Novice
21 Elastic Heart
Notas iniciais
Parecia que tinha apagado enquanto sentia-se flutuando dentro do carro. Não sabia ao certo se Ezio tinha o seu próprio automóvel ou era a carcaça do carro de Leonardo. Sua cabeça latejava e pior do que isso foi que Altair notou uma dor que deixava sua boca ficar dormente, seus lábios pareciam ter sido feridos no processo.
Seus olhos pesavam e por conta da falta de seus óculos, não pode nem observar as coisas, pois a tontura tomava conta de si e parecia afetar todo seu corpo, Altair queria poder dormir logo para não sentir mais nada, ser apenas um maldito pesadelo e não arcar com as responsabilidades que estava cruzando, assuntos que não queria comentar.
Mas se não comentasse nada, seria um colaborador de tudo, da homofobia e agressão até o racismo de Abbas e Altair não queria isso, mas também não pensava apenas em si, pensava no pai de Abbas, Ahmar ficaria tão decepcionado já que ele tinha apenas o filho. Quando foi que o Sofian se tornou de tal forma, ou quando teve a transformação final?
Foi apenas deixar seus olhos fecharem e dar espaço para o cansado que quando tomou consciência já notava que estava em um ambiente familiar, o seu próprio quarto. Coçou os olhos de forma preguiçosa e tentou se sentar, mas seu corpo começava a doer.
Ezio não o tinha levado para o hospital e nem a delegacia, tinha lhe deixado em sua casa e nem passou a pergunta de como ele encontrou a chave de casa depois de notar uma presença a mais no ambiente.
— O que você pensa que pensa em fazer se esforçando desse jeito? — Umar perguntava com um tom preocupado, se aproximando da cama e se sentando ao lado de Altair.
Altair engolira em seco, fechando os olhos com força e direcionando a mão para a cabeça devido a dor que começava a sentir novamente. Mesmo que a uma distancia curta, Altair podia ver seu pai ali presente como um borrão sem os óculos. Queria que seu pai fosse o último a saber do seu estado, não queria preocupa-lo.
— Você deveria estar trabalhando... — Resmungou, tentando soltar o argumento e fazendo uma careta diante da ferida na boca, tentando toca-la, mas tendo sua mão afastada por Umar — Não, não irei falar o que aconteceu... — Virava o rosto, já prevendo as indagações.
— Não precisa, Ezio já me disse tudo quando falou com um tom de voz raivoso que Abbas tinha brigado com você — O tom de voz repreensivo e com raiva de Umar fez Altair se encolher, virando para o lado e ficando de costas para o pai — O que eu errei? Hein? Filho, no que eu errei para você se manter assim distante?
Dessa vez Altair puxava o travesseiro, o abraçando com força e deixando sua face escondida. Não queria ouvir as palavras de seu pai, não queria ouvi-lo falar coisas que o destruiriam mais e mais, que acarretariam nas suas atitudes que pensou antes em não fazer.
— Alt, se eu fiz algo de errado, me diga... Eu fui um pai ausente por causa do trabalho, por não conseguir dar um carinho de mãe, mas eu preciso saber o que tem de errado com o meu próprio filho... Não me importo se está protegendo alguém, você vem em primeiro lugar... — A voz de Umar falhava e Altair se negava a olha-lo, ainda se negava por teimosia, por medo — Só não faça isso com você, pode ser tarde demais para me aproximar já que você está namorando... Tem amigos que lhe ajudam, mas eu queria fazer parte, mesmo que seja tarde demais...
Deixara a almofada de lado, mesmo que doesse todo seu corpo, sentou e olhou para Umar, o homem que sempre tinha o olhar que intimidava todos e Altair poderia ter puxado pouco, mas parecia mais com sua mãe. O homem que sempre cuidou de si desmoronando, tendo seus olhos com lágrimas no canto dos olhos. Aquilo doeu em Altair, era como ver seus erros afetarem a pessoa mais importante para si.
— Não é tarde, pai... Só não quero prejudicar ninguém, não quero ser o culpado de algo que vá deixar feridas permanentes... Deixe Abbas de lado, posso lidar com ele sozinho... — Resmungou, fungando e limpando o que se parecia uma lágrima tímida.
— Não é o que parece, não vou deixa-lo sair de casa até Ahmar der um jeito no filho, pois não importa se ele é meu amigo de longa data, mas com o meu filho ninguém mexe! — Vociferou e Altair negou com a cabeça.
— Pai, eu tenho de ir a escola... Tenho trabalhos e deveres, não pode me manter longe de um local onde todos me conhecem agora por causa do Abbas... Ele pode ter feito outras coisas, mas ninguém ainda se vingou — Argumentava, mas arregalou o olhar com seu último argumento, batendo na própria testa e resmungando em seguida ao lembrar que esta estava ferida.
— Outras coisas? Que coisas? Ele machucou mais alguém? — Indagou de forma séria e Altair se viu cercado, quase encurralado diante das perguntas.
— Pai, Malik e outras pessoas já brigaram com Abbas... Não tem que se preocupar com nada... — Tentou aliviar a tensão, mas apenas com isso Umar já ficou mais alerta.
— Então quando você estava com o olho roxo e falou que tinha tentado parar uma briga... Malik lhe defendeu de Abbas? — Indagou, ignorando totalmente o clima anterior, mas não deixando Altair menos preocupado — Se esse Malik já lhe defendeu de Abbas, não vejo o porquê não deixa-lo fazer parte da família, afinal, sempre deve se proteger a família.
Aquilo era para aliviar a tensão de vez ou apenas para Altair voltar a colocar a cara contra o travesseiro novamente?
— Pai... Apenas não... — Negou com a cabeça — Malik não pode nem desconfiar do que aconteceu... Não quero imagina-lo brigar com Abbas...
— Altair... Malik parece se importar o suficiente contigo a ponto de tê-lo defendido.
— Como você pode concluir que Malik me defendeu de Abbas? — Indagou, trocando de assunto e encarando Umar, franzindo o cenho com o sorriso dele.
— Falar que tinha tentado parar uma briga entre duas pessoas e que essa lhe olha com afeição e carinho, filho, está tão na cara que Malik naquele dia o defenderia de alguém como Abbas... Claro que para mim é um tanto estranho saber que até ontem você tinha dez anos e era menor do que a mesa da cozinha — Deu de ombros e Altair rolou o olhar rindo — 'Tá vendo? Uma evolução, já consigo ser um velho chato contigo e um pai resmungão— Comentou e atraindo mais uma risada de Altair.
— Pai, você conseguiu ser chato quando falou aquelas coisas constrangedoras na frente do Malik comigo bem do lado dele — Relembrou e Umar abriu a boca num pequeno "o", rindo em seguida.
— Mas vocês fizeram algo? — Indagou — Você não 'tá andando estranho e seu quarto está a mesma coisa, se bem que a blusa lá na lavanderia não é sua nem minha... — Encarou Altair de forma desconfiada e Altair sentiu o rosto esquentar — Eu conheço a mãe dele e podemos muito bem ter aquela conversa com vocês dois.
— Pai, menos... — Sussurrou envergonhado, voltando a se deitar e escondendo o rosto no travesseiro.
A risada de Umar era estranha para Altair por quase nunca o ver de bom humor, ou ficar pelo menos sem a sua costumeira cara séria, mas ali, Altair não queria que seu pai achasse que nunca o teria como filho. Nenhum pai deveria pensar assim.
Não teve pedido nem ordem de Umar sobre Altair descansar, as dores já o faziam ficar deitado sem reclamar, mas o problema era o celular do outro lado do quarto em sua mochila. Resmungou por se sentir incapaz e mesmo que fosse cedo para dormir, tentou tirar um cochilo, mas o tanto que ficou desacordado parecia compensar as horas de sono, o que era um problema, Altair poderia começar a dormir durante a aula e isso era o que ele não precisava.
Mas pensava no cheiro, lembrava pouco do momento de desespero, do cheiro de uma substancia incomum em Abbas. Nunca o tinha visto fumar ou cheirar algo desconhecido, o treino das pessoas que jogavam no time da escola eram devidamente rigorosos e caso alguém usasse algo como uma droga, seria expulso do time e até uma advertência do diretor.
Mas se o cheiro estava evidente, poderia ser alguma "medicação"? Uma substancia disfarçada? Não queria nem pensar o quão perdido e ferrado Abbas estava.
Se Altair faltasse, Malik desconfiaria e o pior pensamento que se passou em sua cabeça foi de Ezio contando ao Al-Sayf ou mais alguém o que aconteceu. Era o certo a fazer, contar ao amigo que o seu namorado tinha levado uma surra de um jovem delinquente com feridas passadas e que pode ter sofrido ainda mais sem que outros, inclusive o pai, notassem. Era um encruzilhada que Altair já se via fazendo parte.
Não culparia Ezio, ele o tinha ajudado e mesmo com todas as piadinhas sem graça e estilo Don Juan italiano, o Auditore era seu amigo e como ele tinha dito quando o ajudou, seu irmão.
Passando um tempo, Altair pode finalmente dormir e mesmo acordando no dia seguinte para ir a escola, as dores na região da barriga e lábios ainda estavam por lá. Devagar, procurou pelo banheiro a caixa onde tinha a pomada anti-inflamatória e passou no ferimento na boca, tendo que chamar seu pai para ajudar com pontos no ferimentos na testa. Altair preferiu muito durante os pontos não ter nem pedido ajuda, ardia e doía.
A preocupação de seu pai foi tão insistente que teve que faltar, sendo levado para o médico. A escola era mais tranquila, pois teve que andar de um lado para o outro para ver cada situação do seu estado, o médico que o atendeu suspeito que Altair fosse usuário de drogas pela aparência pouco descansada. Sentia-se com cinco anos novamente, mas o diferencial era que nunca se envolveu numa briga quando pequeno.
Prescrição médica acabou sendo não ir a escola o resto da semana e Altair quis se jogar do prédio com muita fé e sem medo. De aluno exemplar para título de "problemático", já poderia ter até o sobrenome Al-Sayf.
Em compensação, ver seu pai cuidando da cozinha e tentando preparar algo descente para comer era a tarefa mais divertida do final do dia, o caso ficou tão sério que Altair nunca pensou ver Maria Auditore passar pela porta de sua casa no meio da noite, indo até si e abraça-lo com afeto e conforto, nem pensou que essa olharia com advertência para Umar ao ver o estado da cozinha e resmungar algo como "você vai intoxicar o próprio filho". Se Umar rindo era estranho, vê-lo vermelho era mais estranho ainda.
Já era quinta-feira e Altair queria morrer de tédio, apenas caminhar pela casa como uma assombração fazia com que esse pensasse mil e uma coisas para poder se defender do próximo que o ameaçasse, talvez uma maneira para nunca ter que passar por tal situação.
Se assustou quando alguém batia na porta de casa e mesmo receoso, desceu para poder atender e olhou surpreso para Malik. Ele deveria ter acabado o seu turno no trabalho e estava ali. Sem pensar duas vezes o deixou entrar, fechando a porta em seguida e virando-se para encara o Al-Sayf.
As mãos calejadas e Malik sobre seu rosto, foi impossível não fechar os olhos diante do gesto, suspirando e as afastando para pode se concentrar. Passou por sua cabeça esganar Ezio, mas depois pensou em esganar Abbas. Suas faltas deveria ter tido uma reação que nem mesmo Ezio poderia ter negado uma explicação.
— Eu vou matar aquele desgraçado! — Rosnou e Altair tremeu, sentindo tarde demais uma lágrima descer seu rosto.
Nunca tinha presenciado tanta raiva em Malik como naquele momento, era como se Altair fosse realmente parte da família Al-Sayf. Da última vez que viu mal com tanta raiva foi quando esse deu uma surra em Arno na frente de toda a escola ou quando Abbas tinha lhe chamado de vadia. O soco que Mal deu no Sofian naquele dia nunca foi tão merecido.
— Não, não vai... — Sussurrou, puxando Malik para a sala e o fazendo se sentar ao seu lado na sala escura — Meu pai vai conversar com o pai de Abbas, não tem com que se preocupar com nada — Sorriu.
— Obriguei Ezio a me contar as suas faltas — Encarou Altair, tocando superficialmente o lábio ferido — E conversei com aquele cara estranho filho do professor Ethan, Edward foi junto — Explicou e Altair arregalou o olhar, abrindo a boca para falar algo, mas tendo o dedo indicador de Malik o impedindo — Poucos sabem o que aconteceu... E pensar que as coisas não tinham como piorar — Suspirou.
— Aconteceu outra coisa enquanto estive fora? — Perguntou desconfiado.
— Descobriram o porque Vidic e Ethan brigaram e eu e Kadar fomos os primeiros a saber... — Receoso em contar, Altair puxou as mãos de Malik, as apertando e vendo um sorriso fraca surgir em seu rosto — Al Mualin estava afastado e Vidic é um babaca, mas a história é que alguém estava roubando vídeos de segurança da escola e o pior é que pegavam cenas em que eu e meu irmão aparecíamos.
— Mas o que Vidic tem haver com isso?
— Vidic é um desgraçado... — Fechou os olhos com força, deixando Altair nervoso — Al Mualin conhece meu pai, Altair. E ameaçou Vidic para ter informações minhas enquanto estivesse fora e advinha onde Al Mualin está no momento? — Riu com desgosto e Altair sentia a mão de Malik tremer com a sua.
— Síria...
— Maria não estava brincando... Porra, eu sou muito cego! Vidic que estava pegando os vídeos enquanto Mualin estava fora!
Levantou-se e Altair encarava qualquer canto da sala, sentindo o calor da mão de Malik sumir.
— Aquele tal de Frye só me deu noticias maravilhosas também — Riu com ironia — Ele me pediu ajuda sobre pessoas como Abbas, que alguém estava traficando remédios controlado proibidos por lei, que eu sendo aluno traria menos desconfiança e alguém como Edward saberia lidar com algum problema.
— Por que ele pediria sua ajuda?
— Ele é perito criminal e tem uma irmã que é advogada, ambos vieram com o pai para acabar com os fornecedores... E eu conheço um dos fornecedores. E pensar que a gangue era uma distração, mas o cara tem mesmo uma gangue — Divagou.
— Mal, Abbas é um dos que está se utilizando dos remédios... — Explicou — Talvez Abbas não esteja em plena consciência... — Refletiu, mas encarou Malik que dava uma risada.
— E como você sabe que ele é dependente? Sabe, tentar tirar a culpa dele e colocando numa droga não vai adiantar muita coisa — Franziu o cenho e Altair engolia em seco antes de explicar.
— Eu senti o cheiro quando ele... Quando ele... Você sabe... — Virou o rosto.
Notando a presença de Malik ao seu lado e as mãos dele o fazendo que o encarasse, Altair sorriu fraco para a face séria do outro.
— Era eu que deveria estar no seu lugar... Ter essas feridas — Sussurrou, beijando de leve os lábios de Altair — Ter essas memórias ruins...
Não, Altair não deixaria algo de ruim acontecer a Malik, o dano que ele recebesse era pequeno comparado ao que o Al-Sayf passou. As dores de dois dias atrás não o incomodaram tanto quando se viu deitado com Malik sobre si.
O Al-Sayf parecia tão preocupado ou cauteloso que se concentrava apenas no pescoço de Altair, com leves mordidas.
— Eu não acredito! De novo?!
As luzes da sala foram acessar e no susto, Altair derrubou Malik de cima de si, o ouvindo gemer de dor pelo impacto com o chão.
— Pai? — Altair olhava nervoso para Umar pelo canto do sofá, engolindo em seco ao notar que esse não estava sozinho, Maria Auditore segurava uma risada ao lado de Umar — Você chegou cedo... — Sorria nervoso.
— Malik, eu vou contar até dez para você sair da minha casa... — Umar falava pausadamente, nervoso.
— Umar, deixe que eles aproveitem... São jovens e estão na flor da idade — Maria pedia, mas ainda segurando a risada e recebendo um olhar descrente de Umar.
— Não acredito que você apoia isso! Eu sento naquele sofá! — Falava nervoso.
— Não seja fresco — Rolou o olhar — Malik, levante e Altair, espero que tenha energia para o jantar — Piscou com malicia e Altair sentiu o rosto esquentar.
Mesmo sem necessidade, Malik se levantou rapidamente e ajudou Altair até a cozinha, sendo encarados por Umar, e uma das ameaças dele foi querer conversar com urgência com a mãe de Malik. Altair não deveria, mas riu do desespero do outro.
Em meio a tantos problemas, Malik se preocupava com a mãe dele falando boas e poucas. Mas será que Malik tinha contado a senhora Hayat sobre o ex-marido e sobre ele e Kadar serem vigiados por um homem que estava do outro lado do mundo?
Ajeitando os óculos no rosto, Altair balançou a cabeça para espantar tais pensamentos, deveria se concentrar apenas naquele momento em que tinha as pessoas que mais amava ali do seu lado.
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