Nunca Mais Quero Voltar Sozinho
1 Você está bem?
Notas iniciais
Fiquei a noite inteira sem conseguir dormir. Mas como conseguiria? Acho que ninguém que se expõe a uma situação dessas consegue. Sim, meu primeiro beijo, dado as escuras de minha deficiência visual. Precisei ficar horas me remoendo para ter certeza de quem o dera, porque, por algum motivo a pessoa havia deixado minha casa antes que eu pudesse perceber o que tinha acabado de acontecer.
Não sei explicar o que senti, só sei que foi rápido. Rápido mais maravilhoso, nunca tinha sentido nada igual, e quando percebi quem foi o responsável pelo ato, algo dentro de mim cresceu ainda mais.
Acho que se a Giovana não tivesse chegado àquela hora, eu iria ficar me remoendo mais ainda, pensando que ela havia me beijado, e não Gabriel. Mas até aquele momento me senti culpado por ter gostado de beijar minha melhor amiga, ou melhor, ela ter me beijado. Foi como chegar da escola e tirar aquela pesadíssima mochila das costas, quando ela chegou e me respondeu minha pergunta “Gi, você ta vendo um moletom jogado por aí?”.
Não sei que horas ainda eram, mas estava esperando que um dos meus pais venha-me “acordar”, para eu me arrumar para a escola. Enquanto isso não acontecia, continuo passando na mente a conversa que tive com a Giovana assim que ela me certificou que não havia um moletom jogado pelo quarto...
- Ai, Leo, desculpa que eu te deixei sozinho lá na escola. Você ta bem?
- To.
- Ta mesmo, você ta estranho, meio avoado, sei lá. Não ficou chateado mesmo por eu ter saído de repente?
- Não, Gi. Ta tudo bem, aliás, ta melhor do que eu imaginava.
- Por quê? O que quer dizer?
- Lembra do que eu te contei lá na escola? Antes de você sair para o aniversário da sua avó?
Pude ouvir um sonoro suspiro vindo da minha frente.
- Que você está apaixonado pelo Gabriel? Lembro sim, o que tem?
- Quando eu cheguei da escola, fiquei horas pensando se eu devia ou não ter te falado que eu estava apaixonado por ele. Porque você já muito ciumenta, e eu pensei que você levaria essa história toda por um lado errado.
- Ah, Leo... Nada a ver. Mas e aí? É só isso?
- Não. Então, quando eu cheguei, fiquei pensando nisso, por um tempão, até que a campainha tocou, e depois alguém entrou aqui no meu quarto. Eu achei que fosse você, e acabei contando o que eu acabei de contar pra você.
- Se você devia ou não ter me contado sobre o Gabriel?
- Isso.
- Mas, Leo. Eu não vim mais cedo, só consegui sair agora do aniversário da minha avó.
- Pois é.
- Então... Pra quem você contou isso?
- Até você chegar, eu continuava achando que fosse você, mas depois que disse que não tem nenhum moletom jogado pelo quarto, percebi quem foi.
- Hã? Leo, eu não estou entendo nada. O que tem haver o moletom, comigo, com a pessoa que veio aqui mais ce... Espera um instante, era o Gabriel?
- Sim. Ele tinha esquecido o moletom dele aqui na minha casa ontem quando estávamos terminando o trabalho de História. Ele me avisou na aula, e eu disse que levava amanhã, porque hoje ele tinha dentista e não ia poder passar aqui. Mas passou.
- E ele ouviu você dizer que gosta dele?
- Claro, né, Gi.
- Mas e ele? O que ele disse?
- Nada.
- Como nada, Leo? Ele é mudo por acaso?
- Ele só me beijou e foi embora sem dizer nada. Por isso só percebi que era ele quando você chegou.
- Ele... Te beijou? Na boca?
Afirmei com a cabeça.
- Então você pensou que eu tinha te beijado, até agora? – ela continuou, enquanto ligava os fatos.
- É.
- Entendi.
Ficamos uns cinco minutos em silêncio, esperei que ela pensasse no que falar. Por um momento cheguei a imaginar que ela havia ido embora silenciosamente, mas ela disse de repente:
- Então tá.
- Tudo bem pra você, Gi?
- Claro Leo. Você continua sendo meu melhor amigo, certo? Não vou te abandonar por causa disso.
- Sério? Não imagina como fico contente em ouvir isso. Mas, Gi, tem mais uma coisa.
- Pode falar.
- Uma vez o Gabriel me disse que ele acha que você estava afim de mim. Eu não pude notar sem ele me avisar, mas depois comecei a perceber como você ficava chateada quando eu comecei a pedir pro Gabriel me guiar até em casa. Você até parou de vir com a gente até aqui, parava logo na sua casa.
- Não tinha necessidade de eu descer a rua se o Gabriel estava com você, não é?
- Mas é verdade?
- O que é verdade?
- Que você está afim de mim.
- Bom, era. Mas não precisa se preocupar com isso. Ta tudo bem.
- Mesmo?
- Mesmo. Agora preciso ir, já está ficando tarde. Amanhã a gente se vê na escola, tá?
- Tudo bem, vai lá.
Ela me beijou na bochecha, e pude sentir que as delas estavam úmidas. Mas antes que eu pudesse falar algo sobre isso, ela já havia partido.
Não demorou muito e meu pai veio me chamar. Eu levantei, tomei um banho e coloquei o uniforme. Quando estava arrumando o material, lembrei que precisava pegar o trabalho de História que fiz com o Gabriel. Tateei pela escrivaninha procurando a única folha de papel sem os relevos pontudos do Braille. Encontrei-o.
Eu estava pensando em datilografar ele, mas o Gabriel insistiu para que ele escrevesse, e assim me poupar mais serviço com minha máquina de escrever especial para cegos. Peguei as folhas, e alisei. Eu sei que não podia ler uma palavra se quer do que estava ali, mas foi a mesma folha que a mão dele deslizou durante todos esses dias enquanto o produzíamos. Como será que era a letra dele? Será que a Gi ligaria de me descrever? Espero que não.
- Vamos, filho, está na hora! – Minha mãe gritou lá da calçada, onde meus pais já esperavam perto do carro.
Meus pais me levavam até a escola de carro, mesmo ela sendo apenas 8 quarteirões de minha casa, porque achavam perigoso eu caminhar pelas ruas de São Paulo tão cedo. Na volta eles não me buscavam porque estavam trabalhando, e confiavam na Giovana (e agora no Gabriel, também) para me trazer em casa a pé.
Entrei no carro, me arrumei no banco e seguimos para meu colégio. A viagem sempre foi absurdamente rápida, pois como eu disse, eram 8 quarteirões, sem semáforos, sem trânsito, então levávamos menos de cinco minutos para chegar até minha escola. Mas desta vez não. Pareceu demorar mais, talvez horas. Não conseguia parar de lembrar do que aconteceu ontem a tarde. Do Gabriel chegando até mim, sem eu saber, e depois de eu ter-lhe falado mais do que devia, e colado os lábios dele nos meus.
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