Nunca Mais Sem Você
4 Sete anos depois - Parte 3
Ainda permanecíamos na mesma posição. Eu sentia que a respiração dele estava se alterando. As lágrimas começaram rolar dos meus olhos e a molhar seus cabelos ruivos. Meu rosto corado, antes de prazer, agora de vergonha. Eu chorava muito, desesperado, apavorado só de pensar em qual seria a reação dele depois daquilo. “Por favor, me perdoe, Camus... Não me deixe.” Era só o que eu conseguia pensar. Naquele momento, falar era algo impossível pra mim.
Mas meu medo foi cessado quando percebi que ele também havia me abraçado. “Ele... Me abraçou?” pensei e não acreditava... Quando ele deslizou a mão pelas minhas costas e as acariciou, e depois subiu para os meus cabelos e começou a acarinha-los. Meu coração pulava confuso por aquele tanto de emoções adversas. Ele então encostou a testa na minha cabeça, enquanto me fazia carinho nos cabelos. O abracei mais forte e continuei a chorar ainda mais. Tanto tempo eu esperei por esse dia, esse momento com ele. Camus estava ali comigo, não estava bravo, e ainda me abraçava e acarinhava. Será que ele sentia o mesmo por mim? As lágrimas eram agora de alegria e alívio. Sonho? Nunca ia querer acordar mesmo!
Mas ia sim. Assim que me acalmei e quis encará-lo para dizer o que eu tanto sinto por ele, Camus me soltou e tirou meus braços dele devagar e educadamente, e se levantou (não, não era uma reação que eu esperava). Fiquei ali sentado, olhando no fundo de seus olhos. Foi então que reparei em quanto esboçavam uma tristeza um tanto familiar: a mesma de quando fomos separados há sete anos. Isso acabava comigo. Ele franziu as sobrancelhas, impaciente.
- Pode se levantar? – disse ele em tom firme.
- Camus, por que... – tentei falar.
- Já devíamos estar no Santuário, Milo. – disse, me cortando – Por mais que a batalha aparente ter acabado, não podemos baixar a guarda. Já perdemos muito tempo aqui.
Tudo bem que ele estava certo quanto ao nosso atraso e às batalhas, mas perda de tempo... É assim que me considera, seu filho da p@#$?! Não brinque com os meus sentimentos! Não faça pouco deles! Me levantei mais que rápido. Aquilo me machucou demais, mas a dor foi sendo tomada pela raiva e a decepção.
- PERDEMOS TEMPO?! – gritei de ódio, indignado e continuei a encará-lo. Como pode me tratar assim, seu me#$%?! – Então é assim que você me considera: uma perda de tempo?
- Você entendeu bem o que eu quis dizer, Milo – disse ele, sem alterar o tom de voz – Por favor, (suspiro) não torne as coisas mais difíceis. – virou-se e começou a andar em direção ao Santuário.
- Não vire as costas pra mim, Aquário. – ameacei, com a voz e o cosmo cheios de ódio – Não ouse me tratar como um de seus adversários derrotados.
Ele parou e virou a cabeça, me olhando com o canto dos olhos.
- Você continua ai parado? – disse ele, sério, como se nada tivesse acontecido e eu fosse maluco – Vamos logo.
Mas que po&%* é essa? Acha que vai ficar tudo bem assim? Não, Camus, eu não sou você: um monstro.
- Eu vou, mas não com você. – disse eu, me controlando para não transformá-lo numa peneira viva.
- Então, que seja. – disse ele com ar indiferente, e voltou a seguir seu caminho.
Eu estava com tanto ódio que minha unha escarlate já havia surgido em meu dedo. Comecei a andar na direção oposta. Minha vontade era de tortura-lo como fazia com minhas vítimas, mas nem isso seria o equivalente ao que ele tinha acabado de fazer comigo. Desgraçado. MALDITO! Descarreguei em uma pilastra aleatória, que se desfez em escombros em meio aos muitos que se encontravam nos arredores e percebi que já estava na entrada do Santuário. Andei rapidamente até a Casa de Áries, que estava vazia. Mu, como sempre, em Jamiel, afastado. Touro e Gêmeos também sem proteção. Eu estava achando aquilo ótimo. O primeiro que me perguntasse “Por que essa cara?” tava fu$%#&.
Infelizmente, a Casa de Câncer não estava vazia. Mascara da Morte estava de pé no fim das escadarias e me deu aquele sorriso ridículo, já sentindo o estado caótico do meu cosmo. Não estava fazendo a menor questão de escondê-lo, justamente pra repelir a todos os que pudessem se dirigir a mim.
- E ai, Escorpião? – riu MDM – Que demora, hien? Você e Camus tiveram dificuldades em achar o caminho de volta?
Não fale esse nome, seu po*&%. Não agora. Não estou em condições de ouvi-lo nem de pensar em quem o pertence.
- Mascara da Morte de Câncer, eu não me lembro de lhe dever satisfações. – rosnei.
- Nossa, mas quanto ódio no coração. – debochou – Não se esqueça de que tem que passar pela minha Casa sempre, Milo, inclusive agora.
Contei até dez, dizem que funciona, mas não deu. Me concentrei em pedir a Atena que restaurasse a minha sanidade mental, mas Ela não pôde fazer milagre. Eu não poderia arrebentar a cara dele ali. Tentei ser educado, mesmo que por entre os dentes.
- Mascara da Morte, peço permissão para passar pela Casa de Câncer. – foi difícil, mas eu consegui PEDIR e ainda educadamente. A próxima pilastra que se cuide.
- Muito bem. Permissão concedida. – riu MDM sarcástico e vitorioso.
Passei rapidamente e segui para a Casa de Leão. Graças a Atena estava vazia, assim como a de Virgem. Aturar Aiolia e Shaka ia ser impossível agora. Sorte que estavam quase todos fora ainda! Eu já havia me superado com MDM. A Casa de Libra, como sempre, também vazia e um breu total. Nem acreditei que tinha chegado à minha Casa sem arrumar confusão com alguém no caminho. O próximo passo era tomar um banho pra ver se eu conseguia, ao menos, me acalmar um pouco (só que não). Enquanto me banhava, torcia para que ele (o iceberg bipolar...) tivesse chegado antes de mim e feito o relatório para o Mestre, se não, vou ter que vê-lo daqui a uns minutos, já que tem que passar por aqui.
Mas não passou. Já devia ter chegado há mais tempo, ido ao mestre e declarado nossa vitória e voltado para a Casa de Aquário. Bem, é óbvio que eu deveria estar junto. Saga deve ter perguntado a ele o porquê da minha ausência. O que será que o pinguim disse? Eu ia verificar agora. Saí do banho, me troquei, vesti a armadura e comecei a subir.
P$%¨& que pariu... Acabei de me tocar que vou ter que passar pela décima primeira casa e muito provavelmente dar de cara com aquele idiota francês (tá, ele tem nome, mas não consigo mencioná-lo nem em pensamento).
Sagitário vazia, Capricórnio vazia e... Aquário também? Ué? Mas como assim ele chegou e saiu tão rápido? Ah, vou tentar esquece-lo (um pouco...). Sei que sou capaz, é só ninguém falar...
- Camus não estava com você, Milo? – Affffffff... Desisto. Nem vi que já tinha chegado em Peixes e Afrodite já vinha me questionando.
- Ah... Estava sim, Afrodite. Por quê? – respondi e perguntei, com ar desanimado. Dite já nem estava mais chateado comigo por aquela sacaneada que dei nas rosas dele. Hehehe... Figura, esse peixinho.
- Ah tá. Não... Só pra saber mesmo. É que eu ainda não o vi passar por aqui. – disse ele, olhando pra cima com a mão no queixo, pensando – Pode seguir em frente se quiser.
- Hã?! – ele ainda não tinha chegado? Mas o que... Devo ter feito uma cara de espanto engraçada, porque Dite começou a rir de chorar.
- Como assim, Milo? Perdeu seu personal freezer? Hahahahahaha!! – gargalhava e me zoava.
- Ah, sai fora, Dite! – passei por ele dando um empurrão de leve, levando na brincadeira e rindo. Nunca me senti tão bem em zoar o picolé. Ficava me lembrando da expressão de “saco cheio” dele quando juntava a galera e começava a bombardeá-lo de apelidos infames. Queria mais é que ele se fu#$&¨@ agora.
Sempre o protegi porque o amo, droga. Afinal, não deve ser muito fácil ser um moleque ruivo com poderes de gelo. Ele era quem sempre levava mais apelidos. Sentia que ele se irritava e ficava chateado às vezes. Eu mesmo inventava uns: geladeira ambulante, danoninho, picolé de morango... Se eu for listar todos, vão ser umas 20 linhas. Hehehe... Tá, ele sofre bulling até hoje. Se f%&* ai agora.
Mas também, só eu que podia zoar ele, encher seu saco, puxar seu cabelo, rabiscar seus cadernos... Se alguém se metesse a tentar pentelha-lo, eu logo aparecia pra dar um fora. Sou possessivo, sabem? Me pergunto agora se eu tenho um pouco de culpa de tê-lo isolado do resto do pessoal, digo, dos outros Cavaleiros de Ouro. Mas acho que não... Apesar de seu jeito distante, intelectual e frio, ele sempre chamou atenção para si sem querer e se dava bem conosco. A maioria de nossos companheiros, se não todos, gostavam dele (mas não eram tão próximos quanto eu).
Ainda ouvia as risadas escandalosas de Dite ecoando pela Casa de Peixes quando sai em direção às escadas que levavam à sala do mestre. Achei muito estranho moranguinho ainda não ter chegado. Será que encontrou algum inimigo no caminho? As Rosas Diabólicas Reais de Afrodite haviam sumido por um momento, mas já estavam voltando a surgir no chão da escadaria e me apressei para chegar ao quarto do mestre.
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