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22 White Rabbit


No dia seguinte eram cadernos atrás de mais cadernos. Kadar tinha se encarregado de lhe trazer esse com a ajuda de Aurora, a garota parecia séria, mas do mesmo jeito não desmanchava seu sorriso de canto. Altair recebeu até um olhar reprovador da Kenway ao tê-la visto a bagunça que era a casa e Kadar olhou atentamente para o sofá, o encarando como se tivesse algo de errado com ele e até encarou Altair desconfiado, negando com a cabeça e voltando a prestar atenção no que realmente tinha para fazer ali.

A dificuldade foi nula com as lições, Kadar poderia estar no segundo ano, mas ele e a Kenway caçula conseguiram ajuda-lo a administrar tudo, afinal, a letra de Malik era um carancho e a de Aurora parecia de médico, aquilo estava mais para uma missão impossível do que um “simples” grupo de estudos.

Kadar comentou que Malik insistia em querer vê-lo, mas até a mãe deles pedia para que o filho não fosse, o Al-Sayf não poderia faltar no trabalho e quando chegava em casa era apenas o pó. Altair não queria ver Malik esgotado em sua frente apenas para vê-lo bem, por tal motivo mandava mensagens quando era no intervalo para acalmar Mal.

Durou de quinta até chegar sexta, Altair não esperava a hora de chegar a escola e que a dor em seus lábios sumisse de vez. Esperava saber como estava Ahmar e Abbas, pois até Umar tinha lhe privado de informações desses e estando muito sério ultimamente, trabalhando o dobro para Maria Auditore e sendo como um ajudando ao invés de segurança, mas isso não o impedia ele de afastar Giovanni de Maria caso essa se sentisse ameaçada.

Umar estava lhe escondendo algo e mesmo quando Malik tinha ido Altair visitar, seu pai conversou com o namorado algo. Era óbvio que Malik deve ter alertado Kadar e Aurora, pois nem esses lhe falavam algo. Tinha-se algo necessário e importante para Altair saber, ele iria saber nem que fosse do jeito difícil.

Depois do fim de semana em que Ezio o arrastou no sábado para o atelier de Leonardo e engraçada mente os três ficaram sujos de tintas devido a piadas maliciosas de certo Auditore e passadas de mão em áreas que Altair não era obrigado a ver. O domingo já foi mais tranquilo por Maria ter convidado Altair e seu pai para o almoço, mas tranquilo no sentido de todos se manterem comportados diante do namorado de Federico, Vieri lançava olhares que assustavam o pobre caçula Petruccio Auditore.

Na segunda Altair já se preparava, iria esperar a carona de Leonardo por não querer ver seu pai insistir que ele ficasse em casa. Olhando o céu sem indícios de que fosse chover e sorrindo para a caminhonete velha, franzindo o cenho ao notar o Auditore no banco da frente, mas não fazendo perguntas, preferindo chegar na escola.

No estacionamento, alguns alunos passavam por eles e Ezio indagou baixo, mas mesmo assim o olhar de Altair travou na pessoa a poucos metros na frente deles, Abbas estava ali. As mãos de Altair tremiam e ele sentia lágrimas descerem o seu rosto, sentia um tolo por ficar com medo, mas era automático e mais forte. A dor continuava ali e as lembranças também.

— Aquele desgraçado... — Ezio rosnou de raiva e afastou Altair, mas ele o impediu de que Ezio fosse até onde o Sofian estava — Não importa o que você vai me pedir, o que ele fez se tornou pessoal e você é meu amigo.

— Altair, venha... — Leonardo o puxou um pouco alarmada, olhando cúmplice para Ezio e Altair se afastou bruscamente — Não faça nenhuma besteira... — Pediu a Ezio.

—Acho que não vou precisar me esforçar... — Ele respondeu e Altair franziu o cenho.

— O que você que dizer com isso? — Perguntou Altair.

Não precisava ser um gênio para adivinhar, Abbas vinha na direção deles e o seu rosto era para se ter pena, os olhos vermelhos e o rosto inchado, marcado pelas lágrimas. Altair não conseguia sentir penar por ter chorado também, de dor e medo. Não sabia o que o Sofian tinha passado e quanto menos soubesse, seria melhor.

— Altair... Podemos conversar? — Pedia e não apenas Altair como Leonardo e Ezio arregalaram os olhos — Por favor, vocês dois podem ouvir, mas eu preciso mesmo falar com você... — Gaguejava e notou que Abbas tremia, o medo também estava em sua voz — Me desculpe... Me perdoa, eu sei que fui ruim—

— A escola já sabe o seu histórico de babaquices, Abbas — Ezio o cortou, o olhando sério.

— E eu irei me redimir de tudo, mas eu só peço o seu perdão... —

— Isso tudo é para não ir parar no hospital por causa do Malik? — Riu com maldade Ezio e Leo o encarou surpreso com as palavras do Auditore — Abbas, até eu quero esganar você.

— Por favor... Ezio... Altair — Voltou-se para Altair, mostrando as lagrimas que desciam seu rosto — Ela vai acabar comigo, Robert também... E meu pai corre perigo, por favor, eu não queria que chegasse a esse ponto... Podem me machucar, mas não o meu pai, ele não tem nada haver com as besteiras que eu fiz... — Implorava e mais alunos passavam por ali, os encarando e logo até Malik chegaria.

Abbas Sofian estava implorando, pedindo “por favor”, chorando como uma criança ou animal acanhado e isso tudo por duas pessoas. O que quer que ele tenha feito que acarretou em tudo aquilo parecia ser muito pesado e tenso demais para ele lidar, mas o que ele ganhava falando daquele jeito?

— Espera, isso já está ficando confuso... — Leonardo falou, olhando para os três — Você fugiu das autoridades, Abbas...

— Eles iriam me caçar mesmo preso... — Choramingou — Altair, faça seu pai conversar com o meu—

Sendo jogando para o lado interrompido antes de concluir o pedido e Altair foi afastado para por Ezio. Cobrindo a boca ao notar o olhar cheio de ódio de Malik, arrastando Abbas até o capô da caminhonete de Leonardo.

— Você ousa ainda falar com ele? — Rosnou, chutando a perna de Abbas e o fazendo cair, ignorando que esse começava a chorar — Acha que bater no meu namorado e vir pedir desculpas adianta alguma coisa?! — Gritou, o pegando pelo colarinho e o jogando.

— Malik!

— Fique longe, Altair! — Advertiu o Al-Sayf.

— Pare com isso! Ezio seu idiota, pare ele... Alguém! Kadar! — Chorava, retirando os óculos que embasavam sua visão, mas não ignorando que de longe Kadar e Arno se aproximavam.

— Malik! — Kadar gritou e se apressando, separando o irmão de Abbas com ajuda de Arno, e apenas com o apoio de Ezio foi mais possível.

Malik estava alterado demais e tremia de raiva enquanto Abbas tremia de medo. Movendo-se rapidamente, Altair se adiantou para parar Mal, para impedi-lo de mover mais um dedo ou socar Abbas, mesmo que esse merecesse um pouco, mas a questão ali era outra. Agressão apenas os levaria para a delegacia.

Afastando Kadar e Ezio de si, Malik ainda encarava Abbas atrás de Altair, o encarando que chegava a dar medo, um lado tão negativo e agressivo que Altair até o momento nunca pode presenciar, mas naquele exato momento Altair entendeu o porque tinha medo do Al-Sayf mais velho a algumas semanas atrás.

— Chega...

— Altair, já falei para se afastar... — Falava contido, tremendo.

— E deixar você ser preso por agressão? Nem ferrando — Tentou sorrir, segurando o punho de Malik e sentindo a tremedeira se esvair aos poucos, olhando no fundo dos olhos do outro — Olha o meu rosto, Malik... Olha a minha testa e olha para o estado do Abbas — Pediu, engolindo em seco diante da expressão de raiva que tinha voltado, se alarmando — Ele pediu ajuda, que mesmo preso vai acabar com ele — Explicou.

— E você acredita? — Riu em tom de escarnio — Ezio?

— Ele chorou na nossa frente, faltou apenas se ajoelhar e pedir perdão como se Altair fosse o papa — Explicou o Auditore — Dê um crédito ao Alt, ele fala a verdade, mas eu espancaria o infeliz — Deu de ombros, mas fazendo uma careta diante de um beliscão de Leo.

— Então você precisa perguntar algo para outro alguém, é isso? — Indagou incrédulo — Você não acredita em mim? — Agora era Altair que estava com raiva, soltando até a mão de Malik e o vendo arregalar o olhar.

— Vamos acalmar aqui, por favor... — Kadar exigiu com clara preocupação na voz — Seja lá o que for que esteja acontecendo e você não me contou Malik, saiba que eu não sou uma criancinha mais e que muito menos você está sozinho para encarar a situação. Têm seus amigos, você tem Altair e a mim, mas se o assunto aqui é tão sério para esse ignorante preconceituoso pedir desculpas, você pelo menos deveria confiar em alguém.

Altair ainda sentia raiva, olhava para Kadar e ignorava Malik ao seu lado e só de sentir as mãos dele tentarem lhe tocar, se afastou e lhe olhou com tristeza, balançando a cabeça negativamente. Não acreditava que aquilo poderia ser possível, a primeira discussão deles era por causa de confiança. Altair confiava de olhos fechados em Malik, mas esse parecia com um pé atrás.

No fim Abbas mais gaguejava entre soluços do que falava. Ezio e Leonardo decidiram ir embora e deixar o assunto entre os outros, Arno foi logo depois a pedido de Kadar, Malik estava tão distraído com a situação e por Altair lhe ignorar que sequer deu atenção ao carinho que o irmão deu ao namorado que antes ele tinha raiva.

Explicando por fim a situação, Kadar se assustou com tudo e se voltou contra Abbas, o vendo de cabeça baixa com a situação sendo mais clara e séria.

— Então você vai ajudar dois tiras? — Kadar indagou.

— Uma advogada e um perito investigativo — Corrigiu Altair — E você não me contou quem é a pessoa que fornece os medicamentos Malik — Falou, notando o olhar baixo dele e bufando — Ótimo! Não me conte mesmo!

— Alt...

— Não me chame desse jeito, Malik! — Vociferou.

Altair e Kadar, tentarei levar Abbas até Jacob e talvez eu volte no intervalo — Explicou e enfatizou o nome de Altair, como se aquilo fosse acalma-lo — Só não tente arrumar confusão enquanto estou fora... — Resmungou.

Sem apoio, Malik guiava Abbas para fora da escola e quando ambos já tinham ido, Altair abraçou a si mesmo e acompanhou Kadar, ignorando a massa de alunos que quase os arrastava. Kadar o encarou com medo por um tempo e mesmo sendo menor que o caçula Al-Sayf, o puxou para um abraço. O pai deles não iria tira-los de Altair, não ousaria toca-los porque eles eram sua família, não encostaria um dedo em Hayat.

Os olhos de Kadar estavam confuso, perdidos, mas isso não impediu que um sorriso brotasse em seu rosto, um sorriso fraco. Altair não permitiria que ele os levasse, nem que tivesse que socar o rosto do infeliz.

Se ninguém contava nada para ele, teria que descobrir as coisas na marra. Procurando entre a multidão de pessoas, encontrou quem precisava conversar e ele estava um pouco temeroso com o que poderia acontecer. Maria Thorpe estava sentada no chão, lendo um livro e esperando como todos para poder ir até a sala de aula e só ao notar a presença de Altair que um sorriso gentil tomou sua face, sua maneira de recebe-lo bem diferente da semana retrasada.

— O meu Deus, o que aconteceu com você? — Perguntou com genuína preocupação, se levantando — Quem fez isso? — Indagou, alarmada.

— Não é nada, eu queria conversar com você antes... — Explicava, mas o sinal da primeira aula tocou — Talvez no intervalo, me espere no corredor da minha sala.

— Claro, irei espera-lo — Sorriu.

Na sala, poucos alunos tinham comparecido e Altair olhou confuso para todos, mas ao notar a presença do professor Ethan, Altair engoliu em seco, se lembrando de talvez o porquê o “professor” estar ali. De mal humor, Ethan não precisava chamar a atenção da sala precisamente ao gritar, sua careta e autoridade já eram o suficiente.

Apenas com o passar das outras duas aulas e com o sinal do intervalo que alguns alunos ficaram mais aliviados, mas afinal, quem não ficaria? Ethan parecia um carrasco em pessoa.

Sentada ao lado da porta da sala de Altair, Maria sorria para o mesmo e se levantando, Altair pensava rápido como abordaria suas perguntas para ela, até onde ela sabia e como, o porque ela ter falado daquela forma com Malik, a face séria que ela tinha naquele dia e como agora, mesmo com os cabelos pretos presos e a maquiagem marcando seu rosto, no momento ela não parecia aquela garota que deixou Malik Al-Sayf com medo.

Antes de poder olhar para Maria, Altair pensou que o que ele teria de falar teria de ser rápido, Malik logo chegaria e nem mesmo Aurora poderia defende-lo com alguma desculpa, afinal, a Kenway falou que lhe ajudaria.

— É sobre o Malik... — Começou e o rosto dela se contorceu em tristeza, olhando para baixo — Quando você falou com ele no intervalo da semana retrasada — Falava e ficava confuso com o cenho franzido dela.

— Altair, eu não falei com Malik. Nunca mais falei com ele desde que terminamos ou ele terminou o nosso namoro — Explicava confusa, cruzando os braços — Você também é uma daquelas pessoas que adoram me culpar de coisas que eu nem sei se aconteceram, não é? Só por causa da minha dependência com meus remédios, mas ninguém sabe o que eu passei no passado para fazer esse tipo de brincadeira sem graça! — Falava zangada.

— Maria, ninguém me falou nada — Com as mãos erguidas em rendição, o olhar de raiva dela diminuía — Não precisa ficar assim, eu não sou como os outros e nem gostaria de ser.

— Acredito em você... — Sussurrou, fechando os olhos — Tenho que pegar meus remédios na enfermaria... Poderia vir comigo? — Pediu e Altair concordou com a cabeça, sorrindo.

Mesmo a acompanhando até o outro prédio que fazia parte da escola, Altair indagava e divagava do porque a outra ter explodido de tão forma, ter ficado alterada e com medo, como tivesse se decepcionado com Altair por poder ser parecido com os outros, mas além da curiosidade e das perguntas que ainda rondavam sua cabeça, Altair se censurou e se apresava por ter que chegar logo ao pátio antes que Malik ou outro alguém desse da sua ausência.

Com a enfermaria sem ninguém, Maria logo de direcionou a escrivaninha da enfermeira que deveria estar presente e tomou um potinho com pílulas vermelhas.

— Eu não sei por que, mas toda vez que tento checar em minha mochila quando chego é para ver se meus remédios estão ali, mas acho que talvez a bruxa a minha mãe tenha dado eles para a enfermeira, para não garantir que eu tenha uma overdose — Comentou rindo e Altair arregalou o olhar — É brincadeira bobinho, antes eu tinha tendências assim quando perdi minha irmã gêmea num acidente, mas eu mudei... Elizabeth não gostaria que eu fosse assim... — Explicou.

— Sinto muito pela sua perda — Altair sentia a tristeza e o porque dos remédios, talvez antidepressivos pela perda ou qualquer coisa que inibisse algum dano que ela poderia ter ganhado devido a perda..

— Não sinta, nunca contei para ninguém sobre ela... Nem mesmo para Malik — Sorria tristemente — Vi que vocês estão juntos, fico feliz que estejam felizes.

— Você nunca tentou falar com ele novamente? — Indagou.

— Como poderia? Ele me odeia muito e nunca me explicou o motivo — Deu de ombros — Tenho medo de chegar até ele e perguntar o problema...

— Tente algum dia, posso ficar ao seu lado.

Por mais que ela tivesse falado de modo ameaçador com Malik, Altair não via traços ou vestígios daquela garota fria que falou com Mal e sim uma garota cansada, triste e que todos mantinham distancia, talvez suas perguntas fossem respondidas outros dia. Ingerindo o remédio, ela lhe sorriu tristemente, lhe abraçando.

— Você foi à única pessoa a ter me compreendido e não se afastado, obrigado Altair — Sorria — se você não se importa, devo ficar aqui, a enfermeira sempre faz um relatório com os meus sintomas —Fez aspas com os dedos com a palavra sintomas —Mesmo não tendo mais depressão ou ansiedade, insistem em me dar isso sendo que não vejo quase nenhuma diferença.

— Espero que melhore logo, Maria.

— Eu também, Altair.

Se retirando depois de se despedir de Maria, Altair andou ou praticamente correu até o pátio, procurando não chamar a atenção de algumas pessoas e encontrar alguém e por mais que estivesse temeroso, não recuaria.

— Sua cara está péssima, viu um fantasma por acaso? — Fazendo uma careta, Altair se aproximava mais da única pessoa que pode reconhecer e Arno lhe encarava com um meio sorriso.

— Apenas descobrindo cosias que algumas pessoas me negam em contar — Respondeu, olhando para os lados — Onde estão Malik e Kadar? — Indagou, preocupado.

— Na sala do diretor, bem, Malik foi chamado por também ter entrado na escola nesse horário sem ter ao menos uma prescrição medica, mas acho que tem em relação com aquele idiota do professor Vidic — Continha sua raiva, Altair notava o pouco do sotaque francês vindo do outro e segurou uma risada — O que é tão engraçado?

— Nada não — Contorcia a cara novamente, mas se arrependendo com a dor nos lábios, tendo de rir.

— Acha meu sotaque engraçado? Não é só você a fazer graça, Kadar sempre tem uma piada pronta quando estamos brigados ou quando está bravo comigo — Explicou, dando de ombros — Malik quase teve um ataque por não lhe achar na nem com Ezio, afinal, onde você esteve? — Indagou curioso.

— Resolvendo alguns assuntos... — Respondeu, notando que Maria aparecera no pátio — Mas acho que eles não adiantaram muito... — Completou, avistando Aurora vir até ele e lhe entregar um papel.

|espero que não tenha cutucado a fera, pois uma está querendo pedir desculpas|

— Algo muito grave? — Indagou e Aurora apenas negou, tomando o papel e anotando algo novamente.

— É assim que ela fala com vocês? É estranho — Arno falou, rindo brevemente e recebendo um olhar sério de Aurora — Apenas uma brincadeira — Ergueu as mãos em rendição.

|Você tem que desculpar o Malik, seja lá qual foi à briga que vocês tiveram... Nunca o vi de tal forma, ele parecia perdido|

Aquela descrição exata fez o coração de Altair doer, mas a sensação foi passageira ao se lembrar da falta de confiança dele em si, chegando a certo ponto de Altair sentir inveja da relação que Malik e Ezio tinham para Mal confiar mais no Auditore. Não deveria sentir isso, mas era inevitável.

Mesmo sozinha, de longe Maria conversava ao celular e olhava para onde ele estava, Aurora também acabou por seguir seu olhar e encarar a Thorpe, mandando um dedo do meio para ela e recebendo o mesmo.

— Tão delicada, mas você poderia parar? Ela não gosta disso — Advertiu Altair.

Só de ter pedido tal coisa, Aurora o olhou com raiva, furiosa no mínimo como se o pedido de Altair fosse uma coisa muito absurda para ser real. Era como se a cara dela dissesse “você só pode estar de brincadeira”.

Tomando de maneira brusca o papel da mão de Altair, ela rabiscou algo tão rápido e para ler o garrancho podia ser um tanto difícil, nem Arno ao lado de Altair conseguiu ler direito.

|A Maria de dez minutos não, mas essa “Maria” adora, se sente confiante com a raiva de quem ela não planeja atacar|

— Atacar? Tipo um meme da internet? — Indagou Arno e Aurora bufou de raiva — Estressadinha...

— Vocês nunca me explicam nada e ainda querem que eu adivinhe coisas — Resmungou Altair — Coisas como, por exemplo, por que você tem tanta raiva de Maria? Ou o que ela fez de tão ruim para querer ser assada numa fogueira?

— Transtorno dissociativo de identidade — A voz de Malik fez com que Altair se se virar e o encarasse, a face de decepção — Ou dupla personalidade.

Os irmãos Al-Sayf pareciam cansados e mesmo que Altair implorasse por uma presença que controlasse uma futura briga, Kadar logo puxou Arno para longe da conversa e apenas Aurora ficou, encarando séria Malik e Altair.

— Mas ela... Digo, isso não faz sentido nenhum — Sussurrou — Você se separou dela apenas por causa disso? — O olhou incrédulo — Como pode saber que ela tem isso?

— Analisei os sintomas, os possíveis. Mas não me separei dela por conta disso — Não estava bravo, Malik não o encarava com raiva, não estava discutindo com Altair por conta das suas perguntas — Ela se tornou perigosa quando me envolveu em assunto que uma garota da nossa idade não faria, por exemplo — Suspirou, massageando a têmpora — Ela se lembra quando falou comigo no intervalo?

— Não, mas ela...

— Perda de memória, o que a personalidade alterada dela viu não é lembrada pela verdadeira Maria — Explicou.

— Mas se ela tem esse problema, por que você não a ajudou? — Indagou Altair.

— Eu não pensei em ajuda-la porque não sabia como... Ela tem uma relação complicada com a mãe e mesmo se eu tivesse falado da situação dela, ela se vingaria de mim além de ter me usado.

— Você poderia ter ajudado ela... — Sussurrou — Por quê?

— Porque Maria lidera o trafico de remédios ilegais que os gêmeos Frye, que acabou trazendo o professor Ethan para cá — Explicou — Que ela tem colaboração com o homem que poderia ser meu pai, mas é um covarde, a garota que usou a raiva explosiva de Abbas e ignorância dele para deixa-lo dependente dos remédios. Altair, o remédio vermelho dela é a chave que liberta a garota que eu terminei todos os meus laços, mesmo que ela não saiba o porquê, seria melhor para nós dois.

— Você a deixou, Malik... — Olhou assustado para Malik — Poderia tê-la ajudado...

— Se eu tivesse ajudado, ela teria me incriminado por porte de drogas, produtos ilegais, teorias de terrorismo e isso tudo resultaria na deportação da minha família, incriminando também a família Auditore só por ter ligações com a minha mãe e por Maria Auditore ter ajudado ela — Dessa vez ele explodiu e Altair recuou assustado — Não posso ajudar alguém que só vai revidar com vingança...

— Malik, você a deixou confusa e triste... Merda, ela teve depressão ou deve ter ainda — Rebateu, já não se intimidando mais.

— Eu não posso fazer mais nada, não é um assunto meu... Ela vai ser julgada pela lei — Desviava o olhar de Altair.

— E você vai deixar uma garota com um transtorno de dupla personalidade assustada com atos que ela nem lembra? Malik, isso tem tratamento.

— Se tiver, não é um problema meu... Maria vai saber mais cedo ou tarde, vai ver ela já sabia, mas não admitia para si mesma que talvez isso continuasse.

— É por isso que ninguém me contava nada... O porquê você não queria que eu falasse com ela... — Fechava os olhos, engolindo em seco — Mas não adiantou muita coisa, eu conversei com ela do mesmo jeito — Deu de ombros, ignorando a expressão de medo de Malik.

— Você ficou louco?

— A loucura é relativa, não vou deixar de falar com ela porque você não arcou em ajuda-la!

— Será que você acabou de ouvir o que eu disse? — Se exaltou, mas sendo afastado por Aurora que encarava ambos seriamente — Merda... E eu já estava terminando de lidar com Abbas...

— Agora tem que lidar comigo, o problemático — Rebateu Altair.

— Não é isso que eu iria falar... — Franziu o cenho, mas torceu uma careta junto de Altair com um beliscão recebido de Aurora — Arranca o braço também! — Reclamou.

Com o sinal do fim do intervalo tocando, Altair ainda sentia o peso das palavras de Malik, o olhar de raiva e decepção dele, a falta do toque da mão dele com a sua e o silêncio que perdurava entre ambos, era agoniante.

Só de ter acabado as aulas e sem ao menos falar com Malik, Altair não precisou nem pedir quando viu Leonardo ainda no estacionamento, sendo levado para casa e tendo novamente o silêncio. Ele só esperava que esse silêncio não durasse muito.

Notas finais
Jefferson Airplane - White Rabbit Sintomas de transtorno dissociativo de identidade encontradas em Maria Thorpe: ansiedade, mudanças de humor, amnésia ou perda de memória e depressão. Não estou romantizando dupla personalidade, não vou transformar alguém em vilão sem um motivo, não é simplesmente a função de Maria ter esse problema e querer estragar um casal. NÃO. Tem um motivo para Maria ser assim, só espero poder contar em breve... Ter dupla personalidade não é legal e muitas vezes a pessoa nem sabe que tem. Não julgue, ajude e auxilie. Desculpe o meu texto aqui, mas precisava alertar antes de tudo. E drogas não é brincadeira, não use.... Bem, recado dado.