Nowhere
1 Capítulo Um
Notas iniciais
A professora batia a régua na própria mesa a fim de chamar a atenção dos adolescentes em sua classe. Alice Smith era o tipo clássico de professora. Com seu coque apertado em sua cabeça e sua vestimenta impecável, ela era o pesadelo de qualquer adolescente comum. Gostava de gritar ordens e ser superior. "Não explicarei novamente" Disse ela, obviamente irritada com a situação "Formem grupos de no máximo seis alunos!" Olhou para baixo, enrugando ainda mais sua testa "Ninguém ensinou a vocês que lugar de lixo é na lixeira?" ela resmungou, juntando uma bucha de papel que havia sido jogada no período anterior.
"Não entendo porque temos que fazer tudo em conjunto se tudo o que fazemos nessa aula é escrever cronicas" reclamou Tasha, movendo sua mesa para que está ficasse ao lado da de Theo, que mantinha a classe no lugar enquanto encarava o nada. Natasha era a força bruta do grupo, mas não gostava de valentões — por isso batia neles. Ela era mais forte do que aparentava, pois possuía braços finos. Seu cabelo parte loiro e parte moreno, curto nos ombros, estava sempre bagunçado, e era uma surpresa para seus amigos que ela não tinha cortado ainda mais curto.
"Eu gosto de escrever cronicas" Comentou Tessa enquanto virava sua mesa para ficar de frente para Theo, que ainda não havia saído do seu estado de vegetação. Theresa era a mais esperta do grupo, e a mais positiva também. Gostava de sonhar acordada e escrever. Suas habilidades eram quase inúteis para ela, que já era inteligente por mérito próprio. Podia ler pensamentos quando quisesse, mas gostava de ser educada e justa — e aquilo não era justo. Seus amigos notavam manias estranhas vindo da garota, que, pelo contrário, agia como se tudo fosse normal. "Mas todos somos capazes de escrever sozinhos" Disse ela enquanto arrumava seus cabelos ruivos pela centésima vez.
"Você só diz isso porque você escreve bem" Retrucou Ben, que colocou sua mesa ao lado da de Tessa. Benjamin era o veloz — e o impaciente do grupo. Para ele o mundo era rock no ultimo volume e RPG. O curioso é que, por mais veloz que ele fosse — e ele era muito — Ben nunca chegava na hora, ou estava muito adiantado ou extremamente atrasado. Ele gostava de brincar com os amigos, retrucando eles com um ar de desafio. Ele sorria, estreitando ainda mais seus olhos. Seu cabelo era escuro como seus olhos e curto nos ombros como os de Tasha.
"Olha quem fala" Theo sorriu sem vontade, mal humorado por ter que aturar os amigos em mais uma tarefa idiota. Theodore era um hibrido, as vezes amava algo e as vezes odiava. O imprevisível do grupo, ele tinha as habilidades partidas, assim como sua personalidade. As vezes ele era um anjo e as vezes um demônio. Ele era extramente magro e comia como um leão. "Você vive escrevendo suas fanfics".
Ben esboçou uma careta de desagrado "É para o jogo" explicou-se "e você não sabe de nada".
Lily arrastou sua mesa até a ponta da grande mesa que haviam formado em silencio, ela era observadora e calada, mas falava bem. Lilian vestia-se com vestidos largos e sandálias trançadas, seu cabelo era estilo black-power e ela era razoavelmente popular, tanto pela simpatia tanto pela beleza. Gostava de seus amigos novos, e não se importava com as diferenças deles. Ela era suave como as flores que brotavam em seu cabelo — uma consequência das habilidades dela, que podia controlar as plantas.
Quando todos na sala de aula finalmente terminaram de se organizar e a professora Smith certificou-se de que não havia nenhum tipo de lixo no chão, ela foi até sua mesa e sentou-se na mesma, ficando mais escorada no móvel do que sentada. "Agora: prestem atenção, vou lhes ditar o tema!" Anunciou ela. Quase todos os alunos cessaram as conversas e alguns pegaram as canetas para anotar as informações futuramente ditadas pela professora. No entanto, Alice Smith vacilou quando ouviu uma batida confiante na porta.
Ela levantou o dedo indicador para os alunos, pedindo para que os mesmos aguardassem por um momento, e, saindo de cima da mesa, ela caminhou pomposamente até a porta. O som dos saltos dela incomodou alguns dos alunos, que continuaram quietos, curiosos para saber quem estava atrás da porta. "Será que descobr..." começou Ben. "Cala a boca" Tessa o cortou "Por favor" acrescentou rapidamente, sorrindo para o amigo antes de voltar a olhar para a porta, que já havia sido aberta.
Do outro lado da porta encontravam-se duas pessoas, uma familiar e outra não. A familiar era a coordenadora da escola, a qual nunca ninguém lembrava o nome. Ela era baixa demais e seu rosto era triangular. A pele era manchada e os cabelos possuíam uma coloração estranha, como se misturasse muito as cores. Ao lado da coordenadora estava de pé um homem muito mais alto que ela. Ele tinha um rosto sério, quase assustador, seus olhos eram muito claros e seu cabelo loiro estava penteado para trás. Ela vestia o uniforme da escola, ele vestia um terno preto. Ela estava entre os cinquenta e poucos anos, ele parecia ainda estar na fase dos trinta.
A professora Smith abriu um sorriso simpático — e falso -, dando espaço para a coordenadora e o homem entrar na sala, e eles assim o fizeram. Quando os dois passaram pela professora, a mesma olhou para os alunos de forma ameaçadora, levando seu dedo indicador até a frente dos lábios, indicando silencio. A coordenadora e o homem pararam, centralizados em comparação ao quadro atrás deles. Todos os olhos estavam neles.
A coordenadora não vacilou, assim que notou que tinha a atenção dos alunos, começou: "Bom dia" Foi interrompida por um coro de "Bom dia" vindo da classe. A professora Smith sorriu, contente com a educação de seus estudantes. "Lamento informar a todos vocês que o nosso antigo diretor, o senhor Underwood, está com sérios problemas de saúde e por isso não poderá exercer o cargo de diretor por um tempo." Continuou ela com sua voz tranquila, como a de uma enfermeira trazendo péssimas noticias "Por sorte, temos aqui um substituto a altura. Senhor Kevgard?" Olhou para o lado, dando a palavra a ele.
O senhor Kevgard sorriu levemente para a coordenadora, dando um passo a frente enquanto olhava para os alunos, um por um, ele analisava os rostos que o encaravam de volta. "Bom dia" Foi interrompido por um coro de "Bom dia" vindo da classe. Ele não pareceu se incomodar. "Me chamo Kevin Kevgard, e serei seu diretor por tempo ilimitado. É um prazer conhecê-los, e sintam-se a vontade a me procurarem em minha sala. Ajudarei no que for preciso." Ele então terminou o seu breve discurso com um sorriso simples, sem nem ao menos mostrar os dentes. Olhou para a professora Smith e assentiu para a mesma, que se dirigiu aos alunos.
"Alguma pergunta?" perguntou ela, torcendo para os engraçadinhos do fundo não desrespeitarem o novo diretor. Vários dos alunos apenas piscaram, sem demonstrar nenhuma reação, com o tempo, eles foram negando com a cabeça. "Certo". E virou-se para o diretor, sorrindo outra vez. "Muito obrigada, diretor Kevgard".
...
"O que acharam do novo diretor?" perguntou Tessa, olhando para os amigos com expectativa. Era ela quem normalmente iniciava os assuntos na hora do intervalo. Todos os cinco estavam sentados na mesa, apesar de ter mais pessoas presentes, como os melhores amigos deles. Era estranho explicar a relação deles, que ficaram amigos porque estudavam na mesma turma, e os antigos melhores amigos permaneceram em outra.
"Ele é bonito" Disse Mackenzie, a melhor amiga de Tasha. Ela era a famosa líder de torcida bobinha, só que não era tão boba assim. Seu cabelo loiro escorria por toda a cintura da garota enquanto era preso em um rabo-de-cavalo. Vestia seu uniforme de torcida, bordô e branco. "E higiênico." Ela também era maniaca por limpeza.
"Você não pode saber disso" Argumentou Tasha, fazendo uma careta enquanto mastigava. "Você cheirou o cara?" Havia algo cômico em seu voz. Ben segurou o riso.
"Claro que não!" Mackie fez beicinho, fingindo estar irritada com a provocação. "Apenas sei" Fechou os olhos, convencida, sorrindo em seguida.
"Eu acho ele sinistro" Ben opinou, arqueando uma de suas sobrancelhas "O cara parece suspeito de um crime"
Theo revirou os olhos. "Só diga que o achou bonito também, idiota" Seu tom era ríspido, mas Ben não deixou de sorrir.
"Ei" Tessa chamou a atenção para si "Parem com isso". Obedecendo, ambos se acalmaram e dedicaram os segundos seguintes em seus lanches.
Lily parecia pensativa, olhava para o próprio colo enquanto comia seu iogurte. Tessa olhou para a amiga e a cutucou no ombro, checando se a mesma estava bem. Com um aceno positivo de cabeça e um sorriso curto, Tessa convenceu-se de que a garota apenas não queria conversa. E por um momento, todos se contagiaram com o silencio de Lily e continuaram assim até o sinal bater. Por cinco minutos, todos continuaram sentados, encarando o nada. De repente, todos se levantaram e rumaram para suas salas. No meio do processo, uma garota segurou no braço de um de seus amigos.
"Ei, Ben?" Tessa o chamou discretamente "Pode me ajudar com a biblioteca mais tarde? Estou sozinha no clube hoje e você, até onde sei, é o único sem planos." Ela sorriu como se implorasse para ele ajudá-la com os livros. Ela era responsável pela organização da biblioteca, juntamente com algumas outras garotas, mas nenhuma delas era tão responsável como Tessa.
"Ahn... Sim, claro" Ele sorriu, meio que sem jeito, mas contente em poder ajudar. "Que horas?"
"Depois da aula" Respondeu ela animada. Tessa o soltou e ambos saíram da cantina.
...
A biblioteca estava mais desorganizada do que de costume, e Ben não era muito organizado para poder criticar a bagunça alheia. Havia livros didáticos e comuns por todo canto, jogados um em cima do outro; alguns estava abertos em uma pagina aleatória, outros estavam pendurados, como se estivessem tentando escalar as estantes. Havia papel jogado para todo o lado, alguns eram das fichas do alunos, outros eram paginas rasgadas. A biblioteca era um lugar charmoso que o garoto não costumava visitar, e mesmo assim, sentiu-se triste com a condição do local.
As janelas de vidro eram altas e eram responsáveis por ventilar a sala, mas uma delas estava quebrada, havia pedaços de vidro em volta daquela janela. O tapete que envolvia toda a sala era vermelho escuro, e no momento estava todo sujo de lama seca. As poltronas, a mesa da coordenadora e as estantes eram as únicas coisas que não estavam em uma situação de dar dó.
"O que diabos aconteceu aqui?" Perguntou Ben. Tessa sorriu e andou com cuidado pelo local, pegando alguns livros e os sacudindo com cuidado antes de segurá-los em seu colo. Tessa abriu a boca para responder, mas o garoto interveio "Não, não responda. Eu vou adivinhar." A garota revirou os olhos, ainda sorrindo, achando graça do amigo. "A janela está quebrada e o tapete está sujo de lama, considerando que houve uma tempestade a três dias atrás, eu sugiro que o vento forte quebrou essa janela e revirou os livros, mas não com força o suficiente para mover as estantes. O lodo foi produzido graças a chuva que caiu para dentro da biblioteca. Como foi a três dias, os livros e a lama secaram, deixando só o rastro da destruição."
Tessa largou uma torre de livros no chão, perfeitamente empilhados um em cima do outro e encarou o amigo, batendo palmas lentamente. "Bravo, muito bom!" Ela sorriu. "Parabéns, Sherlock Holmes"
"Eu acertei?" Perguntou ele, gostando da reação dela. Ele gostava de estar certo, assim como todo mundo, mas era uma satisfação para ser inteligente em frente a pessoa mais inteligente da escola. Ben sorria, esperançoso.
"Não, a escola foi invadida. Vândalos." O sorriso dela aumentou "Mas valeu a tentativa".
"Droga" Murmurou ele, desfazendo o sorriso de propósito. Ele passou seu olhar pelo chão, olhando para os livros como se esperasse que um deles lhe chamasse a atenção. Por fim, acabou por ajudar a amiga, recolhendo os livros didáticos e os separando em pilhas nos chão. Era um trabalho cansativo, mas optou por fazê-lo em silencio, assim estar mais concentrado.
Do outro lado da biblioteca, Tessa fazia o mesmo, mas de uma maneira peculiar. Com a ajuda de suas habilidades, ela levitava os livros e os pousava em suas respectivas pilhas. Sabia que o uso daquele recurso, no fim, a deixaria exausta, contudo, era mais eficiente e rápido daquela forma. Ben sabia o que a amiga estava fazendo, e lamentou não poder fazer o mesmo, pois sua velocidade apenas espalharia ainda mais os papéis.
Quando os livros estavam todos empilhados no chão, Tessa e Ben passaram a recolher os papéis lendo-os um por um antes de decidir se jogavam fora ou não. Havia fichas, cartas, bilhetes, recados, anotações, folhas de rascunho, provas, trabalhos, textos, cartazes, blocos de notas, buchinhas, folhas levemente rasuradas; todas contendo coisas únicas e muitas contendo coisas sem sentido. Porém, um bilhete em especial chamou a atenção de Tessa, fazendo-a ler em silencio antes de gritar para Ben. "Vem aqui. Agora."
Ele rapidamente obedeceu, correndo até a amiga e parando ao seu lado, dobrando o joelho a fim de ficar na mesma altura dela — que era baixa em relação a dele -, lendo silenciosamente o bilhete. Sua expressão transformou-se de curiosa para questionadora. Ambos os amigos trocaram um olhar preocupado, pensando o que poderia significar aquele bilhete.
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