mais selvagem e irracional.
Minhas mandíbulas se fecharam contra o rosto da mulher, acolhendo seu crânio em minha boca.
Não consegui sentir nada, quando meu focinho se fechou, fazendo o líquido quente espirrar, e o som de ossos quebrando coalhar minha audição.
Reabri a boca, estremecendo, soltando o corpo morto contra o chão.
Gani, encarando meu pelo sujo de sangue, minha cabeça latejando, quando retomei minha mente outra vez.
— Hermione! Hermione! – ouvi Rony exclamar.
Olhei Rony vir em direção á Hermione, segurando sua mão.
Mas Hermione se voltou para mim, olhando-me com uma mistura avassaladora de compaixão e gratidão.
Ainda tremulando, senti meu coração desacelerar, quando ela abraçou meu pescoço, ajoelhada diante de mim.
— Obrigada, Darel. Obrigada.
Estava fraquejando, com os olhos brilhando, como se quisesse chorar.
Fosse lá o que aquela bruxa detestável tivesse feito com ela, tinha sido definitivamente doloroso. Céus, pobre, garota.
Recostei o focinho em sua nuca, suspirando, tentando limpar o sangue em meu focinho com a língua. Devia estar parecendo um completo monstro.
Foi quando percebi o que Rony havia inclinado na cama segundos antes.
E meu coração parou, quando vi o rosto moreno caído contra o travesseiro.
Desvencilhei-me de Hermione, indo até a cama, sentindo meus olhos lacrimejarem.
Não, não... Nyree não.
Recostei-me contra o colchão, encarando a palidez anormal de sua pele. Pateei sua mão, uivando de angústia, e me desesperei ainda mais ao ver o corte profundo, já curado, em sua barriga.
Nyree...
Gani, sentindo vontade de chorar.
Hermione veio até nós, tomando o pulso de Nyree.
Meu estômago se embrulhou de desespero. O que aquele monstro fizera com minha garota?
Vi Hermione me encarar, arfante.
— Precisamos levá-la ao médico. Acho que vai sobreviver...
Meu coração pareceu ficar mais leve. Assenti, aliviado, embora as lágrimas ainda fugissem de meus olhos.
Voltei lentamente á forma normal, vendo Rony suspirar pesadamente. Limpei o sangue que ainda havia em mim, tentando me desvencilhar do que quer que fosse do cadáver atrás de nós.
— Eu posso aparatar com ela até o hospital do centro. Com certeza vão atendê-la logo...
— Não – murmurei, rouco, tentando esconder o tom de choro — muito arriscado, ela pode estrunchar por estar inconsciente. Eu a levo. O Hilux está lá embaixo.
Rony e Hermione concordaram. Pareciam tão abalados quanto eu.
Voltei a me aproximar de Nyree, afagando suas bochechas. O nó em minha garganta ameaçava me matar de sofrimento.
Puxei-a para meu colo, sentindo seu corpo, lívido e frio, contra meus braços, enquanto descia correndo as escadas do hotel.
E ali, naquele momento, só pude implorar á qualquer força universal, se ela existia, para que não tirasse minha pequena Mōkī de mim.
Por que, se eu a perdesse, perderia minha vida.
— Ka waiho koe pai, toku aroha— sussurrei em maori, soluçante — noho ki ahau. Whakarerea noatia i ahau.
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