Nunca Mais Sem Você

11 Descongelando lágrimas


Ficamos naquela posição por muito tempo, se curtindo... Eu deitei a cabeça em seu peito, enquanto ele acariciava meus cabelos, meio úmidos de suor. Um sorriso permanente ficou estampado no meu rosto. Fechei meus olhos. De novo eu ouvia seu coração bater. Ahh... Lembrei que ele não tinha me respondido mais cedo...

- É tum-tum sim. – falei.

Ele deu uma risada gostosa e disse:

- Você é meio surdo e não sabe.

- Que surdo o quê... – ri também, amando aquele momento.

O abracei forte e suspirei de alegria. Todas as horas que eu passei com ele são inesquecíveis, daquele tipo que faz qualquer mortal esquecer tudo de ruim que passa por essa vida e valorizá-la ao máximo. Me sentia vivo, realizado, feliz... Meu corpo estava totalmente relaxado, meu cosmo leve e radiante e minha alma, livre. Olhei para ele: cabeça apoiada no braço do sofá, um sorriso lindo e olhos levemente fechados, cabelos despenteados... Ainda me fazia carinho... Estendi a mão e acariciei seu rosto. Ele abriu um olho e me encarou, aumentando o sorriso e dando um suspiro. Estendeu a mão até a mesa de centro, pegou um morango num garfinho, mergulhou no chocolate e me deu na boca.

- Huummm... – muito bom. Quando provei, o fitei com um sorriso malicioso e divertido – Como é o nome disso mesmo?

Ele retribuiu o olhar e riu. Dei-lhe um beijão e o sujei todo (KKKKK)! Se ele fosse repetir todas as vezes que eu perguntasse, a gente nunca mais ia sair daquele sofá (se me entendem... Hehehehe...). Lambi os cantos de seus lábios e comemos mais morangos e uvas com chocolate.

- Preciso mijar. – disse eu, sentindo minha bexiga quase explodindo, e olhando pra ele descontentado. Eu não queria sair dali nunca mais.

- Vai lá. – disse ele, sem deixar de sorrir.

Dei-lhe um beijo na testa, fui correndo ao banheiro e fiz o que tinha que fazer. Quando voltei pra sala de jantar, senti um vazio muito grande quando não o vi deitado no sofá. Poxa... Era como se a culpa daquele momento perfeito ter acabado sido minha. Mas ia acabar, afinal, tínhamos nosso dever para com o Santuário e a Deusa para cumprir. Fui até a antessala, achei minha calça e a vesti. O vi pegando as louças do jantar da mesa. Maldita falta de criados!

- Deixa eu te ajudar. – disse eu, me levantando e indo até ele.

- Não... Pode deixar. – disse ele, levando tudo para a cozinha – Lavo depois.

O ouvi pondo as louças em algum lugar, e voltou. Eu queria ajuda-lo, mas acho que mais atrapalharia (nunca lavei um copo na minha vida. Hehehe...). Ele se espreguiçou... Não perdi a oportunidade de agarrá-lo de surpresa.

- Acho que “você” está muito suado... – disse eu em seu ouvido.

- Ah é? – respondeu ele suavemente, me dando uma mordidinha na orelha – Resolvo isso rápido...

Me agarrou, me ergueu do chão e saiu correndo. Comecei a gargalhar alto. NUNCA esperei que ele fosse fazer isso! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK! Aquilo era muito cômico! Duas crianças de VINTE anos, uma carregando a outra de qualquer jeito correndo pela Casa. KKKKK! Imaginei dona Tália dando esporro: “Suas pestes!!! Voltem já aqui! Vou sentar a mão nos dois!”. Ri ainda mais! O pior é que eu não fazia ideia de onde ele estava indo, já que eu não conseguia abrir os olhos de tanto rir... Ele se jogou e caímos na água. Subimos à superfície sem nos soltar.

Olhei ao redor e logo reconheci onde estávamos. Era um salão fechado todo decorado como o restante da Casa (imagens cravadas na parede e estátuas do grande Ganimedes* em todos os cantos, e um grande símbolo zodiacal do signo de Aquário na parede que se opunha à porta), que continha em seu centro uma piscina enorme, de profundidade abissal. Camus passava horas treinando ali quando criança.

- Então? – disse ele com um sorriso maroto, sua franja tampando seus olhos – Ainda tô muito suado?

- Não... — ri mais ainda e lhe dei um beijo – Tá muito é engraçado! – comecei a rir de chorar-Perece um cachorro daqueles peludos... Hehehehehe!

- Sério agora... – disse ele, tirando a franja dos olhos.

- Ahhh... Não! – disse eu, zoando – Tava maneiro de monstro do lago Ness**! – baguncei o cabelo dele todo e dei-lhe um “caldo” — KKKKKKKKKK!

Fiquei rindo, mas fui puxado pra baixo pelos pés por ele. Pu#$ que pariu! Fui parar lá em baixo! Sou lerdo nadando... Ele é mais que profissional. ¬¬ Quando subi, ele já tava sentado na borda da piscina, me olhando e rindo.

- Quem ri por último, ri melhor! – zoou ele.

- Espera só eu chegar ai! – disse eu, lançando um olhar desafiador.

- Vou ter que esperar mesmo, pelo jeito! – riu ele.

Nossa, realmente era o melhor dia da minha vida... Estávamos nos divertindo e brincando como crianças. Era como se tivéssemos voltado no tempo. Aquilo era bom demais. O melhor de tudo era vê-lo rindo e se permitindo viver um pouco. Eu amo seu sorriso... Amo sentir seu cosmo leve e alegre...

- Ah é?! – disse e comecei a nadar na direção dele.

Ele ria pra ca#@%& da minha “performance” como nadador. Tanto que só percebeu quando eu já tava bem perto da borda. Se levantou e correu, rindo.

- Volta aqui! – chamei, fingindo uma voz furiosa, mas sem conseguir conter o riso. Subi na borda – Agora a po%$# ficou séria!

Modéstia à parte, sou muito rápido (no chão). Entrei correndo pelo corredor que ele tinha entrado, até chegar ao saguão de entrada por uma porta. Sentia o cosmo dele ali... Estava se escondendo! Ahhh... KKKKK! Fechei os olhos e agradeci à Deusa.

- Esconde-esconde de mil dias, é Camus?! – ri muito e comecei a procura-lo – Eu te acho, vai ver só!

Saquei que ele não estaria ali e tentava me enganar mantendo a presença forte de seu cosmo. Fazíamos muito isso quando pequenos, sempre estimulados a brincar pelo Mestre Shion. Essas brincadeiras já eram um treinamento (divertido) pra nós, já que aprimorávamos nossos sentidos e percepção cósmica.

Entrei no corredor que levava aos cômodos. Fui procurando por ele nos que eu julgava conter cosmo suficiente e indicar sua presença, tudo na velocidade da luz. Finalmente, o que mais indicava sua presença era o cosmo que emanava de seu quarto (opa... Quarto? Pensamentos pervertidos... Hehehehe...).

- Por que aqui, hien? – perguntei num tom malicioso.

Ele surgiu na minha frente e me agarrou pela cintura. Me arrepiei todo...

- Pra isso... – disse ele, me puxando para trás, até o banheiro. Chegando lá, ele me levou até o chuveiro, que jorrava uma água morna deliciosa. O empurrei contra a parede, fechei os olhos e o beijei demoradamente, meu corpo esquentava de novo, reagindo ao seu toque... Ele pegou algo que eu não vi e passou nos meus ombros... Um perfume amadeirado muito bom se espalhou pelo banheiro. Abri os olhos e olhei rapidamente para suas mãos, que espalhavam espuma pelo meu peito. Voltei meu olhar para ele, meu coração batendo forte... Ele me surpreendia muito. Até eu que achava que o conhecia tão bem. Como pode o mestre do gelo ser tão carinhoso e demonstrar amor assim?... E eu o amava cada vez mais.

Tirei a calça e a cueca sem deixar de encará-lo. Fechei novamente meus olhos e relaxei. Ele me fazia uma massagem e me banhava todo... Eu me sentia no topo do mundo... Ele me ama e faz feliz com maestria.

- Assim eu vou ficar mal acostumado... – suspirei.

Ele parou e ficou estático. Seu cosmo tornou-se triste em menos de um segundo. Abri os olhos e o encarei. Não... Esses olhos não! Aqueles que me afetam tanto, que acabam comigo... Um pensamento que havia se esvaído da minha mente durante essas horas de felicidade voltou com toda a força... Meu coração deu um solavanco que doeu até na minha alma...

- Você... – minha voz quase não saía, eu não conseguia respirar direito -... vai embora? – perguntei já sabendo a resposta, mas não querendo aceitar que tudo que estávamos vivendo seria interrompido e eu ficaria sem ele por mais sei lá quantos anos. Não... Por Atena, não...

Ele fechou os olhos e abaixou a cabeça. Estava sofrendo muito, assim como eu. Me desesperei e o abracei forte, as lágrimas caindo dos meus olhos, que ardiam...

- Mas... – tentei achar uma justificativa, algo que fizesse ele ficar... Qualquer coisa... – S-seu discípulo é um traidor... Sei que você tem dois, mas... – eu soluçava como uma criança, não conseguia falar, sabia que doía muito pra ele.

- O outro está morto... – disse ele baixinho. Seu cosmo com uma tristeza tão intensa que as estátuas da Casa começaram a lamentar... Os ecos de voz masculina chegaram até nós, vindos de todos os cantos. A água que caía do chuveiro foi congelada... O ar ficou congelante e pesado... A própria Casa de Aquário, a mais fria de todas, não aguentava tamanho sofrimento e tomava a dor de seu guardião.

- Morto?... – sussurrei, engolindo seco. Chorei ainda mais, imaginando a dor que ele tinha que suportar de perder um discípulo e ter que executar o outro por traição. Ainda sofria por nós dois, por nosso amor. Isso é demais... Como ele conseguia se manter firme com tamanha dor? – Por favor, Camus... – eu queria aliviar esse peso que ele carregava. Sabia que ele precisava disso mais do que nunca -... chore...

Senti o seu corpo quase desfalecer em meus braços. O abracei e o peguei no colo, me sentando no chão, com minhas costas encostadas na parede. O envolvi com os braços e encostei minha testa na dele. Ele mantinha os olhos fechados e uma expressão de dor. Estava inconsciente.

- Por favor... – o abracei forte e beijei sua testa.

Ele ofegou dolorosamente... Sangue vivo escorreu pelo canto de sua boca. Ele apertou os olhos, que também sangraram. “Não... Será aquilo de novo?” pensei, me preocupando ainda mais ao me lembrar daquela vez há treze anos. O Mestre o deve ter salvado naquele dia, mesmo que nada tenha dito... Se ele perder aquela quantidade de sangue de novo, pode... Não... Por Atena...

- Eu tô aqui... – falei baixinho, e chorei ainda mais – Eu te amo...

Uma lágrima escorreu por um de seus olhos, manchando ainda mais seu rosto de sangue. A água do chuveiro se descongelou e voltou cair quente, o ar voltou ao normal e os lamentos de Ganimedes cessaram. Outra lágrima correu e ele me abraçou, tremendo. Lágrimas também caíram dos meus olhos...

- Eu os perdi, Milo... – sussurrou ele. Abri os olhos e vi que chorava como eu – Por quê? Eu os treinei, protegi, eduquei, alimentei... Amei... Desde crianças. Fiz tudo que estava ao meu alcance... Talvez não tenha sido suficiente...

- Não diga isso... Eu tenho certeza que foi um ótimo mestre pros dois... – disse eu, acariciando seus cabelos, sem deixar de chorar – Dedicou sua quase toda sua vida a isso...

- Isaac... – ele ofegou e chorou ainda mais -... Morreu tentando salvar o Hyoga. Eu... Estava ausente... Não pude salvá-lo... Pobre garoto...

- Não foi sua culpa... — disse eu, e segurei sua mão. Estava muito gelada (muito mais que normalmente é).

- Isaac tinha potencial... Realmente queria se tornar um Cavaleiro de Atena para lutar pela paz, amor e justiça... Já o Hyoga – seu cosmo se encheu de rancor e decepção – dizia que queria se tornar Cavaleiro para resgatar sua mãe, que está morta e congelada no mar da Sibéria... Era como uma obsessão doentia... O dia em que conseguiu quebrar o gelo eterno sobre o mar e ir ao encontro da mãe, as correntezas o teriam matado se não fosse Isaac... Não consegui tirar esse pensamento, essa falsa ideologia dele... Eu falhei, Milo, e perdi os dois.

- Isso não é verdade. – disse eu, com a voz mais calma – Você fez o seu melhor, Camus, estou certo disso.

- Eu não – disse ele, mais lágrimas correram — tentei de tudo...

Por Atena, quanta dor e culpa ele carregava. Que moleque filho da pu%#! Ingrato! Mas fiquei feliz e aliviado ao sentir cosmo de Camus mais leve. Ele chorou ali todas as lágrimas que havia congelado por todos esses anos...

- Shhhhhh... – o calei com um dedo nos lábios carinhosamente e o abracei. Peguei o sabonete líquido e comecei a banhá-lo com todo o amor que eu sinto por ele. Ele fechou os olhos e sorriu levemente.

- Obrigado, Milo... – disse ele, acariciando meu peito com seu rosto.

Eu o encarei, nossos olhos vermelhos por conta de tantas lágrimas. Meu coração voltava a acelerar...

- Te amo muito, meu gelado... – disse eu, brincando com a temperatura de seu corpo, que estava muito fria – Você é tudo pra mim... – declarei. Ele me beijou, e jurei sentir uma lágrima tocar o meu rosto.

Notas finais
*Aquele representado pela Constelação de Aquário.
**Lenda escocesa de um monstro que habita o lago Ness.

Confesso que chorei junto com esses dois ao escrever esse capítulo.

Mereço revews?? ^.^