Nyckop Life
2 O jantar
Notas iniciais
Chegando à calçada da casa de Legrand, seu coração acelerou, o nervosismo tomou conta dela, naquele momento, Meg não era ela mesma, era somente um corpo vazio de alma e repleto de medo. Pensou realmente um bom tanto em voltar para casa, até que ao longe ela viu alguém se aproximando. “Julliane” foi o que pensou, era a mãe dele, nada poderia ser mais perfeito que esse momento, ele não precisaria atravessar a rua, muito menos bater à porta. Só precisava entregar o cartão para ela e ir embora.
Quando Julliane se aproximou, ela começou:
- Sra. Beyond?
-Oi Meg, tudo bem?
-Tudo sim, olha eu vim aqui deixar o cartão do Leg... Legrand, ele esqueceu na minha casa ontem. A senhora poderia entregar para ele?
-Claro que sim, mas porque você mesma não espera aqui e entrega? –falou Julliane com ar sugestivo.
-Ah, agora não tem como, eu já trouxe agora, porque eu estou de saída. Só passei para ele não ficar sem até amanhã — menti.
-Sim, claro, então tudo bem — Julliane acabara de se transformar na desconfiança em pessoa.
Enquanto ela entregava o cartão para a senhora Beyond, Legrand estava a um quarteirão de chegar em casa, então, por algum motivo que ela mesma não entendeu realmente, Meglinay ouviu um trovão e olhou para o relógio, era como se o trovão sem raios, nuvens ou chuva estivesse dando a ela um aviso. O relógio apontava que já eram 13h50min, horário que Legrand costumava chegar da faculdade. O alívio que a acometera minutos antes por não precisar bater à porta do garoto se esvaiu, voltou correndo para o lugar de onde viera. Ela olhou para a esquina da rua, esperando vê-lo já se preparando para sair correndo, mas não o viu, um resquício de alívio que sobrara a trouxe de volta para a realidade. Sem muita explicação se despediu de Julliane e foi para sua casa.
Chegando lá, trancou tudo que tivesse uma chave ou um cadeado e foi dormir, estava cansada demais para lembrar que tinha dito à mãe do namorado que ia sair.
Ela mal pregou os olhos e começou a sonhar, bem, não sonhar exatamente, a sentença mais justa seria que Meglinay começou as ter um pesadelo.
No tal pesadelo, ela estava em uma sala cinzenta, grande e alta, mas não grande como um grande quarto, grande como uma casa de cinco cômodos pode ser.
Nessa sala, havia um copo localizado exatamente no centro, Meg não tinha certeza de como sabia disso, mas ela sabia. Ao redor desse copo, específico para se tomar vinho, havia exatamente nove gotas de vinho tinto, ela começou a andar na direção do copo para ver mais de perto, mas não conseguia se mexer, tentou correr e então seus pés foram presos junto ao chão.
Então as gotas começaram a ficarem maiores, ganhar volume, começaram a adquirir forma humana. Parecia-se com as fotos daquele livro velho com pouco mais de vinte anos. Aquele livro marrom e empoeirado trazia fotos do que ela viu e deu uma risadinha, eles pareciam algo tão ridículo e surreal que não mereciam sua atenção, ela achou que era inútil ler sobre os tais.
Aqueles homens e mulheres de pele acinzentada e olhos amarelos de gato, começavam a se levantar, olhando para a garota, começando a exibir um sorriso macabro com dentes vermelho-escuro, indicando que estavam com fome.
Ela tentou gritar, mas sem sucesso, começou a se debater, mas simplesmente não saía do lugar, não se movia de maneira nenhuma, não importa como tentasse.
Meglinay acordou aos berros e percebeu que alguém batia na porta do seu quarto e a chamava.
Era Alexandro, garoto alto, caucasiano, olhos cinzentos, cabelos negros e corpo atlético. Usava uma camiseta em gola V, calça jeans preta e tênis allstar que um dia deve ter sido branco.
Ele era o melhor amigo da garota desde a terceira série, e por tanta convivência, acabou aderindo ao estilo de roupa favorito da amiga, embora ele gostasse mesmo de uma simples sandália, uma camiseta branca e uma bermuda jeans bege clara.
Quando ela abriu a porta ele já foi entrando e perguntando:
–O que aconteceu com você cria de Deus?
–Oi pra você também Alex.
–Oi Meg, o que aconteceu?
–Por quê?
–Porque eu não te vi na faculdade hoje. Você me deixou sozinho com um bando de nerds na aula da Professora Fletcher. Quero saber o que aconteceu senhorita!
–Eu meio que estava com o humor ótimo...
–E? Só isso? Você estava com um ótimo humor e resolveu que ia me deixar sozinho com a turma mais chata do universo?
–Como se você não fosse caidinho pela professora!
–Se ela não tivesse aquela cicatriz horrível, eu até seria... Mas não muda de assunto.
–Bom, eu estava de ótimo humor e fui pra faculdade, mas cheguei antes do horário de entrar na sala, então, fui para o refeitório e comecei a ler um pouco. O Leg chegou uns vinte minutos depois disso, de mau humor, eu tentei animá-lo, mas tudo que eu consegui foi que ele brigasse comigo e me chamasse de retarda.
–Claro! Tinha que ser o Leg. Porque você ainda o namora? Ele é um idiota! Você está desculpada dos seus atos.
–Ei! Obrigada por me desculpar, mas ele não é um idiota.
–Olha qualquer um que namora garotas inteligentes e legais como você, e a chama de retardada, é um idiota.
Meglinay sorriu.
–Viu Meg? Seu eu fosse seu namorado, faria de tudo pra você viver sorrindo, não iria nunca te magoar assim. Ele não sabe a sorte que tem, por isso desperdiça assim.
Agora Meg corou, sabia que o amigo era bom com as palavras, que ele era um conquistador, do tipo perigoso, que conquistaria até a irmã se pudesse, mas sempre que ele falava isso, ela estava despreparada. Isso era algo que ele conseguia fazer constantemente, por isso, quando ele a surpreendia, ela se irritava.
–A-l-e-x-a-n-d-r-o!
–Que foi? –replicou rindo, sabendo exatamente o que fizera.
–Você sabe, depois de tantos anos, eu não preciso mais falar pra que você entenda...
–O. K. Desculpa, você não é uma das garotas que me dá mole, eu não posso falar assim com você e “blá blá blá”, desculpe, mas eu não consigo evitar, é da minha natureza, você já viu meu pai?
–Aham, natureza bem estranha a sua. –O garoto a distraíra, e ela já não lembrava mais do pesadelo.
–Mudando de assunto, o que estava acontecendo aqui antes de você me atender?
–Como assim? –falou Meg deixando o sorriso escapar de seu rosto.
–Bom você estava gritando.
–Eu tive um pesadelo, mas deixa pra lá.
–Como assim “deixa pra lá”, você está bem?
–Na verdade não, mas eu acho que não vai melhorar se eu te contar.
–Tente, afinal, eu sou bom com palavras.
Ela contou o sonho e quando terminou, Alexandro estava chocado. Ele realmente era bom com as palavras e já sabia o que falar para a amiga, mas o sonho também o assustou, então teria que falar algo perfeito, para fazer até mesmo ele acreditar.
–Meg, você não tem com o que se preocupar, isso não existe, fique tranquila, essas criaturas com que você sonhou são sua imaginação perfeita trabalhando, eles só te impressionaram, nada mais, não foi nada, vem cá, eu protejo você também se você quiser.
Ele estava satisfeito, conseguiu convencer não só a Meglinay, mas também a ele próprio. Sentou-se na cama e abraçou Meglinay, mas não como um amigo, como um protetor, que a esconde do mundo quando ela mais precisa, e então, um problema que ele jamais pensou que teria o atingiu.
Meglinay nunca havia abraçado o amigo daquela maneira e por tanto tempo, na verdade, ela nunca abraçou garoto nenhum garoto por mais de cinco minutos, estar aproximadamente por meia hora abraçada com Alex parecia muita intimidade, mas isso a reconfortou. Ela se sentia muito melhor, não estava mais com medo e estava abraçada com a única pessoa que a entendia nesse momento, mas ela só conseguia pensar que essa pessoa tinha que ser Legrand, não Alexandro.
Ela olhou para ele depois de um tempo e percebeu que ele estava dormindo, abriu um sorriso, mesmo sabendo que o amigo não veria, não foi por querer, mas ela achava que ele sempre ficava mais bonito e menos elétrico quando dormia até mesmo mais ingênuo, ela colocou os pés em cima da cama, não ousando nem acordá-lo, nem soltá-lo, e dormiu também.
Pareceu mágico o modo como ela dormiu bem, não teve nenhum pesadelo, nada a incomodou, há muitos anos ela não dormia tão bem como dormiu naquela tarde. Ela acordou e Alex balançava o ombro dela, para acordá-la, mesmo ainda estando um pouco sonolento.
-Quanto tempo nós dormimos?
-Mais ou menos três horas. –disse Alexandro olhando para o relógio.
-Então agora são?
-São 18h40min.
Meglinay deu um salto dos braços de Alexandro e também da cama, e então percebeu o quanto estava frio. Desejou tanto poder voltar pra cama, mas estava apressada e não podia ficar parada, da última vez que falara com Beatriz-garota de estatura média, cabelos longos cor de mel caindo sobre as costas, óculos com armação vermelha e lentes retangulares cobrindo o olho castanho – escuro-, haviam combinado de sair para jantar no último dia daquela semana (sexta-feira), que seria hoje, as 19h00min, pegou um grande casaco, mas ainda assim sentia fio. Ia saindo de casa, tamanha pressa que a fez esquecer o amigo em sua cama.
-Ei, aonde você vai? –perguntou Alex por fim.
-Ah, desculpe-me. Combinei com a Bia de jantar hoje com ela.
-E aonde vocês jantarão?
-Num restaurante perto da faculdade, não me lembro do nome, mas dizem que servem boa comida lá.
-Quer que eu te leve, estou com meu carro aí na sua garagem.
-Tudo bem, eu não tenho carona mesmo.
Eles foram até o estacionamento do restaurante e chegando lá, ele a parou cinco minutos antes do horário combinado.
-O que foi? Eu preciso ir, ela já deve estar me esperando.
-Vou ser rápido, só queria te dizer um coisa.
-Fala.
-Foi... Er... Foi legal passar a tarde com você.
Meg corou novamente, mas dessa vez não conseguiu ficar brava.
-Obrigada, foi legal dormir com você também.
Agora foi a vez de Alexandro enrubescer. Ele tinha sido pego no próprio jogo, olhou para o outro lado para disfarçar as bochechas em chamas. Ela virou seu rosto novamente, deu-lhe um beijo na bochecha e saiu do carro.
Foi até o restaurante e encontrou Beatriz na porta. Elas se cumprimentaram sentaram em uma mesa, e o garçom as atendeu quase imediatamente.
-Qual será o pedido das senhoritas?
-Eu gostaria de pedir lagosta, e um copo de cerveja vilã. –falou Meg, olhando para o cardápio.
Beatriz se encostou perto da amiga, e olhando pra trás, sussurrou:
-Eu vou querer o nome e o telefone dele, será que tem isso no cardápio?
-Não tem no cardápio, mas meu nome é Diego, Diego Pettit, telefone só na saída. –falou o garçom, se divertindo com a cena de Beatriz se encolhendo e corando.
-Sendo assim, acho que vou querer a mesma coisa que ela. –disse Beatriz por fim, mostrando-se tímida como sempre.
O garçom sorriu pra ela e saiu. Meglinay aproveitou a ausência do rapaz para dar uma gostosa e longa gargalhada.
-Para de rir!
-Desculpe, não consegui ficar sem rir, e então, conseguiu sua história embaraçosa do dia? –debochou Meg entre risos.
-Não. Para com isso!
-Vê se espera mais antes de falar alguma coisa da próxima vez então.
-Claro, mudando de assunto, porque o Leg estava com o carro do Alex?
-Ele não está com o carro do Alex. Por quê?
-Porque eu te vi saindo do carro dele, e porque sua roupa está amassada.
-Não era ele não.
-Quem poderia ser? O Alex, o dono do carro. Ele foi lá à minha casa, me acordou e a gente ficou conversando, aí depois de um tempo, ele me falou que era 18h40min, me ofereceu uma carona até aqui e eu aceitei.
-Muita pouca informação, me conte os detalhes, eu trabalho com detalhes, detalhes, e só. Conta-me.
-Contar o que? Eu já não acabei de contar? Que detalhes você quer?
-Qual é? Está na cara que vocês se beijaram. Ande, conte-me tudo e não me esconda nada.
-Eu não o beijei!
-Não é o que me diz a sua roupa, nem seu rosto, nem o “jeitinho” do nosso amigo Alex.
-O que? Eu... Eu não beijei o Alex! Bia, ele foi à minha casa saber por que eu não tinha ido pra facul, e nós ficamos conversando, só que eu meio que me assustei com uma coisa e ele me acalmou, nisso eu dormi. Quando acordei faltavam vinte minutos para nós aqui, e como eu ia me atrasar se viesse à pé, ele me trouxe de carro. Minha roupa está amassada porque eu dormi, ele é meu melhor amigo desde quase sempre, eu não o vejo desse jeito, e mesmo que visse, eu tenho namorado. Eu não sou esse tipo de garota!
-Desculpe-me então... E o que “meio que te assustou”?
-Eu não quero falar sobre isso, tudo bem?
-Tudo, mas falando nele, onde está o Leg? Ele está bem?
-Eu não sei, deve estar bem...
–Como assim não sabe? Você é namorada dele. Tem que saber onde e como ele está!
–Não tenho que saber onde ele está coisa nenhuma, ele já é grandinho, e, além disso, ele brigou comigo hoje de manhã e... –Meglinay foi interrompida por Diego, trazendo os pedidos.
–Aqui estão. Duas lagostas e duas cervejas Vilã.
–Obrigada. –falaram ambas.
–Mais alguma coisa? –perguntou o garçom, olhando fixamente para Beatriz.
–Sua idade? -perguntou Bia, entendendo a indireta.
–Eu tenho vinte e sete. –falou sorrindo e saiu.
–Menina, o que você tem na cabeça? –perguntou Meg tomando um gole da cerveja.
–Um rapaz de 1.80m, loiro, atlético, de olhos castanhos, chamado Diego, de 27 anos. –respondeu com um pedaço de lagosta na mão.
As amigas riram. Depois conversaram mais um pouco, quando por fim terminaram, chamaram Diego para pedir a conta, ele entregou, saiu e quando voltou novamente, voltou com um guardanapo na mão, que deu a Bia. Sua letra era fina e inclinada.
Diego Pettit
5579-6501
Bia sorriu, mostrou para Meg, e guardou, então, o garçom de olhos castanho falou:
–E o seu?
–O meu o que?
–O seu telefone, também quero o seu. Não é justo só você ficar com o meu.
–Ah, anota aí: 6-5-0-1-5-5-7-9.
–Quantos anos a senhorita têm?
–Tenho 22, senhor! –falou Bia em tom de brincadeira.
–Tá bem, até mais senhorita. –disse ele anotando o telefone em um guardanapo que estava em cima da mesa.
Meg e Bia sorriram e foram em bora. Quando estavam dentro do táxi que chamaram, Meglinay pensou no que a amiga havia falado sobre ela. Será que ela realmente passava a imagem de ser uma menina assim? Uma garota que por causa de uma briguinha, trairia o namorado? “Está na cara que vocês se beijaram.” Simplesmente achou injusta a conclusão que a amiga tivera sobre ela. Mas resolveu não comentar, afinal, ela não tinha feito por mal.
–O que aconteceu entre você e o Legrand?
–Nada, nós brigamos.
–Foi? Que “nada” chato. Me fala, por que vocês brigaram.
–Na verdade, “nós” não brigamos. Ele brigou comigo.
–Certo, e o que aconteceu? Conte, conte.
–Ele chegou à faculdade hoje, e eu estava de muito bom humor. Então ele veio falar comigo, e eu tentei animá-lo, por dois motivos: 1°. Ele estava de muito mau humor e o dia estava lindo. 2°. Hoje nós completamos três anos de namoro. Mas ele além de não se lembrar disso, gritou comigo no refeitório.
–Claro típico do Leg. Desculpe-me Meg, mas com todo o respeito, às vezes ele é um idiota.
–Você é a segunda pessoa que me fala isso hoje.
–Porque é verdade.
–Com certeza não é.
–É sim, e a propósito, quem te disse que ele é um idiota? Além de mim.
– Martins.
–Hum. Vem cá, porque é que chamam o Alexandro de Martins?
–Porque na nossa turma, tem cinco “Alex”, então o chamam pelo sobrenome.
As amigas conversaram até chegaram à casa de Bia. Elas se despediram e o táxi foi para a casa de Meg, deixando-a lá.
Meg entrou e viu os pais, Luan e Vanessa, na sala, eles estacam entretidos conversando, então, Meg resolveu só cumprimenta-los e subir para o quarto. Ainda não acreditava que naquele mesmo dia, mais cedo, havia brigado com o namorado.
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