Fui rodeado por dois vigias em horário de almoço, assim que estacionei em frente ao Hospital Royal Darwin, no centro da cidade costeira.

Eles correram em minha direção, ajudando-me a amparar o corpo inerte de Nyree.

— Minha nossa! – ele gesticulou para um paramédico na ambulância mais próxima, indicando as macas com rodas – o que houve com ela?

— Hemorragia – falei, engasgado de preocupação e angústia.

Naturalmente, não contaria a verdade á nenhum dos nonmīharos ali. Dei á recepcionista a desculpa de que fora uma hemorragia interna, já que, graças ao corte curado, não poderia alegar sangramentos. O desmaio, á um corte supostamente feito com uma faca, o qual se encontrava na mão direita. Os médicos jamais saberiam explicar algo assim.

Os enfermeiros acamaram Nyree na maca, levando-a velozmente até a emergência.

Quando ela desapareceu dentro do corredor, além das portas de borracha, meu ar pareceu se esvair completamente.

Meus joelhos cederam, derrubando-me contra as cadeiras do corredor de espera.

As cenas ainda dançavam diante de mim, fazendo meus olhos lacrimejarem e meu estômago revirar.

Mal conseguia acreditar. Tudo estava tão bem...

E, agora, a perspectiva de Nyree ferida, definhando diante de mim... era terrível demais para suportar.

Sabia que, provavelmente, corajosa e altruísta como era, Nyree devia ter tentado lutar contra a mulher. Também tinha certeza de que estava atrás dos meus amigos.

Mas por que ela? Por que motivo?

Lembrei da expressão espantada de Rony e Hermione, quando adentrei no quarto.

Até onde percebi, a Comensal da Morte que os atacara aparentava ter dito algo que os chocou. O que seria?

Passou-se um tempo, que pareceu um século, até que o medico recostou-se ás portas, me encarando.

— Sr. Williams?

Ergui-me, ansioso.

— Sou eu – ofeguei.

Ele não aparentou estranhar a falta de sobrenome na ficha de Nyree. Sabia que muitos maoris que visitavam as cidades só tinham o primeiro nome.

— Examinei a Srta. Nyree – ele suspirou. Para minha surpresa, deu um sorriso cansado – ela vai sobreviver.

Uma risada histérica cortou minha garganta.

— Sério? – arquejei, aliviado.

— Sim – ele assentiu, simpático – não há seqüelas, exceto... uma estranha cicatriz... – ele sacudiu a cabeça, distraído – vou só terminar os procedimentos, e então poderá vê-la.

Estava engasgado demais de felicidade, até mesmo para agradecer.

Mas o médico compreendeu meu ataque catatônico, pois apenas meneou a cabeça e voltou a entrar, fechando a porta atrás de si.

Sentei de volta no banco, esfregando o rosto, sentindo meu coração ficar surpreendentemente mais leve.

Nyree ia sobreviver. Ficaria bem.

Senti vontade de chorar de alegria.

Baixando a cabeça, não vi duas pessoas entrarem no corredor de espera, com passos largos, correndo em minha direção.

Levantei-me imediatamente, acolhendo Rony e Hermione, surpresos, num abraço de alívio.

Hermione ainda parecia muito abatida, mas, para todos os efeitos, estava bem melhor do que a deixara no hotel. Rony também estava com melhor aparência, agarrado á Hermione como se temesse que ela evaporasse de seus braços.

— O doutor está examinando Nyree – falei apressadamente — disse que vai ficar bem.

Vi Hermione arquejar.

— Graças a Deus – suspirou fundo, fechando os olhos.

Vi seu corpo relaxar, e Rony me olhar, suspirante. Enxergar a real preocupação em seus olhos foi o que bastou, para que meu respeito e amizade por aquelas duas pessoinhas fantásticas dobrassem de tamanho dentro de mim.

A porta do quarto ao lado se abriu, nos fazendo interromper nosso reencontro. Era o médico que havia acabado de falar comigo, minutos antes.

— Sr. Williams... gostaria de vê-la?

— Sim... – encarei Rony e Hermione, tenso — eles podem entrar também?

Ele avaliou os dois por um momento, mas não disse nada. Apenas concordou com a cabeça, abrindo espaço para que entrássemos no quarto de repouso.

Assim que adentramos no cômodo, enxergamos três macas hospitalares, dispostas uma ao lado da outra. As duas do canto encontravam-se vazias.

Na do meio, estava Nyree.

Parecia bem melhor, serenamente adormecida no colchão. Um frasco de sangue gotejava de um apoio, percorrendo todo um caminho, até o acesso delicado em seu braço.

Vê-la assim, tão vulnerável, quase me fez chorar outra vez.

— Qual foi a desculpa que você deu? – Hermione sussurrou, enquanto íamos em direção ao leito em que Nyree se encontrava.

— Até onde o sistema de registro sabe, ela se cortou com uma faca – guinchei, angustiado, esfregando as têmporas — meu Deus...

Ouvi, perplexo, Hermione soltar um soluço alto. Virei-me em sua direção, assustado.

— Darel, eu sinto muito... – choramingou — é culpa minha... eu...

Ofeguei, indignado. Eu que tinha feito a maior burrada do mundo, e aquela garota estava se responsabilizando por aquilo?

Ergui a mão para ela, impedindo-a de continuar. Balancei a cabeça firmemente, sério.

— Não, não foi culpa sua, Granger. Eu deixei Nyree nos acompanhar também... eu a deixei sozinha no hotel. Se você é culpada, tenho tanta culpa quanto você.

Hermione enrijeceu. Não pelo que eu havia dito, mas pelo som baixo e engasgado que emanou da maca. Viramo-nos na direção do leito, encarando, pasmos, Nyree se remexer nas cobertas, resmungando.

Ela piscou os olhos fracamente, até abri-los, fazendo uma careta de confusão ao me encarar.

A tranqüilidade finalmente me dominou, quando a vi murmurar, finalmente lúcida.

— Darel... – a voz dela era um pio de canário — o que... aconteceu...?

Estremeci com a indagação. Relembrar o ocorrido voltou a me dar náuseas.

— Nem pergunte.

Ela franziu o cenho, e, para meu choque, deu uma risadinha. Um sorriso de má vontade brotou em meu rosto.

O movimento, porém, a fez tremer, gesticulando o braço livre na direção da cicatriz em seu ventre.

— Não sabia... – brincou, embora seu rosto se contraísse de dor — que cortar a barriga... doía tanto...

Aproximei-me dela, beijando sua testa e afagando seu rosto. Senti-la realmente viva e consciente era uma felicidade que parecia massacrar cada célula de meu corpo. Mas não ia fraquejar de alívio logo agora, quando eles precisavam de alguém com a cabeça no lugar. Teria tempo para conversarmos a sós depois.

— Decididamente eu ando só tento raiva desses caras que querem nos matar – Rony esbravejou, bufando.

Nyree titubeou, parecendo mais calma.

— Parece que o motivo daquela lá foi pessoal – ela guinchou — quem ela queria matar de verdade?

— Eu – suspirou Hermione, entreolhando-se com Rony.

Nyree deu outro gracejo. Estava começando a me perguntar o que raios haviam colocado naquela bolsa de sangue, para fazer a garota rir tanto.

Ou... Nyree estava tão aliviada quanto eu, vendo todos nós sãos e salvos?

Pensei que, provavelmente, era a segunda opção.

— O que você fez pra ela? Matou a mãe?

Rony a fitou, o queixo travado num esgar de indecisão. Finalmente, engasgado, assentiu.

— Exatamente.

O rosto de Nyree murchou. Pareceu se arrepender da brincadeira, pois se encolheu nos lençóis, como se não soubesse onde enfiar a cara.

Hermione, em seguida, explicou a Nyree tudo o que ocorrera desde algum tempo atrás.

Contou-nos sobre a vampirização que houve em Hogwarts, um dia após a batalha que houvera lá. Muitos sobreviventes haviam caído doentes, tendo todo o sangue de seus corpos drenados magicamente pela doença. Os infectados se tornavam bestiais, com instintos que os açulavam contra outras pessoas para suprir o sangue que faltava em seus corpos.

Dentre eles, Hermione também fora contaminada.

Mas, ao contrário do que haviam pensado, ela preservou todas as suas capacidades mentais, o que minimizou o sofrimento da semana em que a doença se manifestou. Isso ajudou outros vampirizados, que aparentaram se orientar por suas ações e atitudes. Foi decisivo para o rebate de Comensais da Morte que surgiu ao fim daquela semana, onde os vampirizados se confrontaram com os agressores, dizimando-os.

Entre os bruxos das Trevas, havia uma, chamada Alecto Carrow, a mãe da mulher que havia invadido o hotel atrás deles.

E, como ela, Alecto, havia assassinado o irmão de Rony, e a própria Hermione dera cabo dela.

Já no meio de sua explicação, as coisas começaram a se juntar. Kristina, nossa agressora, havia vindo atrás deles, até a Austrália, em busca de vingança.

Mas Rony também nos contou sobre o que ocorrera no quarto, antes que eu surgisse.

Kristina havia lhes dito que nos seguira durante o tempo todo.

O ataque do bunyip em Melbourne, a infecção de Rony pela Maldição de Ondine, e, agora, seu ataque orquestrado... havia estado por trás de tudo aquilo. Havia nos encalçado pelo deserto, só mantendo-se longe durante nossa estadia em Tokonga.

E eu me perguntava como não percebera nada daquilo.

— Tem mais outra coisa... – ele murmurou, fazendo os olhos de Hermione saltarem – ela falou sobre... uma profecia. Uma profecia sobre Hermione.

— Uma profecia? – Nyree ofegou.

Rony estapeou o próprio rosto, o que nos desviou do silêncio tenso e nos fez rir.

Hermione quase foi parar no teto quando a enfermeira adentrou no quarto, com cara de poucos amigos.

— O horário de visita acabou – o que soou mais como um “caiam fora, arruaceiros.”

— Está bem – desdenhei, revirando os olhos. Antes que ela pudesse me impedir, orem, inclinei-me contra Nyree, chapando-lhe um beijo na boca.

Ela corou, risonha, o exato oposto da cara de peixe morto da enfermeira. Rony e Hermione deram risadinhas.

— Tchau, amor. Nos vemos mais tarde.

Dei as costas, ainda encarando-a. Nyree me sorriu, balançando a cabeça, os olhos vincados de quem não podia estar mais feliz, mesmo naquela situação.

A porta fechou-se atrás de nós, retirando-a de meu campo de visão. Seu sorriso ainda estava gravado em minha retina. Fazendo-me suspirar de carinho.

— Ela vai ficar bem, cara – Rony socou de leve meu ombro, dando um largo sorriso.

Retribui, assentindo.

No entanto, o incentivo de Rony não foi o suficiente para tirar minha preocupação – e nem meu olhar – da porta que se distanciava cada vez mais.