Nu ma opri
13 Capítulo 13 – Surpresa
Notas iniciais
Maura acordou e abriu os olhos devagar, seu corpo estava mole e a cabeça doía muito. Levou um tempo para descobrir que não estava mais em sua casa e explorou o local com o olhar: estava num pequeno escritório formado dentro de um container: Na sua frente havia uma porta fechada, nas laterais janelas altas em fita que aparentemente não abriam, ela só para entrar luz, Viu uma outra porta, esta estava aberta, indicando que ali havia um banheiro minúsculo. Notou uma mesa com duas cadeiras num canto com prateleiras na parede e no outro um colchonete no chão onde ela estava deitada. Olhou seu corpo e viu que estava amarrada pelas mãos e pelos pés. Cogitou gritar por socorro, mas estava amordaçada também. Fazia um esforço mental enorme para não entrar em pânico, mas nem ela mesma acreditava que fosse conseguir se manter assim por muito tempo.
Jane e Korsak chegaram ao endereço de Alison, era num bairro afastado, num prédio baixo e bem antigo. Parecia quase abandonado de tão mal cuidado que eram os corredores. Os detetives chegaram na porta do apartamento e a abriram: estavam numa quitinete praticamente sem mobílias.
– Estranho... – comentou Korsak.
– O que foi? – disse Jane vasculhando o lugar com os olhos.
– Tivemos acesso a folha de pagamento dos funcionários que entrevistamos, Jane. E bem, a moça ganhava uma quantia mais que considerável por noite, porque alguém iria querer morar num buraco desses tendo condição de algo melhor?
A outra detetive nada respondeu, apenas começou a andar pela casa, encontrando um armário que pegava uma parede toda cheio de roupas e sapatos de grife:
– Bom, talvez por que ela invista nisso?
Korsak se aproximou:
– Digamos que são acessórios do trabalho dela, não? E mesmo assim, não daria pra gastar tudo com roupas e sapatos, daria? – Jane deu os ombros – Imagino que o closet da Dra. Isles se pareça mais ou menos com isso...
– É pior, pode ter certeza! – respondeu a morena dando um sorriso que logo desfez –Não consigo entender por que levaram a ela também. Já tinham a pessoa que queriam...
Korsak pôs a mão no ombro da parceira e a encarou nos olhos:
– Nem eu, Jane. Mas nós vamos acha-la, está bem? Vamos trazer Maura de volta!
Jane soltou um suspiro profundo e apertou a mão do amigo. Korsak viu um notebook sobre a cama e foi pega-lo para levar para Frost analisar. Depois se encaminhou ao criado-mudo se deparando com um porta retrato, o levantou e ficou analisando a foto, que era bem antiga, algum tempo. Jane apareceu atrás dele:
– É uma senhora bem bonitona. Acha que é a mãe?
– Provavelmente, os traços lembram bastante o dela. – respondeu o outro tirando a fotografia de dentro do porta retrato para levar também. – Jane, tem algo escrito aqui no verso, mas não consigo entender, que língua será essa?
A detetive passou os olhos pela escrita e se arrepiou:
– Por que eu tenho o péssimo pressentimento que é romeno?
Maura se concentrava em achar uma saída daquele lugar mas sem sucesso. Sequer conseguia se levantar amarrada como estava, então tentou reconstituir o que havia ocorrido antes de parar ali: após o beijo repentino de Jane seguido de sua praticamente fuga, ela permaneceu um bom tempo parada na própria porta encarando a rua escura pela qual a detetive havia virado com o carro na esperança que ela fosse voltar. Percebendo que isso não ia acontecer entrou na casa e sentou no sofá. Ainda sentia o gosto do beijo da detetive e aquilo mexia com ela, não se lembrava de ter se sentido nunca daquele jeito ao beijar alguém. A outra pareceu tão envolvida quanto ela, todos aqueles sentimentos confusos então eram correspondidos? Mas se Jane também a amava por que foi embora daquele jeito? Talvez não a amasse, mas então por que a beijou? Maura se sentia sufocada pela própria confusão mental e quando menos esperou já estava chorando. Se permitiu chorar até que se esgotasse, não fazia ideia do que poderia fazer além disso. Pela manhã após uma noite pessimamente dormida, foi ao banheiro e viu seus olhos inchados. Lembrou da festa de aniversário do sobrinho de Jane e que em breve a família toda dela estaria em sua casa, e ela também, claro. Será que a trataria mal? Fingiria que nada aconteceu ou simplesmente a beijaria de novo? Viu seus olhos começarem a encher de lágrimas de novo só de pensar em tantas dúvidas e desceu para preparar um chá de camomila, precisava de acalmar. Deu de cara com Angela e evitou prolongar qualquer conversa. Ainda não estava mentalmente preparada para saber como agir naquele dia. A mulher se retirou e ela foi para se quarto, precisava de um banho longo de preferência. Preparou a banheira com sais, ligou o aparelho de som numa música clássica e permaneceu o tempo que julgou necessário meditando em seu banheiro. Já havia saído do banho e colocado uma roupa para a ocasião, mas não parava de se analisar no espelho pensando se estava bom ou não, o que Jane acharia. Jane, Jane, todos os pensamentos da loira pareciam girar em torno dela agora! Fez uma maquiagem leve, trocou de sapato umas três vezes espalhando todos pelo caminho de nervoso até escolher um básico preto que combinava perfeitamente com sua saia cor de vinho e a blusa de seda creme. Arrumou um pouco mais os cabelos quando ouviu alguém batendo na porta do quarto. Suspirou ensaiando um sorriso para Angela, a fim de desfazer a primeira impressão do dia que certamente causou na italiana quando deu de cara com Alison. A partir dai tudo ocorreu muito rápido, a ruiva a empurrou com força para trás, ela caiu batendo as costas na base da cama e puxando os lençóis de cima dela. A outra se aproximou numa velocidade absurda pegando o abajur de cima do criado mudo e derrubando tudo que havia em cima dele, Maura tentou se levantar mas a outra a golpeou fortemente com o objeto. Desmaiou, e estava agora naquele lugar, ainda confusa, ainda mais pensando em Jane, só que dessa vez na esperança que a morena aparecesse logo para a tirar dali.
Jane e Korsak estavam de volta à Central juntando novas peças àquele quebra-cabeças maldito que parecia ser o caso desse romeno. Frost foi logo ao encontro de Jane com o celular de Maura em mãos:
– Não achei nada relevante, só tem uma coisa que talvez você vá ter que se preocupar... – Jane o encarou esperando que continuasse – Ela tem uma foto de você dormindo de boca aberta, babando, que é muito engraçada. Pensei em usar no meu fundo de tela do computador!
– Frost!! – a morena deu um tapa no braço dele com ar realmente bravo, o rapaz riu depois falou de novo:
– Brincadeira, era só pra dar uma descontraída. O número que ligou pra ela mais cedo eu rastreei, é de um hotel em Nova York, dei uma conferida na lista de hóspedes e, bom, Constance Isles fez check-in ontem a noite lá.
– Eu não quero alarmar a mãe dela, mas também se a mulher começar a ligar direto e ela não atender pode ser pior... – resmungou Jane – Ah, me passa o número do hotel, se até amanhã a noite não tivermos notícias da Maura eu ligo pra falar com a Constance.
Frost obedeceu dando um papel com as anotações juntamente com o celular da loira. Jane sentou em sua mesa e curiosa procurou pela foto que o parceiro havia falado. Encontrou-a numa sequencia de fotos das duas, hora fazendo careta, hora rindo ou fazendo pose... Jane se lembrava perfeitamente daquele dia. Era pra ser um passeio de final de semana idealizado por Maura que cismou que elas deveriam conhecer um restaurante no meio de um lago numa cidade próxima. O que era pra ser divertido acabou se tornando um inferno: pegaram horas de trânsito, perderam a balsa que levava até o restaurante, quando finalmente chegaram lá a luz acabou, não tinha mais da metade dos pratos anunciados e no fim elas nem acharam a comida tão boa. A única distração que a legista encontrou pra amenizar o mau humor da morena na volta foi tirar fotos, incluindo aquela de quando Jane se deu por vencida e dormiu, só acordando quando estavam em Boston já. Apesar de tudo Jane havia adorado aquele dia, qualquer um dos momentos desfrutados a sós com a loira pareciam ser os melhores que ela vivia.
– Jane, novidades! – disse Korsak tirando a morena de suas lembranças – Da lista dos pertences da Alison não faltava nada no quarto de hóspedes, Frankie pediu uma dispensa da entorpecentes para nos ajudar e foi no camarim dela na boate mas não havia nada pessoal lá; eu já scaneei aquela foto, mandei pra uma equipe de tradução, em breve teremos a resposta do que está escrito!
– Beleza! Frost e o notebook que trouxemos?
– Tá mais difícil do que eu esperava pra entrar nele, Jane... a garota é boa em codificação, é um sistema complexo de segurança, deve ter coisas bem importantes aqui!
– Ok, vou no laboratório ver se a Susie achou mais alguma coisa então.
Jane foi até o necrotério, sentindo uma certa agonia ao passar pela porta de vidro e ver o escritório de Maura vazio. Entrou no laboratório de análises apertando as cicatrizes das mãos. Susie logo veio em sua direção:
– Pedi urgência para o processamento do DNA do sangue encontrado no abajur e do fio de cabelo ruivo, infelizmente o sangue é da Dra. Isles e o fio de cabelo da Stra. Montgomery. Alguma chance de ter sido a dançarina que a golpeou, detetive?
– Eu já não duvido de mais nada nesse caso, Susie. – respondeu Jane preocupada. –Saiu do laboratório entrando num banheiro, ficou se olhando no espelho não conseguia parar de pensar que a ideia de deixar a ruiva ir para a casa de Maura fora dela, logo foi a própria detetive que colocou a amiga em risco. Sua cara estava péssima, já era noite e nem sinal de Maura, uma lágrima tímida de raiva e remorso começava a rolar de seus olhos, a secou e lavou o rosto jogando água violentamente.
Maura após horas de esforço havia conseguido dar uma afrouxada nos nós, mas estava definitivamente longe de soltá-los. Já havia descoberto também que a luz que entrava pelas janelas não era natural e portanto não fazia ideia de quanto tempo havia se passado, mas imaginava que o dia estivesse no fim. Ouviu duas vozes do lado de fora da onde estava. Uma era feminina e a outra masculina, aparentemente discutiam, mas o som estava muito abafado para Maura entender o que diziam exatamente. A porta se abriu de repente e Alison entrou trazendo um copo d’água e um prato com um sanduíche. Colocou-os na mesa e se aproximou de Maura sacando um canivete do bolso da jaqueta que usava:
– Imagino que você esteja com fome. Vou te soltar para que possa comer, ok?
A loira se encolheu assustada quando a outra se aproximou mais:
– Qual é, Doutora eu não vou te machucar, se quisesse já teria feito isso, não?
Cortou as amarras e tirou a mordaça que prendiam Maura que logo disse em tom agressivo:
– Creio que sua tentativa de esmagar meu osso occipital já corresponde a ter me machucado! – a ruiva franziu a testa – O golpe que você me deu com o abajur causou um hematoma mediano na parte posterior inferior do meu crânio!
A ruiva arqueou uma sobrancelha e guardou de volta o canivete sem soltar os pés da outra. Permaneceu um tempo ajoelhada olhando nos olhos claros da mulher com aquele ar enigmático que normalmente tinha. Depois pegou o copo e o prato deixando-os no chão ao lado da legista e saiu trancando a porta novamente. Maura ficou encarando a comida sem saber se devia consumi-la ou não. Não estava realmente com fome, então se lembrou daqueles documentários sobre sobrevivência que eventualmente assiste e concluiu que já que haviam lhe dado a chance era melhor se manter forte, não sabia o que mais estava por vir, muito menos o que poderia lhe acontecer dali pra frente.
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