Nowhere

2 Capitulo Dois


Notas iniciais
Perdão por qualquer erro. Espero que gostem!

Lily estava escovando os dentes quando ouviu seu celular notificar algo. O aparelho estava em cima da cama da garota, mas era possível ouvi-lo apitar do banheiro, que ficava em um cômodo em frente ao quarto dela. Cuspiu na pia, lavou a boca e a escova de dentes, que fora pendurada do lado de dento do espelho-armário. Após secar o rosto e as mãos, a garota caminhou sem pressa até o quarto, pegando o celular antes de deitar na cama.

Seu quarto era comum, as paredes eram cor de gelo e o forro era tapado por aqueles adesivos que brilhavam no escuro, em uma luz esverdeada. O seu roupeiro mantinha as portas fechadas, mas as roupas lá dentro estavam muito bem organizadas. A penteadeira na outra parede, que ficava de frente para a cama da garota, possuía poucos produtos de maquiagem, mas estava mais desorganizada que o normal. Um tapete pequeno em formato de uma cabeça de sapo enfeitava o chão, e também era o único enfeite do quarto. Lily apreciava coisas mais discretas.

Vestia um pijama fresco e curto, pois fazia calor naquela noite. Sem nada nos pés, ela começou a movimentá-los para lá e para cá enquanto verificava a notificação. Na tela, era possível enxergar o grupo de mensagens de seus amigos de turma. Lily não costumava dar sua opinião naquele grupo, nem falar muito sobre si. Não era por vergonha ou timidez, ela era apenas reservada, o que era estranho até para ela, que possuía uma grande quantidade de amigos.

Abriu o grupo com um toque, e este apareceu na tela.

Tessa: Galera

Eu e o Ben encontramos um bilhete curioso na biblioteca

Theo: Manda foto

Ben: Acho melhor conversarmos sobre isso amanhã, já tá tarde

Pra vcs, é claro

Theo: Exatamente por isso, tá tarde

Pra quê ficar enrolando? Suspense a essa hora da noite?

Lily conferiu a hora na barra de cima do seu celular. Era onze e quinze da noite. Olhou ao redor e ligou o abajur ao lado de sua cama. Levantou da cama com um pulo só, indo até o interruptor de seu quarto e desligou a luz, ficando só com a fraca luz do objeto em cima da mesinha. Voltou a deitar-se na cama, levantando o celular até seu rosto para continuar acompanhando a discussão.

Tasha: Que seja, amanhã não vou ir pra aula

Tessa: Por quê???

Ben: Tá doente?

Theo: Preguiça é doença agora?

Tasha: Me conhece tão bem sz

Tessa: Só porque temos novidades

Eu odeio vocês

Lily: Podemos combinar de almoçar juntos em algum lugar, ou tomar um café...

Ela enviou a mensagem, perguntando-se se seus amigos gostariam da ideia, que era meio boba. Talvez eles tivessem planos ou sem dinheiro para comer fora. Lily sabia que era inútil pensar nessas coisas, mas sempre o fazia. Esperou uma resposta, que pareceu demorar horas para chegar. Tessa está digitando... Ben está digitando... Theo está digitando... Tasha está digitando... Parecia não ter fim.

Tessa: Uhum :3

Pode ser na minha casa!

Theo: Ok

Ben: COMIDA GRÁTIS

Theo: Tomara que morra engasgado

Ben: Vai torcer a toa

Tasha: Um quarto pra esses dois por favor

Ben: O QUE?

NÃO

NÃO COMEÇA NATASHA

Tessa: Ele ficou nervoso

Theo: Há pessoas melhores pra se estar em um relacionamento :)

Ben: To confuso

Apertando no botão lateral de seu celular, Lily fez com que seu celular se desligasse, assim não acordaria com as notificações. Gostava de assistir a interação do grupo, eles eram realmente engraçados e Lily deixava escapar inúmeras risadas em determinados assuntos, mas já era tarde da noite e a garota gostava de contemplar um pouco de si mesma no silencio antes de dormir.

Assim que colocou a celular em cima da mesinha e desligou o abajur, sua cabeça deitou em seu travesseiro e aconchegou-se no mesmo. Essa era a hora de pensar. O silencio da noite deixava seus pensamentos mais claros, divididos e até perigosos. Pensou no que iriam comer na casa de Tessa, e torceu pra que fosse algo que ela gostasse. Odiava ir comer em outros lugares e ter a infelicidade de não aprovar a culinária do outro. Uma vez sua avó preparou uma espécie de lasanha e Lily odiou comer aquele prato, que era feito com carne.

Pensou em como a vida era estranha, em como as coisas aconteciam e se resolviam com o tempo. Ou não. Velhos amigos se foram de sua vida e não voltaram e seus assuntos não foram resolvidos. Era estranho. Seu grupo de amigos era fora do comum e mesmo assim parecia ser tão comum quanto os outros. Theo podia curar ou colocar fogo em coisas, Tasha podia erguer um carro com o polegar, Tessa fazia de tudo com o pensamento e Ben era quase o The Flash de tão rápido. E ela era quase uma planta humana. E mesmo assim, mesmo sendo tão diferente das outras pessoas, que pareciam ser completamente comuns, eles ainda assim conseguiam se misturar.

Novamente pensou no que o destino lhe reservava. Por que aquelas habilidades foram concedidas a ela e seus amigos? Por que fez amizade com eles? Justo com eles que eram tão diferentes como ela? Tudo o que ela queria era respostas e nenhuma teoria fazia sentido. Suspirou. Algo dentro dela queria gritar para o mundo o que ela podia fazer, pedir ajuda, pedir orientação. Contudo, sabia que era um risco. O mundo era cruel. Pessoas machucavam pessoas por cor de pele, por orientação sexual, por dinheiro, por qualquer outro motivo. Não importava o motivo, eles sempre procuravam por um. E suas habilidades, assim como a cor de sua pele e sua orientação sexual, seriam um motivo.

Fechou os olhos, jogando todos os seus pensamentos para fora de sua mente. O peso de suas pálpebras aumentou até que finalmente ela caiu no mundo dos sonhos, onde pensou que encontraria paz.

...

Não lembrava como o caos começou, talvez não houvesse chegado a tempo. Sentia a terra tremer abaixo de seus pés. Mas ele não tremia, não se permitiu sentir medo naquela situação. Olhou ao redor. Pessoas correndo, gritando nomes — provavelmente de amigos e familiares -, o pânico estava no ar. Theo observou a poeira erguer-se conforme as pessoas corriam, havia areia nas ruas da cidade e o sol parecia ter abandonado o planeta. O céu estava pálido, sem cor, fazendo um movimento para cima, como se quisesse abraçar o planeta. Ou sufocá-lo. Os prédios tornavam-se ruínas, sendo erguidos para cima.

No céu, um grande buraco negro pulsava como um coração gigante. Ele produzia um vento forte como um furacão, e era quase tão congelante quanto uma tempestade. Visto de longe ele era apenas um ponto no céu e em um piscar de olhos, ele abriu-se completamente. O garoto abriu a boca e permaneceu parado enquanto os outros corriam, era inútil correr, ele os engoliria de qualquer maneira, destruiria todos sem piedade. Ergueu sua mão até o fenômeno, querendo tocá-lo, senti-lo. Ouviu vozes em sua cabeça. Vozes femininas e masculinas.

"Não, ele não!" gritou uma voz feminina. Sentiu o desespero em sua voz, mas não conseguia produzir uma silhueta para ela. Quem estava falando afinal? Sua visão tornou-se borrada, e tudo ao seu redor parecia passar como um flash. Um flash em vermelho.

"Eu irei voltar" Uma outra voz, masculina desta vez, dizia como se sua vida dependesse destas palavras "Eu prometo". Theo sentiu-se frustrado, como se soubesse que a promessa nunca seria cumprida. E, de certa forma, ele sabia. A voz lhe era familiar, mas não sabia dizer de onde.

Ouviu um estrondo. Gritos. Agonia. Sentiu raiva, tristeza, paixão. Em um turbilhão de sentimentos, ouviu o som de vidro enquanto o mesmo se estilhaçava de encontro ao chão. Silencio. Tudo se tornou escuro e ele sentiu seu corpo ser engolido por inteiro. Toda a sua história, seus medos, seus pensamentos, seus amores, seus amigos, suas lembranças, sua família, sua vida. Cada parte dele fora consumida.

Quase sem ar, Theo ergueu seu tronco, tentando recuperar o folego. Seus olhos se abriram, arregalados com o pavor dos acontecimentos. Respirou fundo diversas vezes, acalmando-se com o passar dos minutos. Ele suava. Levou a mão direita ao peito, garantindo que estava mantendo o controle. Olhou para a parede ao lado, onde um relógio marcava as horas. 03:48 da manhã. Esfregou seus olhos, revirando os mesmos em seguida. Pesadelo. Atirou-se para trás, voltando a deitar.

Estava seguro em seu quarto, ou o que restara do cômodo. Theo não gostava que ninguém entrasse em seu quarto, mas também não gostava da ideia de limpá-lo. Havia montes de roupas espalhadas pelo chão, roupa suja que ele levaria para lavar no outro dia. Sua escrivaninha estava lotada de livros e cadernos que ele usava para estudar. Algumas partes dos moveis estavam levemente tostadas por conta de acidentes com suas habilidades, que costumavam sair do controle quando ele ficava muito irritado.

Com um suspiro, ele fechou os olhos. Gritos. Poeira. Buraco negro. Abriu os olhos, não suportando visualizar aquelas imagens outra vez. Precisava pensar em outra coisa, livrar-se daquela sensação frustrada. Mas no que poderia pensar? Era noite, não havia sobre o que ponderar. Tomando uma decisão, Theo levantou-se sem enrolação. Trocando seu pijama — que na verdade era apenas roupas velhas — por roupas apresentáveis. Vestiu uma calça jeans, uma camiseta preta e uma jaqueta da mesma cor. Calçou o primeiro tênis que viu atirado pelo seu quarto e saiu apressado para fora do cômodo.

Sair de casa não foi um problema, seus pais tomavam remédios pesados para dormir. Ele cruzou o corredor e desceu as escadas, atravessando a sala de estar até a porta da frente, abrindo-a e fechando-a assim que passou por ela. A noite estava quente, as ruas estariam vazias se não fosse por alguns moleques conversando nos cantos, todos de blusa cor de grafite e montados em bicicletas. A luz dos postes iluminava a rua, e com isso, Theo pôs-se a caminhar.

Conhecia bem o caminho que estava trilhando, todas as noites em claro, ele passou nesse lugar. Era ótimo, de certa forma, o fazia bem. Na escola, ele era reconhecido como um adolescente rebelde e inconsequente. E ele era. Mas não apenas isso. Por mais reclamão e durão que fosse – ao menos na frente dos amigos -, Theo também possuía seu lado bom. Aquele que raramente se mostrava.

Com as mãos no bolso da calça, ele caminhava a passos largos, esperando chegar logo. Nessas horas, gostaria de ser rápido como Ben. Theo poderia voar até lá, mas não gostava da sensação. Preferia ir andando, mesmo que demorasse mais. E quando finalmente chegou, suspirou ao notar que as luzes do hospital ainda estavam acesas.

Entrou no local, sentindo-se melhor com o cheiro de produto de limpeza. Apesar de seus amigos odiarem aquele cheiro, Theo gostava. Era estranho. Limpo. A entrada era a sala de espera. As paredes eram brancas, muito limpas, apesar da tinta estar descascando aqui e ali. As cadeiras de espera eram similares as da escola, porém com almofadas no assento e na área das costas e todas estavam alinhadas em uma das paredes. Algumas pessoas estavam sentadas nelas, esperando atendimento ou um paciente já atendido. Do outro lado da sala havia um balcão, onde algumas enfermeiras teclavam coisas no computador enquanto conversavam entre si. Havia um elevador na parede ao lado, assim como um corredor para algumas salas.

Theo decidiu ignorar as enfermeiras, que nem sequer haviam notado a presença do garoto, e foi até o elevador, retirou uma de suas mãos do bolso e apertou no botão para chama-lo. Segundos depois, as portas do elevador abriram. Estava vazio. O garoto entrou no elevador e apertou no numero cinco. As portas se fecharam e o elevador rumou para cima. Theo permaneceu parado, ouvindo o som suave que o mecanismo do elevador produzia.

Quando chegou no andar cinco, as portas do elevador se abriram e revelaram um corredor simples. O garoto saiu do elevador e caminhou pelo corredor, procurando por uma sala vazia. O corredor do andar cinco possuía um piso bege e as paredes igualmente brancas. As salas possuíam portas e janelas de vidro, sendo uteis para Theo, que verificava o paciente e as enfermeiras que os acompanhavam. Foi até o fim do corredor, encontrando uma sala com apenas dois pacientes e nenhuma enfermeira.

Abriu a porta e passou pela mesma, observando ela se fechar devagar. Virou-se para um dos pacientes e caminhou até o mesmo, parando ao lado da cama. Lá havia uma menina, estava acordada e olhava para Theo com curiosidade. Seus olhos eram grandes e castanhos e seu nariz e lábios eram finos. Ela estava pálida e um lenço cobria a sua cabeça. Lentamente, o garoto foi até o pé da cama e retirou a ficha da menina dali. Seu nome era Mary. Ele sorriu e olhou para a menina, voltando a olhar para a ficha em seguida. Na sua ficha dizia que ela possuía um câncer no estomago, do tipo maligno. Largou a ficha onde ela estava e voltou para o lado da menina.

"Você sente dor?" Perguntou para ela, que apenas assentiu, tímida demais para dizer algo. Theo sorriu para ela, oferecendo sua mão para que ela pegasse. Com certo esforço, ela alcançou a sua mão. Tocando nela, o garoto pôde sentir cada célula de seu corpo, elas estavam atuando, mantendo-a viva – por enquanto. Utilizando sua habilidade, ele fechou os olhos, curando-a. Tirando a dor dela. Era um sentimento único, como beber água estando com muita sede, ou receber um abraço de um parente querido, porém distante, que não se vê a muito tempo. Era como conseguir conquistar a paz, ou algo muito próximo a ela. Um sentimento puro.

Abriu os olhos ao terminar. Notando que a menina também havia sentido algo. Ela sorriu para ele e ele sorriu de volta, e então o sorriso de Mary aumentou. "Betty!" disse ela. Theo virou-se e notou que havia uma garota atrás dele.

Ela o encarava, a expressão ilegível. Vestia o uniforme comum entre as enfermeiras e mantinha o cabelo vermelho preso, com apenas a franja rente as sobrancelhas. Seus olhos eram de um azul escuro, quase assustador, porém belo. Ela não sorria. "Posso saber o que está fazendo aqui?"

"Ele é um anjo, Betty, veio me curar" Mary respondeu por ele, que não sabia o que dizer. Normalmente nunca era pego, e estranhou o fato dela parecer ter a idade dele e não uns trinta anos como as outras enfermeiras. "Estou me sentindo tão bem, ele me ajudou. Não o mande embora." O tom da voz da menina era doce, tímido.

A tal Betty pareceu não estar convencida. "Venha, anjo" Disse em um tom sarcástico "Eu te mostro o caminho de volta para o céu" Virou-se e caminhou em direção a porta. Abrindo um sorriso, Theo a seguiu. "Fique na cama, Mary" Ela ordenou antes de sair da sala, com Theo em seus calcanhares.

"Eu só..." Tentou se explicar.

"Eles podem ver você pelas câmeras, isso não foi nada inteligente" O interrompeu, caminhando pelo corredor. Parecia estar com pressa. Theo estava intrigado, seguindo-a ao seu lado, observando-a.

"Você me viu pelas câmeras?" Perguntou, ainda sorrindo. A garota parou de caminhar quando encontrou o elevador, virando o rosto na direção do rapaz ao seu lado.

"Não, eu vi você curando Mary" Ela sussurrou, dando-lhe um sermão. "Qualquer um poderia ter visto, você deveria ser mais cuidadoso, sabia?" De repente, Theo perguntou-se se ela estaria debochando dele.

"Eu só toquei nela" Murmurou "Não foi nada demais". A porta do elevador se abriu, duas enfermeiras saíram dele; A garota entrou e Theo entrou logo atrás. Ela apertou no botão térreo e as portas do elevador fecharam.

"Claro, uma menina estava quase morrendo de câncer e agora um anjo cai do céu e a salva" Revirou os olhos "Podia ao menos desacordá-la antes".

"Eu salvei uma vida!" Retrucou Theo, franzindo o cenho. Ele queria ajudar alguém, não receber o sermão de uma desconhecida. Fazia mais do que um médico comum faria, com apenas um toque, podia salvar pessoas e não cobrava nada por isso, pois fazia de bom grado. "A propósito, me chamo Theodore" Apresentou-se. A garota assentiu.

"Certo, anjo Theodore" Ela voltou a olhar para ele quando as portas do elevador se abriram. "Agora saia daqui" Com uma mão, ela empurrou ele para fora do elevador. Sorriu para ele quando ele a olhou, impressionado com a força da garota.

"Eu ainda posso voltar" Retrucou ele, que virou o corpo para poder olhá-la.

Ela apertou em um dos botões do elevador, o qual Theodore não pôde enxergar qual, já que estava do outro lado. "E talvez eu não esteja mais aqui". As portas se fecharam e Theo sorriu, quase rindo.

As enfermeiras do balcão finalmente o notaram. "Ei, garoto, precisa retirar uma ficha!" Uma delas gritou para ele, que apenas balançou a cabeça, virou-se e saiu do hospital.

...

Tasha caminhava de volta para a casa de seu tio quando seu celular vibrou. O retirou do bolso, fazendo uma careta de desagrado e o desbloqueou, verificando a notificação. O sol do meio-dia estava queimando a cabeça da garota, que havia parado de caminhar assim que leu a mensagem.

Tessa: Todo mundo está aqui, onde você está?

A morena suspirou, cansada. Tessa era quase sua agenda, se não fosse pela amiga, Tasha provavelmente já teria reprovado de ano umas duas vezes e esquecido de qualquer compromisso do grupo. Ela não era avoada, pois prestava atenção no que as pessoas falavam, mas se distraia fácil e ocupava sua mente com qualquer coisa menos interessante.

Tasha: Estou a caminho

Enviou para a amiga, guardando o celular no bolso e mudando o caminho. Se explicaria para seu tio depois, pois sabia que cedo ou tarde o sermão viria. O homem era como um pai para ela, e a tratava como uma filha que ele nunca pôde ter. E mesmo sabendo que ele era quem cuidava dela, não conseguia se encaixar naquela casa. Sentia-se estranha, como se não pertencesse aquele lugar, ou a nenhum outro. Normalmente, nunca conversava sobre isso com ninguém, preferindo engolir seus sentimentos. Dessa forma, ninguém sentiria pena dela. Não mais do que seu tio já sentia.

Caminhava em silencio, de cabeça baixa, mas atenta ao que estava ao redor. O transito ficava agitado na hora do almoço, as crianças saiam da escola, as pessoas voltavam para suas casas. Tasha odiava ter que desviar dos carros estacionados nessas horas, porque precisava prestar atenção para não ser atropelada. Durante um tempo, concentrou-se apenas no seu ódio, até que virou em uma esquina e livrou-se deles.

A rua não era asfaltada, por isso era pouco percorrida pelos carros. As sombras das casas aliviavam o peso que era o sol, e a garota virou mais algumas esquinas antes de finalmente avistar a casa de Tessa. Apressou o passo, não aguentando mais caminhar, ela chegou em frente a casa e foi até o portão, destrincando o mesmo antes de entrar no pátio.

A casa de Tessa possuía apenas um andar e era a casa mais charmosa que Tasha já havia entrado. Ela possuía um tom de rosa claro em suas paredes e era completamente limpa, até mesmo o telhado, que possuía a mesma velha cor de telha. As janelas e portas eram brancas e o quintal era enfeitado com flores nos muros, com uma grama bem aparada e verde. Pela janela da frente, que estava aberta, Tasha conseguiu visualizar seus amigos sentados na mesa. Apressou-se a bater na porta com delicadeza – para não quebrar a mesma.

Ouviu vozes, e depois passos. A porta abriu-se e Tasha encontrou uma Tessa sorridente, dando espaço para a garota entrar em sua casa. Ela o fez, entrando e indo até a mesa, onde todos estavam, cumprimentando-os com apenas um aceno de mão.

— Sente-se e sirva-se – disse Tessa, voltando a sentar-se em seu lugar de costume. Na mesa, apenas os amigos estavam sentados. A morena estranhou, mas sentou-se no único lugar vago, pegando um prato e servindo-se sem hesitar. Ao sentir o cheiro da comida, percebeu que estava faminta. Serviu-se de carne de boi, batatas cozidas e arroz. Não gostava de comer salada, por isso ignorou os pratos de alface e cenoura que estavam disponíveis em cima da mesa.

Tasha deu sua primeira garfada quando ouviu Ben pigarrear. Todos os presentes olharam para ele. Tessa o olhava com encorajamento, já sabendo que ele ia começar com o assunto. Theo o olhava com desgosto, sabendo que falaria de algo o qual o garoto não gostaria de ouvir. Lily o olhava indiferente, já sabendo sobre o que ele falaria. E Tasha apenas o olhou, concentrada no gosto da comida.

"Podemos falar sobre o bilhete agora?" Ben perguntou, sua ansiedade era percebida em seu olhar. Obviamente ele era o mais animado com aquela situação. "Eu tentei decodificar o bilhete, mas eu não entendi se aquilo era algo relacionado a senhas ou números de loteria. Pensei que seriam coordenadas ou algo do tipo, mas nada fez algum sentido segundo a minha lógica." Ele tirou o papel do bolso e o pôs em cima da mesa. "Alguma ideia do que possa ser isso?"

Theo pegou o papel, lendo o mesmo. Tasha voltou sua atenção para seu prato, continuando a comer enquanto os amigos conversavam entre si. Apenas se deu conta de que não estava prestando atenção na conversa quando ouviu seu nome. "Tasha?" Lily havia citado seu nome, a garota oferecia o papel amassado para ela, que sorriu – como se pedisse desculpas – e pegou o papel em mãos.

15 02-21-18-01-03-15 14-05-07-18-15 05-19-20-01 13-01-09-19

16-05-18-20-15 04-15 17-21-05 09-13-01-07-09-14-01-13

05-12-05 14-01-01-15 05 12-09-20-05-18-01-12

13-01-19 06-15-09 06-05-09-20-19 16-01-18-01 04-05-19-20-18-21-09-18

01-20-18-01-22-05-19-19-05-13 17-21-01-12-17-21-05-18 02-01-18-18-05-09-18-01

01-16-05-14-01-19 06-21-10-01-13 15-21 20-05-18-01-15 15

13-05-19-13-15 04-05-19-20-09-14-15 04-15-19 15-21-20-18-15-19

Tasha desviou os olhos do bilhete para seus amigos, que a olhavam com expectativa de que ao menos ela conhecia algo assim. Uma lembrança antiga passou pela mente dela. Quando ela era criança, brincando com Mackie, ambas inventaram um código só delas, para que pudessem brincar e esconder segredos sem que ninguém as incomodasse. O bom daquele estilo de código era que costumava ser bobo e óbvio demais para qualquer adulto, já que, como Ben, procuravam lógica em tudo.

"Pode me dar um caderno e uma caneta?" Pediu. Tessa assentiu e levantou-se de sua cadeira, caminhando rapidamente até seu quarto, onde sua mochila provavelmente estava. Ela retornou com seu caderno decorado com rendas e flores e uma caneta vermelha na mão, entregou os objetos para Tasha e voltou a se sentar, interessada no que a amiga faria com aquilo.

"Você sabe o que isso quer dizer?" Ben perguntou, duvidando que a resposta seria positiva. A morena olhou para ele da mesma forma que Theo, ou seja, como se estivesse prestes a bater a cabeça dele na mesa.

"Não, mas posso tentar algo" Retrucou, levemente irritada. Abriu o caderno e destampou a caneta, pensando antes de começar a escrever. Seus amigos a olhavam, cada um de sua forma, mas todos ansiosos para uma possível descoberta.

"Talvez isso não signifique nada, pode ser só a senha de um cofre em um banco ou um lance de vídeo game" Theo disse simplesmente, recebendo um olhar de desagrado de Ben.

"Não é, eu conversei com Lucca e ele é quase formado em vídeo game" O garoto respondeu com um ar intelectual "Ele me garantiu que não tem jogo com códigos assim".

Tessa balançou a cabeça. "Não sei explicar o porquê, mas esse bilhete me chamou a atenção. Seria decepcionante se não fosse nada"

"Antes nada do que algo ruim" Lily respondeu sabiamente. Theo assentiu, e o restante não disse mais nada. Ela estava certa.

Tasha voltou-se para os amigos quando terminou de escrever e virou o caderno para que os mesmos pudessem ver o que havia feito. Ela havia colocado as letras do alfabeto e uma contagem de um a vinte e cinco logo a baixo.

"Cada letra simboliza um número, se substituímos os números por letras, teremos frases." Ela deu de ombros. "Inventei isso quando era pequena, bom, parece que não fui a única".

Ben pegou o caderno e o bilhete, concentrando-se no mesmo, ele escreveu palavra por palavra em uma folha separada do caderno. Tasha serviu seu copo com um suco do qual ela não sabia o sabor e bebeu o mesmo, achando aquela situação boba e infantil. Em seu interior, torceu para que aquilo não fosse nada mais do que uma brincadeira. O amigo pigarreou e leu em voz alta.

"O buraco negro está mais

Perto do que imaginam

Ele não é literal

Mas foi feito para destruir

Atravessem qualquer barreira

Apenas fujam ou terão o

Mesmo destino dos outros"

Ben largou o caderno e a caneta na mesa, encarando os amigos em seguida. Sua feição não era de surpresa, mas era pensativa. Parecia um poema sinistro e mal escrito. Não entendia aquelas palavras. Olhou para seus amigos. Lily mantinha um cenho franzido, Tessa havia pegado o caderno, lendo aquela mensagem várias vezes, provavelmente tentando decidir o que fazer com ela, Tasha estava concentrada nos ponteiros do relógio na parede e Theo estava pálido.

"Eu-Eu tenho que ir" Theo levantou-se de repente, saindo do cômodo sem ao menos se despedir dos amigos. O restante trocou olhares preocupados e curiosos quando ouviram a porta da casa de Tessa bater.

"Ele realmente foi embora?" Tessa questionou, estranhando a reação do garoto.

"É o Theo" Ben encolheu os ombros, "Mas então, o que vamos fazer?"

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.