Nunca te esqueci
5 O clichê de saltar de uma janela no sexto andar
Notas iniciais
Sabe aquela sensação de estar acordado, mas sem nenhuma força de vontade de abrir os olhos e levantar-se da cama, um sono misturado com a preguiça mais pesada que já existiu. Me sentia como se tivessem jogado uma rocha enorme por cima de mim, me impedido de mover meus braços.
Fui abrindo meu olhos, estava cansado e ainda sonolento, parecia que meus olhos estavam grudados já que eles se recusavam á abrir. Quando tive a vitória na batalha entre minha vontade e meu corpo, de imediato me deparei com uma luz branca extremamente forte, ela preenchia e cegava todo o espaço.
Então o céu existe, pois onde estão os anjos tocando harpas e clarinetes?
Pisquei algumas vezes, e o lugar estava ganhando forma, antes era um clarão embaçado e agora se tornava cada vez mais nítido. Estava em um quarto de paredes e teto branco, que obviamente não era o meu.
Movi uma das mãos e quase que de imediato um bipe começou a tocar.
— Já era hora de acordar. – Era uma vez bem conhecida e que eu menos gostava.
Olhei um pouco mais ao meu redor e percebi que estava em um quarto de hospital, sendo medicado contra a minha vontade já que estava recebendo soro pela veia. E essa voz, é a voz que mais odeio.
Fechei meus olhos novamente pedido que fosse só mais um sonho idiota, mas quando me virei e abri, lá estava ele, com uma cara irritante de sempre.
— Por que você simplesmente não morre Shizu-chan?
— Você que quase morreu, tava até pulando de alegria.
— Então por que está aqui? Virou minha babá da morte da agora, certificando se eu vou ou não morrer? Parece que hoje é seu dia de azar Shizu-chan!
Falando em babá, onde o Yarichin está metido? – ou metendo – Ele deveria vir imediatamente cuidar do chefe caso algo assim acontecesse.
— Ah, já que meu assistente não está, você pode dizer como eu vim parar aqui? – Sorri de lado para o Shizuo.
— Você quase morreu por overdose Orihara-san.
Uma segunda voz entrou no quarto, interrompendo um ataque que Shizu-chan já se preparava. Era um homem de jaleco branco, obviamente um médico e uma mulher muito bem vestida.
— Bom dia, sou o doutor Yamada, e essa é a doutora Suoh, psiquiatra do hospital. Com está se sentido Orihara-san?
— Muito bem obrigado, e um tanto confuso na verdade.
Psiquiatra?
O médico começou a ler uma ficha, que deveria ser sobre mim.
— Bom, você ingeriu uma série de remédios para dor de forma excessiva ao longo dos anos, encontramos vários tipos de drogas inibidoras no seu organismo. Fazer mistura desses comprimidos com álcool, ou outro tipo de substância pode ser fatal causando hemorragias internas como um dos resultados. Tiramos todas as substâncias do seu corpo durante esses 4 dias que esteve aqui.
— Certo...
Não poderia ser pior! 4 dias?! Eu tenho trabalho a fazer!
— Eu já me sinto bem melhor, então já posso receber alta.
— Sinto dizer que você vai ter que ficar em observação por uns dias – disse o médico – Vai tomar uma quantidade regulada de anti depressivos.
— Espera, eu não estou depressivo.
Os médicos se entreolharam, como se tivesse armando algo para mim e com um diagnóstico errado.
— Pela sua atual situação – Ele deu uma pausa e olhou para as minhas pernas que estavam cobertas pelo lençol – É provável que tenha sofrido algum trauma psicológico e para inibir isso, acabou tomando remédios por conta própria, virando dependente deles. E por ultimo tomou uma grande quantidade de comprimidos, o que indica uma possível tentativa de suicídio, por isso chamei a doutora Suoh para lhe examinar.
— Geralmente acontecimentos assim vem por conta da depressão. 98% dos meus pacientes depressivos, uma hora ou outra apresentam tendência ao suicídio. – Disse a doutora de forma mansa e bem cuidadosa. – Só estamos prevenindo para que não aconteça o pior.
— Eu não pretendo me matar. Ainda tenho trabalhos para fazer e se eu me cansar de vez dos humanos eu posso até ir ver como é do outro lado da porta do paraíso haha.
Os dois médicos me olharam desconfiados, arh é por isso que psicólogos são tão chatos!
— Só estou brincando.
Sorri de lado para Shizu-chan que estava encostado na parede quieto, ouvindo cada palavra do que os médicos diziam. Ele parecia mais calmo, mais pensativo do que quando ele estava encima de mim tentando me matar, outra vez.
Gostaria de saber no que ele está pensando.
Os dois médicos saíram do quarto, mal notei, só quando a porta foi batida. E para um clima estranho ficamos somente eu e Shizu-chan no quarto. Ele não falava nada, apenas ficava encarando a janela do quarto.
Odeio esse tipo de silêncio. Odeio ele. Ao menos abra a boca pra falar qualquer coisa!
— Você ainda não me disse o que houve quando eu apaguei. Não me lembro do que houve.
Ele saiu do devaneio voltando a olhar para mim. Ele parecia tão pensativo.
— Foi quando estávamos discutindo no seu apartamento, fiquei irritado por que você estava me ignorando e faltava pouco pra te bater novamente, mas aí percebi que você estava pálido, mais do que já é e com os olhos vidrados na parede e não se mexia. Depois de uns segundos você voltou a se mover e quando olhou pra mim pude ver o quão horrível você estava, e no mesmo instante começou a sair sangue do seu nariz e você apagou.
Pude perceber um certo lamento na voz dele, não posso acreditar que Shizu-chan está com esse sentimento de pena.
— E então você me trouxe até aqui, me salvou! – Brinquei.
— ...
— Quando eu estava inválido, você encontrou no meu apartamento, um garoto ruivo com mais ou menos a minha altura e um sorriso carismático?
— O Hirako, sim foi ele que mandou trazer você pra cá. Ele ficou aqui na noite passada quando você ainda estava desacordado.
Então o pervertido do Yarichin já fez amizade com o Shizu-chan, bem que achei que isso poderia acontecer...
Para atrapalhar nossa monótona conversa, o médico não sei o que entrou no quarto, carregando uma pasta com vários papeis. Ele tirou de dentro um exame de raio-x e mostrou para mim.
— Preciso lhe fazer algumas perguntas.
Assenti com a cabeça. Vamos ver o que ele espera descobrir, se ele fez o exames das minhas pernas, então ele sabe que não posso andar há dois anos.
— Me conte como você se acidentou.
Acidente hehe, como se tivesse sido um. Olhei diretamente para Shizuo que foi o responsável por isso. Como se ele tivesse lido minha mente, desviou o olhar voltando a encarar a paisagem.
— Não foi um acidente, foi um acerto de contas com um rival... – Olhei de lado para Shizu-chan, ele estava prestando atenção na conversa e isso era uma ótima hora para alfinetá-lo. – No final ele ganhou, e o resultado disso são as minhas pernas. – Sorri gentilmente para o médico.
Sim, eu escondi fatos, mas isso não é da conta desse médico e não vejo o porquê de contar para ele, não vai acrescentar em nada mesmo. Mas eu não menti, eu perdi pro Shizu-chan, antes mesmo daquela garota ter aparecido eu já tinha perdido. Muito antes.
— Os exames mostram as fraturas e os traumas nos antebraços que forma quebrados e que causaram uma sensibilidade, nos membros inferiores também mas não afetou tanto assim a medula espinhal a ponto de causar uma paraplegia irreversível. De acordo com o relatório de outro médico, você deveria passar por uma série de terapias para recuperar seu estado e impedir que as fraturas se agravassem para uma paraplegia, que foi o que aconteceu.
Depois do médico ter terminado de listar minha ficha médica, Shizu-chan finalmente mostrou uma reação, voltando a encarar o médico.
— Então ele não está paraplégico de verdade?
Shizu-chan me encarou como se eu fosse o pior inseto da terra, me fuzilava com os olhos, ele mudava tão rápido, tão impulsivo. Cachorros são impulsivos.
— Ah, não, ele está paraplégico sim. Mas há dois anos quando ele sofreu o trauma, com um tratamento específico ele poderia voltar a andar em meses, sem um tratamento adequado a situação só piora e se torna mais difícil a recuperação. Ele não pode andar, mas não quer dizer que nunca mais vá andar. Ainda há tempo, posso fazer você andar novamente Izaya-san.
Naquela sala houve um silêncio apreensivo, os dois esperavam me encaravam. O médico ansioso esperando por uma resposta minha e o Shizu-chan esperando uma explicação como se eu tivesse mentido. Eu não menti pra ele.
Esse médico espera que eu diga sim, encha meus olhos de lágrimas e de esperança no sonho de poder voltar a andar e deposite toda a minha confiança nesse médico, ele então vai ser esforçar e me dar todos os tratamentos possíveis pra me curar e quando eu voltar a sentir minhas pernas ele vai se sentir realizado e usar isso para aumenta seu ego e sua fama, manter seu nome de melhor médico e ultrapassar outros nomes mais importantes que o seu. No fim é tudo uma guerra por status.
— Mesmo que isso seja verdade, eu não preciso disso, eu estou muito bem do jeito que estou. Posso até dizer que estou feliz com isso hehe.
O médico levantou uma sobrancelha, não acreditou em uma palavra do que eu disse e isso era óbvio, desde quando médicos aceitam as negações de tratamento de seus pacientes.
— A cura é possível. Acreditamos que a causa seja devido aos traumas psicológicos, e não adianta negar, a quantidade de narcóticos e as dores excessivas dizem isso. O melhor seria permanecer na clinica para tratar primeiro da depressão, desintoxicação e em uma reabilitação-
— A dor excessiva é por causa das minhas pernas doutor, e eu não estou com depressão, como já estou melhor então posso ir embora.
— Você só pode sair com a autorização do seu responsável, e você não está em condições de sair por si próprio.
Maldito Yarichin, e agora com essa psicóloga rondando por aí eles nunca vão me dar alta, e se me derem vou parar em uma ala psiquiatra... em outro momento poderia ser divertido mas não estou nenhum pouco afim disso.
Pelo menos aquele idiota deixou meu notebook aqui, e de pensar que ainda tenho que resolver o caso do idiota coreano. Por que eles simplesmente não atiram um na cara do outro feito animais como antigamente? Ahr..que interessante.
Na minha tela, onde eu rastreava o filho famoso do senhor Kwon apareceu uma pessoa que eu conhecia e que tem a mesma linhagem que o Shizu-chan. Os dois estavam juntos em frente a uma loja de tatuagens.
Já era de noite, a psicóloga veio duas vezes tentar me chantagear com argumentos roubados de Freud, Shizu-chan já tinha ido embora pela manha e nem teve a educação de se despedir de mim. Ao menos não to sentindo dores graças á morfina que colocaram na minha veia e para piorar me obrigam a tomar comprimidas para me ‘’desintoxicar’’, é claro que não vou tomar essas coisas, escondo no canto inferior da boca e depois que a enfermeira confere eu arremesso através da janela, minha mira melhorou muito nessas horas.
Pus os olhos na porta, ouvi passos lentos se aproximando e era só o Shizu-chan.
— Achei que fosse uma visita mais interessante. – Alfinetei.
— Você não vai fazer o tratamento não é?
— Isso não é uma gripe, que tomando algumas vitaminas eu vou ficar curado. E não, não vou fazer isso. – Por que ele se importa com isso agora?
— Mas ele disse que tem uma chance! Vai mesmo jogar isso fora por pura teimosia Izaya?!
Não gosto disso.
— Achei o seu irmão.
Como esperado, Shizu-chan mudou de irritado para surpreso. Mostrei a imagem dele e do filho do senhor Kwon juntos em um lugar pouco movimentado e escuro.
— Se eu estivesse no meu escritório, poderia contatar algumas pessoas e encontrar o seu irmão, sã e salvo. Mas como estou preso aqui não posso ser útil. – Passei os dedos pela tela do notebook o fechando logo em seguida.
— E onde é que ele está?! – Shizu-chan fazia sempre uma cara apreensiva quando o assunto era seu amado irmão.
— Eu não sei – Dei de ombros – Mas sabe, nós podemos descobrir isso, até por que foi nos dado um trabalho, esqueceu?E não temos tanto tempo assim.
Shizuo olhou no corredor e depois abriu a janela olhando o perímetro, abriu um leve sorriso voltando a olhar para mim. Ele deve ta pensando em pular de uma janela no sexto andar? Que nostalgia de fazer isso.
Eu não iria pular com uma roupa brega de hospital, peguei minhas roupas decentes e me vesti, tirei a agulha enfiada na minha pele e coloquei o notebook na bolsa.
— Pronto? – Ele perguntou.
Assenti com a cabeça. Ele se aproximou da cama meio contra a vontade, percebi isso de longe. Ele passou o braço pelas minhas costas e com a outra mão segurou minhas pernas, se aproximou do parapeito dando uma rápida olhada em mim.
Eu sorri maliciosamente para ele que o fez revirar os olhos.
Ele colocou os pés no parapeito, deu um impulso em direção ao prédio na frente.
Sair daquele hospital era uma sensação libertadora. Ninguém nunca vai me prender em lugar algum.
— Reabilitação o caralho!
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