Nunca te esqueci
6 Roubado
Notas iniciais
A noite é meu período favorito, tantas coisas podem acontece em um piscar de olhos, na curva de cada esquina, no ofuscar das placas de LED de cada bar. Era um momento que todas as pessoas de grupos diversos se misturavam na multidão formando uma única massa, e ali qualquer coisa poderia acontecer: Acidentes, shows, briga de gangues, seres sobrenaturais, lendas urbanas aparecendo bem na frente das câmeras, uma cabeça que virou tudo aquilo de cabeças para baixo...Era assim que Ikebukuro sobrevivia, estaria mentindo se dissesse que não sinto falta de lá. Pelo contrário, desejo todos os dias voltar para lá.
Porém um monstrinho resolveu me visitar.
E lá estávamos, depois de ter saído do hospital, andávamos em uma rua pouco movimentada. Ou melhor, era carregado pelos braços de Shizu-chan e durante todo o caminho ele não disse uma palavra sequer.
Já disse que odeio esse tipo de silêncio inconveniente?
Também não falei nada, era um pouco estranho ser carregado pelo Shizu-chan, e o mais estranho é que ele parece tão neutro com isso, como se estivesse carregando o irmão nos braços e não o ...inimigo. Não consigo mesmo o entender.
Tsc.
— Me coloque no chão, me sinto enjoado. –
Shizuo só continuava andando, como se não estivesse me ouvindo. Estava me ouvindo, só que estava me ignorando.
— Não se faça de surdo, seja um cãozinho obediente e me coloque no chão.
Deu pra ouvir Shizuo estalando a língua e depois de alguns minutos me ignorando e andando ele me colocou no chão, no gramado em uma pequena praça.
Deslizei na grama sentido um grande alívio, respirei fundo e deitei minha cabeça no gramado. Eu não sei se era o efeito da endorfina passando ou foi por ter ficado muito tempo em contato com o Shizu-chan, mas me deixou com um puta enjoou.
Preciso logo chegar em casa, quando o efeito passar vou sentir muitas dores e para piorar fiquei três dias no hospital recebendo água pela veia.
Apertei de leve as pernas. Duas horas pro efeito cessar completamente? Ah..
Shizu-chan se sentou ao meu lado, acendeu um cigarro olhando para o parque escuro. Continuou olhando para frente, sugando a fumaça e a soltando lentamente no ar.
Ficamos assim por alguns minutos, não era tão ruim estar com o Shizu-chan, deve ser porque ele estava calado... ou eu estava cansado demais para irritá-lo. Ainda não sei...
Finalmente Shizu-chan interrompeu o silêncio.
— Então você pode andar... Você esteve fingindo durante esse tempo todo?! – Shizuo me lançou um olhar incrédulo, suspirou, relaxando os ombros – Eu devia saber, isso é bem a sua cara.
— É, você tem razão, isso é bem a minha cara, mas ... não estou mentindo sobre não poder andar.
— Por que?
— Por quê? Porque eu não consigo Shizu-chan. Eu perdi pra você, essa é minha punição e o seu prêmio foi ter o que mais queria, que eu fosse embora de Ikebukuro. – Abri um leve sorriso para ele – Então, de nada.
— Me conta o que houve! Argh você realmente quer me irritar não é?
Hehe que fofo.
— Depois você sumiu... Realmente tinha achado que tinha morrido depois de tanto tempo.
Não havia o porquê de não contar o que houve. Não iria mudar nada mesmo.
— Bom, depois que sua amiguinha me esfaqueou acabou totalmente com a diversão, estava esperando que fossem em suas mãos que eu iria morrer... Aí houve aquela explosão da Celty e fui jogado pra longe, não me lembro do que houve porque desmaiei, mas havia quebrado as pernas, quando acordei estava no carro saindo de Ikebukuro e com os braços e pernas enfaixados.
Consigo lembrar exatamente de todo o cenário.
— Só fui ao hospital para ser enfaixado e depois recebi a medicação e estou sobrevivendo alegremente. – Pisquei para ele.
— Imagino que tipo de medicamento, se você tivesse o tratamento certo, estaria andando.
— Eu não me importo realmente, mas me diga Shizu-chan por que você se importa tanto com isso? – Me virei em sua direção o encarando com um sorriso divertido.
— Não pense que estou preocupado com você – Ele soltou a fumaça do cigarro pelas narinas.
— Não é o que parece – soltei uma risadinha. Como é estranho estar tendo uma conversa com Shizu-chan, como se fossemos velhos amigos. Talvez ele seja um doppelganger por isso parece diferente. Seria maravilhoso que fosse um doppelganger.
— Shizu-chan, se eu voltar a andar, você me mataria?
— Lógico! Acha que eu faria o que? Te dar um beijo?!
— Você está tão diferente, tem certeza que não fizeram uma lavagem cerebral ou uma abdução por aliens?
— Não! Estou do mesmo jeito que sempre fui.
— Não consigo te entender Shizu-chan, nunca consegui... desde a primeira vez que nos encontramos.
— Daquela vez que você me atacou com um canivete.
— Mas você desviou – sorri me aproximando um pouco dele.
— E depois fez aquele cara me atropelar!
— Foi um acidente Shizu-chan! E você nem morreu haha.
— Devia ter matado você naquele dia mesmo! – Shizu-chan se aproximou de mim, segurando na minha camisa. Podia sentir até sua respiração que cheirava a cigarro.
Era estranho estar assim com ele, nunca senti nenhuma empatia e jamais vou sentir. Alguém que muda sem nenhum motivo. É totalmente irracional.
— Hahaha... – Arh agora as dores estão voltando, preciso do meu remédio.
Fechei meus olhos o apertando para conter as dores, não estavam fortes, mas não gosto de senti-las. Ele deve ter percebido, não tirou os olhos de mim.
— Leve-me para casa, ok.
Andamos por alguns minutos e quando digo andamos, quero dizer o Shizu-chan sendo um bom mordomo me carregando, se bem que ele ta mais para mordomo do inferno.
Finalmente havia chegado no meu apartamento, tudo que precisava agora era de um delicioso banho. Até que encontro na sala meu secretário tarado vindo em minha direção com um sorriso no rosto.
— Espero que você não tropece nessa falsidade enorme que está na sua cara Yarichin – Sorrio.
— Além de paralítico, você deveria ter ficado mudo chefinho!
Depois de ter alfinetado meu querido secretário, Shizu-chan me deixou na cadeira e foi em direção ao ruivo com um leve sorriso no rosto, e eles estavam muito próximos, até que Yarichin o puxou pelo colete e o beijou.
Ele beijou o Shizu-chan!
Eu já esperava isso do projeto de ninfomaníaco, mas o Shizu-chan? Hahaha que novidade horrível.
— É desse jeito que você demonstra preocupação Yarichin? Indo pra cama com o meu rival? – Fiz um beicinho para irritá-lo.
O que funcionou, os dois olharam feio para mim.
— Vai á merda – Shizu-chan disse sendo levado para cozinha.
Ele podia trepar com qualquer um, mas o Shizu-chan?! Ughr que péssimo gosto. Realmente não entendo essa libido descontrolada.
Fui direto para o banheiro, me preparar para um banho que realmente estava precisando pra tirar toda aquela imundice do hospital, e a água fria é ótima pra relaxar os músculos. Fiquei alguns minutos na banheira, acho que até meia hora, me vesti e fui direto para minha amada cama, praticamente me joguei nela. Me sentia um pouco enjoado por causa da medicação e não estava com nenhuma vontade de comer.
Fechei meus olhos e ughr! Aqueles dois estão mesmo transando debaixo do meu teto?
Que grosseiro. Agora sim perdi totalmente o apetite.
Então Shizu-chan é gay, faz sentido. Tenho que pensar em algo pra tirar vantagem disso pelo menos, acha que pode transar com meu secretário sem eu receber nada em troca? Mas eu penso nisso depois... ughr Minha perna está doendo cada vez mais.
Abro minha gaveta que é onde sempre guardo meus remédios, ficam mais fáceis de pegá-los, mas não havia nenhum, só um genérico para dor.
— Aquele filho da puta... – ri debochado.
O jeito era tomar aquilo mesmo, tomei uns 3 comprimidos. Peguei meu notebook pra voltar ao trabalho.
Nem sabia exatamente que horas eram. Ou quando apaguei novamente.
Só lembro de está em um lugar escuro, molhado e bem mal cheiroso... ouvia ... rosnados... espera um pouco!
Ah, só pode ser brincadeira! Não acredito que essas bestas estão aqui! Tentei me afastar, mas seus dentes pontudos chegavam mais perto. Meu corpo havia congelado, meus braços não se moviam, muito menos minha cabeça.
Chegavam mais perto, eram centenas, babando e baforando na minha cara. Eu ia ser morto.
Os cachorros iam me devorar!
Fale com o autor