Nunca Mais Sem Você

2 Sete anos depois - Parte 1


É, não foi para sempre. Sete anos depois, todos nós, Cavaleiros de Ouro, fomos convocados para uma Reunião Dourada junto ao "mestre" (maldito seja, Saga), que nos alertaria sobre possíveis invasões ao Santuário lideradas por titãs. Eu estava muito ansioso para vê-lo de novo e, ao mesmo tempo, um tanto inseguro. Será que ele mudou muito? Será que ainda me considera seu amigo? Sentiu minha falta? Vai gostar de como estou agora?

Ok, não sou narcisista, mas me acho bonito e atraente o bastante para agradar a maioria das garotas (e garotos). Já deixei passar um monte (mas nem todas) de pessoas legais e bonitas por causa da minha (como pode?) fidelidade... Ahhhh... Por esse iceberg de Aquário. M%&$&!!

A sala do mestre cheirava a eucalipto. Me sentia entrando numa sauna de luxo, sério. A única coisa que me enjoava mais que aquele aroma era as constantes discussões e desentendimentos entre os Cavaleiros de Ouro. Tudo bem que eu adoro falar, principalmente argumentar, mas aquilo era demais. Coitado do Aiolia... Sinto remorso até hoje pelo que fizemos esse bichano passar. Aiolos também... Tanta injustiça logo no Santuário de Atena, deusa da JUSTIÇA, amor e guerra.

Voltando ao que interessa, nem cheguei a ver direito Camus naquela hora. Ele chegou com a mesma rapidez que saiu. Pressentiu antes de qualquer um de nós que estávamos sendo invadidos pelo Cemitério dos Cavaleiros e logo partiu para impedir os soldados dos titãs, que tiveram um fim bem... Gelado.

Fui ordenado pelo mestre a voltar para a Casa de Escorpião e lá aguardar novas ordens. ODEIO isso. Fui muito p%$8 da vida descendo as escadas quando o vi subindo. Nossa como ele era lindo e imponente. Não havia mudado nada no jeito de andar e de olhar meio pra baixo enquanto subia aquela escadaria, compenetrado. Tanto que ia passar direto por mim se eu não tivesse tomado coragem de chamá-lo.

- Ei, Camus!

Ele parou e procurou de onde havia ouvido seu nome. Hehehe, esse pinguim me faz rir... Ele é muito lerdo às vezes.

- Aqui, ô! — chamei de novo e acenei.

- Oi, Milo. — respondeu ele assim que me viu, e veio na minha direção, estendendo a mão.

Demos um aperto de mão (cumprimentar ele daquele jeito era muito estranho. Queria, no mínimo, um abraço. Mas, como eu já disse, ele é meio lerdo) e eu tentei puxar um papo daqueles bem clichês tipo "E ai? Tudo bem? Com tem passado? Blá blá...". Conversamos por uns dez minutos, até que fomos interrompidos por um Afrodite intrometido.

- Oi rapazes. – disse ele, e se dirigiu a Camus – E ai, Camus, como foi de viagem? Muito quente aqui pra você? (risos)

- Bem, Afrodite, a viagem foi tranquila. E sim, a Grécia é quente pra mim, mas tudo bem. Nada que eu não possa me readaptar. – respondeu ele, educado – E essas rosas aqui? Muito trabalho para mantê-las?

- Ah, elas são maravilhosas, não? – gabou-se Afrodite – Me dão um pouquinho de trabalho para ficarem assim, sempre lindas e mortais, mas vale a pena e blá blá blá...

Po#$% Afrodite. Resolveu fazer um discurso sobre essas rosas infernais que ele planta na escadaria pra sala do mestre. Também, por que o Camus foi perguntar? Justamente essa mala foi aparecer quando eu tinha conseguido um pouco da atenção do gelado e estava começando a quebra-lo. Tinha que acabar com aquilo:

- Dite, quer dizer que só umas rosinhas te dão trabalho? – debochei – Aaaahhh... Achei que você fosse mais forte...

Afrodite ficou mais vermelho que as rosas dele.

- Milo de Escorpião, por acaso está duvidando do meu poder? – disse ele entre os dentes.

- Nããããããããããooooooo, claro que não, Peixes – debochei, passando dos limites – Só que umas florezinhas mixurucas não deveriam dar trabalho a um Cavaleiro de Ouro, não?

Afrodite ficou extremamente p&*% com a minha provocação e tentou vir pra cima de mim, mas foi impedido por Camus.

- Cavaleiros, não irão chegar a lugar algum lutando entre si. – afirmou ele – Concentremo-nos nas batalhas que certamente estão por vir. Agora, se me dão licença.

Ele passou por entre mim e Afrodite e continuou a subir as escadas rumo à sala do mestre. Droga! Acabei o fazendo ir embora e deixando Dite p&%$ comigo. Pô, eu sei que aquelas rosas devem ser mantidas ativas o tempo todo pelo cosmo dele, e isso requer muito poder e concentração constante. Não duvido nada dele. É que ele estava falando demais e interrompendo aquele momento tão esperado por mim de estar com Camus novamente depois de tantos anos.

Afrodite bufou de raiva e passou por mim rapidamente, me deixando sozinho. Tudo o que eu podia fazer é seguir o caminho rumo à minha Casa. Pelo menos, eu já tinha quebrado um pouco o gelo do Camus. Ele não mudou muito desde que éramos crianças, continuava educado e certinho demais, gentil e impaciente. Hehehehehehe... Mas, a criança cresceu e está lindo demais... Eu ficava só imaginando como iria ficar daqui a uns poucos anos, quando atingisse o auge da juventude. Sua voz, por conta da idade, estava mudando e variando um pouco, mas falava em tom baixo, como antes (quando ele chegou perto e começou falar, senti um leve arrepio na espinha. Ele já causava um pouco desse efeito em mim quando éramos crianças). O melhor é que ele, além de não ter mudado seu jeito, não perdeu o sotaque francês (ah, fala sério, quem não acha isso sexy? Ele acabava comigo assim).

As batalhas que se seguiram foram árduas em sua maioria. Todos nós estávamos exaustos e rezávamos para que aquilo acabasse de uma vez. Camus enfrentou o titã Oceano, que se acovardou e fugiu. Chegou todo ferrado e ensanguentado. A luta havia sido, com certeza, uma das mais duras. Ele é realmente poderoso... Afinal, não é qualquer um que encara um deus e sai vivo, ainda por cima conseguindo andar e subir isso tudo de escada (pô, a Casa dele é uma das mais altas). Quando chegou à minha Casa, eu já estava de pé na entrada (só não vou confessar que o estava esperando... Hehehe) e posso jurar que eu já ouvia a respiração pesada dele lá de cima.

- Boa noite, Milo. – disse ele quando me viu, com a voz arrastada de cansaço, mas me encarando com um sorriso leve.

- Boa noite? Nooossa! Tô vendo. Não quer encarar mais uns dois daquele? KKKKKKK! – brinquei com o seu estado ferrado.

- Bem, depende do seu ponto de vista. – riu-se ele – Se for considerar que está difícil respirar, já que devo ter perdido uns 60% do meu sangue e que qualquer parte do meu corpo esta doendo, é uma bela noite de m#$%* (Camus, você xingou? Acho que não ouvi direito? LOL! Aprendeu, é?). – ele inspirou fundo e continuou – Maaas, só de pensar que alcancei mais da metade do meu objetivo, ela está ganha em parte. – disse, pôs a mão na cintura e encheu os pulmões.

- Tá certo. Mas... Mais da metade? Não venceu? – perguntei, ainda rindo do m$%&@ que ele soltou. Que engraçado! Foi quase um merde! KKKKK!

- Ah, não venci como queria, Milo. Você entendeu. – respondeu ele, e se sentou num degrau de costas pra mim. Estava enfraquecido mesmo. É difícil ele se sentar assim, de qualquer jeito.

Me adiantei e sentei ao seu lado. Ele estava com um cheiro fortíssimo de sangue e fazia cara de dor todas as vezes que respirava. Só não posso dizer que estava mais branco que o normal porque eu só via vermelho. Só a sua capa já havia sido totalmente tingida de sangue.

- Ei, você quer ficar aqui essa noite? – eu disse esperançoso que de ouvir um “sim” – A gente dá um jeito nesses ferimentos e você não precisa subir mais três lances. – tentei dar uma justificativa.

- Milo, meu amigo, eu agradeço a sua generosidade – ele me chamou de amigo! – mas não posso deixar a Casa de Aquário desprotegida. Por mais que eu esteja nesse estado lastimável, é meu dever guarda-la. Pardon.

Caminho, você falou francês!* Hehehehe. Sabia que você é muito lindo e honrado? Até assim, todo fu%$#& e fedendo a carnificina. Queria tanto que ficasse pra eu cuidar de você todo (pensamentos poluídos em 3, 2, 1...). Fiz uma cara de “poooxa” e disse:

- Ok então. Quer ajuda pra subir? – sorri.

- Eu aceitaria se você não tivesse que ficar plantado aqui, na sua Casa, o qual é obvio o caso. – disse ele, se levantando – Vou indo. Muito obrigado pela companhia.

- Ah, pô! Mas... – eu ia dizer que uns minutos não iam ser nada para a Casa de Escorpião ficar vazia. Ainda mais que era para levar um companheiro ferido de volta à sua Casa. Eu não estaria fazendo nada de errado.

- Ah sim. Desculpe... – lembrou-se quando eu também me levantei – Permissão para passar pela Casa de Escorpião.

- Você tá de sacanagem, né? – fiz cara de indignação.

- Ué? Quer que eu vá passando pela sua Casa na sua presença sem te pedir permissão? – espantou-se ele – Por mais que seja meu amigo, respeito a sua autoridade, Milo. Valorize-a também. Até quando éramos pequenos eu te pedia, oras! Sempre fomos ensinados a nos respeitar.

- Ahhh, Camus, para com esse discurso. Qualquer um teria que pisar em cima do meu cadáver pra passar por aqui, menos você. – pronto, falei – Você me dizia que considerava a Casa de Escorpião a sua segunda casa, lembra? – disse eu com as mãos na cintura.

- Mas... Ahh! Isso foi há muito tempo, não? – disse ele, franzindo as sobrancelhas, como sempre. Acho que ele ficou meio corado, mas não dava pra ver direito com aquele rosto todo manchado de sangue.

- Não acho não. – disse eu, erguendo uma sobrancelha e com um sorriso de canto – As coisas não mudaram tanto assim em sete anos. – se é que ele me entendeu.

- E como não, Milo? – indignou-se ele. Mas, do nada, sorriu sarcástico e pôs a mão no queixo – Hummm...

O que será que ele tava pensando? Que sorriso safado é esse? Será que ele tinha sacado...

- Não vá me dizer que você – sim, sim, fala! Que eu ainda te amo igual eu te disse antes de você ir pro quinto dos infernos da Sibéria – ainda molha a cama?

P%&$ que pariu!!! Corei! Ele lembrou que eu era um mijão de prima! Não é que ele tinha senso de humor? Ah, droga... Tava crente que ele ia dizer algo sobre a gente. Joguei um verdão, pô. Mas também, é esperar demais dele. Devagaaaarr demais esse aquariano...

- Que?! Ora, seu... – eu juro que eu ia piorar e dizer pra ele COMO e com O QUE eu molho a cama hoje em dia, mas resolvi me contentar em rir e dar um bico de leve na cintura dele.

- Hahahahahahahaha! – ele ria da minha cara vermelha e eu, dele rindo – Ai!... Pra rir dói mais ainda. Que droga! – disse ele, levando a mão às costelas. Metade delas deveria estar quebrada, e isso ainda era o de menos – Sério, agora vou subir. Já devia estar lá.

- Tá bem. Boa sorte. Desmaia, não, hien? – disse eu, tentando ser divertido.

- Nada! Tá tudo... Sob controle. – respondeu ele, e ficou olhando pra baixo, pensando no que dizer. Eu já sabia... Ele é certinho demais.

- Ah, não! Não me diga que você está se questionando e pensando em como vai passar por aqui sem me pedir permissão? – perguntei.

- É... – respondeu ele, sorrindo meio sem graça.

- Não consegue conter sua educação, não? — disse eu, saindo da frente dele e fazendo um gesto de permissão, sacaneando — Tá. Passa ai.

Camus deu uns passos até chegar ao meu lado. Virou-se para mim e respondeu, com o mesmo sorriso maroto de antes:

- Valeu.

- KKKKKKKKKKKKKKKKK! – aquela cena foi demais. Ri de chorar. ELE respondendo “Valeu” a primeira vez em sua vida com certeza. O mínimo dele é um “Muito obrigado.” – Agora sim, estamos no mesmo “nível”.

Ele deu um sorriso e se virou para continuar seu caminho. Continuei a observá-lo caminhar até a saída da minha Casa. O som da respiração forçada de Camus ecoava naquele ambiente fechado, até que sumiu quando ele deixou a Casa e chegou à escadaria. Cada vez mais eu o amava e o queria muito mais que como amigo. Me perguntava se ele, é claro, do seu jeito, sentia o mesmo por mim. Se eu já tive medo de alguma coisa, foi de perdê-lo, não tê-lo mais perto de mim, mesmo que só como amigo.

Notas finais
Resolvi dividir esse segundo capítulo em partes pra não ficar muito grande. Espero que estejam gostando.
* Pra quem via Familia Addams, uma versão do Milo para a frase célebre de Gomez "Tiçinha, você falou francês!"