Nu ma opri
6 Capítulo 6 – A loira, a morena e a ruiva
Notas iniciais
– Nós temos algumas perguntas para a stra. – Korsak falava num tom profissional enquanto a ruiva mantinha seu foco na outra detetive.
– Claro, pode falar.
– Em primeiro lugar você sabe que o estabelecimento em que trabalha serve de ponto de encontro para negociações digamos, não lícitas, correto?
– Isso é você que está dizendo, senhor...
– Você já presenciou alguma negociação desse tipo?
– Receio que não espontaneamente.
– Quer dizer que foi forçada a participar de alguma?
– Quero dizer que poderia estar no mesmo ambiente em que acontecia algumas dessas supostas negociações mas não que eu quisesse estar ali, logo não foi de livre e espontânea vontade que possa talvez ter presenciado alguma. Não é todo dia que estamos dispostos a ir ao trabalho não é? Vamos porque é necessário!
O detetive arqueou a sobrancelha e olhou para sua parceira com o canto do olho. Jane continuava em silêncio de pé na lateral da sala.
– Ela é esperta... – comentou Frost na sala de vidro.
– Sim. – disse Maura pensativa. — Está ganhando tempo para estudar eles.
– Qual sua relação com o Sr. Marcel Mitrea?
– Ele era o dono do estabelecimento, não? Então como o senhor mesmo acaba de afirmar que eu trabalho lá isso me torna funcionária dele.
– Só isso, apenas funcionária? – a outra acenou com a cabeça – Certo, e quais suas funções no seu trabalho, Stra. Montgomery?
– Eu faço apresentações.
– Apresentações... de que natureza?
– Creio que sua colega possa lhe detalhar bem. Lembro dela no camarote noite passada. Aliás, creio que não fomos apropriadamente apresentadas.
Maura pareceu incomodada com a maneira que a outra falou:
– Por que ela está tão interessada na Jane?
Frost deu um risinho cínico:
– Sei lá, talvez ela faça o tipo dela...
– Perdão, parece que pulamos essa parte. Sou o Sargento Korsak e a minha parceira é a Detetive Rizzoli.
A ruiva pareceu soletrar o sobrenome de Jane silenciosamente para ela mesma e ao final lhe deu uma piscadinha. A detetive sentiu os pelos do seu braço arrepiando e manteve um olhar fixo. Mesmo usando uma roupa comum, sem a maquiagem e a produção toda da noite anterior ela era uma mulher incrivelmente sexy e parecia saber que mexia naturalmente com a libido da morena.
Korsak se sentindo encabulado com a troca de olhares intensos das duas mulheres pigarreou alto.
– Creio que todos sabemos o tipo de apresentação que faz, Stra. Montgomery. Vamos ao que interessa então: qual a última vez que teve contato com o Sr. Mitrea? – Jane disse finalmente dando alguns passos em direção à mesa.
– Alison! – interrompeu a outra. – Pode me chamar pelo primeiro nome, detetive.
– Certo, Alison... quando falou com Mitrea pela última vez?
– Noite passada. Não tenho certeza do horário, foi antes de subir ao palco. Ele pediu para eu fazer algumas modificações na apresentação semana passada e veio checar se estava tudo preparado.
– Então só falaram sobre como seria sua apresentação? Mais nada? – interveio Korsak
– Não, na verdade ele também pediu para antecipá-la. Meu horário é às 23h, ele quis que eu iniciasse 1 hora mais cedo. – se virou novamente para Jane se debruçando de leve sobre a mesa em sua direção – Aliás, sei que nunca havia visto nenhuma anterior, mas o que achou da minha performance, detetive?
– Que oferecida! – disse Maura indignada, Frost apenas segurava o riso.
– Como sabe que eu nunca havia visto nenhuma apresentação sua, Alison? – Já que era para jogar, então Jane resolveu entrar de cabeça.
– Eu me lembraria se já tivesse te visto na boate, pode apostar!
– Como exatamente? Você consegue visualizar todos os espectadores mesmo estando no palco em meio uma coreografia tão...complexa?
A ruiva se recostou novamente na cadeira e mordeu de leve o lábio inferior:
– Digamos que apenas os que me interessam.
Maura soltou um bufo indignado que dessa vez Frost nem ouviu, estava realmente interessado no que estava acontecendo dentro da sala de interrogatórios.
– Então, — começou Jane puxando uma cadeira e sentando lentamente de frente para a outra mulher – quer dizer que você me viu lá. E eu estava no camarote. – Alison acenou com a cabeça olhando detalhadamente o corpo da detetive enquanto ela se ajeitava a sua frente – No mesmo camarote que o seu patrão, que creio seja alguém que também te interesse estar sempre, hum... visualizando. Logo, você viu o Mitrea se levantando em algum momento, não é?
– Por que, detetive? Você estava distraída demais para não vê-lo fazendo isso por conta própria?
“Droga, ela me pegou” pensou Jane irritada, ela podia continuar naquele jogo de provocações, mas sabia que estaria entrando em território perigoso, aquela mulher tinha prática e domínio demais do assunto. Por mais tentada que estivesse a continuar achou melhor mudar de estratégia e lançou uma pergunta que apesar de direta não deixava de usar um tom simpático na voz e sorrir:
– Pra onde ele foi, Alison?
– Não faço ideia! – a outra respondeu com um ar vitorioso no rosto.
– Por que ele mudou o horário da sua apresentação?
– Também não sei. Ele é meu chefe, não tenho que questionar determinadas ordens, apenas cumpri-las.
Após mais algumas perguntas Korsak percebendo que não havia mais o que fazer ali, liberou a ruiva que saiu rebolando suavemente, parou na porta e encarou Jane nos olhos, usando um tom mais safado na voz dessa vez:
– Foi um prazer ajudar, detetive. Espero te ver numa próxima apresentação!
Jane engoliu em seco sem responder nada. Logo na sequencia um policial veio trazendo outro funcionário da boate para dentro da sala.
Após uma cansativa manhã (que se estendeu pela tarde) de uma série de interrogatórios, todos estavam cansados e com fome. Jane saiu da sala já falando:
– Temos muita coisa pra juntar, mas antes vamos no Dirty Robber comer um bom hambúrguer?
– Com certeza! – responderam Frost e Korsak juntos. Maura mexia em seu celular.
– Maur? Vem com a gente?
– Não, obrigada. – ela respondeu de forma seca surpreendendo a todos — Os resultados de alguns testes que pedi mais cedo estão prontos, vou dar uma checada.
– Ok, mas é rapidinho, só vamos aqui do lado! – Jane insistiu — Você não está com fome?
– Eu pego algo na cantina, detetive, obrigada! – e se retirou com passos pesados.
– O que deu nela?? – disse Jane olhando para Korsak que estava igualmente bobo com a atitude da legista, Frost deu os ombros e foi andando em direção ao elevador seguido pelos outros dois.
Enquanto comiam Jane contou sobre a descoberta da arma preocupando seus colegas, depois concordaram em falar de amenidades até voltarem oficialmente ao trabalho. Já na sala todos abriram os fichamentos feitos durante os interrogatórios e após algumas horas de debate perceberam que não havia feito quase diferença alguma aquele trabalho todo.
– Melhor chamar a Dr. Isles para se juntar a nós. – disse Korsak retirando os óculos e limpando o suor da testa — Já concluímos que pelo que eles optaram por nos dizer não muda em nada a investigação, agora precisamos saber o que nos disseram sem querer!
Em poucos minutos Maura estava na sala com suas anotações também. Compartilhou suas suspeitas que de todos apenas dois apresentaram um comportamento suspeito: um dos manobristas e a Stra. Montgomery.
– Ok, do tal Ramirez até consigo entender, lembrando agora ele pareceu bem hesitante mesmo em todas as respostas mesmo as mais simples não havia convicção no que dizia e ele se atrapalhou sobre os horários do turno que cumpriu... Mas agora a dançarina? Tirando o fato que só faltou comer a Jane com os olhos não achei nada de anormal no comportamento dela. – comentou Frost em meio a um bocejo displicente.
Jane o encarou com cara feia e depois o quadro com as fotos e anotações do caso:
– Ela pode não ter mentido em nada que disse, mas acho que omitiu algo sim. Por que Mitrea iria querer mudar o horário de apresentação dela?
– Talvez por que era a última noite que ele tinha livre antes da tal negociação e queria assisti-la antes de partir já q fez algumas alterações no show?
– Como se precisasse mudar algo ali, aquela mulher é sexy de qualquer jeito... – Korsak percebeu que havia pensado alto demais e se apressou em falar qualquer coisa – Isto é... bom...alguém quer café? Estou indo na cantina pegar! – e saiu apressado da sala.
Frost levantou calmamente e disse que ia ao banheiro, no caminho começou a gargalhar sozinho.
Jane continuava de pé em frente ao quadro com as mãos na cintura e a testa franzida. Maura estava sentada sobre a mesa da morena olhando as próprias unhas:
– Você concorda com eles não é?
A detetive não se deu o trabalho de olhar a outra, apenas falou vagamente:
– Sobre o que, Maur?
– Você também a acha sexy. Tão sexy a ponto de quase não conseguir se controlar perto dela.
– Quê? Do que você está falando?
– Ora, você acha que eu sou realmente boba, não é, Jane? Você não estava interpretando naquele interrogatório, você estava gostando de flertar com aquela mulher!
Jane finalmente se virou de frente para a loira fazendo cara de ofendida, por alguns segundos ficou em silêncio até entender o que estava acontecendo ali: “Ela está com ciúmes de mim? Really?”
– Tanto quanto gostou da “performance” dela! – Maura fazia gesto de aspas com os dedos usando um tom de desdém.
Jane fazia um esforço tremendo para se manter séria, mas sorria por dentro estranhamente feliz com a demonstração de sentimento de posse da outra.
– Uma coisa que ela disse é verdade: você estava distraída demais para ver o Mitrea saindo daquela mesa, tanto quanto os meninos que acompanhavam tudo pela sua câmera escondida, por quê? Ah porque tinha uma ruiva sem classe dançando num palco!
Jane não se conteve e deu um riso fraco balançando a cabeça, o que deixou a outra ainda mais nervosa:
– Do que esta rindo? Você acha ruivas mais atraentes? Sabia que pessoas com cabelos ruivos têm duas vezes mais chance de desenvolver a Doença de Parkinson? E também são mais propensas a desenvolver câncer de pele e rugas prematuras?
De repente a detetive teve um estalo dando um tapa na própria testa e gritando em seguida:
– É isso! Maura você é um gênio! — nesse momento Frost e Korsak voltavam à sala então ela continuou olhando empolgada para os parceiros — O Mitrea sabia que nós estaríamos lá naquele horário, por isso antecipou a apresentação da Alison, justamente para distrair nossa atenção e poder fugir mais fácil!
Korsak concluiu:
– Então ele tem mesmo um informante e é daqui de dentro, muito provavelmente o mesmo que apagou o segurança hoje de manhã. – deixou o copo de café sobre sua mesa e foi vestindo o paletó – precisamos falar com o Cavanaugh, agora!
Os outros dois já o seguiam, Maura se levantou mas permaneceu encostada na mesa de Jane cruzando os braços.
A morena voltou e num ímpeto agarrou a legista pela cintura dando um beijo estalado em sua bochecha:
– Obrigada! E a propósito: eu prefiro as loiras, — a outra subitamente pareceu congelar na posição apenas arregalando mais os olhos – apesar de nós morenas sermos mais inteligentes...
Maura viu a outra se afastar com um sorriso debochado marcando as covinhas no rosto e assim que sumiu de sua vista se permitiu sorrir abobada nem ela sabia explicar ao certo com o quê.
Fale com o autor