Nunca Mais Sem Você

5 Sete anos depois - Parte 4


Saga fazia um papel bem convincente, e enganou a quase todo o Santuário. Lá estava ele sentado no trono, com a cabeça abaixada. Se eu não o conhecesse, diria que estava era dormindo. Mas duvido... Deveria estar sofrendo calado, lutando contra sua personalidade má, que ele acabou deixando que o dominasse. Na minha opinião, foram fraqueza e insegurança unidas à sede de poder que enfraqueceram seu espírito. Me aproximei devagar e me ajoelhei perante ele.

- Milo de Escorpião, o que tem a me relatar sobre sua última batalha? – disse ele antes que eu pudesse pensar direito no que falar.

- Mestre, relato que os deuses protetores de Cronos foram totalmente derrotados por nós. – disse eu, com toda a seriedade que se devia portar diante do mestre.

- Hum. Isso é muito bom. – respondeu ele, erguendo a cabeça. Por mais que ele estivesse de máscara, sabia que estava me encarando – E onde está Camus? Ele era seu companheiro de batalha, não?

- Aqui, mestre.

Não, eu me negava a olhar pra trás. Ah, não... Não queria vê-lo mais hoje, na boa.

- Camus de Aquário, qual o motivo de seu atraso em relação ao Milo? – questionou Saga.

- Mestre, decidimos seguir caminhos diferentes para fazer uma ronda pelos arredores do Santuário e garantir a segurança por hora. – relatou o freezer. Esse p*&% é convincente até mentindo – Rodorio* estava sob ataque de fanáticos de Cronos remanescentes, então fui defendê-lo. Peço desculpas por minha demora. – tá, essa parte era verdade.

- Ah sim. Ótimo. E fizeram muito estrago? – perguntou o mestre.

- Cheguei antes que causassem a primeira morte, felizmente. – respondeu ele.

- Hummm... Sabe onde estão Aiolia, Shaka, Aldebaran e Shura? – o mestre fez uma nova pergunta.

- Todos nos separamos em duplas para fazermos a verificação da segurança ao entorno do Santuário, mestre. – respondeu o picolé de morango – Meus companheiros certamente logo estarão em vossa presença.

- Que bom Camus. — disse Saga, em tom satisfeito. – Que Atena proteja a todos vocês por suas vitórias.

- Que seja. – respondemos juntos, sem querer. Nossas caras deveriam ser as mais cômicas.

- Permissão para me retirar, Mestre. – pediu o sorvete dourado (tá, parei).

- Permissão concedida. – concedeu o mestre.

Ele reverenciou o mestre, virou-se (como sempre) e deixou a sala. Saga me perguntou se eu havia encontrado algo que pudesse preocupar o Santuário em meu caminho. Respondi negativamente e pedi para me retirar. Concedida a permissão, me apressei para alcançar a Casa de Aquário antes de seu protetor. Passei por Peixes correndo e nem vi Afrodite. Avistei Camus no meio da escada para Aquário e acelerei mais ainda. O ultrapassei antes que ele pudesse por os pés na Casa e eu ter que pedir permissão para passar. Isso não daria certo.

Ficamos sem nos falar como crianças. Meu orgulho não permitia que eu o procurasse, não depois de como agiu. Mas o que mais me machucava era sua indiferença em relação a nossa amizade. Como ele podia ser assim, tão frio? Não se importa de me fazer mal? Sempre achei que eu fosse importante pra ele, ao menos como amigo. Ele me disse uma vez, em nosso tempo de criança, que eu era quem mais importava em sua vida. Pelo jeito, acho que mudou de ideia.

Cheguei à minha Casa e me joguei no sofá mais próximo. Nem me lembro de quando adormeci, só sei que acordei no dia seguinte, à tarde. Me levantei com um pulo, um susto quando percebi o quanto havia dormido. Nós, Cavaleiros, normalmente nem percebemos o quanto estamos exaustos, só depois de uma dormida como essa. Acho que foram umas doze horas de sono. Me despi e fui pra debaixo do chuveiro. Minha cabeça doía muito. Fiquei ali quase uma hora, tentando esquecer tudo que havia se passado, mas não dava. Me enxuguei, coloquei a armadura novamente, fui para a frente da minha Casa para ver um pouco o céu. Ele havia voltado ao normal depois da derrota de Cronos. O entardecer era muito bonito de se ver dali: o Sol parecia incendiar as nuvens com seus raios, e o céu era tomado por uma cor vermelha muito forte.

- Você dorme igual a uma pedra, inseto asqueroso! – disse uma voz familiar e irritante.

Nem havia visto o bichano do Aiolia subindo as escadas. Ele tem que me apelidar justamente de inseto? Inseto é o Dios*! Sou superior. Humpf...

- Não é inseto, bicho de pelúcia burro! É aracnídeo. Escorpiões têm quatro pares de patas, e insetos, só três. – disse eu, enchendo a boca pra zoar ele – Vai estudar antes de falar, bichano.

- Ah, peçonha, é tudo a mesma coisa: pequenos, nojentos e repugnantes. Huahuahuahua! – respondeu ele, rindo e dando de ombros – Você não vem?

- Pra onde? – respondi já perguntando.

- Para o jantar que o mestre vai nos oferecer em sua sala! – disse ele como se eu tivesse a obrigação de saber – Até EU vou pra me enturmar.

- Um jantar? – é, acho que dormi demais — Agora?

- É asqueroso, agora. – respondeu ele – Você parecia até a bela adormecida naquele sofá. “Todo mundo” veio te chamar. Mas você já tá pronto. Vamos!

- Todo mundo quem, Leão? – perguntei, já querendo saber se “aquele alguém” tinha me procurado.

- Eu, Shura, Afrodite e Aldebaran. – bicho exagerado... E isso é todo mundo?

- Ah tá. – suspirei. Quer dizer que ele não veio?

- O que foi nojento? Tá triste? Por que essa cara e esse suspiro? – além de exagerado é curioso. Mas ok, talvez ele esteja preocupado.

- Não! Nada. – respondi, fingindo estar tudo bem.

- Ok então. Vai comigo ou depois? Falaram que só tem coisa boa. – é, acabei de perceber que estou com uma fome absurda. Acho que não como desde o início das batalhas contra Cronos e os titãs.

- Vou contigo, bichano. – disse eu, tentando rir – Antes que comam tudo!

Subimos as escadas, atravessando as Casas de Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes. Todas estavam vazias.

- Ai, acho que somos os últimos mesmo. – comentou Aiolia – Tudo vazio.

- É. – respondi já meio ansioso para chegar à sala do mestre e ver quem já estava lá.

Ao entrarmos na sala, pude avistar uma mesa comprida enorme e com um banquete daqueles. Ouvi as vozes de muitos de nossos companheiros dourados e os avistei em seguida. Deba com um prato generoso em uma mão e com outra gesticulava, enquanto conversava com Shura, que bebia algo em uma taça de ouro. Dite trocava umas ideias com Máscara da Morte, que comia sem nem olhar pra ele. Shaka estava sentado à mesa e saboreava umas uvas, enquanto argumentava com Deba. O mestre encontrava-se em seu trono, sem interagir com ninguém, até que nos viu:

- Milo! Aiolia! Que bom que vieram! – nos saudou ele em alto e bom som – Fiquem à vontade, Cavaleiros!

- Olha eles ai! – anunciou Deba, sempre sorrindo – Chega ai, pô! Se vocês estiverem com a mesma fome que eu, já era! Hehehehehe!! Não subi isso tudo pra comer pouquinho não!

- Devagar ai, Deba! – respondi, zoando – Cheguei agora, hien?! Deixa pra mim! Se não, vai ter que subir e descer várias vezes pra desgastar! KKKKKKKK!

Shura, Aiolia e Afrodite riram com nossas palhaçadas. Shaka, se estivesse de olhos abertos, com certeza nos encararia com ar de reprovação. MDM só se concentrava em comer e beber. O procurei com os olhos umas quatro vezes e não vi, nem senti o cosmo do pinguim dourado. Onde estava Camus?

- Milo, não vai comer? – perguntou Shura, parecendo intrigado com o fato de eu ainda não ter devorado nada.

- Aham, é claro. – me apressei em pegar uma maçã e dar uma mordida. Mas não dava pra disfarçar: eu continuava a procura-lo, mesmo já sem esperanças de que estivesse ali.

Shaka se levantou, veio ao meu encontro, pôs a mão no meu ombro e fez um gesto para que eu o seguisse. Fui atrás dele, pensando o que podia o Homem Mais Próximo de Deus querer falar comigo a sós. Fomos até uma antessala muito bonita e bem decorada. Ele virou-se para mim sem abrir os olhos e perguntou com sua mesma seriedade de sempre:

- Milo, você está procurando o Camus?

- Ahhnn, por que está me perguntando isso, Shaka? – respondi, querendo negar. Só ele mesmo pra perceber a minha inquietação.

- Ora, é evidente! Você parece que não se contenta com a ausência dele nesse jantar. – declarou ele – Acha que não notei a sua preocupação em não sentir a presença do seu querido amigo?

- Humm... – levantei a mão e cocei a nuca, tentando disfarçar – E se eu estiver?

- Milo, ele foi embora. – declarou Shaka.

- Embora? Pra onde? – senti um frio na barriga. Uma sensação horrível começou a tomar conta de mim.

- Acredito que para a Sibéria. – disse Shaka – Ele tem dois discípulos que necessitam de treinamento intenso.

- Ahh... Sim. – minha voz ficou tremula. Estava com ânsia de vômito. Então ele foi embora de novo? E nem se despediu de mim?

- Pressenti que você teria uma reação assim e não se sentiria bem. Por isso te trouxe aqui para contar. – declarou ele.

- Co... Como você sabe, Shaka? – perguntei, com a voz fraca.

- Milo, eu sinto que o Camus é muito importante pra você e que o ama profundamente. Seu cosmo não te deixa mentir. – quando ele disse isso, fiquei ainda mais inquieto e minha respiração acelerou. Dava pra notar? – Mas não se preocupe, da boca que vos fala nunca sairá mais uma palavra sobre isso.

- Acha que os outros percebem isso, Shaka? – perguntei desnorteado.

- Sinceramente não. Acredite Escorpião, eu tenho uma sensibilidade energética maior que os outros Santos. Acho que você sabe disso, não? – disse, sem se gabar.

- Sim. – foi só o que consegui responder.

- Vamos voltar para o jantar? – perguntou.

- Pode ir se quiser. – respondi, com minha voz quase sumindo – Obrigado, Shaka.

Ele se virou e seguiu para a sala do banquete. A angústia, aquela mesma de sete anos atrás, só que pior, tomava o meu peito. Ele foi embora... Foi-se e nem me procurou para conversarmos sobre o que tinha ocorrido ontem. Então, é isso... Sou mesmo a perda de tempo que ele disse. Não importa como eu me sinta... A maçã havia caído da minha mão sem que eu sentisse.

Procurei uma saída convencional por aquela sala, mas só encontrei janelas. Não fazia mais o menor sentido continuar ali ou participar do jantar. Minha fome tinha se transformado em náusea e eu não queria conversar ou ouvir a voz de ninguém. Pulei uma das janelas e segui em direção à Casa de Escorpião. Eu não sentia nada: onde pisava, onde estava... A dor era grande demais. Por que, Atena? Por quê?! Por que ele fez isso comigo? Eu sou um nada pra ele? Não mereço nenhuma consideração!

Minha cabeça tinha voltado a doer com toda a força. Latejava tanto que eu estava meio tonto. Pra quem me via, parecia que eu tinha tomado um porre daqueles. Mas, mesmo que eu entrasse em coma alcoólico, acho que ia ter pesadelos com o Camus. Fechei os olhos e acelerei mais ainda quando passei pela Casa de Aquário.

Notas finais
* Rodório: nome do vilarejo próximo ao Santuário.
** Dios: Cavaleiro de Prata da Constelação de Mosca.