Nu ma opri
15 Capítulo 15 – A Caçada
Notas iniciais
– Faremos o seguinte: – disse Cavanaugh apontando para cada um dos detetives – Alguns de vocês continuem atrás de todas as informações possíveis sobre essa moça traçando a área de conforto determinando para onde ela poderia ter levado a Dra. Isles. O restante desenterre todos os dados arquivados desde o começo das investigações do Mitrea. Levantarão a ficha de cada envolvido para me passar e eu vou procurar o Capitão Geral e solicitar uma abertura de inquérito de qualquer oficial que teve contato ou tomou conhecimento deste caso até agora.
Com isso os detetives foram dispensados. Frost pediu auxilio de Frankie na tarefa de traçar a possível zona de ação da ruiva, Korsak e Jane correram para os arquivos. Depois de muito tempo Jane percebeu que relia pela décima vez a mesma frase numa ficha, olhou em volta e viu que Korsak cochilava sentado em sua cadeira, Frost parecia nem piscar provavelmente que nem ela lendo pela sei lá qual vez a mesma linha na tela do computador e Frankie traçava círculos aleatórios num papel ao lado do mapa piscando lentamente na tentativa de se manter acordado.
– Galera, vamos tomar um café?
– Jane, são 3 horas da manhã. Eu sei o quanto você está doida pra pegar esse cara, todos nós também, pode ter certeza... – disse Frankie levantando os olhos visivelmente exaustos para a irmã – Mas, vamos embora!
A outra o olhou com ar assustado como se aquilo fosse o maior absurdo do mundo. Korsak já desperto acrescentou:
– Ele tem razão, Jane. Nenhum de nós está rendendo mais nada. De que adianta continuarmos aqui assim? – Jane ainda balançou a cabeça em tom negativo, o colega continuou – A gente volta mais cedo, não precisa ser no horário normal das 8h. Às 7h já estaremos todos aqui de novo ok? Mas sério, Jane temos que dormir um pouco, todos nós, isso inclui você!
A detetive encarou o homem que a olhava com ar paternal, depois viu Frost e Frankie concordando com ele e lhe lançando um olhar de súplica. Suspirou fundo, sabia que eles tinham razão, só não sabia se seria capaz de pregar os olhos apesar de tudo então separou umas caixas de arquivo e levou consigo para analisar em casa. Mal entrou no carro e viu um celular no porta-luvas piscando. Era o de Maura que ela havia guardado lá, viu 2 chamadas perdidas do hotel de Constance e se lembrou de que em algumas horas sua filha estaria oficialmente desaparecida à 48h. Claro que ela não ligaria pra mulher naquela hora da madrugada pra falar isso. Na verdade tinha esperanças de não ter que ligar para ela em momento algum porque achariam Maura em breve e elas poderiam se falar diretamente.
Ligou o carro e após andar um quarteirão se lembrou de outra coisa: não havia ido alimentar Bass como prometeu a sua mãe. Fez o retorno e se dirigiu à casa de Maura chegando lá em poucos minutos. Entrou acendendo as luzes e checando o lugar com a arma em punho. Não era demais se certificar. Vendo que estava tudo limpo se deparou com o “animado” bicho de estimação da legista vindo próximo a seus pés. O olhou com certa ternura não conseguindo evitar pensar que só mesmo uma pessoa tão peculiar como Maura poderia ter um bicho daqueles. Se dirigiu à geladeira pegando alguns morangos e colocando numa vasilha no chão. O animal pareceu meio desconfiado então Jane se abaixou oferecendo um morango próximo à sua boca:
– Ei, você deve estar sentindo falta dela né? Eu também...
Jane ficou observando o cágado mastigar a fruta e depois se dirigir a vasilha que ela colocou pra ele. Olhou em volta e pensando que ali era um lugar bem mais tranquilo pra ela se concentrar ou até mesmo descansar do que sua própria casa com sua cachorrinha e sua mãe que em breve acordariam foi no carro pegar as caixas de arquivo. As levou pra dentro da casa de Maura, se esparramou no sofá e abriu diversas fichas sobre o colo. Não demorou nada para que adormecesse rendida pela exaustão do corpo e o silêncio do ambiente.
Já era de manhã, Maura acordou mas não porque tivesse consciência disso, a claridade constante do lugar já não a deixava estabelecer uma relação coerente da passagem do tempo, apenas havia deixado a fatiga do corpo a levar em determinado momento e agora assustada abriu os olhos e viu outro copo d’água com um sanduíche ao seu lado. Se sentia menos exausta mas a pressão psicológica começava a mexer com ela, notou o motivo que a havia despertado: Alison estava sentada numa cadeira com os pés sobre a mesa lateral cantarolando baixo uma música enquanto alisava uma moeda. Ele não olhava para a loira, parecia bem absorta em seus pensamentos. Maura não reconhecia a música, mas pela entonação associava ser uma cantiga para criança. Prendeu a respiração alguns segundos analisando que a arma da moça estava sobre seu colo então sem pensar muito, estava cansada daquela situação resolveu puxar assunto:
– É uma bela canção...
A ruiva levantou o olhar da moeda para ela e deu um sorriso triste:
– É, é sim. – pareceu fazer um esforço para ser menos simpática e mais irônica — Desculpe se te acordei Doutora!.
A loira a fitou por um longo instante, estava disposta a tentar alguma coisa pra sair dali, nem que fosse ficar amiga de sua sequestradora:
– Eu não conheço essa música, faz referência ao folclore romeno, não? – Alison olhou curiosa para a outra — Percebi na parte que fala da bruxa que se transforma em coruja para perseguir a alma que saiu do túmulo...
– É, nosso povo tem umas lendas meio doidas. Meu pai costumava cantar essa música pra mim para me fazer dormir. – a ruiva riu por um instante – Como se alguma criança conseguisse dormir depois de ouvir uma coisa macabra dessas né?
Maura sorriu e levantou as sobrancelhas em acordo. Viu que a ruiva olhava o nada, de repente se dirigiu a ela curiosa:
– Seu pai lhe cantava que tipo de música para dormir?
– Bem, nenhuma na verdade. Meus pais sempre passaram pouco tempo em casa e aos 10 anos me botaram num colégio interno feminino.
Alison balançou a cabeça:
– Os Isles te adotaram quando era bebê, né? Eu li uma matéria sobre você na época que prenderam seu pai biológico aquele mafioso irlandês... Deve ter sido bem duro descobrir a verdade.
– É. – Maura respondeu olhando para baixo. – Mas me fez bem, saber a verdade. Afinal é o que construiu a minha própria história não é?
Alison guardou a moeda no bolso e se levantou. Repousou a arma sobre a mesa e sacou o canivete soltando mais uma vez as mãos e dessa vez também os pés de Maura. Puxou a cadeira que estava antes para perto da legista e apontou a comida:
– Já que estamos aqui sem nada pra fazer vou te contar a minha verdadeira história, pode ir comendo enquanto isso!
A jovem narrou sua triste trajetória e Maura a acompanhava com emoção até chegar na mesma conclusão que Frankie:
– Mas se você já estava infiltrada, e teve tantas chances de ficar perto do Mitrea por que não finalizou seu... plano?
– Por causa do cara com quem você me viu falando ao telefone ontem! Ele é um de vocês a ajudou o Mitrea a se safar desde o começo com tudo que envolvia problemas legais aqui nesse país em troca de uma parcela bem alta, claro. De cara ele não gostou de mim, o cara é safado deve saber sentir o cheiro de quem aparece pra te passar a perna e passa antes. Convenceu o Mitrea que eu devia ir nas negociações mais perigosas pra distrair os traficantes. No fundo acho que ele tinha esperança que qualquer hora eu levaria um tiro e assim se livraram de mim. Virei “parceira” do Ramirez, ia com ele pra todos os cantos fazendo isso até que ele se convenceu que eu seria mais útil viva do que morta. Me contou que sabia quem eu era e o que queria e propôs um acordo pra me ajudar. No começo não acreditei mas depois que ele veio com a informação que o grupo de detetives já tinha um esquema todo completo pra pegar o Mitrea era minha única chance de botar as mãos no cara antes de vocês!
A ruiva parou de falar ao ouvir barulho de passos de aproximando. Ficou de pé colocando a mão sobre a arma que havia deixado na mesa, olhou de relance para Maura que durante a história havia caminhado pelo espaço a fim de se esticar e fez sinal para que ela voltasse para o colchonete onde estava. A legista obedeceu se encolhendo com as cordas enroladas mas sem dar o nó nos pés e mãos. A porta se abriu lentamente e Maura ficou em choque ao ver o homem que entrava ali, lhe dando um sorriso debochado e convencido.
Jane acordou com o despertador do celular. Eram 6h e ela estava com o pescoço doendo, dormiu toda torta no sofá de sua amiga sem ler nenhum dos arquivos que trouxera. Se xingou mentalmente por isso, mas percebeu que ainda estava muito sonolenta, foi em seu carro buscar uma muda de roupa que sempre deixava para emergências então se dirigiu ao banheiro e tomou uma ducha praticamente gelada. Voltou à sala recolhendo todas as fichas que havia espalhado quando uma caiu espalhando várias anotações anexas pelo chão. Jane estava puta recolhendo tudo quando bateu o olho numa lista. Era dos pertences do traficante Ramirez no momento de sua prisão, um item chamou sua atenção: um cartão de visita de uma empresa de engenharia. Na lista dos pertences que Alison/Irina havia pedido pra buscar em sua casa também havia um cartão da mesma empresa. Saiu correndo na direção da casa de hóspedes vasculhando o cômodo, achou o cartão amassado dentro da lixeira que estava debaixo da cama. Viu que havia algo marcado no papel como se tivessem escrito em outro papel por cima dele, correu de volta para a sala de Maura atrás de um lápis, pressionou com força sobre a marca pintando todo o cartão até ficar legível o que estava marcado. Era apenas uma palavra: “Cricket”.
Jane prendeu a respiração deixando cair o lápis de suas mãos ao compreender tudo.
– Jane, você tem certeza? — dizia Korsak que após um sonolento alô já parecia estar 100% acordado — Isso é muito grave, temos que comunicar a todos agora!
– Sim! Korsak, "Cricket" é a palavra de segurança do Martinez, ele usa para todos os informantes, eu usava quando trabalhava com ele, é ele o cara infiltrado! — Jane gritava desesperada do outro lado da linha.
– Puta merda, Jane eu já estou quase chegando na Central, onde você está?
– Na casa da Maura, não acho as minhas chaves do carro!
– Quer que passe ai pra te pegar?
– Não, é contramão! Vai direto pra lá, lancem um alerta para esse filho da puta!
Jane desligou o celular enquanto jogava as almofadas do sofá de Maura para o alto, levantava o tapete com o pé enquanto sua cabeça a mil cogitava aonde aquele desgraçado teria levado a legista. De repente teve um estalo e voltou correndo para as caixas de arquivo, ligando para seu irmão:
– Frankie, onde foi mesmo que vocês prenderam aquele traficante, o Ramirez?
– Oi irmã, tudo bem com você? — respondeu o outro ironicamente
– Agora não, Frankie é urgente, me responde!
O outro percebendo o desespero na voz da mais velha respondeu sem pestanejar:
– Num galpão na área industrial.
– Tinha alguma obra ali perto?
– Hum...tinha sim — disse o outro fazendo esforço pra se lembrar — No quarteirão da frente estão construindo um prédio acho. Tem uma placa de um empresa de engenharia.
Jane achou suas chaves e fez um silêncio trancando a porta e correndo em direção a sue carro.
– Jane? Jane?
– É lá que ela está! — respondeu ela já ligando o veículo — O Martinez certamente pegou uns cartões nessa obra aliás onde executou o segurança, o flagrante foi armado, ele usa a área do galpão como QG! Frankie passe essa informação pro Korsak!
– Mas Jane, onde você está?
– Indo pra lá, da casa da Maura são 15 minutos a menos cortando por dentro do que da delegacia!
– Jane, espera, é mais seguro irmos juntos!
– Eu não vou esperar, me encontrem lá! — disse Jane desligando o aparelho e o lançando sobre o banco do carona. Em poucos minutos já estava excedendo o limite de velocidade permitido pensando em como mataria seu ex-parceiro.
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