Nunca Mais Quero Voltar Sozinho
2 Me desculpa... eu te amo!
Notas iniciais
Podia ouvir o som das vozes dos outros estudantes assim que nos aproximávamos da escola. Será que ele estaria me esperando? A Gi estaria me esperando? Alguém? Nunca me senti tão excluso em toda minha vida.
– Chegamos Leo. A Gi está ali perto do portão – com isso meu pai buzinou para avisa-la de nossa chegada. Logo, a porta do carro se abriu e senti alguém pegar em meu braço e me guiar para fora do carro:
– Oi Leo.
– Oi... Gi.
– Boa aula, filho!
– Valeu, mãe, nos vemos mais tarde. Tchau, pai.
Saí do carro e fechei a porta atrás de mim. Gi ainda segurava meu braço. Ouvi o carro partindo, e então coloquei minha mão sobre o ombro dela, que começou a me levar na direção da escola dizendo:
– Estudou para a prova de Matemática?
– Claro, né, Gi. O que acha que o Gabriel ia fazer todos esses dias na minha casa?
Parei de falar na hora, já conseguia imaginar o que ela pensaria sobre isso depois do que aconteceu na tarde anterior. Seria muito ridículo da parte dela duvidar de mim de que aquela teria sido a única vez em que aconteceu, mas um suspiro ao meu lado confirmou parte de minhas suspeitas.
– Ok Leo. Bem, a professora já está subindo, melhor corrermos se não quisermos ficar detentos por atraso. – Com isso ela aumentou o ritmo dos passos. Subimos a escada, entramos na sala e me sentei. Ela estava quieta, a professora já devia estar ali.
– Bom dia, classe! – e eu não estava errado – Deixem apenas lápis, borracha e caneta sobre a mesa, vou entregar as provas.
Ela entregou por ultimo minha prova especial e deu o sinal para começarmos. Bem, a turma começar, porque minha cabeça estava longe... Talvez não tanto. Ela estava voltada psicologicamente para a carteira de trás, o lugar de Gabriel. Será que ele estava ali? Não ouvi a voz dele em momento algum desde o momento em que cheguei até agora. Nenhum resmungo, nem suspiro, cochicho. Nada. Não poderia virar para trás, seria inútil (não pelo fato de a professora pensar que eu sendo um aluno deficiente visual tentasse estar colando, mas por ela poder pensar que o Gabriel estivesse colando de mim). Me remoí de ansiedade pelo fim dessa aula para saber se ele estava em seu devido lugar, quando a professora respondeu meus pensamentos:
– O Gabriel perdeu uma prova de extrema importância!! Espero que ele traga uma boa justificativa.
Os 40 minutos restantes se misturaram em decepção, confusão e dificuldade em responder as questões. Queria perguntar por ele, para a Gi, para a professora, para qualquer um. Queria ligar na casa dele, queria saber por que ele não foi para a escola?!
– Terminou o tempo, virem suas folhas, vou passar recolhendo-as – anunciou a professora.
Assim que as folhas eram retiradas das carteiras, o som na sala ia aumentando. Os alunos começavam a comentar sobre os exercícios, conferindo onde erraram e onde acertaram. E eu, não podia esperar mais nenhum momento. De principio passei a mão na carteira de trás. Vazia. Virei para a direita e perguntei:
– Gi, você sabe por que ele não veio? – Àquele ponto da história, ela já devia mais do que saber quem era ele.
– E eu vou saber, Leo? Foi na sua casa que ele foi ontem à noite. – Me retraí, não esperava uma resposta como aquela. Acho que ela percebeu minha reação, pois logo emendou – Ele deve estar lá embaixo por ter chego atrasado, na próxima aula ele sobe.
Mas ele não veio. Nem na próxima, nem na outra. O professor de Geografia também sentiu falta do Gabriel na terceira aula, o que diminuía minhas esperanças de encontrá-lo ainda naquele dia.
O sinal para o intervalo tocou, e descemos. A Gi insistiu em chamar outra amiga dela para comer com a gente, então, enquanto elas tagarelavam sobre assuntos femininos, eu só conseguia pensar no Gabriel. Balançava a cabeça quando percebia que alguma delas falava comigo, mas a maior parte do tempo eu fiquei perdido em pensamentos distantes.
– Leo, eu e a Raquel vamos ao banheiro antes de o sinal tocar. Você fica aqui? É bem rápido. – nunca acredite em meninas que dizem ir rápido ao banheiro! Mas concordei:
– Fico sim, vão lá.
Mais uma vez aquela sensação de exclusão voltou à minha mente. Estava sozinho novamente, com, talvez, duas amizades perdidas. O tempo passou rápido, e a Gi, sem Raquel, tocou no meu ombro. Ouvi o som de pegar o material ao meu lado, um som de papel, e então me coloquei de pé, segurei o braço dela e caminhamos. Foi uma caminhada silenciosa e tranquila. Sentia-me estranhamente e inexplicavelmente contente.
Haviam se passado alguns minutos, o sinal já soara e ainda não havíamos nem subido as escadas para as salas de aula:
– Gi? Está no caminho certo? A gente vai se atrasar se não andarmos rápido...
Então ela me empurrou lentamente contra uma parede, que deduzi ser o muro de trás do colégio, e me beijou. Estiquei as mãos na tentativa de afastar a cabeça dela da minha, mas o que encontrei fez meu coração ser atirado anos luz para o alto. Meus dedos se enroscaram em um cabelo cheio e cacheado. Gabriel. Eu, então, cedi, e retribui.
– Me desculpe... Eu te amo! – sussurrou ele em meio ao beijo.
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